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  • Orion and the Dark

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    Orion and the Dark
    Sean Charmatz
    2024
    Filme
    6 em 10


    Um filme escrito pelo realizador de filmes tão bizarros como "The Sunshine of the Spotless Mind" e "Anomalisa", mas desta vez dirigido a crianças.

    Orion é um rapazinho que tem medo de, virtualmente, tudo. Mas o que mais o assusta de todas as coias é o Escuro. Ora, um dia, o Escuro farta-se e vem falar com ele. Sugere-lhe que passe a noite com ele e descubra o trabalho das criaturas da noite: Sono, Insónia, Silêncio e Sonhos Bonitos. Mas Orion não sabe concluir a história, quem o poderá ajudar?

    É um filme engraçado, que nos mostra que é preciso coragem para enfrentar os medos, mas também disponibilidade para os compreender e perceber que não são assim tão assustadores. As reviravoltas na conclusão, que tornam este filme num conto de fadas geracional, estão muito bem pensadas e muito giras. E a animação também está bem feita.

    Mas apesar disso não sei se gostei muito dos conceitos das criaturas da noite, nem dos seus designs. O Escuro, para escuridão, é estranhamente bem disposto, e todas as outras criaturas demasiadamente más e sarcásticas. Penso que esta caracterização foi  exagerada e prejudica bastante o filme.

    Ainda assim, foi uma boa viagem na escutidão.

  • Casos de Direito Galáctico

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    Casos de Direito Galáctico e Outros Textos Esquecidos
    Mário-Henrique Leiria
    1975
    Textos
    Quando comprei este livro no Fórum Fantástico de 2019, realizado na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, confesso que não esperava mais do que o normal. Mas o que é o normal? Quando falamos de fantasia, não deveríamos dizer… O “paranormal”?

    “Casos de Direito Galáctico e Outros Textos Esquecidos” é uma edição E-Primatur que reúne num volume alguns textos de Mário-Henrique Leiria, mestre do surrealismo dos anos 70 e 80. Tem poesia e alguns textos de prosa, ricamente ilustrados por vários artistas e fotógrafos.

    A sua poesia é crítica e ácida, dotada de um sentido de humor que só pode pertencer a um puro observador da realidade. Apesar de muitas vezes nos falar de situações que existem apenas na sua imaginação, existe um dos volumes presentes neste livro que é um retrato tão simples como inteligente da realidade lisboeta da época, que ainda por cima é complementada tão bem com uma série de fotografias que de onde o autor retira a sua inspiração para os versos entrecortados que as descrevem.

    Já os textos em prosa são de dois tipos: os Casos de Direito Galáctico, pura ficção científica plena de humor e recheada de uma imaginação sem limites, e “O Mundo Inquietante de Josela”, que falam da vida de um narrador com a sua esposa Josela e os seus mamutes. Estes textos são hilariantes, na medida em que falam de assuntos impossíveis, verdadeiro surrealismo que muitas vezes me deixou a pensar na improbabilidade narrativa que aqui se passa.

    Um livro que achei brilhante e que guardarei com muito carinho!
  • A Metamorfose

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    A Metamorfose
    Franz Kafka
    1915
    Novela

    Confesso que sempre tinha tido um medo imenso de ler este livro. Diziam-me que o personagem se transformava numa barata e eu tenho pânico! Mas ganhei coragem e chego à conclusão que não, Samsa não se transforma num baratóide baratum, transforma-se num querido e inocente e fofinho bicho da conta. ^_^

    Pois é, Gregor Samsa um dia acorda transformado num insecto (que é, definitivamente, um bicho da conta). E agora, o que fazer? A sua metamorfose acorda a sua família, que não sabe como lidar com a situação. O pobre Samsa esconde-se debaixo do sofá para deixar a sua irmã Greta tratar od seu quarto e deixar-lhe comida. Mas todos têm medo dele!

    Este é um livro curioso e, talvez, o mais terra-a-terra (na medida do possível dentro do surrealismo) que li do autor. A metamorfose do personagem principal acaba por ser simbólica da metamorfose de toda a família. à medida que se vai adaptando cada vez mais ao seu corpo de múltiplas patinhas de bicho da conta, a família vai-se deteriorando, enfraquecendo e sofrendo cada vez mais. Aquando a seu triste desfecho, voltam a acordar, como saídos de um casulo.

    De resto, achei muito engraçada a forma como o autor se imagina no corpo de um insecto, cada vez menos humano mas ainda ligado à realidade que o define enquanto pessoa e não como monstro realidade essa incompreendida por aqueles que se estão a tornar monstros ao invés de pessoas.

    É comovente ver a alienação do insecto, mas também perfeitamente natural a sua perda de consciência. Um livro que se lê numa hora e que vale, sem qualquer dúvida, a pena ler.

  • Synecdoche New York

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    Synecdoche New York
    Charlie Kaufman
    2008
    Filme
    7 em 10

    Um estranho filme que nos faz pensar e reavaliar o nosso próprio conceito de narrativa.

    Um encenador de teatro começa a fazer uma peça impossível. à medida que a sua saúde se vai deteriorando e as relações à sua volta se começam a desfazer, a sua peça toma proporções ilógicas, em que cada um dos intervenientes da sua vida tem cópias seguidas de cópias a viver uma vida de cópia copiada de uma cópia.

    No final, a minha interpretação vai de encontro ao facto de que este é um sonho imediatamente antes do momento final, em que todos os medos e traumas do personagem são visitados da forma mais absurda e perturbadora possível. Existem muitos símbolos misteriosos (a figura materna, a casa em chamas...) que requerem alguma interpretação mais completa, mas à primeira vista fiquei com esta sensação.

    Noutro aspecto, fique uma nota para o brilhantismo do trabalho cénico e para o talento utilizado na maquilhagem. Temos aqui actores que se repetem a si mesmos em espaços que se repetem a si mesmos, assim como na estrutura de um pesadelo real.

    A música também contribui em muito para este sentimento de pavor constante, sendo que tem muitas peças memoráveis.

    Um filme que se estranha, mas que depois se entranha.
  • Aura

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    Aura
    Carlos Fuentes
    1962
    Novela

    Quase um conto, com apenas oitenta páginas, um livrinho diminuto que se lê em meia hora no café.

    O aspecto mais curioso será o facto de que está narrado na segunda pessoa do singular, coisa que vejo muito raramente. Isto acaba por tornar a identificação com a situação, pela parte do leitor, muito mais directa e simples, como se Felipe - o personagem - pudesse ser qualquer um de nós. Como se qualquer um de nós reagisse daquela forma à situação relatada.

    Esta, para não revelar o mistério, é simples e já muitas vezes vista, acabando também por ser um pouco previsível. No entanto, a forma como tudo está narrado torna tudo muito mais denso do que seria de outra forma, transmitindo a estranheza do surreal e a variedade de emoções dos intervenientes.

    Um pequeno exercício de surrealismo, sem dúvida muito bem montado.

  • América

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    América
    Franz Kafka
    1927
    Romance

    Este é um livro de Franz Kafka um pouco peculiar: parece que Kafka se esqueceu de ser Kafka, sem nunca - no entanto - conseguir deixar de o ser.

    Karl Rossmann (um novo K., parece-me) é enviado pelos pais para a América por ter tido alguns problemas com uma criada. Lá começam as suas inusitadas aventuras, em que tudo corre sempre pior do que possa parecer. Apesar de ser um livro um pouco mais ligado à terra do que é habitual neste autor ainda assim a visão kafkiana da América é muito estranha e, sem dúvida, com um forte toque surrealista.

    Este encontra-se no desespero patente do personagem, que parece apenas vogar a favor da corrente, quando este se encontra em situações ilógicas, com mutias portas, muitos corredores, muitos objectos inúteis, muitos guichês de informações, muitas pessoas em oposição.

    Penso também que os outros personagens representados, que são mais ou menos recorrentes durante todo o livro, podem representar algo não só na vida do personagem como também do próprio autor.

    Infelizmente, como quase toda a obra deste senhor, o livro encontra-se incompleto. Quem sabe o que mais viria daqui?

  • After Dark

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    After Dark
    Haruki Murakami
    2004
    Romance

    Também recebi este livro na BookBox referida anteriormente, curiosamente enviado pela mesma pessoa. :) Foi mais uma tentativa com Murakami e... Ainda não me convenceu.

    Mas repare-se que esta tradução em inglês dá um estilo completamente distinto ao autor, um pouco mais irónico. Apesar de tudo o "then" (ou "acto contínuo) continua presente em todas as ocasiões, sendo um vício imperdoável.

    Este livro fala de uma rapariga que fica na cidade depois do último comboio e a quem acontece uma série de coisas menos normais. Para além disso a sua irmã está em casa a dormir há semanas, sem acordar, e podemos vê-la dentro de uma televisão.

    O grande problema deste livro é que, mais uma vez, é totalmente inconsequente. As personagens não parecem aprender nada sobre si próprias ou sobre a sua relação com os outros e o autor aparentemente esquece de concluir algumas secções, sendo que há muitas pontas soltas que ficam por explicar. Se isto é propositado, digamos que não funciona nada bem.

    Para além disso, o livro está escrito como se o objectivo fosse torná-lo um filme. Espero que tal nunca venha a acontecer, porque é de uma arrogância brutal.

    Mais um Murakami, mais um desapontamento. Continuo sem saber se gosto deste autor ou não.
  • The Lobster

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    The Lobster
    Yorgos Lanthimos
    2015
    Filme
    6 em 10

    Comecei a ver este filme e adormeci a meio. Bem, adormeci ainda no início. Devo dizer que passei a noite inteira a sonhar com ele porque estava muito curiosa com o final, mas quando fui ver o fim no dia seguinte fiquei um pouco desapontada.

    Num futuro próximo e muito distópico, todas as pessoas sem um "par", isto é, que não estejam casadas, são enviadas para o Hotel para encontrarem um par num período de 45 dias. Se não conseguirem são transformadas em animais. Este homem, que foi para o Hotel porque a mulher o trocou por outro, quer ser uma lagosta.

    O universo é muito estranho e, infelizmente, não é de todo explicado. O absurdo é tido como parte da vida e qualquer tipo de detalhe sobre como chegámos a este ponto e o porquê fica de fora. Por isso é que o filme me desapontou, porque era isto o que eu queria saber.

    Para além disso, todos os actores fazem os seus papéis de forma um pouco estranha. Todos falam como se estivessem a ler do teleponto, com uma falta de naturalidade absurda. Isto, no universo do filme, pode fazer algum sentido, mas porque razão falará toda a gente assim, até mesmo quando estão livres do Hotel?

    Também gostaria de ter visto explicado o processo de transformação de pessoas em animais.

    O final é muito inconclusivo e acaba por não tomar uma posição no aspecto mais importante do filme: será que o amor é real? Ou será que só podemos amar os nossos semelhantes? Isto é, uma pessoa pitosga só pode estar com outra pessoa pitosga? Uma pessoa sem coração só pode estar com outra pessoa sem coração?

    Um filme que peca pela falta de explicações muito desejáveis.

  • Angel's Egg

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    Angel's Egg
    Mamoru Oshii - Studio Gallop
    Anime - Filme
    1985
    7 em 10

    O Qui requisitou um filme de anime e lembrei-me de lhe mostrar este. Já o havia visto há muitos anos e, recordo, na altura compreendi muito pouco do que se passou. Na verdade, inventei uma interpretação qualquer só para fingir que tinha percebido, mas admito agora que os seus significados me passaram ao lado. Assim, achei que seria bom revê-lo com outra pessoa, com quem o pudesse discutir e, assim, obter uma nova opinião. A classificação que ali está atribuída é a primeira que lhe ofertei, já que tendencialmente nunca mudo a minha classificação inicial, mas talvez agora lhe desse um pouco mais.

    Tentarei, desta vez, apresentar uma opinião um pouco mais capacitada.

    Primeiramente, devemos observar o contexto deste anime (que me foi revelado pelo Qui, que teve a curiosidade de ir pesquisar): um dos trabalhos iniciais de Mamoru Oshii, que ganhou a fama depois de ter dirigido o primeiro filme de Ghost in the Shell, aparece numa altura da sua vida em que este se encontra desapontado com o mundo da religião e da espiritualidade em geral. Tendo isto em conta, apresenta-se-nos um anime complexo, denso, negro e pessimista, que nos leva até a um universo sem vida.

    Uma menina (aspecto discutível) anda por um mundo desolado, uma cidade cheia de monstros e de elementos predominante aquáticos, em busca de água para encher mais uma garrafa. Consigo, tem um ovo, que deve proteger e incubar para que nasça uma criatura alada que encontre a saída para aquele mundo. Entretanto, encontra um misterioso homem, que se decide a acompanhá-la e com quem vai trocando várias palavras. É numa destas conversas que aparece um conceito que me ficou fixado na mente: a arca de Noé nunca encontrou terra e está a afogar-se num mar infinito. 

    Ora, ao início vemos que pousa dentro de água uma estrutura estranha, semelhante a um olho, povoada de estátuas que podem ser qualquer coisa: humanos perdidos, humanos falecidos, santos antigos. No meu entender, pegando no conceito de que isto poderia ser a arca de Noé que se perdeu, este elemento poderá representar as pessoas que se esforçam por se libertar de um mundo espiritual que se encontra decadente e que só pode ser consertado através da chegada de um novo ser iluminado, representado pelo esqueleto do humano alado e, portanto, do ovo que tem a menina. No entanto, repare-se que no final descobrimos que este objecto está pousado nas águas de uma praia e que o homem misterioso é o habitante deste local. Como ele destrói o ovo, posso inferir que talvez a terra segura, o homem (repare-se que ele transporta uma cruz e usa um crucifixo) é o representante das crenças antigas que ainda se estabelecem e que, com tudo isto, impede estas pessoas de chegar a terra firme e de serem livres para terem os seus próprios anjos.

    Talvez esta ideia seja suportada pelo conceito dos peixes, que em sonhos representam normalmente um certo tipo de liberdade sexual e emocional. Na cidade perdia, pescadores tentam apanhar sombras de peixes, isto é, continuam presos à ideia de temer a mudança, podendo mesmo atacar a menina e o seu ovo que os representam. No entanto, considerando que eles estão dentro de água e cada vez mais se afundam nela, as sombras podem realmente ser apenas isso: sombras de peixes reais que nadam em volta da cidade.

    Como digo, é um filme bastante complexo e talvez tenha de o rever mais tarde para o compreender na sua totalidade. Segundo consta, nem o próprio Oshii sabe muito bem o que fez disto. No entanto, podemos ver directamente o que ele criou: apesar da fraca animação, em que apenas os personagens manifestam algum tipo de movimento, há um cuidado extremo no detalhe dos cenários, sendo que todo este universo aparece quase como uma interpretação surrealista de uma cidade muito populosa. Também a música contribui muito para este efeito de quase pesadelo, sendo que há um conjunto contínuo de peças corais que nos envolvem e absorvem de forma a que entramos realmente neste universo.

    Este é um filme que é igualmente amado e odiado pelos fãs e crítica, mas que - ao longo dos anos - se veio a tornar um culto dentro dos visionantes mais experientes. Assim, gostaria de o recomendar para saber também qual a vossa opinião acerca dele, para ver se conseguimos - todos juntos - encontrar uma explicação que nos satisfaça a todos.
  • A Investigação

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    A Investigação
    Philippe Claudel
    2010
    Romance

    Recebi este livro juntamente com o Número Zero, uma espécie de bónus :) Foi uma leitura muito interessante, portanto ainda bem que insistiram comigo para que o recebesse!
     
    Um Investigador dirige-se para a Cidade tendo em vista a Investigação de uma certa Empresa em que vários empregados se suicidaram. Quando lá chega é confrontado com um estranho local em que nada parece fazer sentido. Às voltas neste universo burocrático, conhece pessoas - cada uma mais esquisita que a outra - e acaba por ceder a um sentimento de loucura que o vem atormentando desde o início da viagem.
     
    Pareceu-me uma espécie de Kafka moderno, um surrealismo em que o nosso personagem vagueia por um local sem sentido, por um pesadelo que nunca o larga. Cada momento é de uma bizarria extrema, não nos permitindo qualquer descanso, estando sempre na dúvida a situação de vida ou morte, de realidade ou sonho.
     
    Não me agradou muito o final, que - para mim - deveria ter sido mais directo em vez de haver uma transformação em nada do personagem. No entanto, ficou sempre a dúvida se a história se passou realmente ou se era um acesso de loucura do Investigador (como relatado pelo confronto com a Psicóloga).
     
    Uma escrita clara e sem rodeios, um surrealismo moderno. Grande leitura, foi um livro que me cativou do início ao fim.

  • Cat Soup

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    Cat Soup
    Satou Tatsuo - J.C. Staff
    Anime - Filme
    2001
    8 em 10

    E, para finalizar a noite, uma estranha curta metragem com meia hora. Já a tinha visto algumas vezes mas, como estava nomeada para o meu clube, achei por bem revê-la (e mostrar ao Qui).

    De difícil interpretação, este anime tem uma narrativa base que, supostamente, pode ser bastante simples: um gatinho viaja ao Inferno para salvar a alma da sua irmã. No entanto, isto pode ser intepretado de diversas formas, como por exemplo, o filme tratar-se de uma analogia para o fim do mundo, para a guerra ou algo tão simples como a morte de uma família e o horror vivido por uma criança. Pessoalmente, gostaria de o interpretar como a morte de uma família depois de uma enchente ou mesmo numa perspectiva de terem sido "comidos" pelos seres humanos, uma espécie de representação do abandono e mau trato animal. Pois, nesta história, existem em oposição gatinhos e pessoas.

    Esta minha visão é ajudada pela imagética presente ao longo do filme. Como disse o Qui e muito bem, todos os temas, todos os momentos de pesadelos, têm algo em comum: água quente. Começando pelo circo, em que um pinguim mágico explode numa enchente que os leva até ao "inferno", passando pela viagem no deserto em que um elefante feito de água derrete, sem esquecer a entrada na casa do "homem" (que pode representar tanto o "sistema" como um simples pedófilo), tudo tem a água quente, a "sopa" em comum. Isto significará que a morte destes gatinhos teve algo relacionado com sopa?

    Eu não duvido que tenham morrido todos, pelo final desagradável em que culmina a viagem e, sobretudo, pela imagem repetida num ponto de obsessão dos créditos finais, uma suposta família feliz. Poderá este anime representar o que há de falso no esterótipo da família tradicional? Tudo questões interessantes, que cada um poderá interpretar à sua maneira.

    Com uma banda sonora perturbadora, este anime vive sobretudo da imagem. Não existe quase nenhum diálogo (não é importante, na verdade) e a narrativa baseia-se na viagem pelos vários universos. A arte é exemplar, com momentos de animação brilhantes e um ambiente muito original e quase assustador.

    É uma curta metragem estranha, que nos deixa a pensar. Peço que a vejam e que, depois, me digam o que vos pareceu.
  • Ulisses

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    Ulisses
    James Joyce
    1914-1921
     Romance (??)

    Este livro foi-me oferecido pelo Natal do ano passado. Assim que abri o presente, fiquei aterrorizada. Este é o oneroso livro que nunca ninguém que eu conheça conseguiu acabar de ler. A pessoa que mo ofereceu não conseguiu. Até o meu pai, meu exemplo e modelo enquanto leitor, não conseguiu. Mas, ainda assim, eu disse para mim própria... "Não passa de um livro, eu vou lê-lo". Recolhi coragem até agora. E, durante um mês que se revelou um verdadeiro inferno, prossegui a lê-lo. Por isso não houve comentários a livros durante este Agosto: estava presa no universo do Ulisses. Consegui? Bem, cheguei ao fim. Só me falta o posfácio, fica para mais tarde. Mas compreendi? Não sei. Gostei? Não sei.

    A primeira coisa que devo dizer sobre este livro é que, em minha opinião, não é o tipo de narrativa que está feita para ser "percebida". Está feita, na verdade, para ser "percepcionada". A percepção que cada um de nós tem deste livro será, então, muito variada. É algo de tão confuso e sensorial que cada um terá a sua interpretação. Falarei, assim, da minha.

    Existem três personagens centrais, embora um deles só apareça realmente no final. Começamos com Leopold Bloom, um homem que falha bastante na vida, que sai de casa para ir a um funeral. Algures no meio do caminho encontra-se com Stephen Dedalus e, penso eu, saem para beber copos em diversos locais, que envolvem bares e um barco (talvez). Durante este encontro (todas estas 700 páginas relatam apenas um percurso de 24 horas) eles discutem diversas coisas, que são repetidas até à náusea e que parecem ser algo sobre as próprias opiniões do autor. Alguns assuntos discutidos são, por exemplo:

    • Shakespeare
    • O teu deus é judeu
    • Upe
    • Corridas de cavalos (cavalo Ceptro)
    • Cães diversos
    • Prostitutas e a ciência do sexo
    Tudo isto é feito num ambiente de surrealismo duro e agressivo, tornando a leitura numa batalha muito difícil de vencer, num exercício de paciência e na manifestação do desejo "quando será que vai fazer sentido". Porque na verdade nada faz muito sentido. Aparecem árvores que cantam, pessoas que gritam, cães que uivam, uma miríade de imagens e ruído de fundo que contribui para todo este pesadelo.

    Pareceu-me que esta primeira parte (primeira e segunda partes, oficialmente, para além de um bom pedaço da terceira) são a manifestação de Bloom enquanto homem descontente com o seu casamento. A sua esposa é Molly e ela é vagamente referida ao longo de todo este texto, mas não sabemos muito sobre ela e, sinceramente, acabamos por nos esquecer da sua existência. Bloom liberta-se num ócio bêbado, envolvendo-se com pessoas de diversas estirpes, até - finalmente - se acalmar e chegar a casa, para beber um chocolate quente. Subitamente, o narrador muda: e agora é Molly. Ficamos a saber, de repente, que Molly também não está contente com o seu casamento.

    Assim, o dia em que se passa toda esta história é uma espécie de revelação. "Ulisses" fez uma viagem pelo inferno, para regressar a casa e estar tudo errado. É exactamente o oposto da "Odisseia". Consideremos também, conforme vinha escrito na contracapa do livro, que o dia em que se passa esta história é o mesmo dia em que James Joyce conheceu a sua mulher. Assim, "Ulisses" é o oposto de James Joyce. O pesadelo poderia representar tudo aquilo que o autor viveu antes de conhecer a sua mulher. E, assim, o livro poderia ser uma muito estranha declaração de amor. Gostaria de pensar assim, talvez.

    É o tipo de livro que necessita de várias leituras e bastante estudo para se poder interpretar convenientemente e para se ter uma compreensão absoluta sobre ele. Mas eu não o vou voltar a ler em tempo breve. Estou livre. Foi uma leitura muito intensa que nunca irei esquecer. Mas terminar foi um verdadeiro alívio.
  • Adolescence of Utena

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    Adolescence of Utena
    Ikuhara Kunihiko - J.C. Staff
    Anime - Filme
    1999
    8 em 10

    Para ornamentar um pouco mais o nosso fim de semana, sugeri o visionamento deste filme, que queria mostrar ao Qui já há bastante tempo. É uma outra versão, uma outra maneira de contar, a história de Revolutionary Girl Utena, da qual faço uma análise completa neste post. Nesse texto falo bastante de todos os símbolos presentes e seus significados, em minha interpretação, pelo que vos remeto para ele para o caso de quererem uma interpretação mais completa das metáforas presentes no filme. O filme é como se fosse um resumo ligeiramente alterado dos pontos principais da série, pelo que as interpretações continuam válidas para ele.

    Este é um filme que fala da adolescência e da libertação de conceitos castradores, como príncipes encantados e a traição da sexualidade, através da admissão do "amor", isto é, de uma relação social sem restrições artificiais. Utena entra dentro de um mundo que, por si só, é um artifício de um conto infantil, ao qual ela se encontra presa por força das circunstâncias, da sua infantilidade. Quando é confrontada com a necessidade de lutar por uma "Rose Bride", símbolo de desejo e de atracção, começa a sua libertação. É um filme puramente surreal, em que todos os espaços e elementos são mutáveis e estão em movimento. Nada faz sentido, mas isto dá azo à criação de situações de extrema beleza.

    Neste filme, ao contrário da série, Utena e Anthy são personagens frágeis que se encontram perdidas neste universo de fantasia romanesca, buscando a evolução sentimental e sexual através dos espaços em que vagueiam. É a mudança cénica e a utilização de elementos que, aparentemente, não têm lógica que tornam o filme numa experiência gratificantemente bizarra, em que procuramos sempre o significado da metáfora que está por trás das acções de cada personagem.

    O filme muda de dinâmica com muita rapidez, numa fluidez que se torna impressionante. A parte final, com os carros simbólicos, acaba por ser causar estupefacção. Nesta parte insiste-se na relação amorosa entre as personagens, que não estava patente na série e que pode falhar em significância, se quisermos levar a história para além do evidente.

    Em termos musicais, temos uma grande variedade de música pop que, dentro da sua integridade, pode ser considerada anticlimática num contexto de estranheza e perturbação.

    Assim, temos um filme de qualidade superior cheio de minunciosidades ocultas. Uma obra para analisar e pensar.

  • Big Eyes

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    Big Eyes
    Tim Burton
    2014
    Filme
    7 em 10

    Ultimamente, tinha deixado de gostar muito do Tim Burton. Parecia que os filmes dele se limitavam a um grande guarda roupa e a uma constante estranheza perante as situações, todas elas passadas em universos fantásticos com características do gótico clássico. E isto era muito repetitivo. É neste contexto que aparece um novo filme, Big Eyes ("Olhos Grandes"). E desta feita, pareceu-me que Tim Burton voltou a ser ele próprio.

    Este filme conta a história real de uma pintora que viu a sua obra ser vendida pelo seu marido como se tivesse sido este o autor. É uma história simples, com um toque de comédia, cujo elemento gótico que caracteriza a obra do autor se encontra no mote para a história: os quadros. Estes quadros teriam sido um sucesso na sua época e têm em si um certo toque de bizarro. Percebe-se desde logo a razão pela qual o autor gosta deles. A forma como as personagens dentro do filme lidam com os quadros, do comércio à própria crítica de arte, é em si mesma uma espécie de homenagem à autora real, que ainda se encontra viva e a pintar por aí.

    Mas este filme distingue-se pelo cuidado dado à caracterização e desenvolvimento dos personagens e ao excelente trabalho de actor que lhes deu uma vida única e real. De um lado, temos uma mulher ingénua, com pouca experiência de vida que, ao acreditar no charme de um charlatão, se vê envolvida numa mentira que a consome, perturba e enlouquece. Isto força-a a crescer enquanto personagem, com ajuda da filha (que poderá mesmo ser considerada apenas um mecanismo narrativo, mas que tem muita importância), de forma a poder combater contra o seu nemesis. Este, o tal charmoso charlatão, possui uma dicotomia de sentimentos, em que acabamos por perceber que cai na sua mentira como forma de escape por nunca ter obtido respeito enquanto artista, se é que ele se pode considerar um artista. Nas suas cenas finais, isto toma contornos muito dinâmicos, em que o personagem é tido como louco e toma realmente atitudes que se enquadram nessa palavra. É uma relação muito interessante e o desfecho não podia ser melhor.

    Todo o filme tem uma certa aura surreal por causa da variação da paleta de cores. Todo o filme parece demasiado luminoso para o contexto, e em oposição aos quadros. Isto oferece ao visionante um ambiente de quase sonho, em que se torna difícil de distinguir o que é mentira do que é verdade, contribuindo para a nossa compreensão dos dilemas dos personagens.

    Em termos musicais, temos um tema recorrente muito interessante, mas podemos dizer que a pior parte do filme foi a intervenção de Lana delrei, ou como se escreve, que nos apresenta duas músicas desinspiradas e aborrecidas, que não se coadunam com o resto do ambiente do filme.

    Mas no geral gostei muito: há muito tempo que não encontrava um personagem que odiasse tanto logo desde o início. :)
  • Dez Dias que Abalaram o Mundo

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    Dez Dias que Abalaram o Mundo
    John Reed
    1919
    Não-Ficção

    Recebi este livro como RABCK no BookCrossing.

    A Revolução Russa é um assunto do qual apenas soube nas aulas de história. Tinha uma vaga noção de que chegaram os bolcheviques e mataram a princesa Anastácia à queima-roupa. Com este livro, para o qual me inscrevi por puro acaso, vim a aprender uma série de coisas que não se conjugam em nada com aquilo que eu pensava.

    John Reed foi um dos pouquíssimos comunistas americanos. Estava na Rússia, em Petrogrado, quando aconteceu esta revolução vermelha e, assim, pôde narrar-nos com toda a exactidão o que realmente se passou. E o que realmente se passou parece digno de um livro de Kafka.

    Para começar, a minha primeira realização. Sempre aprendemos a primeira guerra mundial e a revolução bolchevique em capítulos diferentes. Por isso, apesar das datas (1917 e tal), nunca me ocorreu que as duas se passassem ao mesmo tempo. Isso explica muita coisa. Afinal, o mote para tantas revoluções são exércitos a passar fome.

    Mas a diferença destas pessoas para outras, de outro lugar qualquer do mundo, é que estas pessoas são comunistas. Comunistas na origem do comunismo. Eu gosto bastante da teoria, mas este livrinho vem a provar que é tudo demasiado difícil para funcionar. Demasiado burocrático. Vejamos um exemplo abstracto:

    "Muito bem, estamos a fazer a revolução. Vamos tentar organizar-nos de forma democrática. Por isso votamos. Votamos num comité que vai votar para formar outro comité que votará a divisão igualitária de bens por todas as pessoas, que se formam em comités e votam para decidir a divisão igualitária real, por todos aqueles que votam"

    É mais ou menos assim ao longo de 10 dias/250 páginas.

    Isto é hilariante, mas ao mesmo tempo um pouco triste. Afinal, as ideias são boas. As pessoas é que as complicam.
  • Revolutionary Girl Utena

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    Não sei se todos vós estão atentos à minha lista de cosplays... Se estão, saberão que o meu último cosplay e que o meu próximo cosplay são fruto do visionamento de uma série que adorei e que adoro. Hoje é dia de falar sobre esse anime. Também há um filme, mas tenho preferência clara pela série. Escrevi há pouco tempo, para o clube Critics and Conoisseurs, uma análise bastante completa, com a minha interpretação e projecção (um pouco abusiva e demorada) de ideias, sobre esta série. Irei agora transcrevê-la e traduzi-la para a nossa bonita língua, melhorando-a com isso. Espero que as vossas antenas da curiosidade já estejam levantadas. Porque hoje vamos falar de

    Revolutionary Girl Utena



    Quando vi Revolutionary Girl Utena pela primeira vez para o clube, estava à espera de algo muito parvo, ao qual não tomaria qualquer atenção. Lembro-me perfeitamente, até hoje, os quatro dias que passei a ver a série. O meu computador estava para arranjar, por isso vi tudo no portátil. Simplesmente, não podia parar. Tornou-se numa das minhas séries preferidas e é o meu exemplo fulcral para um "anime de desconstrução", no qual o género shoujo é analisado em peças. O resultado é uma obra de arte, que se excede em todos os aspectos.

    Muitas pessoas podem argumentar que a história é repetitiva e que não tem foco ou sentido, Na verdade, posso concordar com isto. Numa primeira abordagem, Utena é certamente como uma "sopa" de conceitos, todos misturados numa imagem amorfa que não é de todo atractiva. Isto acontece porque uma pessoa tem de olhar para além da premisa: este anime não conta simplesmente uma história. É uma alegoria para a adolescência, mascarada por objectos simbólicos. Cada objecto representa algo e, todos juntos, eles caracterizam o crescimento do único personagem, Utena. Vou dar o meu melhor para explicar a minha perspectiva e espero que, com isso, todos possam olhar para o anime com outros olhos.

    Primeiramente, "O Único Personagem".

    Utena.








    Utena é apresnetada como uma rapariga que quer ser o rapaz. Isto diz "a princesa que quer ser um príncipe". Acredito que isto não apenas representa a dúvida sexual que acontece a quase todos durante os doces anos da adolescência, mas também que o género, o sexo, é irrelevante. Seja uma princesa ou um príncipe, todos passam pelos mesmos problemas e é isso o que Utena representa. É uma personagem em branco, tabula rasa, e é o seu crescimento ao longo da série, enfrentado os vários problemas, que a torna numa pessoa sólida, num adulto. A série está dividida em três partes diferentes, que eu acredito representarem diferentes tipos de assuntos que temos de enfrentar durante o nosso crescimento como seres humanos. Primeiro, temos de nos enfrentar a nós próprios; depois, temos de enfrentar os outros; finalmente, temos de enfrentar o futuro. No final, salvaremos a "princesa" (nós próprios) ao atingir a realização final. Seremos adultos nessa altura.
     
    A Associação de Estudantes - Eu



    Na primeira parte da série, Utena tem de conquistar a Noiva Rosa (Rose Bride) - Anthy - enfrentando os membros da Associação de Estudantes. Vejo Anthy como "a bruxa" do conto de fadas, o oposto da polaridade, como o inimigo que Utena tem de ultrapassar para conseguir passar por cima dos seus próprios problemas e crescimento pessoal.

    Isto para dizer que Anthy é a própria Utena. Anthy é tudo o que Utena tem de conquistar; é tudo o que a Associação de Estudantes representa, todos juntos numa úncia pessoa. Ela também é tudo que Utena tem de salvaguardar, como veremos nos outros arcos, porque assim que nos aceitamos a nós próprios temos de nos manter firmes e usá-lo em nosso favor.

    Agora, o que é que a Associação de Estudantes representa? Cada história prgressa dá-nos uma ideia sobre que tipo de objecto são estes elemtnos. Gosto de fazer uma conexão com a lenda dos sete vícios capitais (erradamente conhecidos por sete pecados mortais, esses são só três), em que Anthy é o vício final. Cada um deles representa algo que é um defeito nosso e que temos de aceitar e reduzir. Derrotar. Vejamos:

    Juri - Ciúme. Juri está escondida por trás de uma máscara de nobreza, quando na realidade está roída de desespero causada pelas suas relações.

    Kaoru - Gula. As pessoas comem muito, muitas vezes porque se sentem inseguras, daí a minha (não assim tão evidente) conexão. Mesmo quando és excelente na prática que escolheste, podes não ter certezas na tua confiança.

    Touga - Avareza. O membro mais poderoso da Associação de Estudantes, que quer ter ainda mais poder.

    Nanami - Orgulho. A senhora que não deixa que nada lhe aconteça, que acredita que é poderosa e, na realidade, é tão frágil como todos os outros.

    Saionji - Raiva. Ele sente tanta raiva em relação à Noiva Rosa que perde o foco e acaba por perder.

    Tsuchiya - Inveja. Um sentimento qeu está muito relacionado com o ciúme, que também se relaciona com a influência deste elemento sobre Juri. O seu desespero está relacionado com o facto de que a sua forma de ser não é eficiente na manutenção de relações.

    E no final, Anthy é - evidentemente - "Luxúria". Ela é aquela que todos desejam, aquela com mais poder, ela é o desejo e a fome sexual que apenas pode ser satisfeita e conquistada quando se ultrapassam os outros defeitos: assim que és capaz de te aceitar a ti próprio, serás capaz de formar relações sociais e, assim que as tens,  poderás encontrar o amor.



    Voltaremos a isto mais tarde.

    Rosa Negra - As Vidas dos Outros


     

    Conquistamos os nossos problemas, mas a vida não é feita apenas por nós próprios. Os seres humanos são sociais e gregarios, independentemente do que algumas pessoas na internet possam dizer. Assim, as outras pessoas têm uma grande influência em como nos comportamos e em como mantemos tréguas com a própria vida.

    Enquanto que é um pouco redutor resumir a sociedade que nos rodeia a categorias e estereótipos, o anime mostra-nos alguns temas que são recorrentes nas relações humanas. Alguns exemplos são: pessoa que não gostam de nós sem razão aparente; pessoas que se comportam de formas que não aprovamos; pessoas que têm ciúmes de nós; pessoas que são nossas amigas.

    Pegando neste ponto, falamos de Wakaba. Amigos vêm e vão, alguns ficam para sempre. Na verdade, temos sempre problemas com os nossos amigos mais cedo ou mais tarde. Às vezes resolvemo-los, outras vezes não. Este duelo representa aquela discussão que tivémos com o nosso amigo, quer seja sobre uma coisa importante ou sobre uma coisa parva, isso não interessa. O que interessa é que no final sempre há uma solução, seja ela negativa ou positiva.

    O instigador destes duelos, Mikage, quer ficar com a Noiva Rosa. Lembram-se daquela altura em que pensavam que o mundo inteiro estava conta vocês e que eras o único que tinha razão? É isso Mikage. Derrotá-lo é a conclusão de que não, o mundo não te odeia e que, na verdade, somos todos irrelevantes na grande ordem do universo.

    Boleia para o Futuro


    Conheces-te a ti próprio e conheces o mundo que te rodeia. O que vem a seguir? Ninguém sabe. E é sobre isso que trata este arco.


    Carros podem parecer um objecto muito estranho para incluir no cenário, mas se olharmos para eles dentro do contexto fazem muito sentido. Ter um carro (e falo por experiência própria), é um bilhete para a liberdade. Com um carro, podes ir onde quiseres com quem quiseres. é um sinal de que és mais independente e mais responsável. Os carros representam, no contexto de Revolutionary Girl Utena, a vida a dulta e o estado final da nossa evolução enquanto seres sociais.

    Mesmo quando já aceitámos quem somos, por vezes ainda nos sentimos inseguros sobre nós próprios. Temos de lutar e conquistar tudo outra vez. Lutamos para a manutenção do presente de forma a podermos avançar para o futuro.

    Isto serve como explicação para os símbolos relativos aos personagens, mas há mais no anime para além deles. Vou agora referir-me aos outros elementos.
    Arte


    Revolutionary Girl Utena passa-se num ambiente escolar, mas esta escola é bastante diferente do que estamos habituados a ver. O cenário é surreal e está recheado de detalhes que, cada um deles, têm um significado intríseco e intricado.

    Como todos sabemos, os sonhos são simbólicos e cada objecto num sonho tem um significado. O mesmo acontece com o cenário do anime. Mas e agora, quem está a sonhar este sonho? Utena. Esta história, este conto de fadas, não está a acontecer na realidade. É um sonho, o sonho de Utena. Não faz sentido conectar o cenário a uma realidade alternativa, porque nada aqui é real.

    Nem tudo é perfeito. A animação falha por vezes, o que faz sentido para uma série longa dos 90s. Existem muitas cenas repetitivas. No entanto, esta repetição também dá espaço para a insistência no assunto, um sentimento de terror e desespero, a parte em que o sonho se torna em pesadelo.

    O facto de que não há sentido espacial nesta escola, cheia de salas que mudam de lugar e forma, adiciona ao sentido de surrealismo patente na série. Acredito que isto não é um erro: é feito de forma propositada.

    O estilo é único, mas também característico do género (shoujo). Traços finos, tudo muito clássico e ornamentado, adicionando à beleza do design básico.

    Música

    Os temas são recorrentes e característicos, adicionando ainda mais ao citado sentido de "pesadelo".

    O tema do duelo, que se vai manter nas nossas mentes para sempre, também é extremamente simbólico, pois refere-se a temas como a evolução e a mudança.

    Mas nem tudo é trágico...



    A série é longa e tem cita muitos assutnos que são dolorosos e difíceis de enfrentar. No entato, nem tudo na vida é triste, pelo que existem muitos momentos de alívio cómico. Acredito que estão bem integrados com o progredir da história, pois actuam como "lufada de ar fresco", permitindo-nosT digerir o que aconteceu e preparar-nos para o que virá a seguir.

    Conclusão
    Revolutionary Girl Utena é um excelente exemplo de surrealismo aplicado ao anime, tocando em assuntos que normalmente são evitados de forma elegante. É uma obra de arte, altamente detalhado e muito bem pensado, da sua concepção à sua execução. Este facto ultrapassa largamente as falhas. Acredito que o posso recomendar a todas as pessoas interessadas em saber um pouco mais sobre anime ou que simplesmente queiram ver um pedaço de animação extremamente interessante.




    Nota 1:  A quem não viu este anime, por favor, pelo amor de tudo o que é sagrado, não passe os recaps à frente. São muito importantes.

    Nota 2: Termino esta entrada com o meu cosplay de Rose Bride Utena. Mais está para vir, mantenham-se sintonizados :)


    Esta música foi feita com inspiração em Utena e utilizada numa apresentação de cosplay, para o ECG no Anifest. Foi feita juntamente com o meu amigo R., detentor do projecto Ocaso - que deveriam ir ver, porque é giro. :3

  • Eternal Sunshine of the Spotless Mind

    0
    Eternal Sunshine of the Spotless Mind
    Michel Gondry
    Filme
    2004
    8 em 10

    Também conhecido por "Despertar da Mente", mas gosto mais do título em Inglês, porque é mais bonito. Um filme que o boy trouxe cá para casa para vermos, e ainda bem, porque é mesmo bonitinho. :)

    É uma história de amor que corre mal, entre um Jim Carrey sem comédia, um homem vulgar, e uma rapariga de cabelo às cores. Os opostos, que pelos vistos se atraem. Tanto corre mal a história que ela decide apagar o amante da memória. Bem, no universo do filme é perfeitamente normal apagar pessoas da memória! Mas isso é o menos. Acontece que ele descobre isso e decide também apagá-la da memória.

    Vê a sua relação a desmoronar-se de trás para a frente até ao momento em que pensa... "Não. Deixa-me ficar com *esta* memória". E decide salvá-la de ser apagada.

    Assim, temos uma mistura do sonho em que ela vai desaparecendo e ele vai redescobrindo como gosta dela, e a realidade. Em que lhe estão a apagar a memória e mais sobre os apagadores é conhecido. Inclui cenas hilariantes de pessoal todo mocado (Cérebros! =D)

    O sonho é muito bonito, está muito bem filmado. Segundo consta, este realizador era um génio dos videoclips e decidiu fazer um filme. Esses elementos, de "videoclip" funcionam de maneira excelente, porque os sonhos são apenas secções, são descontínuos, não fazem sentido. A narrativa faz cada vez menos sentido, porque não existe. As minhas cenas preferidas foram as da infância (excepto aquelas debaixo da mesa) e o desfile, que aparentemente foi todo improvisado.

    Um filme romântico, um filme estranho, um filme encantador. Vejam-no!
  • Gogo Monster

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    Gogo Monster
    Taiyo Matsumoto
    Manga - 5 Capítulos/1 Volume
    2000
    7 em 10

    No meu clubezinho, todas as semanas, também recomendam um manga. Eu nunca o leio, porque nunca leio no computador e tenho, portanto, de comprar todo o meu manga. Mas de repente, estava eu na Anicomics quando vejo este volume abandonado. Ninguém tinha sequer olhado para ele. Era caro, mas considerando que tinha capa dura e uma caixa em volta... E que estava recomendado para ler esta semana... Trouxe-o. Valeu a pena? Sim!

    O manga é muito denso e bastante difícil de "entrar", mas à medida que se desenvolve torna-se numa história surrealista que se resume muito simplesmente: é a auto-descoberta de uma criança e o seu crescimento, ilustrados por uma metáfora visual.

    Yuki é uma criança inadaptada que acredita em monstros escondidos pela escola. A sua estranheza é-nos colocada em perspectiva por Makoto, um rapaz "normal" que se tenta aproximar de Yuki e compreendê-lo. Como moderador temos Ganz, um senhor velhote que toma conta do jardim da escola. É Ganz quem informa o leitor de que Yuki não está, efectivamente, maluco: é um processo normal das crianças e ele já viu muitas a quem aconteceu o mesmo. Finalmente, o personagem mais misterioso do grupo: I.Q. É um menino que é muito inteligente, gosta de coelhos e vive com uma caixa na cabeça. Acredito que este personagem seja outra criança incompreendida, como Yuki, mas que a caixa não seja real: a caixa é uma projecção do isolamento de I.Q., e a caixa vai crescendo e ficando negra até que no fim, depois de passarem pela "porta" se percebe que a caixa não é necessária. Existe a teoria de que I.Q. não é real, mas dado que ele aparece a interagir com quase toda a gente daquela escola não creio que ele seja uma alucinação colectiva.

    Agora, o ponto mais interessante deste manga é a percepção de Yuki da realidade, que vai ficando cada vez mais abstracta, dando um toque de surrealismo profundo à narrativa. Aliás, já desde início a narrativa é estranha e um pouco perturbadora. Note-se que o "ruído de fundo" (isto é, o texto) é quase todo palavras de crianças e crianças a brincar. Se "ouvirmos" isto, como se estivéssemos a ver e não a ler, o efeito é estranho e torna a leitura um pouco desconfortável. O que faz parte do ambiente global da obra, a meu ver.

    A arte é diferente do manga que eu costumo ler (considerando que eu costumo ler manga), com traços muito fortes, muito preto e muito branco. À medida que as estações - capítulos - passam, as texturas vão ficando mais vívidas e detalhadas, o que também pode representar o crescimento de Yuki em relação ao mundo que o rodeia. Por outro lado, pode também representar a sua alienação crescente. Existem painéis com um gosto artístico retumbante. O que mais me impressionou foi aquele quando Yuki entra na sala de aula e todas as pessoas têm orquídeas em vez de cabeças. É estranho, mas é belo.

    Acredito que valha a pena ler este manga, apesar de eu não ter compreendido em profundidade o que se passava. A minha interpretação peca por ser muito básica, mas eu própria sou muito básica. Ainda assim, leiam e vejam por vocês próprios.
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