Archive for sábado, maio 02

  • Análise: No Coração desta Terra - Que Terra?

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    Livro literalmente encontrado no lixo, e que se veio a revelar uma obra máxima da literatura contemporânea.

    Estamos na África do Sul, em pleno Apartheid, e lidamos com as confusas memórias de uma mulher, Magda.

    Magda tem uma relação estranha com o pai, Magda tem uma relação estranha com a vida. Magda já não se recorda bem do que aconteceu: vive com os seus criados, todos negros como deveria ser, e matou o seu pai. Ou se calhar não, se calhar ele está muito velhote e xexé.

    Com esta confusão mental, pareceria difícil escrever um livro sobre semelhante personagem. No entanto, Coetzee consegue fazê-lo de forma magistral, colocando por palavras bem bonitas o quanto do desespero desta mulher toca na realidade, apesar de estar bastante afastado dela porque Magda está louca.

    Apesar de ser um livro bastante complexo, lê-se muito bem e é altamente viciante. É uma obra que toca no factor social, mas sobretudo no factor pessoal da personagem, que é vibrantemente confusa, mas com toda a razão.

    Assim, estamos no coração desta terra, mas que terra? A África do Sul, a África em si, ou o país pessoal em que Magda se encontra? Fica a dúvida para sempre.

  • Análise: 17-26 - A Arte de Tatsuki Fujimoto

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    Conhecemos Tatsuki Fujimoto pela sua mais famosa obra, Chainsaw Man. Por isso, fiquei agradavelmente surpreendida com este conjunto de curtas, que são adaptações de vários one shots escritos no período de 10 anos entre 2017 e 2026.

    Cada história é única e realmente fascinante. As que mais me impressionaram foram as da galinha e a do quadro. São histórias surrealistas, mas apegadas a uma realidade muito forte e muito concreta, a realidade do próprio autor, que ele altera e molda nestas histórias para servir uma espécie de moral pessoal.

    Mas o mais extraordinário é sem dúvida a animação, que é lindíssima e espectacular. Se cada pequenina história por si só não tem nada de especial, os efeitos visuais transformam-nas em algo de muito belo e de muito atractivo.

    Gostei muito deste conjunto de curtas, e recomendo.

  • Análise: Takopii no Genzai - O Alien e o Assunto Sério

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     Por vezes encontramos um anime, um simples OVA, que acaba por significar muito mais do que aquilo que esperávamos. Takopii no Genzai é um desses animes, algo aparentemente simples e muito infantil que se revelou um anime muito mais relevante do que o que eu esperava.

    Tudo começa quando Takopi, um alien tipo polvo do Planeta Feliz, vem para a Terra com o objectivo de fazer todos muito felizes. Má a sua sorte que vai parar às mãos de uma menina que sofre bastante, ela é vítima de bullying.

    Takopi consegue concretizar desejos, e como acha que a nossa menina vai ficar feliz sem a sua bully, ele.... (isto é spoiler) Ele.... Mata-a. D:

    Mas percebe que a família da bully sente a falta dela, então faz uma menina falsa para a devolver à família.

    Como podem ver, o Takopi pode vir do Planeta Feliz, mas não vem do Planeta Inteligente.




    Como este anime tem designs muito fofinhos, um pouco infantilizados, o choque dos momentos de violência é muito mais intenso do que se fosse de outra forma. 

    É um anime que fala de bullying e de como lidar com ele, pois nem sempre temos um alien feliz para nos ajudar. E como não o temos, precisamos de aprender maneiras de reagir aos nossos atacantes (sem os matar, de preferência), compreender que também eles podem estar em sofrimento e, talvez, perdoar.




    Um anime que me impressionou bastante, e que recomendo.


  • Análise: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas - O nome fala por si só

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    Peça criada e depois encenada por Tiago Rodrigues, foi publicada em formato literário após a estreia da peça, que trouxe muitos azedumes ao público, conforme veremos a seguir.

    Livremente inspirado na história de Catarina Eufémia, brutalmente assassinada no Estado Novo por - simplesmente - se estar a manifestar, esta peça/livro fala-nos de todas as Catarinas que existem dentro de nós, das Catarinas que desejam e necessitam de matar um fascista.

    Uma família, todos chamados Catarina, faz um fascista como prisioneiro e estão preparados para o matar. Mas uma das Catarinas hesita, afinal o fascismo já não significa muito para as gerações mais novas. E é essa dúvida, essa falta de memória colectiva, que nos leva para o monólogo mais violento de que há memória, a altura em que o público da peça se manifesta, atira coisas, se revolta. Porque é realmente uma coisa revoltante e horrível, o tal discurso fascista, que toca nos pontos dolorosos deste tipo de regime em alinhamento com a actualidade.

    Então, estabelecemos aqui que as forças do mal estão representadas pelo fascista. No entanto, as forças vingativas estão fragilizadas, esquecidas. Talvez porque há muita gente hoje em dia que gosta de culpar os outros pelas suas próprias acções políticas, e muita gente saudosa de um tempo que nunca existiu para elas mas que, para quem existiu, é uma memória de pesadelo.

    Uma peça extraordinariamente relevante, e que merece toda a premiação que recebeu. Fico ansiosa por conseguir arranjar bilhetes para uma próxima e eventual sessão.




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