Archive for quarta-feira, novembro 15
A Metamorfose
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A Metamorfose
Franz Kafka
1915
Novela
Confesso que sempre tinha tido um medo imenso de ler este livro. Diziam-me que o personagem se transformava numa barata e eu tenho pânico! Mas ganhei coragem e chego à conclusão que não, Samsa não se transforma num baratóide baratum, transforma-se num querido e inocente e fofinho bicho da conta. ^_^
Pois é, Gregor Samsa um dia acorda transformado num insecto (que é, definitivamente, um bicho da conta). E agora, o que fazer? A sua metamorfose acorda a sua família, que não sabe como lidar com a situação. O pobre Samsa esconde-se debaixo do sofá para deixar a sua irmã Greta tratar od seu quarto e deixar-lhe comida. Mas todos têm medo dele!
Este é um livro curioso e, talvez, o mais terra-a-terra (na medida do possível dentro do surrealismo) que li do autor. A metamorfose do personagem principal acaba por ser simbólica da metamorfose de toda a família. à medida que se vai adaptando cada vez mais ao seu corpo de múltiplas patinhas de bicho da conta, a família vai-se deteriorando, enfraquecendo e sofrendo cada vez mais. Aquando a seu triste desfecho, voltam a acordar, como saídos de um casulo.
De resto, achei muito engraçada a forma como o autor se imagina no corpo de um insecto, cada vez menos humano mas ainda ligado à realidade que o define enquanto pessoa e não como monstro realidade essa incompreendida por aqueles que se estão a tornar monstros ao invés de pessoas.
É comovente ver a alienação do insecto, mas também perfeitamente natural a sua perda de consciência. Um livro que se lê numa hora e que vale, sem qualquer dúvida, a pena ler.
By : ladyxzeus
Ender's Game
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Ender's Game
Orson Scott
1985
Ficção Científica
Apesar deste livro ter mais de 900 páginas, li-o de uma assentada e em dois dias ficou despachado. Sim, é esse tipo de livro viciante!
Ender é um "Third". Neste universo futuro, os seres humanos lutam contra a sobre-população, pelo que ser o terceiro filho de uma família não só é raro como muito mal visto. A sua infância, até agora, tem sido um inferno. O seu irmão mais velho, Peter, é um selvagem. Os colegas da escola? Terríveis. O seu único alívio é a sua irmã Valentine. Mas tudo muda quando ele é escolhido pelo exército para vir a ser o mais competente dos seus comandantes na luta contra umas entidades alienígenas conhecidas como "buggers".
Desde o início que o autor estabelece Ender como o melhor, o mais inteligente, o mais capaz. E isso leva o personagem a um isolamento tanto involuntário como provocado pelos seus professores. Tudo isto para criar o melhor soldado, o melhor comandante da história. Mas a que custo?
Este é um livro de ficção científica extraordinário pelo universo criativo em que está inserido. Para 1985, muitos dos seus conceitos são revolucionários e quase preditivos do futuro (por exemplo, uma "world wide web"...) Mas o mais interessante é a análise do personagem, que começando nos "jogos" militares desde a mais tenra infância se desenvolve para ser tudo aquilo que é contrário ao que acredita.
Para mim, o único defeito é, na verdade, a idade dos personagens. É estabelecido que neste universo elas não têm infância e que são, certamente, mais inteligentes do que as crianças da nossa era. Ainda assim, os diálogos são estranhos para miúdos entre os seis e oito anos.
Apesar disto, parece-me um dos maiores exemplos do que se pode fazer de bom com a ficção científica. O final é filosófico, melancólico e contemplativo sobre toda a história do livro. Vale realmente a pena lê-lo apenas para chegarmos a esta conclusão.
By : ladyxzeus
Daqui Ninguém Passa!
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Daqui Ninguém Passa!
Actos Urbanos
2017
Teatro
Ainda incluído na Mostra de Teatro de Almada, fui ver esta peça juvenil a convite da sua dramaturga, que por acaso é a minha querida vizinha do segundo. :) Devo dizer que me diverti imenso e que, passados todos estes dias, ainda me rio cada vez que penso nisto!
Inspirado num livro editado pela Planeta Tangerina no ano passado, esta peça conta-nos a história de um simples soldado que tem ordens de dividir o palco ao meio. E dali... NINGUÉM PASSA!Ora, o problema é que toda a gente precisa de passar para o outro lado, pelas mais diversas razõesrazões, desde encontrar o amor da vida até ir à casa de banho.
De uma forma hilariante, muito dependente da biomecânica dos actores (que, diga-se de passagem, apesar da falta de experiência não estavam menos que brilhantes!), cada personagem ou grupo de personagens dá o seu melhor para passar para o outro lado. Até que, finalmente, com toda a naturalidade, um cão (o melhor papel!) faz o que tem a fazer. E assim se faz uma revolução!
Uma forma simples e natural de mostrar a um público mais jovem como nos podemos revoltar contra o sistema, como podemos combater a autoridade e como podemos lutar por aquilo em que acreditamos. Um texto hilariante com actores no nível certo que puseram uma sala cheia a cantar FORA TEMER TIBÉRIO! =D
By : ladyxzeus
As Mãos Sujas
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As Mãos Sujas
O Grito & Rugas
Texto - 1947 / 2017
Teatro
Perdi a oportunidade de ver esta peça aquando a sua estreia. Queria muito vê-la, pois mantenho diálogo com alguns dos membros do grupo O Grito, um dos intervenientes desta peça, e também porque não queria perder a oportunidade de ver uma peça de Sartre, um autor de que gosto muito neste género.
Infelizmente a peça desapontou-me um bocadinho, sem desfazer do talento de todos os inervenientes. Vejamos. ;)
O texto é agudo, ácido, óptimo. Um homem acabado de sair da prisão vê a razão que o levou até lá: um partido, a obediência a um partido, a fé cega nas decisões superiores de um partido que nunca é nomeado. Estes superiores decidem colocar a sua fé e coragem à prova: deverá assassinar um outro líder, com a qual acaba por formar amizade. Mas este personagem está tão imerso na obrigação do dever, o de matar, que acaba por deixar de conseguir racionalizar, entrando num desespero incoerente que culmina no crime passional que há-de o levar à prisão.
A encenação, sendo inteligente na utilização do espaço, peca em alguns momentos. Alguns momentos estão simplesmente vazios, intercalados com uma música que destoa do contexto da peça, sendo que outras vezes os personagens não transparecem a sua realidade devido a alguma falta de mecânica dos actores. Gostei bastante do jogo de luzes, embora por vezes pequenos erros de posicionamento o tornassem demasiado evidente.
Ainda assim, estes apreendem bem os seus personagens e existem alguns momentos de çpuro génio. Infelizmente, não estão por toda a peça e, por isto, ela perde um pouco o seu equilíbrio. Gostaria, no entanto, de ver muitas mais peças por este grupo!
By : ladyxzeus
Synecdoche New York
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Synecdoche New York
Charlie Kaufman
2008
Filme
7 em 10
Um estranho filme que nos faz pensar e reavaliar o nosso próprio conceito de narrativa.
Um encenador de teatro começa a fazer uma peça impossível. à medida que a sua saúde se vai deteriorando e as relações à sua volta se começam a desfazer, a sua peça toma proporções ilógicas, em que cada um dos intervenientes da sua vida tem cópias seguidas de cópias a viver uma vida de cópia copiada de uma cópia.
No final, a minha interpretação vai de encontro ao facto de que este é um sonho imediatamente antes do momento final, em que todos os medos e traumas do personagem são visitados da forma mais absurda e perturbadora possível. Existem muitos símbolos misteriosos (a figura materna, a casa em chamas...) que requerem alguma interpretação mais completa, mas à primeira vista fiquei com esta sensação.
Noutro aspecto, fique uma nota para o brilhantismo do trabalho cénico e para o talento utilizado na maquilhagem. Temos aqui actores que se repetem a si mesmos em espaços que se repetem a si mesmos, assim como na estrutura de um pesadelo real.
A música também contribui em muito para este sentimento de pavor constante, sendo que tem muitas peças memoráveis.
Um filme que se estranha, mas que depois se entranha.
By : ladyxzeus



