• Análise: Tetsuwan Atom - O Menino que é um Roboto

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    Estavamos em 1963, estava Portugal preso numa ditadura católica, quando Osamu Tezuka acha que seria boa ideia passar para a imagem animada o seu manga TETSUWAN ATOM. Assim começa uma revolução que nos permite, até aos dias de hoje, ver animação com histórias sérias, de qualidade que, mesmo que dirigidas a crianças, são transversais a todas as idades.

    Tetsuwan Atom, ou Astro Boy, é um menino que - por mero acaso - também é um robot. Ele faz coisas de menino, gosta de coisas de menino. Brinca, vai ao circo, luta contra alguns meliantes, salva algumas pessoas. Tem uma série de poderes já equipados de origem, sendo o mais evidente a bota turbo que lhe permite voar. No entanto, este menino-robot também tem dúvidas que talvez sejam demasiado humanas para uma máquina.

    Um dos exemplos deste elemento, um dos que mais me comoveu, aparece logo no segundo episódio, em que Atom se questiona *porque é que não tem mãe*. Esta é uma dúvida frequente em crianças órfãs, o que é o caso deste robot. Ele sabe que tem pai, considera o seu criador como pai. Mas e a mãe? Todos os meninos que conhece têm uma mãe, porque é que Atom não pode ter? Então, ele procura criar uma figura materna, procurando-a noutros robots. No entanto, isso não é possível, pois - nesta fase - ele ainda é o único robot consciente. Achei isto extremamente doloroso, e até verti uma lágrima.

    Felizmente, Tezuka tem a bondade de não deixar Atom completamente só e oferece-lhe uma irmã (Uran), com quem as brincadeiras se tornam ainda mais divertidas.

    Talvez o único defeito deste anime, que tem uma animação extraordinária para a época, seja o facto de que o valor de produção foi escolhido para manter a longevidade da série, em vez de manter a qualidade. Assim, temos muitos episódios repetidos, e outros que não sendo exactamente iguais têm a mesma história.


    Tetsuwan Atom é de uma genialidade incrível, em que se mistura inocência com heroísmo, sempre pontuado por um grande desejo pacifista de um autor que viu a bomba atómica. Atom é um herói inusitado, porque tudo o que ele gostaria seria ser apenas um menino. E, precisamente por isso, é tão inspirador.


  • Análise: Sousou no Frieren - A Dor da Imortalidade

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     Um dos animes mais aclamados dos últimos tempos, e que tem dado o que pensar e dado azo a muitos debates. Sousou no Frieren (A Jornada para o Além, em PT-BR) fala-nos de, precisamente, Frieren: uma elfa milenar que participou em tempos na luta contra as forças do mal, com sucesso, e que agora enceta uma nova viagem. O porquê desta viagem é algo de belo e transcendente: ela deseja encontrar o Herói da sua party antiga, que estará no mundo dos mortos após ter falecido por excesso de idade. Pelo caminho, com ajuda da sua nova equipa, irá viver momentos nostálgicos que lhe dirão sempre a mesma conclusão: vem, viver a vida amor, que o tempo que passou, não volta mais.

    Mas não só de pequenos snippets da vida diária se compõe este anime: temos momentos de acção absolutamente fabulosos, com uma animação espectacularizada que acaba por equilibrar com os outros episódios mais calmos e mais focados no dia a dia dos nossos viajantes.

    Cada personagem, em ambas as parties, tem o seu quê de único, sendo que o autor (suponho que do manga?) faz um esforço consciente para dar uma backstory válida aos que já morreram e um desenvolvimento pessoal e emocional aos que cá estão. Assim, não podemos caracterizar nenhuma destas personagens com uma ÚNICA palavra. Tomemos o exemplo da própria Frieren: muitos comentários afirmam que ela é autista. Pessoalmente, acho que a personagem é muito mais complexa do que isso (e que não tem qualquer característica autista nem neurodivergente). Frieren é uma maga poderosíssima, mas ainda assim com um toque de humildade. É estudiosa e extremamente curiosa, mas o facto de ter crescido num isolamento quase total não permite que compreenda na totalidade o comportamento humano dos seus companheiros. Isso dá azo a muitos mal entendidos, que tornam a série mais leve e engraçada nos momentos calmos. Assim, Frieren pode ser uma elfa, uma entidade quase imortal, mas a dor da sua imortalidade é evidente, tornando-a numa personagem multifacetada. 


    A questão da imortalidade sempre me foi querida, até estou (há anos) a trabalhar numa história com esse tema. Neste anime, a situação torna-se especialmente pungente: o tempo que passou não mais irá voltar, e as coisas que não foram ditas nunca mais poderão ser reveladas à pessoa certa na hora certa. E, agora que a nossa elfa tem uma segunda party, não irá deixar de aproveitar a oportunidade para FALAR, para dizer o que sente, e para aproveitar melhor o tempo que - infinito para ela - passa demasiado rápido para os outros.

    Foi um anime que apreciei muito, sendo a minha classificação de 7/10 para a primeira season. A segunda season é menos relevante, parecendo ser mais uma temporada de transição do que algo que realmente acrescenta à história. É uma história bonita, que dá que pensar, e que correu bem pois está altamente popular.



  • Análise: Mobile Suit Gundam (mas só UC)

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     Estamos no ano de 1979 e uma figura de génio surge no panorama do anime: Tomino. Este homem tem alguns elementos de personalidade fixos: é agressivamente pacifista, gosta de máquinas e gosta de distribuir chapadas. Comecemos pelas máquinas.

    Gundam, os Mobile Suits, Kidou Senshi, são máquinas de guerra invencíveis e imbatíveis, uma mistura de arma com escudo, cujo nome terá sido idealizado como "arma tão poderosa que consegue proteger uma barragem". Os Gundams são quase mágicos, na medida em que certos pilotos, aqueles nascidos já no espaço, conseguem ter um maior controlo sobre eles com a força da mente. São os chamados Newtypes, um conceito de humanidade muito interessante: a partir do momento em que nascemos no espaço, seremos considerados ainda como seres que pertencem a um planeta?

    Desde que vi Gundam a primeira vez, há muitos anos, gostei logo da ideia das Colónias, cilindros gigantes que orbitam à volta da Terra e que têm as suas próprias civilizações e comunidades. No entanto, nessa altura ainda não tinha compreendido bem a implicação de que as pessoas que nascem no espaço poderiam, efectivamente, considerar-se diferentes dos terráqueos e - por isso - ter uma razão para começarem uma guerra de independência.

    É nesta linha que surge o Principado de Zeon. Apesar de ser um principado, apesar de ter uma tendência bélica em tudo semelhante ao poderio do Eixo do Mal que vivemos nós próprios na Terra, Zeon acaba por ser um dos meus "mitos" preferidos. Em representação da luta contra as forças da Terra, a Federation, temos o misterioso Char Aznable. Ele conduz um Mobile Suit Zaku vermelho, o que torna tudo mais especial e espectacular, e a sua evolução enquanto personagem é como o vinho da adega da Ferreirinha: à medida que envelhece, fica mais gostoso.

    Isto porque a história do Universal Century em Gundam não se limita à Guerra do Um Ano: Char disfarça-se em Zeta como Quattro Bagina (um nome excelente, diga-se de passagem) para lutar contra uma equipa de pilotos que insiste que a Terra é o único lugar válido para se viver, tendo como objectivo desgraçar os habitantes da colónias. Em ZZ ele desaparece para dar lugar a outra antagonista excelente, Haman Karn, cujo maior desejo é restaurar os direitos governamentais à muito jovem princesa de Zeon. E, finalmente, tudo culmina com Char atirando uma Colónia para cima do planeta num auto de fé de destruição total, o que nos remete quase para o Nazismo.

    Como poderão reparar, Char Aznable é um dos meus antagonistas (vilão? Anti-herói?) favoritos de sempre. A Haman está num lugar bem próximo como personagem favorita do franchise inteiro, até fiz cosplay dela sem grande sucesso. Ainda gostaria de refazer esta personagem, num outro design. Também gosto muito do Noah Bright, falemos um pouco sobre ele.

    Bright, capitão almirante da nave de guerra White Base, vê a sua vida toda a andar pra trás quando a Colónia onde fizeram uma pausa para apanhar os Gundams é atacada e a sua nave (de guerra) fica cheia de civis. Crianças, nomeadamente. E o pior disto tudo é que ninguém faz aquilo que ele pede, nem aquilo que ele ordena, nem nada do que ele quer. Por isso, o recurso estilístico para resolver esta situação é.... Correr toda a gente à base da chapada! Yay! Gosto imenso desta atitude desesperada, e à medida que o personagem vai crescendo, também a sua paciência vai diminuindo.

    De resto, Tomino é anti-guerra. Em Gundam UC não conseguimos definir exactamente quem são os bons, nem quem são os maus.

    Se por um lado Zeon tem um design altamente nazi, e ideias bélicas muito ligadas a uma monarquia imaginária, do outro lado os Feddies também têm objectivos de guerra muito malévolos que envolvem o domínio completo das Colónias. Nada é preto no branco, sendo que a única coisa de que temos a certeza é que: a guerra mata, a guerra destrói, a guerra é muito, mas mesmo muito, merdosa.

    Suponho que Tomino tenha vivido a guerra na realidade, daí ter exposto o seu trauma, as suas ansiedades mas - também - o seu sonho de paz através de uma obra que disfarça tudo isto atrás de robots gigantes com espingardas e espadas mecânicas.

    Não posso despedir-me sem antes deixar uma nota para a animação genial de todas as quatro partes do anime (ZZ, com menor valor de produção, tem alguns momentos que deixam muito a desejar, tho). A realização deste anime é em tudo semelhante a um filme de cinema, com uso de perspectivas, cores e efeitos de luzes que nos remetem a uma realidade total. Podemos estar a viver na fantasia do Space Opera, mas a forma como tudo está dirigido e montado dá-nos um extremo realismo, e permite que realmente nos identifiquemos com as várias personagens.

    Também não disse que detesto o Kamille, porque ele faz tudo errado e é um vegetal. Enfim, é um anime que nos traz mesmo emoções fortes.

    Para sempre irei recomendar Mobile Suit Gundam. Mas só UC.



  • Análise: Chainsaw Man - A História de Reze

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     Supostamente um dos grandes candidatos ao Oscar de Animação, mas que não chegou a ser seleccionado, e supostamente o melhor filme de anime alguma vez produzido pela MAPPA, e também supostamente o melhor anime do transacto ano de 2025... Digamos que este filme, sequela imediata do anime de Chainsaw Man, tinha tudo para ser um sucesso e - realmente - foi um sucesso.

    Mas não é sobre sucesso ou popularidade que quero falar: isso é um denominador comum a todos os últimos shounens da moda, e Chainsaw Man - apesar de ser de qualidade ligeiramente superior - não deixa de ser um shounen da moda, altamente amado, altamente partilhado e com uma fandom obsessiva (como o deveriam ter os melhores animes, diga-se de passagem).

    O que realmente gostaria de dispersar por aqui é o facto deste filme, realizado por um mero freelancer usualmente renegado à key animation, se trata de uma obra maior da animação japonesa da actualidade. Este realizador essencialmente desconhecido faz um trabalho excelente na adaptação do manga, oferecendo dinamismo, fluidez e cores a uma história que - na sua simplicidade shounenesca - acaba por se tornar apaixonante.

    Denji acha-se meio estranho numa nova situação: está apaixonado. Uma rapariga muito sedutora e cheia de flirt, Reze, atrai-o sem que haja uma justificação lógica. Afinal, o amor (a paixão?) não precisa de regras. Infelizmente, rapidamente é revelado que esta bela rapariga afinal é um dos demónios que Denji tem de destruir: o Bomb Demon, demónio bomba perigosíssimo.

    Existem algumas cenas que me marcaram especialmente: quando Denji e Makima vão ao cinema, e essencialmente descreve o filme que vamos ver de seguida; e a cena da piscina, que é muito melancólica mas também muito cativante.


    Além de uma animação excelente, com momentos de grande virtuosismo, a própria história tem o seu quê de muito comovente, na medida em que o pobre Denji - que é uma criança crescida, que não conhece as relações humanas, que não conhece o amor - é seduzido para depois ser imediatamente traído pelo demónio bomba, que engana o nosso MC perdido de desejo e, com isso, lhe ensina duas coisas: sim, a paixão existe e é maravilhosa; e não, nem sempre as coisas são aquilo que parecem.

    De resto, temos uma cena bastante icónica do Angel Demon de lingerie.

    Fiquei muito surpreendida por ter gostado tanto deste filme, e a minha classificação final é de 8/10. Como desfã (o contrário de fã?) de animes para rapazes adolescentes, foi desafiante ver este anime mas, em conclusão, muito satisfatório.

    Reze recomenda, e eu também.




  • Março 2026: O que se Viu e o que se Papou

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    Regressando aos nossos processos luminosos e prismáticos, vamos falar do que se viu (e do que apenas se papou) durante o mês transacto. Gostaria apenas de mencionar que estamos numa espécie de missão para ver um OVA dos anos 80 todos os dias e, por isso, vou falar de bastantes. Vamos a isso?


    To Strip the Flesh - Manga sobre um rapaz FtM, coisa muitíssimo invulgar no contexto japonês. A analogia à caça e à carne fez-me uma confusão medonha. Gostei do one-shot sobre o David, porque o David de avental é muito fofo. Lê-se Bem.

    Acolher - Mini livro em que uma criança é "acolhida" por uma família. Slice of Life, tudo ok. Papa-se.

    Madoukushi Dahliya wa Utsumukanai - Fatia de vida num ambiente de fantasia medieval, não se passa grande coisa e é pouquíssimo memorável. Papa-se.

    Cat's Eye (2025) - Remake do Cat's Eye, o famoso anime dos anos 80 sobre três irmãs que roubam quadros. Foi um bom remake, mas pelos vistos a minha memória enganou-me ao achar que isto era um anime excelente, porque não é assim tão especial. Papa-se.

    O Diabo Veste Prada - Impossível de se aturar, é uma sucessão de enumerações de marcas de design famosas e pouco mais. Papa-se (mas é quase intragável).

    Sem Alternativa - Filme coreano que estava nomeado para os Oscars, é muito caótico. Gostei do cadáver embrulhado como se fosse uma semente. Papa-se.

    Arco - Filme muitíssimo bem animado, nomeado para os Oscars, com cores maravilhosas e muito gueis. Certamente comovente por causa da sensação da passagem do tempo, no entanto senti que faltava alguma coisa. Vê-se Bem.

    Kurika - Clássico do colonialismo português, conta a história de um leão domesticado (Kurika) que aprende a ser selvagem. Apesar de estar muitíssimo datado, é bastante divertido. Lê-se bem.

    A Voz e o Sangue - Livro de poemas revolucionários de intervenção, muito bonitos e bem escritos. Lê-se bem.

    Earl Sweatshirt - Concerto de rapper famoso, foi bastante divertido e toda a gente (menos eu) sabia as letras das músicas, para grande surpresa do artista. Infelizmente não deu para haver encore, porque ele cantou o album todo e não tinha mais músicas. Viu-se bem.

    Pequenas Coisas como Estas - Da mesma autora do "Acolher", outro mini livro de fatia de vida que foi mais ou menos irrelevante. Papa-se.

    Um Pequeno Acidente - Interessante filme iraniano, feito em segredo, que está recheado de humor mas também tem um monólogo final absolutamente chocante. Vê-se bem.

    Wizards (1977) - Filme feito praticamente todo em stop motion e rotoscópio, que fala sobre como um feiticeiro luta contra outro feiticeiro e o vence com a maior das facilidades. Foi divertido e vê-se bem.

    3x3 Eyes - Anime sobre a Pai, que tem três olhos e é um demónio. Foi bastante divertido, mas nada de especial, portanto Papa-se.

    Solo Leveling - Num mundo onde todos temos níveis e o nosso nível não pode subir, um rapaz tipo Kirito consegue subir de nível sozinho para surpresa de todos. Apesar de ser um anime geralmente odiado, eu gostei bastante! Vê-se muito bem!

    Wuthering Weights (1939) - Para quê ver uma versão erótica monga do Monte dos Vendavais quando já fizeram uma muito melhor em 1939? Além disso, o Heathcliff pode ser meio detestável mas é uma fonte eterna de sexyness. Foi muito bonito, Heathcliff por favor casa comigo e não com a outra estúpida. Também faz crítica de classe social e Vê-se Bem.

    Voogie's Angel - Um OVA dos anos 80 completamente irrelevante. Papa-se.

    Monster Musume - Meninas que são monstro, um anime tão ecchi que só dá vontade de rir. A originalidade dos designs e a forma como dão a volta a uma série de problemas de foro íntimo é hilariante. Estranhamente, Vê-se Bem.

    Down Load - Já nem me lembro do que se trata, portanto deve ser um Papa-se.

    Kimi no Iro - Filme giríssimo com muita música, mas é shoegaze e new wave e não rock! Surpreendente! Amei a banda sonora e a animação estava bonita, mas o facto de estar muito kristo-centrado chateou-me um pouco. Vê-se Bem.

    Lost in Starlight - Filme de animação coreano sobre um casal separado pelo... Espaço. O literal espaço, o dos aliens. Eles tinham muita química, mas não gostei da animação carregada de efeitos digitais que aparentam ser espectaculares à primeira mas demonstram ser bem CG a uma segunda análise. Vê-se Bem.

    Shogun - Uma pena fazer um comentário tão curto sobre um épico da literatura tão gigante, mas a verdade é que - apesar de ter sido bastante interessante - não me marcou muito. Gosto da forma como o autor descreve de forma cheia de respeito e admiração os hábitos do Japão feudal. Lê-se bem, mas tem quase 2000 páginas.

    Gnosia - Interessante anime que fala de repetições de timeline e que, no fundo, é o jogo do Lobo. Os designs são mesmo muito curiosos, e algumas personagens bastante cativantes, embora nem todas. Vê-se bem.

    Guyver: The Biobossted Armor - Anime marcante da sua época, apesar de o Guyver mandar raios das tetas. Extremamente violento como se gosta, e Vê-se Bem.

    Father Mother Sister Brother - Filme com três histórias ligadas por ínfimos detalhes, e que falam da intimidade familiar. Apesar de ter actores muito famosos, não senti qualquer ligação com estas histórias, excepto tentar encontrar os pontos em comum (por exemplo, o copo de água) entre as três historias. Papa-se.

    100 Meters - Anime muitíssimo bem animado, em que se conclui que o verdadeiro prémio de uma corrida é mesmo só correr. Vê-se Bem.

    Getter Robot (1998) - Anime excelente, mas sem conteúdo que mereça uma análise mais aprofundada. Animação top para a sua época, designs originais e personagens fora do vulgar. Gostei muito, logo Vê-se Bem

    O Agente Secreto - A malta do Brasil pode dizer que isto é o melhor filme de sempre mas (spoiler) não é. Não insistam que é sobre a ditadura militar, porque o filme é sobre corrupção capitalista. Digamos que é como um prato de um restaurante muito chique que tem ingredientes tirados do oceano e da montanha mas em que estes estão juntos num puré de nada. Papa-se apenas.

    Buta no Liver wa Kanetsu Shiro - Isekai muitíssimo interessante, em que o nosso MC reencarna como... Porco. No chiqueiro mesmo. Enquanto porco, aprende a fazer amigos e a respeitar as outras pessoas. Mesmo muito original e Vê-se Bem

    Armor Hunter Merowlink - Spin-off do Votoms, em que um gajo com uma sede de vingança persegue pessoas para as matar. O engraçado é que ele tem sempre de ter uma pintura de guerra em sangue, e quando não a tem volta a pintar-se muito rápido. Papa-se.

    Roll Over and Die - Um anime altamente merdoso, que mete elementos de fantasia com ataque de um "rebanho de olhos" (oi?) e ainda consegue meter uma plot de yuri lá no meio, com designs absurdamente feios e personagens com nomes terríveis, como Milkit e Ink. Nem sei se se Papa, porque é muito medíocre mesmo.

    Sentenced to be a Hero - Ser herói é castigo para criminosos, e um paladino que matou a sua própria deusa (agora tem uma nova) é condenado a lutar contra uns monstros coloridos tipo slime com glitter. A animação é *extraordinária* e fiquei ansiosa pela segunda season. Vê-se Bem.

    Makai Tensho - Anime muito estranho sobre JESUS, em que JESUS reencarna e poderá ser anjo ou demónio conforme o tratamento que dão à sua nova encarnação. Infelizmente só tem dois episódios, e ficou a meio, mas estes estão muito bem feitos em termos de realização e montagem. Vê-se Bem.

    Virgin Punk - Do criador de Kite, temos um anime que não é hentai e que recupera toda aquela estética de gothic punk que tinhamos nos 00s. A animação é de babar e... LISBOA! Uma Lisboa fantástica, mas ainda assim o setting é Lisboa: até os tags nas paredes eu reconheci! Fabuloso e Vê-se Mais que Bem.

    Ganglion - Imaginemos que os maus dos tokusatsus trabalham todos na mesma empresa, que é a Ganglion. Dilemas empresariais quando o nosso trabalho diário é lutar contra o herói. É muito engraçado e revelador da vida adulta. Vê-se Bem.

    Wild 7 - OVA que também está incompleto, sobre um grupo de criminosos que se tornam polícias para expiar o seu crime. A parte menos realista está em polícias criminosos quererem expiar o crime. Papa-se.

    Junk Boy - Protótipo dos anos 80 do Golden Boy, mas muito pior. Papa-se.

    Roots Search - OVA incompleto mas que tem uma história curiosa, em que quando o alien possui as pessoas dá-lhes memórias falsas e alucinadas. Também é extremamente violento. Vê-se Bem.

    Yami no Purple Eye - Pretenso videoclip com 30 minutos, mas que é apenas uma sucessão de imagens do manga e do artbook. Questiono-me quem terá tido a ideia de fazer isto, mas acho que funcionou porque fiquei com vontade de ler o manga. Nem se Papa, porque isto não é nada.

    One Piece (2026) - Segunda season do Live-Action. Aquele actor do Sanji é bem lindo, havia de me cozinhar um t-rex. De resto, é muito divertido e estou a gostar de One Piece sem ter de ver 1500 episódios. Vê-se Bem.

    Dosanku Gal wa Namara Menkoi - Rapaz vai viver para Hokkaido e surpreende-se por lá existirem gyarus que são buedes giras. Um anime wholesome e fofinho, mas nada de especial. Vê-se bem.

    Crosse Ange: Tenshi to Ryuu no Rondo - Uma descrição seria "o parente retardado do Code Geass", mas a verdade é que gostei imenso. Designs giros, boa animação, sangue e sexo. Vê-se bem.

    Windaria - Um proto-Yuri dos anos 80, com um final bem bonito. Vê-se Bem.

    Dragões de uma Chama de Verão - Último volume da saga Dragon Lance, do qual tinha lido o primeiro em miúda (e adorado). Infelizmente está muitíssimo mal escrito, com coisas como "o calor começava a ficar ardente" e "aceleraram a velocidade". É estúpido e completamente irrelevante, então nem sequer se Papa, lê-se só na diagonal.


    E assim termina o resumo de actividades regulares do mês de Março. Vou tentar avançar com análises mais detalhadas para alguns elementos especiais. Obrigada!

  • Análise: Pardalita - Uma miúda gosta de outra miúda...

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    Há sempre uma altura da nossa vida em que somos adolescentes. E os adolescentes são caracterizados por terem sentimentos muito intensos: eles amam intensamente, odeiam intensamente e têm um medo muito intenso também.

    É essa intensidade que é demonstrada neste volume de banda desenhada nacional, assinada por Joana Estrela e publicada pelo Planeta Tangerina, editora sobretudo dedicada ao público infantil. E é precisamente ao público infanto-juvenil que esta obra é dirigida, abordando um assunto que pode ser um pouco difícil de digerir por pais e educadores:


    O que acontece quando uma miúda gosta de outra miúda?


    A nossa narradora descobre-se a si mesma na relação com o outro: Pardalita é o objecto de afecto, mas desconhece-o. O facto de ser nominada um "pardal" tem uma importância significativa: um passarinho pequeno, frágil, mas com um poder oculto de psicopompo que tem uma força de atracção irresistível. Conhecem-se na escola, um ambiente neutro mas habitado por uma fauna que pode ser a maior crítica de si mesma. E a narradora envolve-se no mundo do teatro, um detalhe que achei fascinante, para estar mais próxima da rapariga de quem gosta.

    As dúvidas e ansiedades são expressas em desenhos simples, mas com muito dinamismo, acção e movimento, como se pode ver neste painel que cito:

    O teatro é uma fonte de cultura e aprendizagem, mas também é uma fonte de poder social. Subitamente, a nossa narradora não se vê confinada aos limites dos seus amigos de sempre: agora também tem todos os amigos que estão no palco e nos bastidores, e com esse novo poder poderá ganhar a coragem para se declarar, o que vem a ser consumido numa curiosa viagem a Lisboa (os personagens são do Norte), em que perante as cores e a paisagem fluvial, Pardalita aceita a sua nova companheira e - assim - se inicia uma relação.

    O que vai acontece no futuro é o mistério da vida adulta. Se um dia somos crianças, somos uma menina que recolhe um passarinho nas suas mãos para o amar e cuidar, no dia seguinte talvez esse pardal precise da liberdade de voar ou, talvez, aceite a domesticação do amor.

    Por isso, quando uma miúda gosta de outra miúda, as coisas podem não ser tão simples como neste livro, mas quem nos dera que fossem sempre assim tão belas.

  • Análise: O Velho e a Espada - Quando da paixão se faz um filme

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    Iniciamos o nosso novo modelo de revies com O VELHO E A ESPADA, filme de Fábio Powers, que fomos assistir numa sessão especial de exibição na sala de espectáculos da Universidade Lusófona.

    Conheci o Fábio Powers há muitos anos num evento que este organizou em Castelo Branco. Já nessa altura, o realizador alimentava a ideia de fazer um filme que fosse algo tipicamente português mas também muito ligado ao universo de fantasia de jogos (narrativos e digitais) e animes. Após anos de trabalho e dedicação, espremendo as pedras do amor e paixão pelo cinema, o resultado final está à vista como um filme de puro entretenimento.

    "O Velho e a Espada" conta a história de um homem, idoso e alcoólico, que não tem qualquer objectivo de vida, e subitamente se vê envolvido na luta contra os demónios que habitam o Alentejo mais profundo, tendo na sua posse uma espada mágica e demoníaca (criada da visão do realizador e construída por Paula Nunes, @asheriabot no Instagram, amiga que muito prezo e admiro pelo seu talento multifacetado).

     Este velho que agora possui a espada, interpretado pelo saudoso António da Luz, irá viver uma aventura inesquecível - para ele e para nós. A espada, com voz de João Loy, é sarcástica e cheia de personalidade, e os diálogos entre estes dois personagens inusitados são das partes mais engraçadas do filme.


    Mas o que torna esta história quase mágica é o choque com a realidade em que nos encontramos porque, em falta de conclusão o realizador optou por fazer algo tão absurdo como corajoso: quebrar a quarta parede. Com isso, o filme dá uma volta inesperada, e conseguimos avaliar que - sim - este conto não é real, é apenas um filme, mas na ideia do nosso MC é tudo realidade. Então ficamos na dúvida se a magia se encontra no alcoolismo e na força da bebida, ou se por outro lado foi tudo uma espécie de elaborada piada para com o pobre personagem, para lhe animar a vida ou algo mais.

    "O Velho e a Espada" foi seleccionado para vários festivais de cinema, tendo até sido premiado no Brasil. Afinal, trata-se de uma história cómica e improvável, mas que também muito caracteriza o interior do nosso país: triste, abandonado, alcoolizado e um misto de religioso e supersticioso.

    Tenho muito orgulho em poder dizer que conheço este realizador, e ainda mais orgulho em saber que do seu esforço e da sua paixão nasceu um filme tão engraçado e que vem preencher a grande lacuna de cinema fantástico em Portugal. 

     

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