Archive for quarta-feira, janeiro 11
A Morte de Virgílio
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A Morte de Virgílio
Hermann Broch
1945
Romance
Este foi um dos livros preferidos do meu pai dos últimos tempos, a ponto de ele o ter lido avidamente por mais de uma vez. Por isso, emprestou-mo para saber a minha opinião e me converter aos encantos líricos desta narrativa. Infelizmente, tal não obteve resultado, sendo que da nossa última conversa literária adveio grande encabulamento enquanto eu estava a explicar porque não estava a gostar. Penso que o meu pai ficou um pouco triste, mas passarei a explicar melhor o que achei desta obra. :)
Virgílio, a quem não saiba, foi o poeta romano que escreveu o épico "Eneida", glorificação do seu império, dos seus deuses e dos seus imperadores E QUE (!!) eu nunca li. O livro inicia-se com o seu regresso da Grécia, onde estava a passar uma temporada cultural, para que devolva o manuscrito da Eneida ao César Augusto. No entanto, o autor encontra-se muito doente.
A primeira metade do livro, que consiste na viagem até à habitação por ruas cheias de gente a sua primeira noite nesta, ardente em febre, foi o exercício mais aborrecido que li nos últimos tempos. Isto não tanto pelo conteúdo da narrativa, que acaba por ser uma contemplação bastante bela (dentro do contexto) da morte próxima e da vida enquanto reflexo da morte, mas pela forma. A forma como tudo isto está escrito é muito irritante, porque o autor repete conceitos e palavras ad nauseum, tornando esta leitura num verdadeiro pesadelo gramatical (em vez de um pesadelo astral, conforme o vivido pelo personagem). Para dar um exemplo, imaginemos que eu escrevia todas as minhas palavras escritas de uma forma bem escrita, escrevia todas as minhas palavras, sim, escrevia palavras de forma moderadamente escrita, mas todas as palavras que escreviam incluíam as palavras escrever e as palavras palavras. É mais ou menos assim por cerca de 200 páginas.
No entanto, a partir da terceira parte (segunda metade) o autor recupera-se plenamente e temos um capítulo imensamente interessante em que existe uma melhor caracterização do personagem enquanto ser vivente, baseando-se na sua relação com os outros, os seus amigos e o próprio César. Nesta parte torna-se mais evidente que existem alguns personagens que não existem neste plano, sendo a sua presença causada pela pura imaginação febril de Virgílio. Estes personagens são altamente simbólicos, talvez relatando cada uma uma parte da vida do personagem, talvez representando cada uma uma parte dos desejos do personagem, tanto que elas lhe dizem coisas que deve fazer, acções que deve tomar que fariam todo o sentido se não fossem as pessoas "reais" a impedi-lo. Esta secção é literatura pura, da mais prazerosa que li ultimanmente, com diálogos fascinantes, imagens lindíssimas e cativantes.
Depois, numa parte final muito curta, o autor volta à técnica do início (apesar de não tão evidente) e mostra a forma como Virgílio vai para "o outro lado" e encontra o deus uno e verdadeiro. Situação ligeiramente desconfortável, considerando que o senhor haveria de ser panteísta.
Um livro que me deixou muito dividida. É complexo, difícil de navegar, com uma escrita bizarra na maior parte da narrativa, mas penso que a secção da "Terra" talvez possa compensar todos estes elementos. Lá que dá vontade de ler a Eneida... Isso dá!
By : ladyxzeus
The Fits
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The Fits
Anna Rose Holmer
Filme
2015
6 em 10
Vimos este filme independente, pois era o mais curto que tínhamos disponível e eu precisava de ir dormir. :p
Toni é uma menina que se dá com os rapazes. Afinal, está no boxe e dedica todo o seu tempo a treinar esta modalidade. No entanto, no mesmo ginásio, existe um grupo de dança que a fascina. As "Lionesses" são lindas, poderosas, ganham imensos prémios. Por isso, ela decide juntar-se a elas e tentar dançar também. A sua integração é difícil, mas tudo está a correr bem até ao momento em que as raparigas do grupo começam a ter ataques convulsivos, motivados por uma razão misteriosa que nunca é esclarecida. O medo começa a crescer. O que será que podemos fazer?
Trata-se de um filme muito simples, com parcos recursos que se evidenciam nos cenários, roupas e métodos de filmagem. No entanto, a autora consegue fazê-lo funcionar na perfeição, sendo que utiliza precisamente estas limitações para acrescentar uma aura de mistério e suspense a toda a narrativa que, em conclusão, se apresenta quase como simbólica.
É um filme de descoberta pessoal, de crescimento da personagem, de integração com o grupo. Não é um filme pleno de moral e de eventos de auto-satisfação, mas demonstra muito bem estes elementos através de uma história cuidada, personagens cativantes e paisagens perturbadoras.
Teoriza-se que, talvez, os "fits" sejam uma manifestação colectiva do encontro social: isto é, apenas o primeiro teria existido realmente e os outros tenham sido involuntariamente fingidos. Para mim, os "fits" representam algo mais. Algo que as raparigas adquirem com a maturidade, integração, algo que não se pode explicar. Não terão acontecido realmente. Tudo não passa de uma metáfora.
Será que é assim? Vejam para saber. :)
By : ladyxzeus
Desgraça
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Desgraça
J.M. Coetzee
1999
Romance
Já há muito tempo que não participava num Ring do BookCrossing! :) Este livro foi o regresso à TBR de papel, que há muito estava relegada para leituras Kobísticas. Nunca tinha lido nada deste autor e devo dizer que tinha muita curiosidade.
Este livro fala da vida normal de uma pessoa um pouco anormal. Este professor universitário de 50 anos tem um problema com as mulheres, sendo que o satisfaz regularmente com uma acompanhante discreta. Quando a descobre fora do hotel em que partilham uma noite por semana, começa a persegui-la, sabe-se lá porque razão, e ela afasta-se. Assim, passa à próxima vítima: uma das suas estudantes universitárias. Mas esta relação vai correr muito mal e relegá-lo para um plano inferior da existência, com a sua expulsão dos quadros da faculdade.
Ora, quando isto acontece ele decide visitar a sua filha, que vive isolada no campo, cultivando flores, numa reminiscência hippie de ligação à terra. Mas a sua desgraça não terminará aqui...
O livro está escrito de uma forma altamente viciante, pleno de referências muito específicas que são sempre demonstradas de forma extremamente simples. A força principal da narrativa encontra-se nas personagens que nela estão encerradas, nomeadamente este professor. A sua caracterização é perfeita, sendo que se denota uma evolução fremente em cada página: passa de um conquistador a uma pessoa resignada com o seu destino infeliz, tratando de assuntos infelizes (a morte de animais necessitados) e aceitando que não pode compreender mais o universo que o rodeia, nomeadamente a sua filha e os seus vizinhos.
Se há alguma falha neste livro, talvez seja precisamente a caracterização destes. Por vermos tudo da perspectiva do personagem principal, algumas atitudes e acções parecem bastante destituídas de lógica ou contexto, sendo que é difícil de compreender as motivações de todo este grupo de pessoas, desde a estudante até ao vizinho e, sobretudo, da filha.
O livro é também um óptimo retrato da moderna África do Sul, um país que para muitos de nós é totalmente desconhecido. Ainda assim, seria interessante ter um pouco mais de detalhe sobre os hábitos culturais e a diferença apartheid que está sempre presente.
Fiquei com vontade de ler mais livros deste autor. :)
By : ladyxzeus

