Archive for sexta-feira, março 16
Os Sertões
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Os Sertões
Euclydes da Cunha
1902
História
Quando o meu pai me cedeu "A Guerra do Fim do Mundo", trouxe-me também este livro, dizendo que tratava do mesmo tema numa outra abordagem também muito interessante. Na verdade, veio parar-me às mãos um dos épicos maiores da literatura brasileira e deu-me imenso prazer lê-lo.
Inicialmente, o autor estabelece o lugar onde estamos. Isto é, descreve o que são os "sertões". Através de uma muito detalhada análise da sua geografia, fauna e flora, conseguimos visualizar com toda a perfeição os espaços onde se irá desenrolar a acção seguinte. Para mim, talvez, temnha sido esta a parte mais fascinante do livro. Depois disso, Euclydes da Cunha discorre sobre os habitantes destes sertões.
É aqui que o livro peca por ter sido escrito nos primeiros anos do século passado. É que o autor teoriza sobre as qualidades raciais da humanidade, fazendo uma divisão e catálogo de cada raça, mistura de raças, entre outros, o que - na perspectiva do agora - soa tão ridículo como terrível.
De todos os modos, ficamos também a conhecer os principais intervenientes desta história que foi a guerra de Canudos. Infelizmente, o autor esteve do lado dos "bons" (e esteve mesmo, como jornalista da Folha de S. Paulo), o que faz com que as suas descrições do inimigo, seguidores do estranho António Conselheiro, sejam relativamente curtas, limitadas e muito pouco abonatórias. Este não é o livro perfeito para uma análise sociológica do que realmente se passou com este grupo de seguidores. Talvez nunca fiquemos a saber realmente como o líder os conquistou e quais as suas ideias. Era este o aspecto que mais curiosidade me dava.
Finalmente, o autor descreve a guerra propriamente dita. E esta secção pode ser morosa, pois são muitos nomes que se sucedem (porque morrem, muitas das vezes). Ainda assim, não deixa de ser altamente interessante, porque o autor não deixa de fazer os seus comentários pessoais à atitude dos líderes das batalhas, descrevendo as suas limitações, os seus erros e as consequências horrendas destes com um certo sentido de humor revestido de pena que se pode considerar delicioso.
Foi um livro de que gostei imenso e só tenho que agradecer ao meu querido pai por se ter lembrado de me o trazer. :)
By : ladyxzeus
Eu, Tonya
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Eu, Tonya
Craig Gillespie
2017
Filme
8 em 10
Pode não ter sido o filme mais premiado dos óscares, mas a verdade é que - até agora - é capaz de ter sido o meu preferido. O que posso fazer... Eu tenho um fraquinho por patinagem artística! xD
Esta é a história, baseada em factos que são reais e em outros que não são reais, de Tonya Harding. Esta campeã da patinagem artística, que conseguiu fazer coisas consideradas impossíveis no gelo, esteve - na sua época - envolvida num estranho escândalo em que foi acusada de planear um ataque à sua rival, lesionando-a num joelho.
Mas este filme fala de muito mais do que o escândalo em si. Fala da vida de Tonya enquanto patinadora. Porque ela nunca foi mais nada do que uma patinadora. Não sabe mais nada, nunca fez nada de diferente. A sua mãe sempre a pressionou para que fosse a melhor, para que ganhasse, sempre a motivou da forma mais agressiva possível. E os resultados só se viram muito mais tarde... Realidade? Talvez.
A história é emocionante porque nos fala de um lado deste desporto no qual nunca tinhamos pensado e, com isso, faz uma profunda reflexão sobre a segregação de uma maioria branca mas que, devido ao próprio ambiente das suas vivências, é extremamente pobre e ignorante. Tendo isso em perspectiva, as pequenas vitórias de Tonya Harding tornam-se cada vez mais importantes para o espectador, que não suportará as injustiças de que - constantemente - é vítima.
Também aborda temas difíceis, como a violência na relação e no ambiente doméstico, caracterizando na perfeição o elemento abusador e manipulador, que acaba por destruir todos os sonhos com a sua ignorância e teimosia.
De resto, uma nota para as excelentes interpretações, para a magia que fizeram em todas as partes artísticas geladas e, também, para o guarda roupa fascinante (apetece-me fazer muitos daqueles vestidinhos :3 )
Gostei tanto que fui investigar a vida da verdadeira Tonya Harding. Certamente que não é, de todo, tão estimulante como o filme...
By : ladyxzeus
Osomatsu-san
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Osomatsu-san
Fujita Yoichi - Studio Pierrot
Anime - 25 Episódios
2015
7 em 10
Confesso que quando me pus a ver este anime estava à espera de algo terrível. Isto porque, normalmente, quando algo é muito popular e tem um tag como "comédia", é de esperar que eu - que não tenho sentido de humor - não lhe ache graça nenhuma.
Mas os Osomatsus surpreenderam-me muito. E pela positiva!
Esta é a história de seis irmãos gémeos. Têm tudo para que a vida lhes corra bem, excepto o facto de estarem desempregados e não terem nada para fazer. Este anime mostra-nos as suas aventuras diárias em busca de um trabalho estável, em luta contra os seus rivais e na conquista do amor verdadeiro! Ma sem nexo nenhum!
É uma raridade eu rir-me com um anime (ou com um filme, que seja), mas a verdade é que as piadas de Osomatsu-san sucedem-se como rebuçados numa festa e cada uma é mais deliciosa que a outra. é um humor muito típico do Japão, pelo que se baseia bastante em expressões idiomáticas e pequenos momentos de auto-humilhação, sendo que continuam sempre a existir bastantes referências sensuais e escatológicas. Não será o humor para qualquer um, mas a mim fez-me rir. Ainda bem!
Quanto aos outros aspectos, como animação e música, só se pode dizer que a série continua sem fazer sentido. Temos cores explosivas, momentos sem anatomia, expressões faciais sempre bizarras, mas tudo isso feito com um excelente valor de produção, sendo que os nossos olhos ficarão realmente contentes ao ver isto. No sonoro, felizmente, o anime não abusa de sons de gag cartoonisticos, apresentando em vez disso um conjunto de vozes que substituem esse elemento na perfeição.
Fiquei muito satisfeita e estou agora à espera que a segunda season termine para a ver :)
By : ladyxzeus
Lady Bird
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Greta Gerwig
2017
Filme
6 em 10
Mais um nomeado para os óscares, mas que não obteve resultados muito satisfatórios.
Christine "Lady Bird" McPherson é uma rapariga que deseja mudar de vida. Farta do ambiente da escola altamente católica em que estuda e da cidade de Sacramento, em que vive, fará de tudo para conseguir entrar numa universidade que seja longe. Enquanto isso, paira sobre ela a presença terrífica da sua mãe, sempre pronta a criticá-la.
Este é uma mistura de "coming of age" com um fatia de vida, em que acompanhamos o percurso de Lady Bird pelos vários grupos em que se movimenta, conhecendo os seus amigos, inimigos, observando os seus problemas e concluindo quais as decisões que fará para os resolver. A personagem está, sem dúvida, caracterizada de uma forma altamente realista. Posso dizê-lo porque na época do filme eu tinha mais ou menos a mesma idade e era mais ou menos parecida com esta miúda.
Lady Bird navega pelo mundo artístico, mas após o arco do teatro parece-nos que a autora se esquece um pouco dessa faceta da personagem, passando muito mais tempo a explorar o nervosismo em relação à mãe que, de todos os modos, peca por exagero. Não duvido que haja pessoas assim, mas a forma como a mãe está interpretada não se coaduna com as coisas que as outras personagens dizem dela.
Em termos de imagética, a abordagem é muito naturalista, o que nos transforma em espectadores do quotidiano. Temos uma banda sonora muito interessante mas apenas porque é recordatória dessa época em que vivemos.
Foi um filme interessante, mas não me ficará na memória.
By : ladyxzeus

