Archive for terça-feira, julho 04

  • Mazurca para Dois Mortos

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    Mazurca para Dois Mortos
    Camilo José Cela
    1985
    Romance

    Livro estranho e denso, conta a vida diária de uma aldeia na Galiza, antes, durante e depois da guerra civil.

    O livro conta com uma enumeração constante, quase repetitiva mas ainda assim melódica, de grupos de personagens, famílias, referindo sempre, uma e outra vez, as características principais que o narrador encontra nas pessoas. O narrador pode não ser sempre o mesmo, pois existem ocasiões em que se refere a si mesmo de diferentes formas: o narrador pode até ser o próprio autor, mas tambékm pode ser qualquer uma das personagens.

    No final acabamos por perceber que o que procurávamos desde o início era saber de que forma morreram os dois mortos: isto não nos é nunca revelado e é apenas uma inferência que se tira após toda a leitura.

    No entanto, não gostei mesmo nada dos elementos sexuais, sempre repetidos, sempre constantes, que demonstram uma falta de valorização do ser feminino e do próprio ser humano, em que toda a gente é tida como porca, suja ou incapaz de fazer o que quer que seja. As pessoas deste livro não sabem o que deve ser feito nem porquê, apenas limitando-se a criticar e a ofender todos os outros.

    Foi a minha segunda experiência com o autor, desta feita em português, e desapontou-me um pouco.
  • Giovanni no Shima

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    Giovanni no Shima
    Nishikubo Mizuho - Production I.G.
    Anime - Filme
    2014
    6 em 10

    Um filme com muito de história que mostra uma faceta desta que era desconhecida para mim (e, possivelmente, para outros visionantes): o apoderamento russo de certas ilhas japonesas, no pós-segunda guerra mundial.

    Dois miúdos gostam de comboios e de viajar pelo espaço da imaginação, como no famoso livro "Night on the Galactic Railroad" (cujo nome só sei em inglês, perdoem-me). Tudo está normal até ao dia em que chega um barco de guerra russo e estes começam a tomar conta da escola, das casas e das posses de toda a gente. As pessoas não têm o que comer. Enquanto isso, um dos rapazes faz amizade com Tanya, uma loirita que - fantasticamente - compreende japonês. Ele, fantasticamente, também compreende russo. Falam nas duas línguas, uma cada. Penso que isto, no contexto do filme, seria para demonstrar algum tipo de barreira linguística, mas tem o efeito diametralmente oposto.

    Enfim, depois são levados para a Rússia, onde passam frio.

    É um filme melodramático e altamente previsível, que não acrescenta nada de novo ao cinema desse ano nem ao da década. De certa forma, parece um decalque de outros filmes não muito bons, como o Grave of the Fireflies.

    Distingue-o a arte e animação, que está usada de forma excelente, com uma óptima utilização de formas, texturas e cores. Os designs dos persongens estão muito simplificados, mas num filme de apenas uma hora e meia isto acaba por não incomodar.

    A música é também um pouco repetitiva.

    Um filme interessante para quem quiser conhecer uma perspectiva desta parte da história.

  • Os Jardins de Luz

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    Os Jardins de Luz
    Amin Maalouf
    1991
    Romance

    Este é um romance histórico um pouco diferente do habitual. Foi a minha única compra na Feira do Livro e gostei bastante dele.

    Conta a história de Mani, fundador e profeta do Maniqueísmo, fé que ganhou popularidade nos primeiros séculos depois de Cristo para depois ser esquecida. Conta-nos o autor como Mani, o profeta, teve as suas visões e mostra-nos um pouco de como elas divergiam das vigentes, pregando a união e a busca pela perfeição. E, afinal, não era isso o que os outros profetas diziam?

    Entretanto, Mani é tido como conselheiro de diversos reis, príncipes e outra nobreza, sendo isso o que mais tarde causa a sua desgraça. Ele viaja pelo mundo conhecido dessa época (bem maior do que possamos imaginar) e encontra diferentes hábitos e crenças que muito se unem com a quele ele tenta transmitir.

    O mais surpreendente é constatar como estas sociedades da antiguidade eram tão evoluídas em termos de equilíbrio social, higiene e outras necessidades básicas que foram esquecidas após a sua queda.

    Gostaria de o partilhar no BookCrossing, mas antes vou emprestá-lo ao meu pai.
  • Okja

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    Okja
    Bong Joon-Ho
    2017
    Filme
    8 em 10

    Há certos filmes que revolucionam. Revolucionam a indústria, revolucionam a crítica. Revolucionam-nos. Este é um destes casos.

    Produzido pelo canal online Netflix, este filme é único pela sua distribuição: não passou pelas salas de cinema, excepto em excepções muito exclusivas, e foi libertado directamente na internet para que quem fosse assinante do canal o pudesse ver sem restrições. E, claro, quem não for assinante também o encontrará com toda a facilidade. Para além disso há uma escolha delicada dos participantes, havendo aqui uma mistura entre o americano e o coreano que não pode4 deixar de funcionar bem. Mas, com isto tudo, o filme poderia ser uma vulgar peça televisiva. Será?
     
    Okja é um super-porco, supostamente perfeitamente natural, nascido miraculosamente numa quinta. É enviada para a Coreia do Sul, onde é criada por uma menina e o seu avô. Mas, dez anos depois, o projecto está concluído e agora será levada de volta para os EUA, para ser apresentada como a melhor super-porca e demonstrar o quão ecológica esta espécie é. E, sobretudo, o quão saborosa.
     
    Esta é uma história irónica que nos apresenta a crua realidade da indústria da carne de uma maneira simpática o suficiente para poder ser vista por qualquer um sem nos impressionar grandemente. Mas eu conheço a indústria. E posso dizer-vos que é exactamente assim, o que torna o filme deveras assustador. Temos em oposição a grande empresa, liderada por uma Tilda absolutamente aterradora, e os revolucionários, uma Animal Liberation Front choninhas quue se afasta tanto da realidade que chega a ser cómica.
     
    E, no final, podemos apenas concluir que não podemos lutar nunca contra o sistema, por mais que mostremos a realidade às pessoas.  Como diz a vilã... "Se for barato as pessoas compram".

    E, assim, fica o sentimento agridoce de que este filme não mudará nada. Mas pelo menos tentou. Uma fábula inesquecível, perturbadora e triste. Talvez alguém sinta alguma coisa.



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