Archive for domingo, março 22

  • Antologia Poética de Antero de Quental

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    Antologia Poética de Antero de Quental
    Antero de Quental
    Século XIX
    Poesia

    Comprei este livro na Feira do Livro, pois estava barato e sentia falta de poesia nas minhas prateleiras. Enfim, tudo indica que poderia ter escolhido melhor poesia.

    Antero de Quental foi um jovem Açoreano que escrevia versús muito vunitos sobre coisas muito vunitas, nomeadamente Jesus, a espada em chama de Jesus, a águia de Jesus e coisas vunitas que Jesus fez. Enfim, é um tipo de poesia carregadíssima com esta misticidade cristã. Embora esta tenha uma certa graça quando bem utilizada, no caso de Antero de Quental podemos discernir que estão aqui os primórdios, as origens!, dessa coisa maravilhosa que é o azeite.

    Se existe poesia azeiteira, Antero de Quental é o rei.

    Não gostei de quase poema nenhum, mas ainda assim transcrevo para aqui um dos dois ou três que até achei interessantes:

    ... LUX DUBIA

    Verg.

    Visões! Visões longínquas!
    Ondas do céu - tão puras...
    nuvens do mar - tão brandas...
    e, em tudo... formosuras!

    Coisas incertas, vagas,
    que a gente vê passar
    pelo-crepúsc'lo à tarde,
    e erguer-se com o luar...

    E mal se sabe ao certo
    se estão, se andam girando,
    ou se é o olhar turbado
    que as foi alevantando...

    Astro, que está crescendo,
    imenso, desusado,
    e se acha ser escuro
    apenas é fitado...

    Relâmpago, que o olho
    mal sabe inda se viu
    e, já nesse horizonte,
    ao longe se sumiu...

    Imagens fugidias,
    que à noite andam girando
    e entre a vigília e o sono,
    no leito, visitando...

    Véus de cambraia e renda
    flutuansdo ao longe, ao longe...
    nota socmo sumidas
    no canto de algum monge...

    Que neste céu vaguíssimo
    tomassem corpo, enfim...
    saudades misteriosas
    que a gente vê assim.

    Nem bem ao certo sabe, 
    se as vê ou se é que as sente,
    ou só com, olhos de alma
    apenas as pressente.

    Aparições fantásticas
    que muito além da vida
    nos levam, em hora estranha,
    a alma adormecida!

    Oh! quem soubera, espíritos,
    donde assim baixais!
    se sois talvez a imagem
    - no céu - de nossos ais!

    Se sois apenas sonho
    que a mente nos criou....
    ou alma irmã da nossa
    que sobre nos pairou...

    Ou ser que anda vestido
    dos raios do luar
    e para a vaga altura
    nos vem a convidar...

    Não é deserto o espaço,
    o céu não é deserto
    e então - quem sabe? - às vezes
    se possam ver mais perto.

    Essas essências puras
    que além da esfera habitam,
    onde se escuta a música
    dos astros, que palpitam

    Pois são talvez espíritos
    e vêem donde vens,
    alma! vê tu se podes
    falar-lhes - tu que tens.

    Em ti, inda um reflexo,
    como tremente lua,
    dessa penumbra incerta
    - mas doce - onde flutua

    A essência, e onde enlaçados
    vão, como a adormecer,
    banhados no infinito - 
    - juntos - a causa e o ser.

    Vendo bem a coisa, até este poema é um pouco foleiro. O que havemos de fazer? :p
  • Message to Adolf

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    Message to Adolf
    Osamu Tezuka
    Manga - 36 Capítulos/5 Volumes
    1983
    8 em 10

    Este manga fala sobre três homens que partilham o mesmo nome: Adolf. Um deles é por nós todos conhecido como aquele que instigou uma das maiores guerras da humanidade e como criminoso principal do holocausto que nos flagelou a meio do século passado. Os outros dois... Bem, teremos de ler para o saber.

    Tudo começa nos jogos olímpicos de Berlim. Sohei Toge é um jornalista Japonês encarregado de fazer uma grande reportagem acerca das derrotas e vitórias desportivas. No entanto, tudo muda quando recebe mensagem do seu irmão pedindo que vá buscar uns documentos. Este irmão é um activista comunista e os documentos tornam-se no elemento central da narrativa policial em que este manga se baseia. São a prova escrita de que Adolf Hitler, que odeia os judeus, tem em si - afinal - sangue judeu. Preservar, encontrar, esconder e evitar que estes documentos caiam nas mãos erradas (enquanto os tentamos passar para as mãos certas) é o mote que Tezuka nos dá para uma diferente perspectiva da segunda guerra mundial.

    Participantes nesta história são também Adolf Kamil e Adolf Kaufman, personagens fictícias que têm um papel muito importante na caracterização da realidade de ambos os campos desta guerra impossível. Kamil é um judeu residente em Kobe, no Japão. Kaufman é o seu melhor amigo, mas após a morte do pai é enviado para a Alemanha para fazer parte da Juventude Hitleriana. A relação entre os dois é um elo muito importante para acompanharmos não só a narrativa policial como também a própria história da guerra.

    Esta está contada de forma directa e simples. Os horrores da guerra são expressos de forma evidente, por vezes gráfica mas nunca vulgar. Através deste conjunto de personagens, ficamos a saber todas as perspectivas, e nenhuma delas é agradável. Assistimos à execução sumária de judeus, assistimos aos bombardeamentos no Japão e assistimos a todas as consequências que tudo isto traz, não apenas para os nossos personagens mas para toda a história da humanidade. Afinal, temos um relance da vida na guerra do Médio Oriente pouco depois.

    O que é mais impressionante neste manga é a caracterização das personagens. Todas elas, todos os Adolf, começam com uma aura de inocência, em que as suas acções aparentam ter um lado positivo por mais que sejam horripilantes. Mas, a pouco e pouco, há uma degradação emocional e mental dos personagens, que os leva a ter atitudes cada vez mais desregradas e, usando palavras do próprio manga, "lunáticas". Gostei especialmente da caracterização de Hitler, que aparece como um louco assombrado por uma eterna solidão.

    A arte é, simplesmente, espantosa. Existem cenas grandiosas, com um detalhe profundo e uma utilização de texturas excelente (especialmente tendo em conta que não são utilizados screentones). O design dos personagens é realista, sendo que não temos um excesso de pessoas extremamente bonitas. Por vezes os designs podem parecer um pouco caricaturais, mas isso apenas contribui para o realismo de toda a história. Nos momentos de guerra, especialmente no respeitante aos bombardeamentos, há excelente utilização de luz, trazendo toda uma matiz de cor a estes elementos.

    Assim, este manga apresenta-se como uma das últimas obras do mestre Osamu Tezuka, mas também um trabalho fundamental para a caracterização do autor enquanto pacifista, um homem que lutou constantemente para que o horror da guerra não fosse esquecido da melhor maneira que sabia: contar histórias. É uma leitura emocionante, viciante, que não posso deixar de recomendar fortemente.
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