Archive for segunda-feira, março 02
Vampire Princess Miyu (TV)
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Vampire Princess Miyu
Hirano Toshiki - AIC
Anime - 26 Episódios
1997
7 em 10
Depois de ver o OVA, fiquei com extrema curiosidade em saber mais sobre Miyu e o seu universo. Felizmente que, dez anos depois, fizeram uma série para a televisão que colmata bastante bem as falhas da instância anterior.
É-nos apresentada uma história que poderia ser de vampiros, mas que toma contornos bastante mais misteriosos do que a base das "criaturas que bebem sangue". Bebem sangue, sim, mas mantêm-se no seu universo paralelo sem interferir com os seres humanos na maior parte das vezes. Quando o fazem, são os "shinma" e para os impedir de perturbar a vida tal como ela é existem os "guardiões". Miyu é um deles. Com a ajuda de Larva, um misterioso aliado, e um coelho e a envolvência de uma outra guardiã com poderes gelados, Miyu sela e destrói - episódio a episódio - uma variedade de monstros e criaturas.
De forma delicada e quase melancólica, vemos como estas criaturas se envolvem nos assuntos das pessoas e perturbam as suas vidas, transformando-as - elas próprias - em seres que pouco se aproximam dos seres humanos. É a influência que os shinma têm sobre a população, mais ou menos a nível individual, que forma estas narrativas que - curtas - se unem em temas como obsessões, a família, dilemas. Isto torna toda a série numa experiência muito interessante, apenas melhorada pela produção utilizada.
Em termos artísticos, há todo um ambiente de escuridão e tristeza recorrente, apesar de a a animação não ser um ponto muito forte. São utilizadas técnicas muito em voga na época, que disfarçam bem um orçamento que pode não ter sido o mais adequado a uma série desta magnitude. No entanto, é de valorizar todo o ambiente criado em torno destes mitos e da história de Miyu, que ficamos a conhecer melhor (e que eu não resisto em adicionar à minha lista de cosplays, como podem ver no Cosplay Portfolio)
O ambiente geral é potenciado por uma banda sonora misteriosa e altamente minimalista, que faz uso de instrumentos tradicionais dentro do folclore do Japão. Estas músicas estão muito adequadas ao tema atemorizante da série e tornam tudo numa experiência bastante mais perturbadora.
Um anime que me ficará na memória e que recomendo que vejam.
By : ladyxzeus
Dez Dias que Abalaram o Mundo
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Dez Dias que Abalaram o Mundo
John Reed
1919
Não-Ficção
Recebi este livro como RABCK no BookCrossing.
A Revolução Russa é um assunto do qual apenas soube nas aulas de história. Tinha uma vaga noção de que chegaram os bolcheviques e mataram a princesa Anastácia à queima-roupa. Com este livro, para o qual me inscrevi por puro acaso, vim a aprender uma série de coisas que não se conjugam em nada com aquilo que eu pensava.
John Reed foi um dos pouquíssimos comunistas americanos. Estava na Rússia, em Petrogrado, quando aconteceu esta revolução vermelha e, assim, pôde narrar-nos com toda a exactidão o que realmente se passou. E o que realmente se passou parece digno de um livro de Kafka.
Para começar, a minha primeira realização. Sempre aprendemos a primeira guerra mundial e a revolução bolchevique em capítulos diferentes. Por isso, apesar das datas (1917 e tal), nunca me ocorreu que as duas se passassem ao mesmo tempo. Isso explica muita coisa. Afinal, o mote para tantas revoluções são exércitos a passar fome.
Mas a diferença destas pessoas para outras, de outro lugar qualquer do mundo, é que estas pessoas são comunistas. Comunistas na origem do comunismo. Eu gosto bastante da teoria, mas este livrinho vem a provar que é tudo demasiado difícil para funcionar. Demasiado burocrático. Vejamos um exemplo abstracto:
"Muito bem, estamos a fazer a revolução. Vamos tentar organizar-nos de forma democrática. Por isso votamos. Votamos num comité que vai votar para formar outro comité que votará a divisão igualitária de bens por todas as pessoas, que se formam em comités e votam para decidir a divisão igualitária real, por todos aqueles que votam"
É mais ou menos assim ao longo de 10 dias/250 páginas.
Isto é hilariante, mas ao mesmo tempo um pouco triste. Afinal, as ideias são boas. As pessoas é que as complicam.
By : ladyxzeus
Persepolis
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Persepolis
Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
Animação
2007
7 em 10
Para a segunda volta, o Qui escolheu este filme, sobre o qual eu até alimentava uma certa curiosidade. Baseado na banda desenhada de mesmo nome, faz um bom trabalho na adaptação, pois parece realmente que estamos a ver um conjunto de vinhetas com movimentos.
O filme, flagrantemente autobiográfico, conta a história de Marjane, uma miúda com ideiais fortes que viu o Irão como era e como se tornou. Muitas pessoas pensam que estes países começaram desde logo por ser habitados por malucos com toalhas na cabeça, mas a verdade é que eram bastante parecidos com as nossas terras antes da revolução os ter impelido para uma ditadura religiosa. Tudo começa com Marjane em pequena, a descobrir a música e a tentar adaptar-se a uma realidade que cada vez mais se afasta daquilo que ela considera como a normalidade.
Depois, estala a guerra. Marjane é forçada a viajar para a Europa. Ali, processa-se uma nova transformação.
É um filme muito musical, falando da cena alternativa de cada país e falando, sobretudo, da dificuldade de uma jovem que sobreviveu a uma guerra em adaptar-se a universos nos quais não se consegue integrar. De um lado, não tem liberdade para se expressar e é vítima de um machismo inerente q1ue não pode suportar. Mas por outro lado, na Europa é vítima de constante racismo e é forçada a fingir ser alguém que não é para poder sobreviver. Isto, é claro, leva à depressão, retratada com excelência e mestria que apenas pode ser atingida por quem já lá esteve.
No respeitante a animação, temos uma abordagem bastante original: preto, branco e toda uma variedade de cinzentos. Toda a história do passado, certamente por alguma razão simbólica, está retratada nestas cores (ou não-cores), que se apresentam com muita variedade de matizes. Existem momentos altamente originais que retratam uma diversidade de sentimentos e, no fundo, acabamos por nos converter a esta vida a preto e branco.
Um filme bastante bom, forte e educativo no que respeita à realidade da guerra do Irão. No entanto, acho que a banda desenhada poderá ser ainda mais impressionante.
By : ladyxzeus
Invention of Love
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Invention of Love
Andrey Shushkov
Animação - Curta Metragem
2010
6 em 10
Depois, para bater a hora certa, vimos algumas curtas metragens, mas só me lembro bem desta (não me estava a sentir muito bem)
Uma interpretação do teatro de sombras tradicional, conta a história de uma paixão entre uma mulher normal e um homem mecânico, com subsequente tragédia. A história tem o seu interesse e mereceria uma continuação, pois há material no conceito para isso.
Em termos de animação, a escolha estilística é interessante, mas acaba por ser um pouco aborrecida passado uns minutos, pois tem muito pouca variedade, sendo o detalhe apenas limitado a alguns momentos. Há uma boa utilização de luz nas cenas nocturnas, mas na maior parte do tempo a cor dos cenários não enfatiza as figuras negras, que se movem. Para mais, a utilização de elementos digitais não funciona muito bem neste contexto, pois a tridimensionalidade acaba por não fazer grande sentido.
Ainda assim, isto é coisa para durar dez minutos, portanto aí fica para vocês verem :3
By : ladyxzeus
Black Mirror - White Christmas
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Black Mirror - White Christmas
Carl Tibbets e Charlie Brooker
Séria Special - 1 Episódio
2014
Black Mirror foi, possivelmente, a única série da actualidade que eu vi. E o meu sentimento em relação a ela é que devia ter muito mais episódios. Assim, foi com alegria que aceitei a sugestão do Qui para vermos este episódio especial, dedicado ao Natal.
O episódio trata três histórias diferentes, todas com o tema recorrente do "Natal", que se interligam no final em termos narrativos e de conceito.
Tudo começa com dois homens que se encontram há "cinco anos" na mesma casa. Um deles prepara o jantar de Natal enquanto fala da sua história e tenta saber mais sobre o seu companheiro. A sua história está relacionada com uns olhos especiais, que toda a gente tem. Através deles ele serve de conselheiro amoroso a jovens com problemas afectivos, mas quando tudo corre mal vê-se "bloqueado", o que significa que não pode ver o seu interlocutor, nem ouvi-lo, e o contrário.
Depois, fala do seu trabalho real. É conselheiro também, mas conselheiro de consciências. Aqui, é introduzido um novo conceito, os "cookies": cópias da nossa própria consciência que podem ser usadas para diversas tarefas. No caso, tomar conta da casa. Aqui se coloca a questão moral: será que está correcto utilizarmos a nossa consciência, ainda que seja apenas feita de dados, e torturá-la? Será que é de todo justo fazer uma cópia dela? E, afinal, para que serve?
É o que observamos na terceira história, mas não falemos disso. Aqui, o outro homem começa a contar a sua história. Mais uma vez voltamos ao conceito do "block", mas com uma narrativa de afectividade e obsessão, com um personagem muito bem caracterizado na sua loucura.
Assim, este longo episódio - longo como um filme - apresenta-nos conceitos modernos, uma ficção científica altamente realista como aquela a que toda a série nos tinha habituado. Os efeitos são vagos, mas afectam-nos emocionalmente, pois há uma transposição para a nossa realidade e as consequências dissodão que pensar, quase filosofia.
Assim, recomendo este episódio para todos os fãs da série. Quem nunca assistiu também pode ver este episódio, pois nenhuma relação - fora o tema - tem com os anteriores.
By : ladyxzeus