Archive for quarta-feira, julho 27

  • Os Vampiros

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    Os Vampiros
    Filipe Melo e Juan Cavia
    2016
    Banda Desenhada

    Comprei este volume no passado Anicomics. Escolhi-o sobretudo pela sinopse: porque não é vulgar vermos um trabalho gráfico sobre a guerra colonial. E ainda bem que o trouxe, porque foi das coisas mais arrepiantes que li ultimamente.

    Um grupo de soldados portugueses e o seu guia é enviado para o Senegal em busca de uma base, sobre a qual deverão dar certas coordenadas. Mas o caminho torna-se mais complicado do que parece à primeira vista. À medida que vamos conhecendo a equipa, situações bizarras começam a acontecer, misturadas com os seus sonhos e as suas memórias, cada vez mais conturbadas pela guerra em que são forçados a viver. As situações que ocorrem têm um misto de fantástico e real, em que nunca é estabelecido o que se passa realmente. Será que é tudo imaginação? Será que as coisas estão mesmo a acontecer?

    Existem mesmo vampiros nestas florestas? Ou somos nós os vampiros?

    Este álbum caracteriza no seu pleno um imaginário da guerra que, sempre cada vez mais romantizado pelo cinema americano, se caracteriza pelo horror constante, pelo medo e pelo desespero. Os pesadelos dos personagens ajudam muito no grafismo deste pânico constante, em que se torna difícil distinguir o que está certo e o que está errado, ou mesmo qual a atitude correcta a tomar quando confrontados com situações agressivas.

    A arte é luxuriante e apelativa, com designs estilizados mas ainda assim muito realistas. Isto acaba por tornar esta leitura numa experiência muito cansativa emocionalmente, em que o coração quase para em alguns momentos, para logo recomeçar a bater com toda a intensidade. Um livro que nos faz querer gritar e chorar e dizer "vão por todos os caminhos, mas não vão por aí". Um livro que não romantiza e que mostra que, de entre todos os horrores, as pessoas são os piores deles todos.

    Trata-se de uma edição de luxo, com páginas e capa de grande qualidade. Acho que vale a pena a compra, se não pelo volume, pela própria leitura. Fascinante e arrepiante, merece um lugar de destaque no universo da banda desenhada actual.

  • Tetsuwan Birdy Decode:02

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    Tetsuwan Birdy Decode:02
    Akane Kazuki - A-1 Pictures
    Anime - 12 Episódios
    2009
    6 em 10
     
    A primeira season, quando a vi, até me soube a novidade. Mas esta segunda season é mais um 6 a dar para o 5, ao contrário da anterior.

    Tudo está normal, há duas pessoas em Birdy, os aliens andam por aí e ela tem de se fazer passar por modelo erótica para fãs patéticos. Por mero acaso, ela encontra um amigo de infância, lá do planeta de onde ela veio. E ocorre uma onda de mistérios e coisas que precisam de ser resolvidas, tendo à mistura uma série de flashbacks da infância para além da estratosfera.

    E isto, perdoem-me, acaba por se tornar aborrecido. Os personagens perderam a sua frescura e encontram-se agora divididos por problemas que afectam qualquer outro personagem de anime. A história é previsível e estéril. Os flashbacks pecam por exagero e não adicionam nada de especialmente interessante.

    A própria animação pareceu-me menos cuidada, sendo que as cenas de acção fabulosas que caracterizavam a primeira season estão agora cada vez mais próximas de um rascunho, sendo que - apesar de fluídas - perderam qualquer tipo de detalhe e acabam por se tornar dolorosas.

    Não poderei dizer muito sobre a música, pois a versão que tirei vinha sem OP e ED (e com legendas tanto em espanhol como inglês, o que me confundiu muitas vezes, lol).

    Enfim, fiquei bastante desapontada com esta segunda season. Espero que não haja mais.

  • Em Busca do Tempo Perdido 3 - O Caminho de Guermantes

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    Em Busca do Tempo Perdido 3 - O Caminho de Guermantes
    Marcel Proust
    1920
    Romance
     
    Cá continuo eu em busca do tempo perdido. Informo, a quem se interesse, que ainda não o encontrei. Mas, também a quem se interesse, digo que este livro é, mais uma vez, um exercício de fascinação.

    Desta feita o narrador, mais crescido, regressado das fabulosas férias em Balbec, decide envolver-se com a aristocracia vigente, desenvolvendo uma paixoneta pela Sra. de Guermantes. Assim, é convidado para casa destas pessoas e este volume relata o convívio com esta gente e as conversas que têm em longos serões.

    Em que consistem estas conversas? Bem, nada de muito diferente do que se passa hoje! Senhoras que dizem mal de outras senhoras, recusando-se por causas e outras causas a visitarem-se umas às outras. Senhores que implicam com outros senhores, afirmando a falta de inteligência uns dos outros. Piadas que dizem, que seriam muito catitas se realmente tivessem graça. E uma discussão política recorrente ao longo de todo o volume: o caso Dreyfus.

    Este foi um caso que dividiu opiniões na época, que consistiu na condenação injusta de um oficial judeu por razões que nunca ficaram por apurar (mas que se acreditam ser o facto de o rapaz ser judeu). Os personagens de Proust dividem-se em dreyfusistas e anti-dreyfusistas e, apesar de nunca discutirem abertamente uns com os outros, conseguimos ter uma visão bastante realista das opiniões da época. O autor apresenta-as sem nunca tomar um partido, o que acaba por tornar todo o debate numa experiência excitante, em que procuramos tomar uma posição baseados no que os personagens opinam.

    Mas há um senão nisto tudo. E o próprio autor sabe disto e explora isto. As pessoas deste livro, acaba o narrador por descobrir mais tarde, são completamente destituídos de qualquer tipo de interesse. São pessoas puramente vulgares, armadas ao pingarelho por posições políticas e familiares que, conforme as consequências de Dreyfus, se tornam progressivamente obsoletas. Assim, as últimas páginas deste livro foram um suplício para mim: eu simplesmente não queria saber mais sobre os sapatos da duquesa. O que é verdadeiramente fascinante é a compreensão que o narrador faz disto e o seu progressivo afastamento, pontuado pela aproximação que lhe fazem.

    Agora vamos para o quarto volume, que estou desejosa de ler para saber por que caminho vai o narrador a seguir. :)
  • Zatoichi

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    Zatoichi
    Takeshi Kitano
    Filme
    2003
    6 em 10

    Sábado, dia para trabalhar e, posteriormente, ver um filme do Takeshi :) Este filme é uma nova versão, modernizada, de uma figura lendária do universo da ficção japonesa: Zatoichi, o samurai cego.

    No entanto, este filme mostra-nos o personagem numa perspectiva um pouco diferente: porque a versão de Zatoichi de Takeshi Kitano é mais um (apenas mais um?) filme de yakuza, disfarçado de filme de época. Todos os elementos estão presentes, a família vingativa, a família que deve ser protegida, as lutas entre gangs, os maus tratos às pessoas. Mas, como tudo se passa numa época passada, não há armas de fogo presentes (digamos...): é tudo à base da espada.

    Tendo isto em conta, o efeito do filme acaba por ser mais cómico do que outra coisa. Os personagens estão plenos de gags que, em conjugação com a narrativa, retiram qualquer potencial de seriedade ao filme. No entanto, o objectivo de Takeshi parece ser precisamente esse: pegar no personagem mais sério da cultura popular japonesa, um mito literário intocável, e desconstruir a sua história para uma realidade actual com a qual nos podemos identificar.

    Ajuda a caracterizar tudo isto, um guarda roupa que busca exactidão histórica na forma, mas que a ignora na utilização, padrões e cores: apesar de todos usarem trajes típicos, a forma como estão usados é reminiscente da moda yakuza vigente no final dos anos 90.

    Apesar disto, a forma como os arcos narrativos dos personagens se interligam na ligação com Zatoichi, acabam por tornar o filme numa viagem muito interessante. A interpretação de Takeshi é única: para um actor que se caracteriza pelo uso do olhar, o facto de ter sempre os olhos fechados acaba por não ser uma limitação: antes, uma libertação do modelo.

    Assim, é um filme interessante em certos aspectos, mas que não consegue desviar-se muito do lugar comum. Guardemos Takeshi para outras ocasiões.


  • Yomigaeru Sora

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    Yomigaeru Sora
    Sakurabi Katsushi - J.C. Staff
    Anime - 12 Episódios + 1 Special
    2006
    7 em 10

    Na eterna busca de animes sempre melhores, por vezes há títulos que, inesperadamente, nos surpreendem muito pela positiva. Yomigaeru Sora, ou "Rescue Wings", foi um desses.

    É raro encontrarmos neste mundo animesco um título que trate dos dramas da vida real das pessoas adultas, num âmbito puramente realista e com apenas leves ligações à ficção fantasiosa. Assim, este anime aparece como uma fonte de água fresca, perfeita para um Verão quente como este. O assunto que trata é a actividade de certo personagem num grupo de busca e salvamento com helicópteros, actividade que ele ao início deprecia. É o processo de compreensão do valor desta profissão pela parte do personagem, à medida que ele tem de tomar acções cada vez mais complexas dentro da sua formação e actividade, que caracteriza esta série.

    A cada episódio (ou cada dois episódios) vemos um novo caso que deverá ser resolvido pela acção deste grupo de salvamento. Infelizmente, os casos aproximam-se demasiado bem de situações que podem realmente acontecer nas nossas vidas. E, infelizmente, nem todos terminam da maneira perfeita. Isto é, de certa forma, uma aproximação ao nosso próprio universo: não se podem salvar todos. Por outro lado, é uma alavanca para a a evolução do personagem e da sua relação com os outros. Estes, os outros, também passam por um muito interessante processo de caracterização, em que os diversos elementos das suas próprias vidas (tão ricas como as do protagonista) lhes dão novas perspectivas de descoberta sobre si mesmos e sobre as suas convivências pessoais. No que me respeita, achei especialmente comovente a cena de destruição dos livros.

    Relativamente a outros elementos do anime, estes são bastante equilibrados e ajudam na visualização deste universo em tudo decalcado do nosso. Os designs hiper-realistas podem ser, por vezes, um pouco confusos, sendo que a animação digital da maquinaria poderia ser melhorada. No entanto, esta está bastante detalhada. Musicalmente, temos uma banda sonora discreta e ligeira, sendo que os elementos mais contundentes são os efeitos sonoros do mundo natural.

    Um anime que recomendo vivamente, nem que seja pelo facto de ser completamente diferente do que nos aparece na maior parte das vezes.

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