Archive for segunda-feira, maio 19

  • Kara no Kyoukai: Mirai Fukuin

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    Kara no Kyoukai: Mirai Fukuin
    Sudou Tomonori - ufotable
    Anime - Filme
    2013
    7 em 10

    Não estava nada à espera que aparecesse na lista dos downloads um novo filme de Kara no Kyoukai! Qual não foi a minha alegria!! Para saber dos filmes anteriores, do qual este é uma outra história/sequela/história alternativa (saberemos um dia mais tarde) consultem o motor de busca do blog, neste local.

    Este filme trata de dois jovens bastante jovens que têm a capacidade de ver o futuro, cada um com um tipo de habilidade diferente. A rapariga, que vive traumatizada pelo facto de prever o futuro, pode ver uma possibilidade, uma possibilidade provável. O trabalho do filme é retirar-lhe esse trauma e apresentá-la para, eventualmente, eventos futuros. O rapaz, outra história, consegue ver o futuro mais proveitoso para ele e a forma exacta de o concretizar. Portanto, torna-se bombista. Aí entra Shiki, a minha maravilhosa Shiki. O meu futuro cosplay (talvez para o ano)

    Depois, dez anos para a frente, coisas surpreendentes aparecem. E deixa-nos muita vontade de saber o que se passou nesse espaço de tempo e qual a nova aventura que os nossos amigos viverão.

    Não existem muitas cenas de acção, mas a animação está estupenda. O mesmo não posso dizer dos cenários, que estão demasiado mecânicos e com formas demasiado fixas na sua paleta. A variação de cores também não se apresenta muito bela, ao contrário de outros filmes do franchise.

    Em termos musicais, mais do que já estamos habituados, com grandes corais. No entanto, também na música há uns momentos pop que, adequando-se à situação, não se adequam ao tom estranhamente negro de Kara no Kyoukai.

    Um filme que deixa um gosto na boca e muita vontade de mais. Espero que venha em breve, e que venha mesmo!
  • Clube da Luta

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    Clube da Luta
    Chuck Palahniuk
    1996
    Romance

    Atenção, atenção meus senhores e minhas senhoras! Aqui não falaremos de filme algum! Esse está comentado aqui. Aqui tratamos do livro! E aviso desde já que quem gostou do filme tem todas as razões para o ler. Porque é ainda mais divertido!

    Eu não tenho uso, e não gosto muito, de fazer comparações entre medias diferentes. Mas neste caso parece-me necessário. Então, qual a diferença entre o livro e o filme? O livro é muito mais detalhado e, sobretudo, passa uma sensação de loucura e esquizofrenia muito mais apurada, coisas que se perderam na transcrição para filme. Também existem mais detalhes interessantes no livro que não perderiam nada em ter sido adaptadas. Mas posso dizer que o filme, todo ambiente e envolvência, está muito de acordo com o que está descrito na narrativa. Portanto, ambos valem a pena, mas sugiro ver o filme primeiro.

    Um homem sem nome conhece Tyler Durden quando vai à praia. Este homem tem um problema: não consegue dormir. Tyler aparece na sua vida e juntos formam o "Clube da Luta", onde pessoas lutam mediante algumas regras. Todos conhecemos a primeira. Mas à medida que o nosso homem consegue adormecer, Tyler começa a causar o caos. Reune gente, muita gente, gente por todo o lado, e começam a causar o pânico e a anarquia, através de maldades simples que qualquer um de nós, com a motivação certa, pode fazer.

    O livro é todo ele o discurso do ódio perante a humanidade, do nojo e do desprezo pela vida alheia e pela própria vida. No entanto, isto é antítese do personagem, pois sabemos que ele tem um problema (embora até ao final não saibamos qual é exactamente). Também é crítica à sociedade e, sobretudo, ao anti-social, ao grupo, ao gregarismo.

    A forma como a narrativa está construída é rápida e viciante. Entramos numa espiral de acontecimentos dos quais não podemos sair, que não podemos interromper, pois seguem-se uns aos outros de forma inesperada e alucinante. Alucinante talvez seja a palavra certa, pois estamos diante de uma alucinação (Única? Colectiva? Quem sabe...).

    Recomendo fortemente. O filme é bom, mas o livro é uma delícia.
  • Antologia Poética de Vinicius de Moraes

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    Antologia Poética
    Vinicius de Moraes
    1967
    Poesia

    Quando regressei ao Kobo, tinha este livro escolhido para ler a seguir. Embora tivesse lido alguma poesia na semana anterior - o que me levaria a uma interrupção no género, pois gosto de variar - pensei "porque não". E ainda bem que pensei assim, porque eu não compreendo como pude passar tanto tempo da minha vida sem ler tão excelente obra poética.

    Vinicius, Poeta com Pê. Poeta com uma linguagem acutilante e exacta, mas ainda assim bela. Poeta com um sentido de humor sempre presente e tão apropriado. Parece-me que a grande diferença entre Vinicius e os outros é que este criador sabe sempre o que quer dizer e di-lo com certeza e exactidão, sem dar muitas voltas ao assunto para o tornar bonito. Porque a forma de o dizer já é bonita por si só. Percebemos exactamente o que ele quer expressar, mas a linguagem usada é... Poética? O que é certo é que o senhor faz poesia, poesia que dá gosto ler, que é apaixonante e viciante.

    Recomendo a todos. Como gostei de imensos poemas, não pude cingir a minha escolha para por aqui a apenas um. Escolhi três, que passarei a citar. Espero que gostem :)

    A uma mulher

    Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
    Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
    E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
    Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
    Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
    Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
    Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
    Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
    E que era preciso fugir para não perder o único instante
    Em que foste realmente a ausência de sofrimento
    Em que realmente foste a serenidade.

    Rio de Janeiro, 1933

    Vida e Poesia

    A lua projetava o seu perfil azul
    Sobre os velhos arabescos das flores calmas
    A pequena varanda era como no ninho futuro
    Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
    - Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
    Só os perfumes teciam a renda da tristeza
    Porque as corolas eram alegres como frutos
    E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
    Eu me pus a sonhar o poema da hora.
    E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
    Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
    Talvez ao pressentir na carne misteriosa
    A germinação estranha do meu indizível apelo
    Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
    Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
    E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
    Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
    Que ao vê-lo trilhar sobre os teus dentes como um címbalo
    E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
    E marulhar entre os teus seios como uma onda
    Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
    De que me tivesses possuído antes do amor.

    Rio de Janeiro, 1938

    Mensagem à Poesia

    Não posso
    Não é possível
    Digam-lhe que é totalmente impossível
    Agora não pode ser
    É impossível
    Não posso.
    Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
    Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
    Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
    Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
    E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
    A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
    Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
    Que a vergoinha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida
    Façam-lhe ver que é preciso estar elrta, voltado para todos os caminhos
    Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
    Ponderem-lhe, com cuidado - não a magoem... - que se não vou
    Não é porque não queira: ela sabe, é porque há um herói num cárcere
    Há um lavrador que foi agredido, há uma poça de sangue numa praça.
    Contem-lhe, bem em segredio, que eu devo estar prestes, que meus
    Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem 
    Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
    E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
    Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
    Aos homens perplexcos; digam-lhe que me foi dada
    A terrível participação, e que possivelmente
    Devere enganar, dfingir, falar com palavras alheias
    Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
    Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
    Desse invencível dever que é o meu; mas digam-khe
    Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
    Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
    Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclartecimento
    Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
    Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
    Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há 
    Um náufrago no meio do ocenano, um tirano no poder, um, homem
    Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
    Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
    Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
    Há fgantasmas que me visitam de noite
    E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
    No amanhã
    Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
    Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
    Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
    Com sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
    De ter de abandoná-la nestes instante, em sua imensurável
    Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
    Por um momento, que não me chame
    Porque não posso ir
    Não posso ir
    Não posso.
    Mas não a traí. Em meu coração
    Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
    Envergonhá-la. A minha ausência.
    É também um sortilégio
    Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
    Num mundo em paz. Minha paixão de homem
    Resta comigo, minha solidão resta comigo; minha
    Loucura resta comigo. Talvez em deva
    Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
    O gosto de suaslágrimas, olhá-la correr
    Livre e numa nas praias e nos céus
    E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
    O meu martírio; que às vezes
    Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
    Forças da tragédia abastacem-se sobre mim, e me impelem para a treva
    Mas que eu devo resistir, que é preciso...
    Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
    Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
    Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
    Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
    A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
    A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
    Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
    A quem foi dado se perder de amor pelo direito
    De todos terem uma pequena casa, um jardim de frente
    E uma menininha de vermelho; e se perdendo
    Ser-lhe doce perder-se...
    Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
    Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
    Que me esperte, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
    É mais forte do que eu, não posso ir
    Não é possível
    Me é totalmente impossível
    Não pode ser não
    É impossível
    Não posso.
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