Archive for quinta-feira, outubro 27

  • Conversa n'A Catedral

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    Conversa n'A Catedral
    Mario Vargas Llosa
    Romance
    1969

    Ora bem, eu andava com um certo calhamaço dentro da mala. E as pessoas perguntavam-me: "que livro é esse" e eu dizia "é um livro do mário vargas lhosa". E depois perguntavam-me "e é sobre o quê" e eu dizia "não sei".

    Porque acontece que a Conversa n'A Catedral é mesmo uma conversa. Não é sobre nada. É sobre a vida. Sobre a vida de Zavala e de Ambrosio, mas das perspectivas de Zavalita, de Amalia, de Hortensia, de Hipólito, de uma série de gente. Tudo isto sob o jugo do General Odría no Peru dos anos 50.

    Muitíssimo bem escrito, com todas as palavras nos lugares certos, em que até o mais estranho vocabulário se torna simples, este livro apresenta uma narração algo confusa, uma mistura de várias descrições e narrativas ao mesmo tempo. Custa um bocado a apanhar o estilo, mas quando se entra nele tudo se torna claro e fácil. É isto o que distingue o bom escritor do escritor vulgar? Creio que sim.

    Existem muitos personagens, todos eles únicos, realistas, afrontados pela dureza que os rodeia, portadores de sentimentos e problemas que caracterizam toda uma era. Este livro é feito das situações que são feitas pelas pessoas. É o facto dessas pessoas estarem tão bem desenhadas que transmite os sentimentos da época e a torna, a nós que nunca lá estivemos, palpável.

    Um livro excelente. Eu pensava que ele nunca ia acabar, mas acabou. E todos vamos morrer um dia, não é?
  • Planetes

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    Planetes
    Taniguchi Goro - Sunrise
    Anime - 26 Episódios
    2003
    8 em 10

    A verdade é que existe anime sobre tudo. Até existe anime sobre homens do lixo. Mas, para dar uma certa classe à profissão, não são uns homens do lixo quaisquer. São homens do lixo do espaço.

    Planetes é uma delícia, uma cornucópia de visões e de sentimentos e uma viagem ao espaço, 10.000 anos depois entre Vénus e Marte. Começando pela história. De uma simplicidade única, apresenta-se como um dos argumentos mais originais da década. Conta-nos o dia a dia daqueles que, por competência própria ou do destino, acabaram a apanhar o debris espacial criado ao longo dos anos. É uma profissão importante, tal como qualquer outra, mas sobrevalorizada na empresa a que pertence. A luta do dia a dia dos personagens é contrabalançada pela luta entre as várias esferas de poder empresarial e do mundo do doismilesetentaepico. Assim temos a vida das pessoas equiparada à vida do mundo, e do universo, de uma forma tão equilibrada que se torna bela. E o anime não se coíbe de aproveitar a deixa para promover a paz no mundo, por um planeta unido e sem guerra.

    Planetes não é só "planetas". Planetes é "wanderers", os que "andam por aí", os que procuram. Planetes não é só uma história do dia a dia, mas é também a história das pessoas. Cada personagem é único e tão real que o podemos palpar. Todas as pessoas são normais e vivem na normalidade. Têm problemas como os nossos, têm crises como as nossas, têm desejos como os nossos. São pessoas como nós. E, tal como nós, mudam com as suas experiências, para melhor ou para pior. Cada personagem cresce à sua maneira, de forma perfeita, nunca apressada, cada personagem busca em si própria a maneira de mudar para atingir os seus objectivos. E, tal como nós, por vezes falham neste processo. E voltam a por-se de pé. Hachimaki tem das melhores progressões alguma vez criadas, passando por várias fases até descobrir verdadeiramente o que deseja e sente. Tanabe Ai também muda de forma perfeitamente orquestrada, crescendo, passando de menina ingénua a mulher, mas sem nunca mudar a sua perspectiva de ver a vida. São pessoas.

    A arte é muito bela. O espaço não tem muito que ver, mas da perspectiva destes homens e mulheres até no quotidiano se encontram paisagens maravilhosas. A animação é muito cuidada e as cenas com acção são detalhadas. Os designs dos personagens são adequados e a estrutura de toda a maquinaria e tecnologia é extremamente realista. Porque, efectivamente, um fato de astronauta nos doismilesetentaepicos provavelmente será parecido com os de agora e não será um plugsuit perfeitamente ajustado às curvas dos enormes seios da bela pilota da nave espacial que, com os seus longos cabelos a esvoaçar no vácuo, faz movimentações e lança raios laser. Gostei especialmente da manutenção do efeito da gravidade (ou falta dela) nos movimentos dos personagens e dos objectos. Também das várias visões que temos do planeta Terra e do Sol e da Lua, a girarem sobre eles próprios a uma velocidade que não vemos.

    A música é apropriada, mas não memorável. Pessoalmente, eu consigo ver a Equipa de Debris a trabalhar ao som de Fuga para o Espaço, mas se calhar sou só eu.

    Um anime carregado de mensagens importantes e tocantes. Uma delas impressionou-me especialmente: a imagem da rapariga da Lua a brincar no "mar". Vou reter esta imagem durante muito tempo e vou falar dela a toda a gente até se fartarem: foi belo. Foi intenso. Foi perfeito.

    Não estava à espera que um anime sobre homens do lixo fosse assim. Mas a verdade é que Planetes passou a figurar na minha lista de favoritos. Extremamente recomendável.
  • Shigofumi

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    Shigofumi
    Satou Setsuo - J.C. Staff
    Anime - 12 Episódios + 1 Special
    2008
    6 em 10

    (Nota: Não sei se repararam, mas passei a adicionar o estúdio produtor juntamente com o realizador, para o Anime. Porque num anime a equipa é por vezes mais importante que a pessoa individual)

    Uma boa premisa. Shigofumis são cartas que os mortos mandam a quem de direito. E Fumika é aquela que serve de carteiro, auxiliada pela sua colega Kanaka (que, coitada, não passa de um bastão). No entanto, se há algo que pode caracterizar este anime é a palavra... Mediano.

    Esta história tem uma natureza episódica, com um ou dois ou três episódios dedicados a cada carta. A meio caminho começamos a falar de Fumika. Mas tudo é previsível a partir da primeira pista e não se guarda uma pinta de mistério para nos agarrar. Aquilo que me agarrou foi tentar saber o que cada carta dizia, mas as probabilidades eram simples e a novidade serviu sempre como uma simples confirmação.

    Os personagens são normais. Nada fora do vulgar. As suas histórias também não eram fora do vulgar, por isso não se podia esperar muito deles. Não há um desenvolvimento entroncado e as suas acções baseiam-se sempre na opção mais simples e no lugar comum. Além disso, porque é que tinham de fazer Chiaki de bêbada (e porque é que lhe tinham de dar importância? Só para ter uma personagem loira no elenco?) O único personagem interessante será talvez Kirameki, pelo seu belo psicótico, mas até ele se perde no exagero e no vulgar.

    A arte não é nada de mais. Não há grandes detalhes nem grande originalidade na concepção do design. Talvez os fatos dos carteiros sejam engraçados de se fazer, mas não saem muito dos parâmetros estipulados para os carteiros que aparecem em séries de anime.

    OP de Ali Project, o que dá sempre um ar de mistério clássico à obra a que se refere, mas aqui não há mistérios nem classicismos, por isso é desapropriada. Tudo o resto, das vozes ao resto da OST, é algo já visto, mais que batido, mais que repetido.

    Interessante, até mantém uma pessoa mais ou menos agarrada, mas não se distingue dos outros animes sem ser pela premisa, mal aproveitada.
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