Archive for sexta-feira, março 25

  • The Care of Birds

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    The Care of Birds/O Cuidado dos Pássaros
     Francisco Sousa Lobo
    2015
    Banda Desenhada

    Este foi o livro que eu realmente queria comprar à Chili com Carne no AmadoraBD. :) Vencedor do concurso "Toma 500 paus e faz uma BD", é uma banda desenhada adulta, forte e estremecedora.

    "Peter Hickey está para os pedófilos como um observador de pássaros está para os caçadores". Assim este personagem se descreve a si próprio. Mas em que medida será isto verdade? Peter Hickey é um personagem profundo, com várias camadas que se vão revelando à medida que viramos as páginas. é um homem mais ou menos idoso, que tem o passatempo de anilhar pássaros. Para isso, gosta de se fazer acompanhar de meninos com idades entre 10 e 12 anos. Mas porquê? Diz ele que há uma certa pureza na amizade entre um homem e uma criança. Mas os pássaros têm outras coisas a dizer.

    Vemos o personagem entrar numa espiral de loucura e auto-comiseração: o que ele procura, a companhia infantil, não pode ser conseguido. Os pássaros sabem disso. No entanto, quando ele encontra outras pessoas que o apreciam, não é capaz de lidar com as vozes dos pássaros. Os pássaros falam com ele frequentemente, e frequentemente dizem coisas terríveis.. Mas não só as aves são simbólicas. Também as pessoas, os outros personagens, têm diversos significados dentro da mente de Peter Hickey. Assim, todos os momentos de convívio acabam por ter mais profundidade do que aquela que poderíamos pensar à primeira vista.

    A arte é simples, mas cheia de cor na sua simplicidade. Aparentemente lisos, os desenhos começam a ganhar texturas variadas e diferentes, levando-nos a entrar nos meandros do pensamento do personagem. Também este tem uma variedade de expressões que nos permitem encontrar a sua humanidade que, apesar de horrível, é verdadeira.

    O capítulo final pareceu-me um pouco confuso, já que há a introdução de novas personagens, mas a revelação tem muito poder: o encontro do personagem com os seus verdadeiros sentimentos, a sua confissão, a libertação da "mentira" em que viveu até agora, acaba por o tornar num espírito quase catatónico, cheio de medos, cheio de horrores.

    Será culpa dos pássaros? Espero que tenham contribuído...

    Um livro poderoso que toca num assunto que ainda é tabu. A não perder.

  • Poesia de Ricardo Reis

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    Poesia de Ricardo Reis
    Ricardo Reis
    Anos 10 - 30
    Poesia

    Continuo na minha senda de ler a obra de Fernando Pessoa em volumes publicados pelo Jornal Expresso, que me foram cedidos pelo Stepfather (que compra o jornal frequentemente). Agora chegou a vez de ler o meu heterónimo preferido, a faceta de Pessoa que gosto mais: Ricardo Reis.

    Lembro-me de quando estava na escola, chegámos a esta matéria e o professor (que era um idiota, diga-se de passagem :) ) insistiu muito na ideia de que para Ricardo Reis a vida era uma coisa moderadamente indiferente. Citando, "como um rio que passa". Agora, depois de ler grande parte da sua poesia (este volume tem poemas seleccionados e não a obra completa) parece-me que esta visão é muito limitadora e castradora.

    Na verdade, parece-me que Ricardo Reis observa a vida e valoriza a vida humana como se valorizam todos os elementos da natureza. O homem, como espécie, tem o mesmo valor do que todos os objectos vivos e mortos do mundo: uma pedra, uma nuvem, um rio, um pássaro, somos todos a mesma coisa. As suas referências aos deuses antigos servem, então, não como um acreditar panteístico mas como uma forma de estabelecer a vida como igualitária e equivalente. Somos todos iguais e, acima de nós, só os deuses. Isto é válido para todos os seres e todas as pessoas, pois ele chega mesmo a referir que não prefere ninguém nem no amor nem na amizade. No entanto, a sua forma de ver as coisas não é indiferente. Ricardo Reis afirma-se em vários poemas como participante activo na vida. Ele simplesmente quer é vivê-la sossegado e sem aborrecimentos. Mas isso não significa que seja um elemento passivo.

    Enfim, foi esta a minha interpretação, que pode estar totalmente errada mas é minha. Afinal, não sou especialista pessoana.

    Deixo-vos, então, o meu poema preferido deste autor desde há muito tempo :)

    40.

    Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
    Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
    Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                       (Enlacemos as mãos.)

    Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
    Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
    Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                       Mais longe que os deuses.

    Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
    Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
    Mais vale saber passar silenciosamente
                       E sem desassosegos grandes.

    Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
    Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
    Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                       E sempre iria ter ao mar.

    Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
    Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
    Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                       Ouvindo correr o rio e vendo-o.

    Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
    No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
    Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                       Pagãos inocentes da decadência.

    Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
    Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
    Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                       Nem fomos mais do que crianças.

    E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
    Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
    Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                       Pagã triste e com flores no regaço.

  • A Investigação

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    A Investigação
    Philippe Claudel
    2010
    Romance

    Recebi este livro juntamente com o Número Zero, uma espécie de bónus :) Foi uma leitura muito interessante, portanto ainda bem que insistiram comigo para que o recebesse!
     
    Um Investigador dirige-se para a Cidade tendo em vista a Investigação de uma certa Empresa em que vários empregados se suicidaram. Quando lá chega é confrontado com um estranho local em que nada parece fazer sentido. Às voltas neste universo burocrático, conhece pessoas - cada uma mais esquisita que a outra - e acaba por ceder a um sentimento de loucura que o vem atormentando desde o início da viagem.
     
    Pareceu-me uma espécie de Kafka moderno, um surrealismo em que o nosso personagem vagueia por um local sem sentido, por um pesadelo que nunca o larga. Cada momento é de uma bizarria extrema, não nos permitindo qualquer descanso, estando sempre na dúvida a situação de vida ou morte, de realidade ou sonho.
     
    Não me agradou muito o final, que - para mim - deveria ter sido mais directo em vez de haver uma transformação em nada do personagem. No entanto, ficou sempre a dúvida se a história se passou realmente ou se era um acesso de loucura do Investigador (como relatado pelo confronto com a Psicóloga).
     
    Uma escrita clara e sem rodeios, um surrealismo moderno. Grande leitura, foi um livro que me cativou do início ao fim.

  • O Hábito Faz o Monstro

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    O Hábito Faz o Monstro
    Lucas Almeida
    Banda Desenhada
    2012

    Quando estive no AmadoraBD do passado ano, passei no stand da Chili com Carne para comprar um livro que tinha há muito na mira. Qual não foi a minha surpresa quando o barbudo rapaz da banca (que acredito ser o MMMNNNRRRGGG, mente brilhante desta editora) insiste em oferecer-me este volume! Que alegria! =D

    Então, o que dizer desta simpática oferta? :) Confesso que ao início me foi um pouco difícil entrar no ritmo: para mim o obstáculo era a arte. Para ser honesta, não faz "o meu tipo" e estes desenhos um pouco grotescos estavam a fazer-me confusão. Mas acabei por me habituar e, nesse momento, pude aproveitar esta experiência hilariante e perfeitamente insana, uma exploração do significado do amor e dos monstros do amor sob uma perspectiva bem-humorada e muito jovem.

    Este livro é uma colectânea de trabalhos editados em zines ao longo de 10 anos. Nota-se uma evolução estilística em alguns elementos, o que torna a experiência muito satisfatória, mas o que mais me agradou foi mesmo o sentido de humor ácido e absurdo que povoa estas páginas de traços a preto-e-branco, qual esferográfica sobre guardanapo.

    O texto em si também é muito curioso, embora não tenha apreciado que grande parte dos momentos mais intensos sejam citações de outros autores.

    Mas gostei imenso deste livrinho e vou guardá-lo como objecto precioso! Obrigada, MNRG (resumindo um pouco o nome), foi um gesto mesmo muito e super e mesmo simpático! =D

  • Número Zero

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    Número Zero
    Umberto Eco
    2015
    Romance

    Após a triste morte deste autor de que gosto tanto, foi-me dada a oportunidade (através do BookCrossing) de ler o seu último romance. Claro que me agarrei a ela com dentes e unhas! Bem, poucas unhas, que eu não tenho muitas...

    Mais uma vez, Umberto Eco apresenta-nos uma história de mistério e conspiração. Mas, desta feita, tudo se passa num jornal. Um jornal planeado para nunca existir! A conspiração aparece-nos, então, sob a forma de diálogo entre os vários personagens. Acaba por ser uma história um pouco densa e difícil de cativar, pois não compreendemos ao início como pode esta conspiração estar relacionada com as pessoas envolvidas na narrativa. Só mesmo no final é que aparece um ponto em comum, mas o livro termina logo ali e desaponta um pouco (porque "agora é que estava a aquecer"). Também há um longo diálogo acerca de carros que ficou para além da minha compreensão, mas eu não entendo nem gosto nada de carros.

    Curiosamente, a escrita deste livro é muito, muito, muito simples e directa. Para autor de tal erudição, é curioso ver que neste último romance ele se deixou conquistar pelo comum leitor e nos apresenta uma história que pode ser lida por qualquer pessoa. Evidentemente, não deixa de estar muito bem escrita.

    Finalmente, pareceu-me que o objectivo primordial deste pequeno volume é fazer uma velada crítica ao mundo editorial e jornalístico, que é apresentado sobre uma luz um pouco negativa, mas tão carregada de ironia que uma pessoa não consegue deixar de lançar umas boas gargalhadas.

    Gostei bastante, portanto obrigada à pessoa que mo emprestou! :)

  • Luzes do Norte

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    Luzes do Norte
    Nora Roberts
    2004
    Romance

    Recebi este livro no BookCrossing, mas já não me lembro a razão pela qual me inscrevi. Nunca tinha lido nada desta autora e, sinceramente, não esperava muito. Este livro deu-me ainda menos do que estava à espera.

    Este romance faz uma tentativa de caracterizar uma pequena comunidade no Alasca pelos olhos de uma pessoa que veio de fora (de Baltimore): o novo comandante da polícia. Lá, ele apaixona-se rapidamente. Depois, aparece um homem morto há uma catrefada de anos numa montanha e depois há um suicídio encenado, que ele acha por bem investigar. E, assim, em vez de um retrato da vila e das pessoas que lá vivem, começamos com uma misturada policial que não nos leva a lado nenhum: só na última página tudo é revelado (com uma grande cena de acção).

    O livro tem demasiados personagens, que acabam por não ter uma caracterização forte. Aquilo que eles fazem diz "são pessoas fortes e adaptadas", mas parece aparecer tudo como um motivo para ter algumas cenas de acção sem qualquer tipo de sentido e contexto. Por exemplo, uma gaja em cuecas a matar um urso com uma shotgun.

    Para além disso, o livro peca pelos diálogos. Existem imensos diálogos. Poucas descrições, mas diálogos... Ena pa, tanta coisa que estas pessoas dizem. Mas... Falam todos de uma maneira perfeitamente artificial. Todos os diálogos têm "piada". "Olhe o seu marido tem a cabeça desfeita com um tiro. LOL" Mais ou menos assim. Isto acaba por se tornar exasperante. Assim como as cenas de sexo, em que todos os orgasmos são comparados a vulcões em erupção.

    Falava há pouco nas descrições... Temos analogias tão brilhantes como "calças de camurça cor de bosta". De resto, não consegui captar nem um pouco da beleza do local, embora o livro me tenha remetido para um sítio com muita neve (apesar de ter um frio bastante suportável).

    Enfim, é uma novela simples, básica, preparadíssima para ser um filme. Não faz o gosto aqui da je.

  • Yes! Precure 5

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    Yes! Precure 5
    Matsumoto Rie - Toei Animation
    Anime - 49 Episódios
    2007
    5 em 10

    Tempo para ver mais uma instância de Precure! Para saberem a minha opinião sobre outras, vejam aqui. :)

    Infelizmente, esta versão de Precure é perfeitamente incapaz de satisfazer um visionante de anima mais prático e mais velho. Trata-se de um anime com exactamente a mesma estrutura do resto da franchise, sem se distinguir minimamente de forma positiva. Cinco meninas são as Precure e têm de ajudar os prícipes do Reino Palmier (uns bonequinhos que são gajos giros também) a encontrar uns bicharocos enquanto lutam contra as forças do mal. Para isso usam poderes com borboletas e transformam-se todos os episódios. No entanto, este anime não tem uma narrativa coerente, sendo episódico até aos momentos finais (que acabam por ser os mais interessantes devido ao desenvolvimento do antagonista). É o tipo de anime que simplesmente não permite a evolução das personagens, pois se elas sairem do seu estereótipo acabam por perder o charme infantil que é suposto terem para que se vendam muitas varinhas mágicas em forma de pétala ou estrela.

    Poderíamos compensar isto com uma boa arte e animação, mas nem por isso. Existem erros constantes e execráveis a nível das expressões das personagens, no cúmulo dos olhos tortos, e as cenas de acção são pouco desenvolvidas, com monstros pouco impressionantes  e de design duvidoso. Apenas a luta final teve algum interesse, sendo que todas as outras parecem ter sido feitas um pouco em cima do joelho.

    Quanto à música, a OP pareceu-me uma imitação barata da OP de Cutie Honey, sendo que este tema é constantemente repetido ao longo de toda a série. 

    Por isso, esta não será a minha Precure preferida...
  • The Prophet

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    The Prophet
    Roger Allers & Gaëtan Brizzi
    Filme
    2014
    7 em 10

    Livremente inspirado no livro do mesmo nome do filósofo libanês Kahlil Gibran, este filme é uma viagem intensa e filosófica sobre os significados de vários elementos da vida e, sobretudo, do amor.

    Disfarçado de uma aventura, este filme cita-nos o livro. Tudo começa quando uma menina que não fala (recusa-se a falar ou, simplesmente, não consegue), conhece um poeta que está preso numa casa há sete anos. No mesmo dia, aparece um soldado que tenciona levá-lo a um barco que chegou para levar o poeta ao seu país de origem. Mas, à medida que vão descendo para a cidade, ficamos a saber as razões pelas quais este poeta está preso: as suas palavras sábias inflamam as pessoas, que o tomam como um profeta. E isso vai contra os ensinamentos políticos do regime que regula este país. E, assim, começa também a aventura para salvar este poeta.

    As sequências dos poemas são das coisas mais belas que pude ver ultimamente. Os textos são muito poderosos e, associados à imagética sugerida pelo filme, tomam todo um novo significado. No entanto, alguns dos textos foram musicados com uma tonalidade pop que não se enquadra com o resto do filme, trazendo uma leveza inapropriada.

    Para mais, pareceu-me que o filme peca pela falta de ritmo. Enquanto se processa a narrativa base, pareceu-me que muitas vezes os momentos artísticos a interrompem, quebrando com todo o processo. Assim, o filme acaba por se tornar um pouco maçudo. Depois, quando a menina finalmente fala, há uma outra quebra, pois os seus diálogos são demasiado rápidos para que faça sentido com a caracterização da personagem até ali.

    No entanto, vale a pena ver este filme pelos momentos de poesia, que são muito intensos, inspiradores e uma experiência quase metafísica.

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