Archive for segunda-feira, março 23
Umineko no Naku Koro ni
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Umineko no Naku Koro ni
Kon Chiaki - Geneon Universal Entertainment
Anime - 26 Episódios
2009
6 em 10
Quando elas choram, quando elas choram... Parece uma música pimba, é melhor não começar assim. :3
"Quando as Gaivotas Choram" é um outro take da série "Quando Choram", do qual conhecia - anteriormente - a história das cigarras. Nesta série temos mais ou menos a mesma estrutura, com um mix de magia, bruxas e maldições. Tudo começa quando os elementos de uma família riquíssima se reunem numa ilha do Pacífico para decidirem sobre a herança que cada membro irá receber aquando a morte (que está para breve) do líder familiar. No entanto, não sabem eles que este líder tem uma obsessão gravosa com o amor da sua vida, a bruxa Beatrice. Ora, para ela aparecer e viver, é necessária uma série de sacrifícios, que se inicia logo no segundo episódio. Felizmente há uma salvação: Battler, um jovem membro da família, recusa-se a acreditar na existência da bruxa. Assim, fazem o acordo: se Battler resolver os crimes misteriosos que, repetidamente, matam a sua família, poderá mandar Beatrice embora. Se desistir e passar a acreditar nela... Bem, logo se vê.
A complexidade da história torna-a numa espécie de conto policial místico, o que tem o seu interesse. Infelizmente, a existência dos personagens apenas perturba o "jogo" e torna tudo menos emocionante. Afinal, são tantas personagens que não conseguimos criar uma ligação forte com elas. Não haveria problema no número de personagens (que são realmente muitos, quer do lado dos vivos quer dos mortos e parecem nunca acabar, pois de tantos em tantos episódios mais personagens são introduzidos), se estas estivessem desenvolvidas com algum tipo de propriedade. Existem algumas relações de interesse, como a de Maria e a sua mãe, mas acabam por ficar para trás perante a sempre presente possibilidade de todos morrerem antes de se observar uma conclusão. Gostaria de ter ficado a saber mais sobre as outras pessoas, como a mãe de Battler ou aquela senhora do cabelo com dois tons quenãomalembraonome.
A própria Beatrice (na sua encarnação de Beato) poderia ter sido desenvolvida de forma muito mais acutilante, de forma a explicar o porquê da sua maldade inerente. De certa forma, a atitude das bruxas é um elemento cativante, pois revela inteligência na escrita do argumento. Mas a sua personalidade, propriamente dita, acaba por se tornar um pouco errática. As vozes não ajudam, com interpretações exageradas e histriónicas que tornam estas personagens um pouco vergonhosas.
Em termos de animação, não posso dizer que esteja excelente, mas tem os seus momentos. O design dos personagens é um pouco confuso e aleatório: de alguma maneira aparentam ter uma "farda", apesar de estarem todos vestidos de maneira diferente. Mais interessante é a montagem de cenas, que mantém sempre o mistério dos crimes.
Musicalmente, achei aborrecido. OP e ED de contornos "épicos" que criam um ambiente de opulência que depois não se vem a revelar. No parênquima, muito pouco a apontar.
Tinha dito algures que tinha esperança que esta série me entretesse fenomenalmente. Não foi fenomenal, mas vê-se.
By : ladyxzeus
Song of the Sea
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Song of the Sea
Tomm Moore
Animação
2014
8 em 10
Dos nomeados para os Óscares, faltava-nos ver este, que ainda não tinha chegado à internet numa boa versão (nem aos cinemas, nem a lado nenhum). E agora, posso dizer com segurança qual o filme que acho que deveria ter ganho o prémio em causa: este. Um filme maravilhoso.
A história baseia-se nas lendas e mitos do folclore do Norte, nomeadamente da Irlanda. Aprendemos aqui a lenda do "selkie", uma espécie de foca que se transforma em pessoa quando toca na terra. Juntando várias lendas, vivemos então uma aventura de uma menina que tem de voltar ao mar e do seu irmão humano. É um filme muito interessante no respeitante a todas estas histórias folclóricas paralelas, que são fascinantes e que merecem mais estudo da minha parte. Mas também porque conta um drama familiar, dos dois irmãos que não se compreendem, dos pais ausentes e da dor da perda. Neste aspecto, identifiquei-me muito, pois tenho uma irmã (bem, duas) e a nossa relação podia ser bem melhor. Talvez precisemos de uma aventura com bruxas, foquinhas e fadas para nos unirmos finalmente.
A animação é extremamente original. Baseada em desenhos que podem ter uma inspiração em aspectos tradicionais, faz um uso discreto dos meios digitais que se encontra muito bem integrado neste conjunto de imagens em 2D. A paleta de cores é muito completa, fazendo uso de todo o tipo de matizes nas cenas de mar e floresta, o que traz um conjunto de texturas visualmente muito agradável. O design dos personagens é simples e directo, mas de certa forma sincero. Para mais, as cenas de acção e cenas marítimas fazem uso excelente da técnica e perspectivas.
Finalmente, não posso deixar de falar da música. A banda sonora é quase revolucionária, apresentando-nos músicas românticas, lentas e com um toque de surrealismo, mantendo sempre a tradição. Variações do mesmo tema, são intrigantes e apaixonantes, provocando uma imersão completa no universo do filme.
De todos os filmes nomeados este foi sem dúvida o que mais me apaixonou, que me comoveu e que me tocou. Assim, recomendo-o vivamente. Apropriado a todas as idades, é um conto de fadas diferente e que não merece ser esquecido.
By : ladyxzeus
O Estrangeiro
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O Estrangeiro
Albert Camus
1942
Romance
Comprei este livro na Feira do Livro, porque já tinha lido um do Camus, predecessor deste, e tinha gostado imenso. Posso dizer que também gostei imenso deste: li-o numa assentada. Comecei-o de manhã enquanto esperava pela minha vez para arranjar as unhas e terminei-o à tarde quando estava no barco a ir para Cacilhas.
"O Estrangeiro" é um homem inadaptado. A narrativa começa com a morte da mãe deste personagem, que estava num lar e vai a enterrar. A sua atitude perante este facto, e perante a vida em geral, pode ser caracterizada como "neutra". Na verdade, este homem passa pela vida como se ela não existisse, aproveitando as coisas de que gosta e sofrendo com as que não aprecia, mas tudo de forma bastante indiferente. Sabemos que gosta de nadar no mar e ir à praia. Sabemos que responde secamente, e de forma positiva, às acções dos outros porque, simplesmente, não quer saber.
É quando mata um homem, acidente ou não, que a sua atitude perante a vida começa a torná-la um pouco complicada. Assistimos ao seu julgamento e interrogatórios e sabemos que a sua condenação é injusta: nós conhecemos esta pessoa e temos uma ideia do que o levou a cometer o assassinato. Vendo bem as coisas, a culpa não é dele. Mas é uma pessoa diferente, um "estrangeiro" no meio de todas estas pessoas. Ninguém o consegue compreender e ele não se esforça por se fazer entender.
Assim, o livro tem uma força profunda e delicada, relatando-nos factos que podem ser considerados surreiais com tanta naturalidade que simplesmente os aceitamos como verdadeiros. A história desta pessoa diferente podia ser a de qualquer um que esteja um pouco deprimido ou que não se encontre na sua melhor forma. Considerando os problemas graves da sociedade de hoje em dia, que se baseam muito nesta premisa, Camus conta uma história extremamente actual.
Para mais, a escrita tem momentos de extrema beleza, em que o autor tece considerações ligeiras - mas importantes - sobre a vida e sobre emoções e sentimentos.
Gostei imenso e mal posso esperar por ler outros livros do autor.
By : ladyxzeus
