Archive for domingo, janeiro 21

  • Em Nome do Pai

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    Em Nome do Pai
    Jim Sheridan
    1993
    Filme
    7 em 10

    Quando o Qui me disse que íamos ver um filme sobre o IRA, o grupo independentista irlandês, confesso que não esperava nada de especial. Veio a revelar-se um filme muito mais interessante do que poderia pensar.

    Em Belfast o IRA está activo e o exército britânico anda pelas ruas. Um rapaz é enviado para Londres pelo seu pai, de forma a que fique protegido destas actividades terroristas. Ora, Gerry e seus amigos não são exactamente as pessoas mais dedicadas ao trabalho e passam os dias num êxtase de diversão. Quando acontece um atentado num pub perpretado pelo IRA, infelizmente eles estão no lugar errado à hora errada. São presos, acusados e enviados para a prisão. Por toda a vida. E esta é a história da luta de Gerry e do seu pai para que sejam inocentados e colocados em liberdade.

    É um filme com uma narrativa bastante simples, mas são os elementos desta narrativa que o tornam tão brutal e nos mostram o quão incompreensível foi o sistema no julgamento destas pessoas, que perderam as suas vidas num jogo que não era o deles nem nunca tinha sido. Existem cenas muito violentas emocionalmente às quais são dadas vida por um conjunto de excelentes actores. Mas o que é realmente agressivo para o espectador é o sentimento de impotência e a injustiça penal, sempre presente até mesmo onde menos se espera.

    Um filme sobre corrupção mas também sobre um grande sentimento de esperança de que a justiça irá sempre prevalecer. Pode é demorar.

  • Má Educação

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    Má Educação
    Pedro Almodóvar
    2004
    Filme
    7 em 10

    Éramos para ir ver este filme ao cinema, mas não cheguei a casa a horas convenientes e decidimos que o iríamos ver em casa. Bem... Eu decidi! =D

    Neste filme Almodóvar fala de uma vingança, faz uma crítica à igreja e conta uma história de amor e paixão, mas de uma forma terrivelmente negra em que descobrimos que nunca se pode confiar em ninguém. É um filme com diversas camadas mas, essencialmente e tentando não estragar muito a visão do leitor, conta-nos como um realizador de cinema é convencido a fazer um filme sobre a vida da sua paixão da escola, um rapaz travestido chamado Ignacio, escrito pelo próprio.

    Existem muitas reviravoltas neste filme, cada uma mais surpreendente que a outra, mas o que realmente faz o filme ultrapassar-se é a atitude dos personagens e a transição do mundo fantástico, heróico, sensual, emocionante, para o mundo real, decadente, deprimente e sujo. Esta dicotomia ´+e perfeitamente caracterizada pelos personagens que, também eles, têm uma dualidade dentro de si: a pessoa que ama e é real contra a pessoa que odeia e quer utilizar o outro para o seu próprio proveito.

    Temos muitas cenas homoeróticas, que podem ser consideradas de choque para algumas pessoas mas que, na minha visão, não foram colocadas no filme para tentar impressionar e falhar nisso. Na verdade, Almodóvar é espantosamente prático e muito natural na filmagem destas cenas, que nos transmitem uma sensação de perfeita normalidade.

    Gostei muito do filme e só me sinto mal por não o ter visto antes.

  • A Vegetariana

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    A Vegetariana
    Han Kang
    2007
    Romance

    Este livro tinha-me sido largamente recomendado por várias pessoas, em algumas das comunidades literárias em que participo. Arranjei em e-book mas, antes disso, acabei por o receber através do BookCrossing :)

    Dizem as críticas que este é um livro de uma violência tão extrema como discreta e que é um grande candidato a representar as correntes do realismo mágico da Ásia. Mas, pelo contrário, este livro convenceu-me que os asiáticos não sabem, realmente, trabalhar o realismo mágico. Isto porque, de todos os que tenho lido, existe sempre uma incapacidade de dar uma forte caracterização aos personagens de forma a que os acontecimentos estranhos tenham todos um contexto suficientemente realista para não soarem simplesmente a uma coisa absurda.

    Mas adiante.

    Um marido exaspera-se quando, após um estranho sonho, a sua esposa decide tornar-se vegetariana. Toda a família da mulher desespera quando ela se recusa a comer todo e qualquer tipo de produto animal, sempre baseada no facto de que teve um sonho, sonho terrível, sanguinolento e muito agressivo. Num segundo capítulo, já está ela divorciada, descobre-se que o seu vegetarianismo está antes relacionado com um forte amor sensual às plantas. Note-se que agora já não há referências aos sonhos como antes e que estes ficam para trás. Definitivamente esquecidos são quando vemos a sua irmã a visitá-la no hospício onde a sua transformação em planta continua a decorrer.

    E é isto. O problema principal aqui é que, logo desde o início, a autora pede-nos para imaginar uma pessoa normal, vulgar, igual a toda a gente. Mas em literatura, o personagem não pode ser uma coisa em branco, não pode ser uma pessoa sem personalidade, sem contexto, sem emoções que, para mais, se vão esbatendo progressivamente ao longo da narrativa. Os outros persoangens têm, pelo menos, um pouco de passado para os sustentar, mas parece que existem em função da vegetariana e não em função de si próprios.

    Aliás, parece que neste livro a magia não existe para os personagens mas, pelo contrário, os personagens apenas estão lá para a magia acontecer. E, por causa disso, qualquer verosimilhança e fascínio que isto me poderia trazer perdem-se completamente e tornam o livro numa historieta que, sendo um pouco incomum, parece vazia e incompleta.

    Muito desapontante.
  • Montanha

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    Montanha
    André e Gabi
    2017
    Zine

    Um volume extremamente curioso que a minha mãe me trouxe pelo Natal, após visita à Serra da Estrela.

    Pelo que entendi, é uma pequena publicação, com uma tiragem de apenas 20 exemplares (o meu é o 9) feito por um casa, André e Gabi. Parece-me que são jovens e que se transportaram da cidade para o campo, lugar onde criaram esta zine para que a sua experiência pudesse ser partilhada.

    Assim, temos aqui um conjunto de páginas muito interessantes, com várias dicas e indicações sobre os planos de agricultura sustentável e protecção da Natureza e uma história que, penso eu, poderá ser muito auto-biográfica da vida deste casal.

    Fiquei cheia de vontade de falar com eles, mas a verdade é que só têm disponível uma morada e um número de telefone. Acho que vou mandar uma sms. :)

  • A Obra ao Negro

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    A Obra ao Negro
    Marguerite Yourcenar
    1968
    Romance

    Este foi um livro que penso ter lido na minha remota juventude mas do qual não me lembrava nada. Portanto, tendo aparecido na minha nova TBR, decidi pegar nele. E foi uma excelente ideia!

    Um erudito romance histórico que nos fala sobre a vida diária quando se está rodeado pela inquisição por todos os lados. Zenão é um jovem com uma origem um pouco inusitada, apesar de não ser assim tão incomum nos tempos que então corriam, e que decide afastar-se de uma vida eclesiástica para abraçar a profissão de médico. Enquanto médico, escreve uma série de documentos e tratados que colocam em causa a visão dogmática e fixa da igreja de então, o que o torna imediatamente num inimigo à pátria e, por isso, num fugitivo. Assim, decide mudar de nome. Mas será que conseguirá manter o segredo?

    Este livro é fascinante pelo retrato que nos dá da época. Dá-nos uma ideia altamente sofisticada do que as pessoas faziam, vestiam, comiam mas, sobretudo, uma visão do mundo da medicina de então. Isto, para mim, é um exercício de pesquisa por demais interessante! Por outro lado, não se foca demasiado nos horrores e pavores da inquisição mas sim nas consequências que a sua acção têm para as pessoas ditas "vulgares" e que estão simplesmente a tentar viver os seus dias com calma.

    Digo que este livro é erudito pois faz recurso de uma linguagem muito específica, com utilização de uma série de palavras raras que terei de ir ver ao dicionário assim que possível (apontei-as todas). De resto, a escrita é até bastante simples e o livro lê-se muito bem, sem nunca ser cansativo.

    Se tiverem a oportunidade, recomendo vivamente que o leiam!
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