Archive for terça-feira, julho 14
Hanabi
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Hanabi
Takeshi Kitano
Filme
1997
7 em 10
Há muito que o Qui me tentava explicar quem era o Takeshi Kitano e o que era o programa "Takeshi's Castle". Bem, eu não vejo televisão e não fazia ideia. Então, fiquei sabendo que Takeshi Kitano (ou só Takeshi) é um actor de filmes hard-boiled, sobre a máfia, gangsters e bandidos, também fazendo ele sempre papel de bandido. Para o confirmar, mostrou-me este filme, escrito e realizado também por ele, que se relevou uma bonita obra.
"Hanabi" significa "fogo de artifício", o que tem ligação com uma das cenas mais intensas de toda a narrativa. Esta fala de um polícia corrupto que deve uma série de dinheiro aos yakuza. Enquanto isso, a sua mulher aproxima-se do fim de vida com um linfoma no corpo. E a sua filha morreu. Numa mistura de memórias com o presente, este personagem procura afastar a máfia do seu caminho para poder viver uns últimos momentos de felicidade com aquela que ama. Numa outra perspectiva, um polícia seu amigo sofreu um acidente de trabalho e está preso a uma cadeira de rodas, dedicando-se à pintura e procurando uma nova maneira de viver. As duas histórias interligam-se de forma emocional, enquanto uma vida se aproxima do fim e outra procura recomeçar.
Os estados de espírito são ilustrados pelos desenhos que nascem das mãos do tal amigo (na realidade pintados por um amigo do realizador). Desenhos estranhos, cheios de animalária surreal, que simbolizam muito mais do que aparentam e têm um efeito quase alucinogénico no espectador. Por outro lado, senti que as cenas de memórias são um pouco confusas, sendo difícil de distinguir o que se está a passar na realidade do que se passou anteriormente.
A música é bela e coaduna-se com as cenas, que têm um efeito pictórico, como se observássemos fotografias em movimento em vez de uma série de fotogramas. A utilização da luz é fascinante e muitos destes "quadros" transmitem uma sensação de calma profunda e também de uma tristeza inabalável.
Mas o que mais me impressionou foi sem dúvida a interpretação do actor, Takeshi Kitano. Segundo consta, ele tem "sempre a mesma cara". E é verdade. Tem sempre a mesma cara. Mas, na sua condição singular, é um actor extremamente expressivo, transmitindo os sentimentos com subtileza e exactidão, sem necessitar quase de dizer qualquer palavra. Achei um trabalho de actor impressionante.
Por isso, está aprovado o Takeshi do Takeshi's Castle. Talvez hoje em dia seja mais uma personagem cómica do imaginário televisivo do Japão, mas neste filme fez um trabalho extraordinário.
By : ladyxzeus
No Calor dos Trópicos
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No Calor dos Trópicos
Flávio Capuleto
2011
Romance Histórico
Recebi este livro por alguma comemoração do BookCrossing, que entretanto esqueci qual era. Estava bastante motivada para o ler, já que se trata de um romance histórico passado no Brasil, na época conturbada da libertação de escravos e abolição da escravatura.
Diz o autor, numa breve introdução, que escreveu o livro tendo em vista a sua adaptação para o cinema. Devo dizer que tal me parece impossível, já que o romance não corresponde ao nivel de qualidade que seria de esperar. A história gira em volta de um triângulo amoroso, de paixões e traições, que se desloca para o Brasil de forma a consumar-se definitivamente. Assim, é um romance que se poderia passar em qualquer época: o tema da abolição da escravatura passa para segundo plano, sendo que a sua utilização aparece mais como mecanismo narrativo em vez de ser um tema principal em discussão.
Para mais, a escrita é desadequada ao tipo de romance, com erros históricos constantes e um uso de linguagem moderna que não se conjuga bem com as personagens. Não há detalhes correctos em termos de vestuário ou de alimentação (quem usa um "slip" neste século?) e a gíria utilizada não é de todo coerente, quer com a época quer com o estatuto social dos personagens (que visconde manda outro "por a boca no trombone"?)
Os detalhes históricos são incorrectos e isso não é perdoável do ponto de vista deste tipo de romance, apesar de o autor insistir bastante no facto de isto ser uma obra fantasiada e vinda da sua cabeça. Não é admissível.
Para mais, o livro está recheado de cenas sexuais constantes, inapropriadas e descritas de forma repetitiva (como gostam estas pessoas de "cavalgar"). Não trazem em si nenhum tipo de beleza erótica e parecem estar metidas a martelo, tais quais umas batatas a murro, pelo meio de uma narrativa simplificada e cuja existência parece estar em função da descrição dos actos sexuais.
Um livro que me desapontou bastante, pois o autor deveria ter pesquisado mais (pesquisou bastante, como se vê na bibliografia, mas não foi o suficiente ou nos locais correctos). Ainda assim, espero que não deixe de escrever, pois imaginação tem bastante. :)
By : ladyxzeus
