Archive for domingo, junho 16

  • O Livro Perdido de Camões

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    O Livro Perdido de Camões
    Maria Coriel
    2008
    Romance Espiritual

    Lido na viagem de regresso. Agarrou-me completamente, tanto que me ficaram a doer as mãos de estar três horas a segurá-lo. E comprei-o na Feira do Livro!

    Não achei que começasse bem. Em primeiro lugar porque se classifica, como podem ver acima, como "romance espiritual". O que raio é um "romance espiritual"? Pelos vistos é isto. E isto é a auto-biografia de Camões, narrada pelo próprio, depois dele ter morrido. Quando passa para o estado transcendente, ele vê a sua vida toda e escreve este livro, o livro perdido. Mas primeiro estranha-se, depois entranha-se.

    O que é que eu achava sobre Camões? Que era um bêbado com algumas tendências violentas que escreveu uma epopeia chamada "Os Lusíadas", que toda a gente lê na escola (e que eu li por inteiro, sem perceber absolutamente nada) e que toda a gente detesta, porque se lê na escola (e porque não se percebe nada) e que não interessa a ninguém, porque se lê na escola (e porque são umas centenas de páginas todas em verso sobre a história de Portugal, escritas no lingo próprio do século XVI, que não se percebe nada e que é chato para toda a gente que não gosta de poesia/que não gosta do século XVI/que tem de analisar isto na escola/que leu o livro todo sem o perceber)

    Mas este livro mostra uma perspectiva diferente. Mostra o caminho de Camões numa certa "tradição", bem semelhante àquela praticada por uma pessoa que eu conheço bem, e a forma como ele atingiu um certo nível de iluminação que lhe permitiu escrever aqueles versos todos. Porque, vamos admitir, apesar de eu ter achado "Os Lusíadas" a coisa mais chata à face do planeta, é preciso uma grande dose de genialidade para o ter escrito. E ainda bem que somos todos obrigados a levar com essa genialidade, para percebermos que há literatura com qualidade acima daquilo que se pode considerar como superior, escrita na nossa língua, por um senhor zarolho, numa altura em que nem sequer havia corrector ortográfico nem internet.

    Isto tudo e ainda não disse nada. O livro é envolvente, é impossível parar de o ler. A vida de Camões é-nos mostrada de uma maneira fascinante e a iniciação pela qual ele tem de passar leva-nos para um espaço espiritual de aceitação da realidade com o qual parece muito possível escrever uma das maiores obras literárias da humanidade.

    A linguagem é apropriada à época e existem muitas citações de muitos poemas (todos devidamente anotados, pelo que quem as conhece bem não achará tanta graça, porque não as encontrará por acaso). O único defeito na escrita é o. Excesso. De. Pontos. Finais. Mas passadas umas cinquenta páginas uma pessoa habitua-se.

    Recomendo bastante este livro. Fiquei a gostar mais do Camões e a partir de agora já não o vou chatear tanto.

    Vou emprestar este livro à pessoa que conheço bem que pratica a tal "tradição" parecida com esta, a ver o que acha. :3
  • Eu, Ela e os Vampiros

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    Eu, Ela e os Vampiros
    Carlos Rodrigues
    2012
    Fantástico

    Segundo livro do fim de semana de ida ao Porto (agora vou lá todos os meses, acho que já disse isto). Só não o li todo no comboio de ida porque... Não me apeteceu. Quando os livros são menos bons, não dá vontade de os ler e uma pessoa tem de se forçar. Às vezes acontece o mesmo em livros muito bons que sejam muito difíceis. Mas não foi o caso deste.

    Ora, o nosso amigo Gary Stu Carlos e a nossa amiga Mary Sue Diana tornam-se caçadores de vampiros quando uma estátua de um museu onde estão em visita de estudo se torna num vampiro. O que quer que seja um vampiro no universo deste senhor, porque as características deles não estão nada definidas. Enfim, "vampiro" é o nome dado a criatura sobrenatural associada à cor roxa e que morde. Os nossos amigos são possuídos pelos guardiães, uns anjos de nome Português (os vampiros, por sua vez, são ingleses. Como convém, diga-se de passagem, a meteorologia latina não é nada apropriada a criaturas sobrenaturais roxas). E têm um professor que é mais poderoso que eles, apesar deles serem os mais poderosos. Mas têm alguém mais poderoso que eles a ensiná-los. Mas eles são os mais poderosos.

    Numa série de reviravoltas com muita acção e uma piñata em forma de Minnie (nem sabia que existia semelhante coisa à venda no nosso país) a resolução é, precisamente, nenhuma.

    Além do mais, o autor da narrativa, Carlos (não o Rodrigues, mas o jovem de 14 anos que caça vampiros) tem o poder etéreo de ver o que está a acontecer em sítios onde não está presente e de saber os sentimentos de pessoas que não são ele. De repente, o narrador passa para a terceira pessoa e falamos de Elisabete, que se vem a saber ser a mãe de Carlos. Por momentos pensamos que ela tem alguma relação com isto tudo, mas depois não acontece nada.

    A minha sensação é que isto é uma introdução para uma -logia (tri, tetra, penta, hexa, etcoeteralogia). Mas a realidade é que não prende e não trás qualquer tipo de curiosidade em saber o que acontece à estátua maneta, nem aos personagens, nem aos anjos, nem ao gajo da túnica, nem ao professor, nem aos ingleses, nem à pinhata nem nada.

    Irei abandonar libertar este livro pelo BookCrossing. Provavelmente no metro ou no cacilheiro.
  • A Culpa é das Estrelas

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    A Culpa é das Estrelas
    John Green
    2012
    Romance

    Muito bem, este livro tem uma história deveras estranha. Comprei-o para oferecer à minha irmã no seu aniversário. A capa é muito gira, o título é muito giro, a sinopse parecia muito gira. E ela estava a lê-lo quando fomos a Paris. Chegamos ao aeroporto para voltar e eu termino, precisamente nesse momento, de ler o livro que tinha levado (o segundo volume de 1Q84). Assim, pedi-lho emprestado. E descobri que era sobre putos com cancro. Oh, mas que prenda tão bonita para se dar a uma irmã no seu aniversário... -__- Tão positiva! Tão alegre! Enfim, no avião ela pediu-mo de volta e só agora voltei a ele. Ainda tinha o marcador no mesmo sítio, por isso peguei daí.

    Como eu dizia, o livro é sobre miúdos com cancro. Hazel tem um cancro endócrino que lhe enche os pulmões com edema. Augustus tinha um tumor ósseo que lhe levou a perna. Juntam-se numa aventura de conhecer um escritor que vive na Holanda, que escreveu um livro sobre uma miúda com leucemia. E depois muitas coisas acontecem mas não vou fazer como certa irmã que eu tenho que me contou o que ia acontecer.

    O interessante deste livro é a narradora, uma adolescente que é pessimista e sobre-analista em relação a tudo. Pelo facto de estar, tipo, a morrer (citando o livro). Nunca tinha lido um livro em que uma personagem que ainda tem a vida toda para viver sabe que, bem, está a morrer. E que vai morrer de certeza, porque está doente e nunca se vai curar, porque um tumor hipofisário não dá para tirar. É a forma como ela enfrenta o inevitável que impressiona neste livro: vivendo o que lhe resta.

    A história é só o típico de adolescentes mas, como eles próprios o dizem, estarem doentes dá-lhes outra dimensão. E a verdade é que todos os dias morrem crianças com estas doenças e não há nada que possamos fazer. O cancro é uma coisa que me assusta. Porque estudei sobre ele que me fartei, porque debati sobre ele academicamente. Porque um membro da família teve um e morreu. Porque outro membro da família teve um e sobreviveu. Porque é provável que eu venha a ter um se continuar a fumar, a comer carne bem passada e a viver com ansiedade. Por isso este livro perturbou-me e tocou-me de uma forma muito profunda. Confesso que estava quase a chorar quando me interromperam a leitura naquela parte na casa da Anne Frank. O cancro nunca é uma história que acaba bem. Mesmo quando está em remissão, há sempre algo que se perde. E normalmente é o que é mais importante para nós, algo que nunca daríamos pela falta se não o perdêssemos.

    A exactidão científica do livro é duvidosa, mas aceitemos que nem todos tiveram seminários sobre cancro com o maior especialista vivo sobre o cancro em animais de companhia (e foi grátis, ganhei por ter ido a uma aula de HACCP a que toda a gente faltou. Sim, estou a exibir-me!!!!11)

    Mas acho que devo um pedido de desculpas à minha irmã. Porque o livro é mesmo muito depressivo e não era esse tipo de sentimento que eu queria transmitir com uma prenda de anos.
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