Archive for sexta-feira, agosto 04
Vinte e Zinco
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Vinte e Zinco
Mia Couto
1999
Novela
Este livro aparece na sequência de uma colecção temática da Editorial Caminho, com o mote do "25 de Abril", em 1999. Esta é a perspectiva de Mia Couto sobre a data em causa. Ora, eu por norma não gosto do Mia Couto. Sempre o achei um pedante que se acha muito especial por inventar palavras novas. Mas este livro foi, de certa forma, uma experiência diferente, porque tudo o que eu tinha por defeito do autor se dilui nesta narrativa.
Nos dias imediatamente antes e após o 25 de Abril em Lisboa, um grupo de habitantes de uma pequena aldeia africana não sabe o que fazer. Ora, um deles é agente da PIDE e tem muitos traumas sobre os quais se podem falar. É na relação destes personagens, as revelações sobre a realidade em oposição às sequências mágicas e feiticeiras dos hábitos locais, que o autor se baseia para nos mostrar a consequência imediata da revolução.
A caracterização dos personagens é curta mas essencial, sendo que poderiam todos ter sido um pouco mais explorados se houvesse mais "tempo". A forma como tudo está descrito é muito simples, quase infantil, apesar da brutalidade de algumas das situações. E quanto às palavras inventadas, elas fluem com toda a naturalidade, assemelhando-se em tudo às suas partes que figuram realmente no dicionário.
Será este o primeiro passo para fazer as pazes com o autor? Quem sabe... ;)
By : ladyxzeus
Federico García Lorca - Antologia
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Federido García Lorca - Antologia
Federico García Lorca
Anos 20
Poesia
Esta é uma antologia poética do autor espanhol que compreende três dos seus livros: "Romancero Gitano", "Poeta En Nueva York" e "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías". É uma edição espanhola, o que torna a leitura um pouco mais difícil para mim, mas ainda assim é perfeitamente compreensível na generalidade.
E, devo dizer, foram dos poemas mais extraordinários que li ultimamente. Lorca mostra-nos nas suas palavras uma Espanha rural, perdida, violenta e quente, muito sensual mas ao mesmo tempo brutalmente destrutiva. Cada poema tem uma densidade própria, sendo que algumas das palavras, alguns versos, alguns conceitos, nos caem no estômago como um soco, uma pedra atirada directamente até à nossa consciência.
Tendo sempre presente a ideia da morte trágica protagonizada por este poeta, a sua poesia justifica plenamente o que poderia ter acontecido, a injustiça, o horror de se viver num regime em que até um simples poema pode ser considerado subsersivo e contra os ideais do sistema. E a verdade é que Lorca denuncia as injustiças uma e outra vez, sem nunca pensar por um momento que ele próprio poderia vir a ser vítima das mesmas.
O meu preferido foi, realmente, o "Romancero Gitano", sendo que "Poeta En Nueva York" nos mostra uma poesia um pouco mais directa e menos metafórica, com mais realidade vista de outra perspectiva do que o universo fantasioso e mágica da lua cigana.
De todos os modos, é uma poesia descorçoada e absolutamente fascinante. Recomendo vivamente!
By : ladyxzeus