Archive for terça-feira, setembro 08

  • Cat Soup

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    Cat Soup
    Satou Tatsuo - J.C. Staff
    Anime - Filme
    2001
    8 em 10

    E, para finalizar a noite, uma estranha curta metragem com meia hora. Já a tinha visto algumas vezes mas, como estava nomeada para o meu clube, achei por bem revê-la (e mostrar ao Qui).

    De difícil interpretação, este anime tem uma narrativa base que, supostamente, pode ser bastante simples: um gatinho viaja ao Inferno para salvar a alma da sua irmã. No entanto, isto pode ser intepretado de diversas formas, como por exemplo, o filme tratar-se de uma analogia para o fim do mundo, para a guerra ou algo tão simples como a morte de uma família e o horror vivido por uma criança. Pessoalmente, gostaria de o interpretar como a morte de uma família depois de uma enchente ou mesmo numa perspectiva de terem sido "comidos" pelos seres humanos, uma espécie de representação do abandono e mau trato animal. Pois, nesta história, existem em oposição gatinhos e pessoas.

    Esta minha visão é ajudada pela imagética presente ao longo do filme. Como disse o Qui e muito bem, todos os temas, todos os momentos de pesadelos, têm algo em comum: água quente. Começando pelo circo, em que um pinguim mágico explode numa enchente que os leva até ao "inferno", passando pela viagem no deserto em que um elefante feito de água derrete, sem esquecer a entrada na casa do "homem" (que pode representar tanto o "sistema" como um simples pedófilo), tudo tem a água quente, a "sopa" em comum. Isto significará que a morte destes gatinhos teve algo relacionado com sopa?

    Eu não duvido que tenham morrido todos, pelo final desagradável em que culmina a viagem e, sobretudo, pela imagem repetida num ponto de obsessão dos créditos finais, uma suposta família feliz. Poderá este anime representar o que há de falso no esterótipo da família tradicional? Tudo questões interessantes, que cada um poderá interpretar à sua maneira.

    Com uma banda sonora perturbadora, este anime vive sobretudo da imagem. Não existe quase nenhum diálogo (não é importante, na verdade) e a narrativa baseia-se na viagem pelos vários universos. A arte é exemplar, com momentos de animação brilhantes e um ambiente muito original e quase assustador.

    É uma curta metragem estranha, que nos deixa a pensar. Peço que a vejam e que, depois, me digam o que vos pareceu.
  • Detroit Metal City

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    Detroit Metal City
    Nagahama Hiroshi - Studio 4ºC
    Anime - 12 Episódios
    2008
    9 em 10

    Estamos em casa, não temos ideias do que ver e eu lembro-me... Que nos podemos rir bastante. Então coloco a sacar um dos meus animes de comédia preferidos: Detroit Metal City! Atenção, têm de dizer isto de maneira vocalmente agressiva. Já é a terceira vez que vejo este anime e a verdade é que nunca me canso de o ver!

    Negishi é um rapaz da aldeia, uma pessoa querida e simples que tem um sonho: criar uma banda de pop sueco. Assim, vai para Tóquio de forma a poder cumprir com o seu sonho e viver a vida hipster que sempre sonhou. Infelizmente, nem tudo corre bem... De alguma forma ele vê-se como o cabeça de cartaz de uma banda que representa tudo o que ele sempre abominou: DEATH METAL. E eles são os... DETROIT METAL CITY.

    Temos a fórmula perfeita para uma comédia contagiante e hilariante. Confesso: para mim é impossível parar de rir histericamente do início ao fim. As piadas e os gags baseiam-se essencialmente no nosso personagem principal, um rapaz simples que, no fundo, tem um distúrbio de personalidade. Nas piores ocasiões, ele tem de se transformar em Krauser II, o líder da banda mais horrífica do momento. E a forma como ele lida com estas transformações, com a sua dupla vida, é de morrer. No fundo, é a luta de uma pessoa que tenta ser normal num mundo onde nada é normal. Ou, visto de outra forma, a maneira de colmatar a sua figura gentil com a de um terrorista do inferno. As duas imagens misturam-se e chegamos ao ponto em que deixamos de saber qual deles é o Negishi real: o hipster dos casacos de malha ou o psicopata dos dez FUCK por segundo.

    As situações são de tal forma improváveis, arrastando-se para um universo de absurdo e non-sense que, apesar de por vezes as piadas parecerem um pouco repetitivas, nunca deixamos de nos rebolar a rir com cada um dos momentos.

    Para além disso, este anime é uma crítica agressiva e acutilante ao universo da música indie, no Japão e não só. Vários grupos estão representados, cada um mais louco que o outro, e todos eles são ridicularizados. Não são só o indie pop e o death metal que são vítimas! E não são só os músicos que são vítimas! O anime faz questão de gozar com todo o tipo de fãs. Afinal de contas, grande parte do universo musical é feito por eles.

    Coroando todos estes temas, existe uma banda sonora original que, funcionando como paródia a cada um dos géneros, é também brilhante por si só. Apesar de as letras não fazerem qualquer tipo de sentido, se olharmos para elas com os nossos elitistas óculos do "coisas a sério", em termos musicais, melódicos e harmónicos, são músicas muito boas e que ficam na cabeça. Satsugai Satsugai!!

    A animação poderia ser a parte mais fraca do anime, mas a verdade é que este estilo, extremamente simples e ausente de detalhe, funciona na perfeição dentro do contexto. Como uma espécie de sitcom, os cenários diminutos transmitem na perfeição o ambiente dos concertos e quase que nos fazem desejar estar lá para participarmos da loucura.

    Assim, com um grupo de personagens louquíssimo (Presidente, estás na minha lista!), músicas cheias de brutalidade e situações do mais extremo bizarro, temos um anime perfeito para partir a barriga em gargalhadas numa noite qualquer, em que não haja nada para fazer.



  • Ulisses

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    Ulisses
    James Joyce
    1914-1921
     Romance (??)

    Este livro foi-me oferecido pelo Natal do ano passado. Assim que abri o presente, fiquei aterrorizada. Este é o oneroso livro que nunca ninguém que eu conheça conseguiu acabar de ler. A pessoa que mo ofereceu não conseguiu. Até o meu pai, meu exemplo e modelo enquanto leitor, não conseguiu. Mas, ainda assim, eu disse para mim própria... "Não passa de um livro, eu vou lê-lo". Recolhi coragem até agora. E, durante um mês que se revelou um verdadeiro inferno, prossegui a lê-lo. Por isso não houve comentários a livros durante este Agosto: estava presa no universo do Ulisses. Consegui? Bem, cheguei ao fim. Só me falta o posfácio, fica para mais tarde. Mas compreendi? Não sei. Gostei? Não sei.

    A primeira coisa que devo dizer sobre este livro é que, em minha opinião, não é o tipo de narrativa que está feita para ser "percebida". Está feita, na verdade, para ser "percepcionada". A percepção que cada um de nós tem deste livro será, então, muito variada. É algo de tão confuso e sensorial que cada um terá a sua interpretação. Falarei, assim, da minha.

    Existem três personagens centrais, embora um deles só apareça realmente no final. Começamos com Leopold Bloom, um homem que falha bastante na vida, que sai de casa para ir a um funeral. Algures no meio do caminho encontra-se com Stephen Dedalus e, penso eu, saem para beber copos em diversos locais, que envolvem bares e um barco (talvez). Durante este encontro (todas estas 700 páginas relatam apenas um percurso de 24 horas) eles discutem diversas coisas, que são repetidas até à náusea e que parecem ser algo sobre as próprias opiniões do autor. Alguns assuntos discutidos são, por exemplo:

    • Shakespeare
    • O teu deus é judeu
    • Upe
    • Corridas de cavalos (cavalo Ceptro)
    • Cães diversos
    • Prostitutas e a ciência do sexo
    Tudo isto é feito num ambiente de surrealismo duro e agressivo, tornando a leitura numa batalha muito difícil de vencer, num exercício de paciência e na manifestação do desejo "quando será que vai fazer sentido". Porque na verdade nada faz muito sentido. Aparecem árvores que cantam, pessoas que gritam, cães que uivam, uma miríade de imagens e ruído de fundo que contribui para todo este pesadelo.

    Pareceu-me que esta primeira parte (primeira e segunda partes, oficialmente, para além de um bom pedaço da terceira) são a manifestação de Bloom enquanto homem descontente com o seu casamento. A sua esposa é Molly e ela é vagamente referida ao longo de todo este texto, mas não sabemos muito sobre ela e, sinceramente, acabamos por nos esquecer da sua existência. Bloom liberta-se num ócio bêbado, envolvendo-se com pessoas de diversas estirpes, até - finalmente - se acalmar e chegar a casa, para beber um chocolate quente. Subitamente, o narrador muda: e agora é Molly. Ficamos a saber, de repente, que Molly também não está contente com o seu casamento.

    Assim, o dia em que se passa toda esta história é uma espécie de revelação. "Ulisses" fez uma viagem pelo inferno, para regressar a casa e estar tudo errado. É exactamente o oposto da "Odisseia". Consideremos também, conforme vinha escrito na contracapa do livro, que o dia em que se passa esta história é o mesmo dia em que James Joyce conheceu a sua mulher. Assim, "Ulisses" é o oposto de James Joyce. O pesadelo poderia representar tudo aquilo que o autor viveu antes de conhecer a sua mulher. E, assim, o livro poderia ser uma muito estranha declaração de amor. Gostaria de pensar assim, talvez.

    É o tipo de livro que necessita de várias leituras e bastante estudo para se poder interpretar convenientemente e para se ter uma compreensão absoluta sobre ele. Mas eu não o vou voltar a ler em tempo breve. Estou livre. Foi uma leitura muito intensa que nunca irei esquecer. Mas terminar foi um verdadeiro alívio.
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