Archive for quinta-feira, novembro 22

  • Cello Hiki no Gauche

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    Cello Hiki no Gauche
    Takahata Isao (Kenji Miyazawa) - Studio Ghibli
    Anime  - Filme
    1982
    6 em 10

    Também conhecido por "O Violoncelista Gauche", este pequeno filme (uma hora e um minuto e trinta segundos) conta a história de Gauche, que tem um violoncelo e toca numa pequena orquestra intregrada num ambiente de Japão rural. Gauche tem alguns atritos com o seu maestro, que continua a pedir-lhe cada vez mais e mais. E então entramos no mundo fantástico de Ghibli. Todas as noites, quando Gauche está a ensaiar, aparecem animais que lhe pedem para tocar e tocam/cantam/interagem com ele. E assim o violoncelista redescobre o seu amor pelo instrumento e pela música.

    Não existem grandes fundos nem cenas de animação profusas, mas mesmo assim o filme evoca cenas muito belas, enquanto interage com as pequenas criaturas que lhe pedem que toque. Cada música é uma imagem distinta que, sendo muito simples, é bastante tocante. Gostei especialmente dos ratinhos.

    Em termos musicais não podia ser melhor, conjugando peças clássicas que integram o meu imaginário infantil (sim, o meu imaginário infantil é música clássica... Não perguntem...) com uma peça original muito intensa e impressionante.

    Um filmezinho simples, sem nada que o distinga sem ser os pequenos momentos belos.
  • Kuroko no Basket

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    Kuroko no Basket
    Tada Shunsuke - Production I.G.
    Anime - 25 Episódios
    2012
    6 em 10

    E mais um anime de desporto! Delicioso! Este é sobre Basket, aquele jogo com uma bola redonda em que se dribla e se passa e se salta e se marca, sabem qual é? É mesmo esse.

    Ora então, tudo começa um uma premissa interessantíssima e com a recomendação expressa dos elitistas (alguns). É simples: Kuroko é um gajo sem presença nenhuma. Quase invisível. Isto trás-lhe uma vantagem no basket, jogo para o qual ele não revela grande talento excepto no que respeita a fazer passes. "Isto tem potencial", pensei eu. Aliás, "Isto tem muito potencial", pensei eu. Mas não. No fundo no fundo o basket de Kuroko é só mais um rapazinhos a fazerem coisas de rapazinhos, enquanto suam em calções de seda atrás de uma bola.

    O potencial que eu referia não estava tanto na história (realmente, o que se pode fazer a uma história num anime de desporto?) mas no personagem. Como será viver invisível? Será que não se sente mal com isso? Será feliz assim? Será que consegue estabelecer relacionamentos viáveis? Será que o desporto é um escape? Respondem a tudo isto, mas da forma mais cliché possível.

    Animação acima da média, com grandes momentos de efusão desportiva pouco realista. Mas é disso que a gente gosta! Os jogos frequentes têm um  ritmo muito bom, ajudado pela música (por vezes um techno muito agradável), que não cansam facilmente.

    Mas infelizmente não é o desporto que faz o anime de desporto. Também não é o desporto que faz o desporto verdadeiro, basta olhar para as capas das revistas róseas.
  • As Intermitências da Morte

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    As Intermitências da Morte
    José Saramago
    2005
    Romance

    O bom de Saramago é que ele nos dá sempre questões para pensar. Desta vez a pergunta é "e se não houvesse morte?" Exactamente, o que aconteceria se ninguém morresse? É precisamente assim que começa este livro. No dia 1 de Janeiro e daí por diante ninguém morre. E assim se estabelecem as relações políticas e sociais entre o governo do país imaginário, a realeza, o clero, os filósofos, os meios de comunicação e todas as indústrias secundárias e terciárias que lidam com a morte.

    Mas então acontece o belo. E o belo é a perspectiva da morte. Porque a morte, não sendo humana e nem sequer se escrevendo com éme maiúsculo (tal como ela faz questão de apontar), também sente. E neste caso, ela sente amor.

    É um livro muito bonito, apesar de não começar como tal. A morte é apenas o mote para uma conversa sobre o sentido da vida e sobre a falta dela também. Saramago explora todas as perspectivas com a leveza de uma borboleta, utilizando do seu poder descritivo tão sintético e sarcástico como usual para nos dar a conhecer todas as faces deste dado (claramente um D20).

    De resto, fica aqui um excerto para ler com banda sonora:


    (...)Os provérbios estão constantemente a enganar-nos, concluiu o cão. Eram onze horas quando a campainha da porta tocou. Algum vizinho com problemas, pensou o violoncelista, e levantou-se para ir abrir. Boas noites, disse a mulher do camarote, passando o limiar, Boas noites, respondeu o músico, esforçando-se para dominar o espasmo que lhe contraía a glote, Não me pede que entre, Claro que sim, faça o favor. Afastou-se para a deixar passar, fechou a porta, tudo devagar, lentamente, para que o coração não lhe explodisse. Com as pernas tremendo, acompanhou-a à sala de música, com a mão que tremia indicou-lhe a cadeira. Pensei que já se tivesse ido embora, disse, como vê, resolvi ficar, respondeu a mulher, Mas partirá amanhã, A isso me comprometi, Suponho que veio para trazer a carta,. que não a rasgou, Sim, tenho-a aqui nesta bolsa, Dê-ma então, Temos tempo, recordo ter-lhe dito que as pressas são má conselheiras, Como queira, estou ao seu dispor, Di-lo a sério, é o meu maior defeito, digo tudo a sério, mesmo quando faço rir, Nesse caso atrevo-me a pedir-lhe um favor, Qual, Compense-me de ter faltado ontem ao concerto, Não vejo de que maneira, Tem ali um piano, Nem pense nisso, sou um pianista medíocre, Ou o violoncelo, é outra coisa, sim, poderei tocar-lhe uma ou duas peças se faz muita questão, Posso escolher, perguntou a mulher, Sim, mas só o que estiver ao meu alcance, dentro das minhas possibilidades. A mulher pegou no caderno da suite número seis de bach e disse, Isto, É muito longa, leva mais de meia hora, e já começa a ser tarde, Repito-lhe que temos tempo, Há uma passagem no prelúdio em que tenho dificuldades, Não importa, salta-lhe pr cima quando lá chegar, disse a mulher, ou nem será preciso, vai ver que tocará ainda melhor que rostropovitch. O violoncelista sorriu, Pode ter a certeza. Abriu o caderno sobre o atril, respirou fundo, colocou a mão esquerda no braço do violoncelo, a mão direita conduziu o arco até quase roçar as cordas, e começou. De mais sabia ele que não era rostropovitch, que não passava de um solista de orquestra quando o acaso de um programa assim o exigia, mas aqui, perante esta mulher, com o seu cão deitado aos pés, a esta hora da noite, rodeado de livros, de cadernos de música., de partituras, era o próprio johann sebastian bach compondo em cöhen o que mais tarde seria chamado de opus mil e doze, obras elas quase tantas como foram as da criação. A passagem difícil foi transposta sem, que ele se tivesse apercebido da proeza que havia cometido, mãos felizes faziam murmurar, falar, cantar, rugir o violoncelo, eis o que faltou a rostropovitch, esta sala de música, esta hora, esta mulher. Quando ele terminou, as mãos delas já não estavam frias, as suas ardiam, por isso foi que as mãos se dera, à mãos e não se estranharam. Passava muito da uma hora da madrugada quando o violoncelista perguntou, Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boca. Entraram no quarto, despiram-se e o que estava escrito que aconteceria, aconteceu enfim, e outra vez, e outra ainda. Ele adormeceu, ela não. Então ela, a morte, levantou-se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e tirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaxo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum,, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas. A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte, ninguém morreu.
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