Archive for terça-feira, março 09
Collateral
Michael Mann
Filme
2004
6 em 10
Um taxista vê-se, por mero acaso, como motorista de um assassino a soldo. Tem de o levar a matar as pessoas, embora não o queira: ele quer salvá-las e só o leva porque pensa que são má rês.
Assim, temos Tom Cruise a dar tiros (o que é sempre interessante) e caminhos de táxi com diálogos interessantes e uma boa exploração das personagens. O aspecto visual do filme é curioso, porque se mantém sempre em tons escuros pontuados pelas luzes da cidade. É um filme hard-boiled.
Talvez a sua principal falha se encontre na personagem de Tom Cruise, que apesar de ser má onda tem uns laivos de bondade que não se conjugam bem com a imagem pretendida. Também o final fica aquém do esperado, porque o confronto directo acaba por ser sempre uma maneira um pouco apressada de acabar com as coisas.
De resto, foi divertido.
Raya and the Last Dragon
Raya dn the Last Dragon
Don Hall & Carlos López Estrada
Filme
2021
5 em 10
De quando em quando necessitamos de uma nova princesa da Dinsey, sobretudo se tiver representatividade racial. Falando rápido e grosso, este filme seria excelente, se fosse completamente diferente.
A animação é lindíssima, mesmo muito bem feita, sobretudo considerando que foi quase toda feita em "teletrabalho". Os designs são muito bonitos e o universo em que isto tudo se passa é verdadeiramente original, embora bastante simples.
O problema é o diálogo. O diálogo aparece completamente fora do contexto, piadas modernas num mundo antigo, e é uma verdadeira lição de moral mal disfarçada para meninas pequeninas: sê amiga da tua amiga, perdoa, dá o primeiro passo. Confiança, é a moral. Mas tudo tão básico, com um discurso tão vazio, que o evidente se torna irritante.
Este filme teria beneficiado bastante de ser uma série.
Barroco Tropical
Barroco Tropical
José Eduardo Agualusa
2009
Romance
Presente de Natal do BookCrossing, foi uma leitura muito rápida, leve e agradável.
Um escritor (que *não* é José Eduardo Agualusa) e a sua amante vêm uma mulher a cair do céu. A partir daí o escritor vai ver-se envolvido num mistério que envolve política, um homem com asas e mitos diversos.
O autor utiliza recursos para simplificar a sua narrativa que, mais que originais e divertidos, parecem um pouco preguiçosos. Também faz alarde da exploração do prédio e da cidade, falando de mitos urbanos e hábitos enraizados na sociedade, mas que não servem para grande coisa na estrutura da narrativa, não acrescentando nem tirando nada a esta. Também faz diversas auto-referências, menciona amigos famosos e diverte-se a demonstrar o quão fixe é enquanto ser social que conhece muita gente.
De resto, a história é divertida, muito fácil de ler. A crítica à sociedade angolana parece aparecer a mais, sendo que esta história poderia passar-se em qualquer lugar do mundo sem grandes diferenças. Ainda assim, gostei da escrita e certamente que lerei outros livros do autor.
Willy's Wonderland
Willy's Wonderland
Kevin Lewis
2021
Filme
5 em 10
Imaginemos a hipótese de que o Nicholas Cage é convidado a limpar um parque temático abandonado. E imaginemos que ele está assombrado por bonecos animatrónicos assassinos. O que é o que o Nicholas Cage faria?
Obviamente que os vai matar na porrada!
Este é um filme de terror adolescente com um twist: os monstros não são tão assustadores quando há alguém a matá-los. A narrativa e o diálogo são típicos, um verdadeiro clássico da série B. Mas esta mudança de perspectiva, em que o senhor da limpeza vai (sim!) limpar tudo mesmo que monstros o tentem impedir, é realmente muito cómica.
Cage nem sequer fala, não diz nada o filme inteiro, mas nota-se que se divertiu bastante a fazer esta maluqueira. De resto, temos uma banda sonora surpreendentemente original, e efeitos práticos muito interessantes.
Um filme para comer pipocas, mas mesmo divertido.
Hello! Sandybell
Hello! Sandybell
Toei Animation
Anime - 47 Episódios
1981
4 em 10
Estou a fazer uma pesquisa sobre anime antigo que passou na televisão portuguesa e que eu não vi. Portanto, nos próximos tempos poderão aparecer aqui comentários de animes antigos. Então, vamos à Sandybell, da qual nunca tinha ouvido falar até sacar os episódios.
Sandybell é uma menina num mundo muito estranho, que é metade vitoriano e metade anos 30. Veste-se como uma criancinha de dez anos, mas conduz uma carrinha mágica (que está equipada com bombas, redes, água, enfim, imenso jeito). Tem amigos pequeninos, mais pequenos que ela, e tem amigos crescidos, nomeadamente homens que ficam fascinados pelo seu encanto, simpatia e beleza e - por isso - aprontam-se de imediato para ajudar na sua aventura de encontrar a sua verdadeira família.
Enfim, temos aqui uma mistura de coisas que não fazem sentido nenhum, e por isso o anime é estranho e pouco apelativo. A animação também é bastante incapaz, aparentando ser de uma cronologia bem anterior ao início dos anos 80, assim como as vozes, que dividem os personagens entre os que são bons para a Sandybell e os que são maus para a Sandybell.
A Sandybell em si é uma menina sem idade, que deveria ter crescido mas continua sempre obtusa como um seixo da praia.
Um anime chato, irritante e nada encantador.
O Pomar em Chamas
O Pomar em Chamas
Shena Mackay
1995
Romance
Há infâncias felizes e... Bem... Há outras que não o são. Este livro fala destas últimas.
Uma senhora visita a sua terra de infância apenas para recordar as coisas horrorosas que aconteceram. A sua melhor amiga, com a qual se divertia a tentar fugir da realidade, em quem os pais arreavam a porrada frequentemente, e ela própria - abordada sexualmente por um velhote aparentemente simpático.
O livro é uma memória dos anos 50, mas não é uma memória que abone muito em favor do sistema educativo, das pessoas daquela vila e das próprias famílias. A narrativa por vezes dá voltas que não nos levam a lado nenhum e que servem apenas para caracterizar este festival deprimente em que a criança vivia.
A tradução também deixa muito a desejar, sempre com notas de rodapé para as coisas mais vulgares.
Não recomendo.
Zodiac
Zodiac
David Fincher
2007
Filme
6 em 10
Há muito tempo que queria ver este filme, e finalmente tive a oportunidade. Talvez porque tinha uma expectativa completamente diferente, fiquei desapontada.
Narra a história dos crimes e investigação do criminoso conhecido como "Zodiac", que fez furor nos anos 60 e 80 com os seus crimes (não assim tão) horríveis e pelas mensagens misteriosas que enviava para que tentassem descobrir a sua identidade. O filme percorre os 15 anos entre os primeiros crimes e a edição de um livro com os resultados da investigação, mas - como se sabe pela história - sem culpados e sem consequências.
Confesso que pensava que os crimes eram muito mais horrendos e que o mistério dos criptogramas fosse extraordinariamente complexo. Por isso fiquei um pouco triste quando o filme se focou sobretudo nas relações entre as várias agências policiais e na falta de comunicação entre elas.
Ainda assim, foi um filme interessante e estimulante, que passou num instante.
Um Capricho da Natureza
Um Capricho da Natureza
Nadine Gordimer
1987
Romance
Recebi este livro através do BookCrossing, mas não era exactamente o que estava à espera. Primeiro, uma edição terrível, com letras minúsculas e estreitinhas, extremamente difícil de ler. Depois, uma narrativa densa e por vezes complexa, que me deixou aflita na leitura algumas vezes.
Este livro conta a história de Hillella, uma improvável interveniente nas revoluções da libertação da África negra e no fim do apartheid. O livro é quase como uma biografia imaginária, cruzando-se com referências da realidade. No entanto, a personagem principal é sempre indiferente a tudo aquilo que a rodeia e uma pessoa questiona-se porque raio é que ela se junta aos movimentos revolucionários se não aparenta ter uma ideia própria para pensar.
Apesar de existir uma boa caracterização do apartheid e do estado em que se encontravam os refugiados políticos na época, esta personagem esbatida acaba por tornar o livro numa narrativa estranha e quase desnecessária.
Desapontou-me.
her
her
Spike Jonze
2013
Filme
7 em 10
Um ensaio sobre a solidão.
Num universo tecnológico, muito aproximado à nossa realidade, um recém-divorciado encontra problemas em relacionar-se. Tudo muda quando adquire um sistema operativo com inteligência artifical, que se revela com uma identidade quase humana. E, humano e máquina, apaixonam-se.
Este filme é muito curioso porque apresenta a possibilidade de combater a solidão através das máquinas, ao mesmo tempo que permite o debate sobre o que é a realidade humana e o significado do amor. Neste debate, chego à conclusão de que toda esta sociedade (quase distópica) sofre do mesmo problema do nosso personagem principal, o que nos remete para o nosso próprio momento. Estamos tão desesperados por interacção que aceitamos a interacção da máquina como se fosse humana?
Com cenários simples e limpos, e uma luminosidade igualmente limpa, este filme é tecnicamente competente e vale, sobretudo, pela apresentação deste debate. Os personagens são palpáveis e apaixonantes. Fica em falha a conclusão, que talvez pudesse ser mais contemplativa.
De resto, recomendo.
Gunda
Viktor Kossakovsky
Filme
2020
8 em 10
Quando pensamos em filmes sobre a indústria da carne, surgem-nos sempre as pavorosas imagens do transporte e abate que, terríveis, apelam para o nosso lado da suavidade humana que odeia morte e violência. Mas “Gunda”, filme norueguês realizado por Viktor Kossakovsky, coloca-nos uma diferente perspectiva.
Filmado a preto e branco, com uma banda sonora composta exclusivamente de sons de animais e da natureza, este filme mostra-nos a vida diária de uma porca e seus porquinhos, uma manada de vacas e uma galinha perneta, numa aparente liberdade, com possibilidade de exibirem os seus comportamentos normais. O filme é extraordinariamente belo, com uma cinematografia comovente, mas o que o distingue em absoluto dos outros filmes apologistas do vegetarismo, é a naturalidade com que nos mostra a vida diária destes animais de produção que, livres, conseguem ter uma vida aparentemente normal.
Com uma sensibilidade quase cruel, os animais são-nos mostrados em todo o seu esplendor, com pequenas descobertas, pequenas dúvidas, e o crescimento de uma família. Este filme demonstra de uma forma concreta e silenciosa que, sim, os animais de quinta são também seres sencientes, que – à sua maneira própria – também amam e também querem ser livres.
Quis falar aqui sobre este filme porque penso que deve ser visto, não tanto para a compreensão da indústria da carne, mas para entendermos que aquilo que comemos esteve, realmente, vivo e que também teve algum tipo de sentimento.





