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  • Os Sete Samurais

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    Os Sete Samurais
    Akira Kurosawa
    1954
    Filme
    9 em 10
    Faltava-me ver este clássico do cinema mundial. Ainda bem que o vi, pois foi uma experiência brilhante!

    Uma aldeia no Japão feudal vive atormentada pela chegada de bandidos que vêm regularmente roubar as suas colheitas. Decidem contratar um samurai para os proteger, mas não têm como pagar. No entanto, reúnem sete samurais bem intencionados, que nada mais desejam senão proteger os camponeses a troco da sua honra.

    Cada personagem é única e cada uma tem um papel muito definido na história. A própria aldeia, com os seus camponeses, é uma personagem única. Temos momentos terrivelmente trágicos, mas também temos momentos de pura candura, humor e paixão arrebatada. É uma história completa, triste na sua conclusão e também muito revelador da própria natureza humana.

    As imagens são lindíssimas, de cortar a respiração. O olho do realizador mostra-nos uma natureza luxuriante e em fúria, tão brilhante quanto o preto e branco o permite. A montagem de cada cena é pensada ao mínimo detalhe, na estrutura e na forma. Temos uso de técnicas absolutamente revolucionárias na história do cinema. Já em 54 Kurosawa nos mostrava a luz do sol através da sua lente.

    Um filme maravilhoso, que me levou às lágrimas - de tristeza e também de alegria. Mas, como diz o velho samurai "no final perdemos nós". Espero que este filme nunca se perca.
  • A Selva

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    A Selva
    Ferreira de Castro
    1930
    Romance

    Recebi este livro numa actividade do BookCrossing e, até agora, foi um dos meus preferidos nesse jogo.

    Ferreira de Castro conta neste livro uma história semi-autobiográfica que retrata na perfeição o ambiente dos borracheiros na selva amazónica no início do século. Apesar de a narrativa ser bastante simples, apenas o suficiente para termos uma linha temporal, este livro foi um achado maravilhoso.

    O autor mostra-nos todos os detalhes da floresta luxuriante, tão bela quanto perigosa e terrível. Conta-nos os segredos obscuros que estas maravilhas escondem, desde as pragas e insectos às grandes feras que atormentam os viventes. Já para não falar dos índios que, presença sempre constante, atormentam os sonhos dos habitantes destas comunidades que não chegam sequer a ser uma cidade.

    O tratamento dado aos empregados deste ofício é também explicado com grande esmero e detalhe, sendo que quase mais perigosos que a natureza ou os índios, são os patrões, que praticamente escravizavam estes homens, colocando-os em dívidas cada vez maiores, dívidas essas que apenas significam os gastos com a própria subsistência.

    Um livro maravilhoso e que me encantou do início ao fim.
  • A Morte de Virgílio

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    A Morte de Virgílio
    Hermann Broch
    1945
    Romance

    Este foi um dos livros preferidos do meu pai dos últimos tempos, a ponto de ele o ter lido avidamente por mais de uma vez. Por isso, emprestou-mo para saber a minha opinião e me converter aos encantos líricos desta narrativa. Infelizmente, tal não obteve resultado, sendo que da nossa última conversa literária adveio grande encabulamento enquanto eu estava a explicar porque não estava a gostar. Penso que o meu pai ficou um pouco triste, mas passarei a explicar melhor o que achei desta obra. :)

    Virgílio, a quem não saiba, foi o poeta romano que escreveu o épico "Eneida", glorificação do seu império, dos seus deuses e dos seus imperadores E QUE (!!) eu nunca li. O livro inicia-se com o seu regresso da Grécia, onde estava a passar uma temporada cultural, para que devolva o manuscrito da Eneida ao César Augusto. No entanto, o autor encontra-se muito doente.

    A primeira metade do livro, que consiste na viagem até à habitação por ruas cheias de gente a sua primeira noite nesta, ardente em febre, foi o exercício mais aborrecido que li nos últimos tempos. Isto não tanto pelo conteúdo da narrativa, que acaba por ser uma contemplação bastante bela (dentro do contexto) da morte próxima e da vida enquanto reflexo da morte, mas pela forma. A forma como tudo isto está escrito é muito irritante, porque o autor repete conceitos e palavras ad nauseum, tornando esta leitura num verdadeiro pesadelo gramatical (em vez de um pesadelo astral, conforme o vivido pelo personagem). Para dar um exemplo, imaginemos que eu escrevia todas as minhas palavras escritas de uma forma bem escrita, escrevia todas as minhas palavras, sim, escrevia palavras de forma moderadamente escrita, mas todas as palavras que escreviam incluíam as palavras escrever e as palavras palavras. É mais ou menos assim por cerca de 200 páginas.

    No entanto, a partir da terceira parte (segunda metade) o autor recupera-se plenamente e temos um capítulo imensamente interessante em que existe uma melhor caracterização do personagem enquanto ser vivente, baseando-se na sua relação com os outros, os seus amigos e o próprio César. Nesta parte torna-se mais evidente que existem alguns personagens que não existem neste plano, sendo a sua presença causada pela pura imaginação febril de Virgílio. Estes personagens são altamente simbólicos, talvez relatando cada uma uma parte da vida do personagem, talvez representando cada uma uma parte dos desejos do personagem, tanto que elas lhe dizem coisas que deve fazer, acções que deve tomar que fariam todo o sentido se não fossem as pessoas "reais" a impedi-lo. Esta secção é literatura pura, da mais prazerosa que li ultimanmente, com diálogos fascinantes, imagens lindíssimas e cativantes.

    Depois, numa parte final muito curta, o autor volta à técnica do início (apesar de não tão evidente) e mostra a forma como Virgílio vai para "o outro lado" e encontra o deus uno e verdadeiro. Situação ligeiramente desconfortável, considerando que o senhor haveria de ser panteísta.

    Um livro que me deixou muito dividida. É complexo, difícil de navegar, com uma escrita bizarra na maior parte da narrativa, mas penso que a secção da "Terra" talvez possa compensar todos estes elementos. Lá que dá vontade de ler a Eneida... Isso dá!

  • O Moinho à Beira do Rio

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    O Moinho à Beira do Rio
    George Elliot
    1860
    Romance

    Variemos um pouco o estilo literário e viajemos até à época vitoriana. Que, como caracterizei no outro dia, era habitada por umas pessoas muito grunhas.

    Este romance acompanha a vida de dois irmãos, nas suas aventuras e desventuras, na bonança e na pobreza, em amores e desamores, fazendo um retrato mais ou menos fiel da sociedade da época. Infelizmente, na sociedade da época, era toda a gente chata como só. Não se podia fazer nada.

    A primeira parte é um aborrecimento muito grande, pois fala de uma infância assim como assim feliz, mas cheia de regras. A partir do momento em que os nossos personagens vão crescendo, a coisa começa a ter um pouco mais de interesse. Mas o estilo, altamente floreado e cheio de elocuções morais que não interessam nada para o contexto da história, torna tudo numa aventura bastante maçadora.

    Os personagens têm atitudes estranhas e erráticas, movidos pelas suas "emoções" que, pelos vistos, são também estranhas e erráticas. A autora (George Elliot é uma mulher) aproveita o facto de os personagens tomarem estas acções para as criticar ou para falar de grandes momentos moralistas religiosos que não trazem nada de novo. 

    O livro é feito de muitos diálogos, que me pareceram bastante improváveis (embora não duvide que nesta época grunha as pessoas falassem realmente assim). Talvez a parte mais divertida sejam todos os diálogos com Bob, o bufarinheiro, que de entre todos parece ser a pessoa mais normal.

    Enfim, valeu a pena ler para conhecer um pouco mais da literatura da época e ficar a saber mais um clássico, mas não posso dizer que tenha gostado...
  • She

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    She
    H. Rider Haggard
    Romance
    1886

    Um livro que comprei com o objectivo de fazer Bookcrossing com ele. Não esperava grande coisa deste livro e, apesar de ser um clássico com 10 adaptações para o cinema, achei que também não era grande coisa.

    Antes de mais a linguagem deste livro é uma coisa abominável, de tão anciã e complicada. Tive muita dificuldade em acompanhar a escrita, porque realmente o meu inglês não é assim tão bom, e alguns termos desactualizados (como ""Oh!", he ejaculated.") fizeram-me perder completamente a concentração. Mas lá o consegui terminar.

    Conta a história de um homem babuíno e do seu filho adoptivo leão e do seu criado porco que se vão meter no meio de África à procura da solução para umas mensagens deixadas por uns antepassados. São apanhados por uma tribo bárbara e canibal, cujo líder é SHE, uma mulher linda, mágica e encantadora que domina tudo e todos (e que é imortal e que é linda, já disse isso?) Ora, ela diz que quer casar com o gajo giro, leva-os lá para o meio da montanha e depois acontece-lhe uma magia qualquer e safam-se. ORA QUE CONVENIENTE!

    É um livro racista e misógino. Os desgraçados dos "selvagens" são caracterizados como sub-humanos, como verdadeiros animais. Apenas os Ingleses são verdadeiros seres humanos e civilizados. O que interessa que aquela gente tenha vivido assim desde há 2000 anos? Somos Ingleses somos claramente superiores! E Ayesha, a She, a Femme-Fatale, por mais fatal e poderosa que seja tem de depender de um homem? Existe para tornar a ver o seu apaixonado? É a pessoa mais poderosa do universo, mas a sua vontade verga-se perante o homem? Acho desapontante que pessoas que se consideravam tão civilizadas nesta época tenham opiniões tão bárbaras.

    Além disso o livro é muito pouco convincente. É suposto ser um relato da vida real, mas o facto de o Holly se lembrar perfeitamente de todas as frases que foram ditas naquele período é pouco verossímil.

    Enfim, só é bom porque é um clássico com belas imagens do mundo selvagem Africano. De resto, ainda bem que a sociedade evoluiu. Viver com gente como Haggard haveria de ser um sacrifício enorme para mim.

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