Há sempre uma altura da nossa vida em que somos adolescentes. E os adolescentes são caracterizados por terem sentimentos muito intensos: eles amam intensamente, odeiam intensamente e têm um medo muito intenso também.
É essa intensidade que é demonstrada neste volume de banda desenhada nacional, assinada por Joana Estrela e publicada pelo Planeta Tangerina, editora sobretudo dedicada ao público infantil. E é precisamente ao público infanto-juvenil que esta obra é dirigida, abordando um assunto que pode ser um pouco difícil de digerir por pais e educadores:
O que acontece quando uma miúda gosta de outra miúda?
A nossa narradora descobre-se a si mesma na relação com o outro: Pardalita é o objecto de afecto, mas desconhece-o. O facto de ser nominada um "pardal" tem uma importância significativa: um passarinho pequeno, frágil, mas com um poder oculto de psicopompo que tem uma força de atracção irresistível. Conhecem-se na escola, um ambiente neutro mas habitado por uma fauna que pode ser a maior crítica de si mesma. E a narradora envolve-se no mundo do teatro, um detalhe que achei fascinante, para estar mais próxima da rapariga de quem gosta.
As dúvidas e ansiedades são expressas em desenhos simples, mas com muito dinamismo, acção e movimento, como se pode ver neste painel que cito:
O teatro é uma fonte de cultura e aprendizagem, mas também é uma fonte de poder social. Subitamente, a nossa narradora não se vê confinada aos limites dos seus amigos de sempre: agora também tem todos os amigos que estão no palco e nos bastidores, e com esse novo poder poderá ganhar a coragem para se declarar, o que vem a ser consumido numa curiosa viagem a Lisboa (os personagens são do Norte), em que perante as cores e a paisagem fluvial, Pardalita aceita a sua nova companheira e - assim - se inicia uma relação.
O que vai acontece no futuro é o mistério da vida adulta. Se um dia somos crianças, somos uma menina que recolhe um passarinho nas suas mãos para o amar e cuidar, no dia seguinte talvez esse pardal precise da liberdade de voar ou, talvez, aceite a domesticação do amor.
Por isso, quando uma miúda gosta de outra miúda, as coisas podem não ser tão simples como neste livro, mas quem nos dera que fossem sempre assim tão belas.