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  • Análise: The Pitt - Serviço de Urgência, mas cientificamente actualizado

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    The Pitt. O nome dado às urgências de um dos principais hospitais escolares de Pittsburgh.

    Nesta série, até agora com duas seasons, acompanhamos um dia completo no hospital, sendo cada episódio uma hora do turno. Como podemos constatar, cada season tem 15 episódios, estes médicos nunca saem a tempo e horas do seu trabalho.

    Naa primeira season conhecemos alguns estudantes de medicina, preparadíssimos para aprender e absorver toda a informação que o seu MD tem para lhes dar. Esse MD é Robbie Robinavitch, um experiente médico que já tinha participado no Serviço de Urgência dos anos 90, mas com outro nome (ah, era o mesmo actor!). Aliás, às vezes ele até dá dicas do género "isto fazia-se assim nos 90s", o que foi muito engraçado.

    Tal e qual como no clássico Serviço de Urgência, a cada episódio temos alguns casos clínicos novos, alguns muito simples e outros muito bizarros. Na verdade, esta série inspirou-me imensamente a finalmente ir tirar a pós-graduação em medicina interna, porque quero ser tão esperta e cabeçuda quanto estes médicos de pessoas.

    The Pitt fala também de alguns assuntos sociais importantes, como a pandemia, a acção do ICE ou o consumo de drogas em ambiente hospitalar. Cada personagem tem as suas características únicas, e são mesmo muito cativantes estes médicos e estudantes. Na segunda season, os estudantes já são residentes, e conhecemos mais um batch de potenciais médicos. Conseguimos perceber que o choque da morte acaba por ser mais impactante que o facto de se salvarem vidas, e que cada pessoa tem a sua vida única e exclusiva, com problemas que nos podem parecer um pouco parvos às vezes, mas que para elas são importantíssimos.

    O série aborda também o facto de não haver serviço nacional de saúde nos USA, mostrando-nos as dificuldades de pagamento dos serviços prestados pelas pessoas que perderam Medicaid por uma razão ou outra. Essas dificuldades podem ter consequências graves, e isso é preocupante tanto para os intervenientes da série como para o público.

    Apesar de ter algumas cenas bem gráficas, o ambiente é completamente estéril e educativo. Por isso não me impressionam grandemente, apesar de chegarem a mostrar um parto ao vivo e a cores.

    Foi uma série com a qual vibrei durante as semanas em que esteve a sair, e estou ansiosa por seasons infinitas!

  • Análise: Ace wo Nerae! - O anime, o cinema e o desporto entram num bar

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     Serve esta review/análise para falar do Ace wo Nerae BOM: o filme do Dezaki, o OVA e o segundo OVA. A série original, acho que já falei dela aqui, é bastante fraquita, em que as jogadoras praticam ténis só de meias, porque não lhes desenharam os sapatos.

    Mas falemos de coisas boas: o que acontece quando temos um anime de desporto, que é realizado por um director fluente em cinematografia?

    É graças a isto que Ace wo Nerae (torna-te num ás!) se eleva para além de um anime perfeitamente normal situado nos anos 70: porque os jogos tornam-se fascinantes, sem uso de super poderes nem nada, apenas a força bruta; porque finalmente ver um jogo de ténis se torna um exercício de controlo de emoções, emoções fortíssimas!

    Confesso que, no passado, odiava este desporto. O meu pai essencialmente me obrigou a passar tardes sem fim na escola de ténis, em que eu só podia mandar bolas para uma parede, enquanto ele jogava no campo (que era o que eu queria). Aprendi as regras do ténis, e consequentemente a gostar de ver os jogos, em Prince of Tennis. Graças a essa aprendizagem, este anime predecessor acaba por se tornar muito mais interessante, porque conseguimos realmente acompanhar os jogos.

    Tudo começa porque o clube de ténis da escola tal tem uma tenista muito linda, a quem chamam Madame Butterfly. Por isso, todas as meninas da escola se querem juntar, mas mal sabem elas que o treinador é um homem (com a provecta idade de 27 anos, o que será importante a seguir) irascível e que não gosta de ninguém. Ao testar as raparigas nas suas habilidades tenísticas, ele detecta uma gema em bruto: Hiromi Oka. Juntos, constroem uma relação de respeito mútuo e, quiçá, um certo amor apaixonado - apesar da diferença de idades.

    Mas tudo acaba em tragédia, como costumavam acabar as coisas nos anos 70, e não mais podem estar juntos. Digamos, mandando um grande spoiler, que o treinador fez parte do Clube dos 27. Oka nunca se irá recuperar completamente, após um ataque de histerismo, mas lá tenta encontrar uma forma de viver.



    Penso que este anime não é só e apenas sobre ténis. No fundo, esta história é um contar da juventude, e de como aquilo que fazemos quando somos muito novos não corresponde ao que fazemos quando somos adultos. Os amigos que chegam, e os amigos que partem para outras direcções da vida. Os amores que vivemos, com que vibramos, e aqueles que são estáticos e seguros.

    Um verdadeiro hino ao desporto, e à adolescência também, mas como se fosse um filme mesmo do cinema.


  • Análise: Chargeman Ken! - Quando o anime sofre de paralisia cerebral

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     Quando precisava de um anime para ver em grupo, fui pedir sugestões a uns outros amigos a ver o que me davam. E o que me deram foi uma jóia mais que preciosa, um diamante perfeitamente lapidado, só que em forma de cagalhão.

    O nome desse diamante é Chargeman Ken!

    Se em 1973 as crianças em Portugal sofriam com o final de uma ditadura, as crianças do Japão sofriam com a OP de Chargeman Ken!. Cantada por um coro infantil, dizem que o nome do seu Chargeman é Chargeman Ken, Go Go Ken. Após 65 episódios a música acaba por ficar mesmo na cabeça, por mais que a gente não queira.

    De resto, o que dizer do nosso Chargeman? Do nosso Chargeman que é o Ken? Então, Ken sofre de uma doença que o desfigurou completamente, a ele e aos outros personagens todos, porque está tão horrivelmente mal desenhado que só pode ter sido criado, no seu conceito de design, pelos pés de uma pessoa com Parkinson. Segundo consta, os animadores estavam muito a ralenti com este anime, porque iam para a praia em vez de trabalhar nele.

    Confere: temos sequências de animação absurdas, em que Ken rebola e rebola sobre si mesmo, a arma muda de sítio, pessoas não estão pintadas e vivem uma vida monocromática na multidão; temos acetatos partidos nas keys, temos pêlos e estranhos pentelhos nas keys. Temos até um momento em que aparece simplesmente uma folha com uns números escritos, que terão se esquecido de tirar (ou terá sido de propósito que lá ficou?) A transformação de Ken é sempre igual em todos os episódios, na sua luta contra os terríveis Juralianos (umas criaturas tentaculares e monoculares, que vivem debaixo do mar, liderados por um gajo com dedos de macarrão, que querem destruir a humanidade por nenhuma razão específica mas que, em oposição a Ken, morrem muito facilmente). A transformação de Ken que é sempre igual costumava ter uma musiquinha muito gira e psicadélica, mas não é sempre, porque o director de som deste anime devia ser surdo, já que raro é o momento de acção que tem banda sonora.

    De resto, as personagens são do mais esquisito que há. Ken não tem nenhuns amigos, fora a irmã Caron (que tem um ar estranhamente adulto, muitos panty shots e dá facadas), e o robô de estimação Barican, que é sem dúvida um robô alcóolico sempre com os olhos tortos.


    Mas o mais estranho no meio disto tudo é o abordar de temas essenciais e relevantes, mas da forma mais estúpida possível. Falamos do mau trato a animais, de bullying, de diferenças entre estratos sociais... Mas sem que nada disto faça sentido nenhum.

    Ken é como a merda: parece merda, cheira a merda, sabe a merda.... Certamente que é merda!

    Por isso, SO LONG LOSERS!


    O primeiro anime de sempre que classifiquei com 1/10. Ficará para os registos históricos. Parabains Ken, estou orgulhosa de ti. Nem tentando ninguém conseguia ser tão mau.


  • Análise: Heated Rivalry - Quanto mais me odeias, mais gosto de ti

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     Série inspirada na também série de livros, de mesmo nome, e que fala sobre uma rivalidade muito sensual entre dois jogadores de hockey no gelo.

    Quando se conhecem, no primeiro ano em que estão a jogar profissionalizados, eles imediatamente odeiam-se um ao outro. Mas esse ódio rapidamente se transforma num amor carnal incontrolável, e ao longo dos anos estes dois (que se odeiam) vão aprendendo que - na verdade - se amam. E isso é extremamente fofinho. O discurso todo em russo do Ilya é encantador.

    A série é extremamente relevante nos tempos que correm, porque nos fala de vários elementos socialmente importantes. Desde a pressão social e familiar dada aos desportistas, até ao facto de haver uma homofobia intrínseca no mundo do desporto, esta série fala disso tudo de uma forma mais ou menos ligeira, mas ainda assim muito emocionante.

    As cenas sensuais estão extremamente bem feitas, e conseguimos ver uma grande conexão entre os acores que nunca teria sido conseguida sem um forte director de intimidade, que fez um trabalho excelente.

    De resto, há muito tempo que não vibrava tanto com uma série, de forma a me sentir fisicamente afectada num dos momentos mais importantes da narrativa, no episódio 6 e mais não digo.

    Anseio agora pela segunda season e talvez venha a ler os livritos.


  • Análise: Blood+ - Quando o bom gosto se mantém

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    Há muito muito tempo, vi Blood+. Classifiquei-o comum 9/10 e adicionei um dos personagens aos favoritos. No entanto, não me lembrava virtualmente de NADA deste anime. Porque é que lhe dei 9? Porque é que gostava tanto daquele persoangem?

    Ocasião de rever, desta vez em grupo, e parece que a minha opinião de 2007 se mantém. O meu eu de há 20 anos era realmente um poço de bom gosto.

    Mas afinal de de contas, de que se trata este anime? Vampiros!

    Conhecemos, ao início, uma rapariga aparente normal, embora bastante anémica, chamada Saya. Rapidamente percebemos que esta Saya é, na verdade, um chiroptera: espécie de vampiro mutante, muito feio, que ataca sem escrúpulos toda a gente. Dizem que é a forma seguinte da evolução do ser humano. Investigam sobre isso. Saya enquanto vampira tem adormecimentos periódios que duram cerca de 60 anos. A última vez que despertou, esteve na Guerra do Vietname e correu tudo muito mal. Ela apagou as suas memórias. E é nesta aventura para lutar contra os chiroptera que ela as vai recuperar.

    Ela tem dois irmãos adoptivos e um "chevalier", que é o Haji, um cavaleiro defensor e protector que toca violoncelo. O Haji é lindo de morrer, tem uma personalidade toda magoada e cheia de angústia, e percebemos porquê: porque quando Saya dorme, ele - no sofrimento da sua imortalidade - tem de vaguear por todo o lado sem destino e sem nada para fazer sem ser praticar o seu instrumento (o violoncelo, por favor!)

    Também os antagonistas são aterrorizantes e muito fortes, nomeadamente Diva, que tem uns gostos sexuais muito estranhos e que - com isso - protagoniza uma das cenas mais perturbadoras do anime inteiro. Os seus chevaliers também lutam, mas ao contrário de um shounen de batalha regular, eles não aparecem a cada semana. Eles têm personalidades distintas, poderes distintos e histórias evolutivas completamente diferentes, com razões muito íntimas para se manterem como chevalier.

    Nas cenas de acção, a animação é brilhante, e temos uma banda sonora perturbadora.

    De resto, como se confirma que eu era um génio, tenho apenas a dizer que o bom gosto é para sempre. E, para celebrar isso, quero ser um bonito. Sim, farei cosplay do Haji. Porque eu mereço.





  • Análise: No Coração desta Terra - Que Terra?

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    Livro literalmente encontrado no lixo, e que se veio a revelar uma obra máxima da literatura contemporânea.

    Estamos na África do Sul, em pleno Apartheid, e lidamos com as confusas memórias de uma mulher, Magda.

    Magda tem uma relação estranha com o pai, Magda tem uma relação estranha com a vida. Magda já não se recorda bem do que aconteceu: vive com os seus criados, todos negros como deveria ser, e matou o seu pai. Ou se calhar não, se calhar ele está muito velhote e xexé.

    Com esta confusão mental, pareceria difícil escrever um livro sobre semelhante personagem. No entanto, Coetzee consegue fazê-lo de forma magistral, colocando por palavras bem bonitas o quanto do desespero desta mulher toca na realidade, apesar de estar bastante afastado dela porque Magda está louca.

    Apesar de ser um livro bastante complexo, lê-se muito bem e é altamente viciante. É uma obra que toca no factor social, mas sobretudo no factor pessoal da personagem, que é vibrantemente confusa, mas com toda a razão.

    Assim, estamos no coração desta terra, mas que terra? A África do Sul, a África em si, ou o país pessoal em que Magda se encontra? Fica a dúvida para sempre.

  • Análise: 17-26 - A Arte de Tatsuki Fujimoto

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    Conhecemos Tatsuki Fujimoto pela sua mais famosa obra, Chainsaw Man. Por isso, fiquei agradavelmente surpreendida com este conjunto de curtas, que são adaptações de vários one shots escritos no período de 10 anos entre 2017 e 2026.

    Cada história é única e realmente fascinante. As que mais me impressionaram foram as da galinha e a do quadro. São histórias surrealistas, mas apegadas a uma realidade muito forte e muito concreta, a realidade do próprio autor, que ele altera e molda nestas histórias para servir uma espécie de moral pessoal.

    Mas o mais extraordinário é sem dúvida a animação, que é lindíssima e espectacular. Se cada pequenina história por si só não tem nada de especial, os efeitos visuais transformam-nas em algo de muito belo e de muito atractivo.

    Gostei muito deste conjunto de curtas, e recomendo.

  • Análise: Takopii no Genzai - O Alien e o Assunto Sério

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     Por vezes encontramos um anime, um simples OVA, que acaba por significar muito mais do que aquilo que esperávamos. Takopii no Genzai é um desses animes, algo aparentemente simples e muito infantil que se revelou um anime muito mais relevante do que o que eu esperava.

    Tudo começa quando Takopi, um alien tipo polvo do Planeta Feliz, vem para a Terra com o objectivo de fazer todos muito felizes. Má a sua sorte que vai parar às mãos de uma menina que sofre bastante, ela é vítima de bullying.

    Takopi consegue concretizar desejos, e como acha que a nossa menina vai ficar feliz sem a sua bully, ele.... (isto é spoiler) Ele.... Mata-a. D:

    Mas percebe que a família da bully sente a falta dela, então faz uma menina falsa para a devolver à família.

    Como podem ver, o Takopi pode vir do Planeta Feliz, mas não vem do Planeta Inteligente.




    Como este anime tem designs muito fofinhos, um pouco infantilizados, o choque dos momentos de violência é muito mais intenso do que se fosse de outra forma. 

    É um anime que fala de bullying e de como lidar com ele, pois nem sempre temos um alien feliz para nos ajudar. E como não o temos, precisamos de aprender maneiras de reagir aos nossos atacantes (sem os matar, de preferência), compreender que também eles podem estar em sofrimento e, talvez, perdoar.




    Um anime que me impressionou bastante, e que recomendo.


  • Análise: Catarina e a Beleza de Matar Fascistas - O nome fala por si só

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    Peça criada e depois encenada por Tiago Rodrigues, foi publicada em formato literário após a estreia da peça, que trouxe muitos azedumes ao público, conforme veremos a seguir.

    Livremente inspirado na história de Catarina Eufémia, brutalmente assassinada no Estado Novo por - simplesmente - se estar a manifestar, esta peça/livro fala-nos de todas as Catarinas que existem dentro de nós, das Catarinas que desejam e necessitam de matar um fascista.

    Uma família, todos chamados Catarina, faz um fascista como prisioneiro e estão preparados para o matar. Mas uma das Catarinas hesita, afinal o fascismo já não significa muito para as gerações mais novas. E é essa dúvida, essa falta de memória colectiva, que nos leva para o monólogo mais violento de que há memória, a altura em que o público da peça se manifesta, atira coisas, se revolta. Porque é realmente uma coisa revoltante e horrível, o tal discurso fascista, que toca nos pontos dolorosos deste tipo de regime em alinhamento com a actualidade.

    Então, estabelecemos aqui que as forças do mal estão representadas pelo fascista. No entanto, as forças vingativas estão fragilizadas, esquecidas. Talvez porque há muita gente hoje em dia que gosta de culpar os outros pelas suas próprias acções políticas, e muita gente saudosa de um tempo que nunca existiu para elas mas que, para quem existiu, é uma memória de pesadelo.

    Uma peça extraordinariamente relevante, e que merece toda a premiação que recebeu. Fico ansiosa por conseguir arranjar bilhetes para uma próxima e eventual sessão.




  • Análise: Dragon Heart - A Happy Science contra-ataca

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    DISCLAIMER: Este filme ainda não saiu na Happy Science Europa. Por isso não está disponível para visualização. Mas graças aos poderes do El Cantare, um amigo fez amizade com uma representante da Ciência Feliz e ela enviou-nos o link do filme. Assim sendo, eu sou especial. Vocês não.

    Adiante.

    Este novo filme profético não nos dá muito mais informações morais, éticas ou religiosas do que vimos anteriormente. Neste filme, um casal de primos literalmente morre nos primeiros minutos e são orientados por um dragão com uma careca na cabeça a viajar pelo Inferno.

    Ora, o Inferno da Happy Science não é de todo um lugar feliz. Para lá vão aqueles que não cumprem as regras do El Cantare, como por exemplo, pessoas que acreditam no aquecimento global (depois foi esclarecido que o aquecimento global é uma invenção chinesa, como é ÓBVIO). As imagens do Inferno são bastante divertidas, salvo uma excepção para um momento absolutamente pavoroso, em que até gritei, em que os demos e succubus e cenas aparecem todos seguidos num tipo de AI muito mal feito.

    Felizmente os nossos protagonistas salvam-se do Inferno, mas não conseguem tirar de lá ninguém, porque mesmo que as pessoas tenham sido vítimas de pecados, o facto de os terem feito impede-os de encontrar a iluminação. É nessa altura que descobrimos, o que foi muito surpreendente, que existe uma caverna mágica por baixo do Everest onde pessoas sábias treinam as suas capacidades místicas por forma a chegar mais próximo do El Cantare que é o deus entre todos os deuses: o deus em que os outros deuses acreditam.

    Por isso, quando se sentirem desamparados, lembrem-se que o El Cantare tem o aval até de Jesus. Mas portando-se mal em vida, vão parar ao Inferno, não interessa se fizeram alguma coisa de jeito ou não. Isto é tudo muito rígido, mas é assim que deve ser, foi assim que o Happy Science-mor decidiu e por isso é assim que é.

    O mais surpreendentemente nisto tudo foi o homem ter escrito mais de 1000 livros em vida, pré-AI. Talvez tenha sido inspiração divina? O mais provável é que não.

  • Análise: The Sopranos - Se até o mafioso vai à terapia, tu também podes ir!

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     Os Sopranos. O show que mudou a televisão como a conhecemos. Lançado em 1999 pela HBO, mostrou-nos que 1. A televisão podia passar violência; 2. A televisão podia passar dramas familiares intensos; 3. A televisão pode realmente fazer alguma diferença.

    Esta série acompanha a família Soprano que, como o nome certamente indica, é uma família muito importante da máfia. Acompanhamos Tony Soprano nas suas desventuras mafiosas, na relação com os membros da sua família directa e por afinidade, e observamos sem qualquer dúvida a evolução, crescimento e envelhecimento de cada um dos personagens.

    Tony Soprano admite que algo de errado não está certo, então decide-se a ir à terapia em busca de ajuda. Por isso, sim! Se o padrinho da máfia vai tratar da sua saúde mental, TODOS NÓS PODEMOS (e devemos) IR TAMBÉM!!!! Mas após a série, chegamos à fatalidade da conclusão: um mafioso é uma pessoa desiquilibrada, que ama bebés e animais, que tem uma vida aparentemente normal, mas que não hesita em causar a morte, a dor e o sofrimento se com isso ganhar mais dinheiro ou respeito. Portanto, um mafioso é sempre um psicopata, por mais amoroso que seja na sua vida familiar.

    E é esta vida familiar que torna tudo muito engraçado. Porque os filhos do Tony descobrem a profissão do pai e não sabem bem como lidar com isso. Porque a mulher do Tony é igualmente um osso duro de roer, mas também é altamente emotiva e em busca de um amor verdadeiro que a complete. E a família emprestada, os outros mafiosos todos, as relações com eles são muito bem estabelecidas, mas ainda assim não livres de vinganças pelas razões mais inusitadas (para nós, pessoas normais em 2026), desde a homossexualidade, até à traição directa com a polícia (que é toda uma outra personagem colectiva).

    Apesar de não me ter envolvido o suficiente para considerar os Sopranos como parte da minha própria família (o que é bom, acho eu?), foi uma série mesmo muito viciante, que me manteve totalmente fixa durante toda a sua duração.

    E fica a moral: FAÇAM TERAPIA!




  • Análise: Space Adventure Cobra - Quero uma Cobra Hard-Boiled, por favor

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     Estamos no ano do senhor de 1982 e Space Adventure Cobra é um anime tão popular que decidem fazer um filme. E, assim, temos uma série bastante infeliz, cuja história não chega até ao fim para entendermos, com monstros e mulheres diárias bem feiitos e na generalidade uma coisa muito confusa, MAS! também temos um filme realizado por Osamu Dezaki, o que significa que - sim - é muito bom.


    É com Cobra que iniciamos esta review, Cobra esse bezano e fumador inveterado, acompanhado pela sua amiga robô, que não é bem um andróide mas também não é uma pessoa. Este viajante do espaço anda apenas por aí a fazer macacadas e ninguém dá nada por ele, até ao momento em que encontra uma mulher misteriosa que tem um mapa tatuado nas costas. Agora Cobra irá revelar-se um verdadeiro herói, porque apesar de não estar propriamente apaixonado por esta (estas) mulher (mulheres), faz questão de levar a aventura até ao fim. Porquê? Talvez para ver onde ela vai dar, pelo tesouro, ou simplesmente porque ter uma aventura no espaço é bom para ocupar o tempo.

    Com uma história misteriosa e muito bem montada, um personagem tipicamente hard-boiled como convém aos animes dos anos 80, o filme vence pela animação cinematográfica apresentada constantemente, com um mix de cores e formas altamente psicadélico e momentos de grande virtuosismo.


    Mas o que é verdadeiramente fixe e hard boiled nesta cobra é a ARMA: a psycho gun é absolutamente icónica, e é muito engraçado como o aparentemente desinteressado Cobra se revela um pirata espacial perigosíssimo assim que arranca o braço para revelar a psycho-gun.

    O humor de Cobra pode estar um bocadinho desactualizado, mas é um personagem realmente cativante. A minha classificação final do filme foi de 8/10 (um regular 6 para a série, apenas) e recomendo bastane a todos os que tiverem interesse em anime old-school.


  • Análise: Kizuoibito - O Homem Magoado

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    Começamos com esta imagem inicial porque este anime, não sendo propriamente um hentai, é um absurdo de NSFW de que precisamos de falar em mais detalhe.

    Criado pelo mesmo artista que fez o genial Crying Freeman, mas escrito por alguém sem grande popularidade, este manga deve ter uma agressividade muito superior ao do OVA de quatro episódios que vimos em grande sofrimento. Neste OVA - com a classificação muito conveniente de 4,04 - acompanhamos as aventuras do Homem Magoado, ou Homem Aleijado, ou Homem Ferido, o que quiserem. Ninguém sabe porque é que ele está magoado, como veremos.

    Este homem magoado vive semi-nu e com um chapéu de cowboy nas mais misteriosas áreas da floresta Amazónica, onde procura por ouro (deve haver imenso desde que os colonizadores lá estiveram e o levaram para fazer o Mosteiro dos Jerónimos). Nisto ele encontra a meio do caminho uma rapariga jornalista que está prestes a ser analmente penetrada por um insecto horroroso, toda amarrada a uns paus pelos maldosos caçadores de ouro do Brasil. Procede o nosso homem a libertá-la e.... A sério, ninguém está à espera disto! E.... A.... BIOLA-LA! =D

    Mas ele fica traumatizado, porque ela é (costumava ser) virgem e não se pode violar meninas virginais na teoria ético-moral desta pessoa. E assim estabelecemos o início desta história. Rapidamente percebemos que o homem magoado foi injustiçado, porque o tentaram contratar para um filme pornográfico e ele não aceitou, e agora está a ser perseguido pela produtora. O próprio homem foi biolado, a namorada dele foi biolada também e, como com os actos que nos cometem vêm consequências nas nossas atitudes futuras, ele agora procede a biolar toda a gente que encontra (mas uma por episódio). E o mais espantoso é que depois de semelhante violência elas.... Apaixonam-se por ele. Assim, o nosso homem colecciona mais waifus que o MC de um harem isekai, o que é fascinante e surreal.


    Assim, no meio de perseguições, violações, cenas de acção muito mal feitas, temos alguns momentos de pura hilariedade, estimulados pelas legendas anormais que se arranjaram. O anime até consegue ser especialmente racista, fazendo a pessoa negra tão escura que só se vê os olhos na sombra. E o anime consegue colocar aqui a relação diplomática entre o Japão e os USA, porque o homem era jogador de futebol americano (tanto que os ataques dele aos outros malvados são - essencialmente - placagens), e depois de enriquecer com o ouro brasileiro instala-se nada mais nada menos do que na Trump Tower.

    Um anime absolutamente horrível, mas que me fez rir até às lágrimas do tão horroroso que é.

    Adeus Wounded Man, Adeus Homem Aleijado. Até uma próxima vida de desenhos tortos.





  • Análise: Vinland Saga - Em Busca de um Mundo Perdido

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     Depois de ver o anime de Vinland Saga, não quis esperar para saber mais sobre as aventuras de Thorfinn, um menino que se tornou guerreiro viking por força das circunstâncias. Assim, pus-me a ler o manga, e foi dos melhores que alguma vez tive o gosto de ler.

    Digamos que esta história se pode dividir em três partes: Infância; Adolescência; Juventude Adulta.

    Numa primeira parte, este rapaz que mencionamos, envolve-se com um grupo de guerreiros vikings com o objectivo de vingar o seu pai, assassinado por estes. Rapidamente se torna também um guerreiro sanguinário, sem remorsos e sem escrúpulos. Afinal, a educação de um guerreiro faz-se desta forma. Apreciei bastante que nesta secção o autor faz uma pesquisa muito detalhada sobre o modo de vida medieval no Norte da Europa, tendo um especial cuidado no desenhar de arquitectura e cenários, e mostrando-nos alguns elementos que - no meio de toda esta violência - são pequeninos pedaços de vida bastante engraçados.

    Nesta altura começamos também a perceber um pouco dos aspectos políticos deste universo, todos baseados em eventos reais. Canute, o príncipe, é um personagem fascinante, com uma evolução tremenda, em que passa de fracote tímido a rei imperial num instante. Sim, quererei fazer cosplay dele, sim sim.

    Mas não deixemos de lado o nosso amigo Thorfinn, porque passamos para a segunda secção do manga. Neste, o nosso rapaz é um muito jovem adulto que - perante o desrespeito que cometeu ao corpo do príncipe - é enviado como escravo. A parte interessante desta época medieval é que todos podiam ser escravos e, por isso, eram mais ou menos tratados com uma ideia de justiça (ao contrário do que foi introduzido por Portugale colonialista, que considera que há pessoas sub-humanas que não merecem nada de direitos ou de consciência social). Mas enfim, Thorfinn escravo passa por esta fase essencial em que ele tem uma aprendizagem transcendental: é atormentado pelos fantasmas dos mortos de guerra e, por isso, decide que a partir de agora irá apenas fazer a paz. Esta contemplação é mesmo muito interessante e original, pois nunca vi um protagonista de shounen a simplesmente recusar-se a lutar. Mesmo quando o enchem de pancada, este guerreiro fortíssimo rejeita a ideia de responder, de magoar, de matar. É isso o que torna a terceira parte da história tão interessante.

    Nesta última parte, que serve de conclusão definitiva, Thorfinn decide que já que nas terras do Norte não há paz, ele vai inventar uma terra só dele, uma em que não haja escravos nem guerras nem nada. Essa é a Terra de Vinland, que hoje conhecemos por Estados Unidos da América.

    Após vários momentos engraçados, em que até temos um casamento falhado, e a introdução da minha outra personagem favorita, a caçadora Hild (da qual também irei fazer cosplay e ninguém me pode impedir), os vikings pegam no seu barquito e atravessam o Atlântico à procura da mítica Vinland. Mas, coisa que ninguém estava à espera, lá chegados descobrem que Vinland já é habitado. Por pessoas bem esquisitas: pele morena, cabelos escuros e lisos, e uma série de hábitos estranhíssimos, ainda não chegaram à idade do ferro. Apesar disso, também são guerreiros, e por isso Thorfinn irá ter de lidar não só com eles como com os membros do seu grupo que querem lutar contra os nativos, insistindo na ideia de guerra que agora é completamente rejeitada pelo nosso MC.

    Ele está em crescimento, apaixona-se, multiplica-se mas, no meio disto tudo, o realmente relevante é que é um personagem com várias facetas que acabam por se unir numa personalidade pacifista, mas no corpo de um poderoso guerreiro. Os capítulos finais, dos ensinamentos trocados entre vikings e nativos, e da forma como assim se iniciou uma globalização primitiva, são altamente comoventes.

    Deixo-vos com a última página do manga, que classifiquei com um 9/10. Haveríamos de aprender com o Thorfinn e finalmente passar a fazer o que ele pretendia de Vinland: uma terra de felicidade, de liberdade, sem escravos, sem dor e sem guerra. Thorfinn, que existiu mesmo na realidade (e cuja figura histórica, pelo que se vê na sua estátua, é bastante comível), deverá estar bastante triste por ver que o caminho que ele abriu para um mundo de paz plena.... Não está em paz plena. Mas continuemos a tentar fazer o que ele nos pediu: Vinland não precisa de ser um lugar. Basta que seja uma ideia.





  • Análise: Tetsuwan Atom - O Menino que é um Roboto

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    Estavamos em 1963, estava Portugal preso numa ditadura católica, quando Osamu Tezuka acha que seria boa ideia passar para a imagem animada o seu manga TETSUWAN ATOM. Assim começa uma revolução que nos permite, até aos dias de hoje, ver animação com histórias sérias, de qualidade que, mesmo que dirigidas a crianças, são transversais a todas as idades.

    Tetsuwan Atom, ou Astro Boy, é um menino que - por mero acaso - também é um robot. Ele faz coisas de menino, gosta de coisas de menino. Brinca, vai ao circo, luta contra alguns meliantes, salva algumas pessoas. Tem uma série de poderes já equipados de origem, sendo o mais evidente a bota turbo que lhe permite voar. No entanto, este menino-robot também tem dúvidas que talvez sejam demasiado humanas para uma máquina.

    Um dos exemplos deste elemento, um dos que mais me comoveu, aparece logo no segundo episódio, em que Atom se questiona *porque é que não tem mãe*. Esta é uma dúvida frequente em crianças órfãs, o que é o caso deste robot. Ele sabe que tem pai, considera o seu criador como pai. Mas e a mãe? Todos os meninos que conhece têm uma mãe, porque é que Atom não pode ter? Então, ele procura criar uma figura materna, procurando-a noutros robots. No entanto, isso não é possível, pois - nesta fase - ele ainda é o único robot consciente. Achei isto extremamente doloroso, e até verti uma lágrima.

    Felizmente, Tezuka tem a bondade de não deixar Atom completamente só e oferece-lhe uma irmã (Uran), com quem as brincadeiras se tornam ainda mais divertidas.

    Talvez o único defeito deste anime, que tem uma animação extraordinária para a época, seja o facto de que o valor de produção foi escolhido para manter a longevidade da série, em vez de manter a qualidade. Assim, temos muitos episódios repetidos, e outros que não sendo exactamente iguais têm a mesma história.


    Tetsuwan Atom é de uma genialidade incrível, em que se mistura inocência com heroísmo, sempre pontuado por um grande desejo pacifista de um autor que viu a bomba atómica. Atom é um herói inusitado, porque tudo o que ele gostaria seria ser apenas um menino. E, precisamente por isso, é tão inspirador.


  • Análise: Sousou no Frieren - A Dor da Imortalidade

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     Um dos animes mais aclamados dos últimos tempos, e que tem dado o que pensar e dado azo a muitos debates. Sousou no Frieren (A Jornada para o Além, em PT-BR) fala-nos de, precisamente, Frieren: uma elfa milenar que participou em tempos na luta contra as forças do mal, com sucesso, e que agora enceta uma nova viagem. O porquê desta viagem é algo de belo e transcendente: ela deseja encontrar o Herói da sua party antiga, que estará no mundo dos mortos após ter falecido por excesso de idade. Pelo caminho, com ajuda da sua nova equipa, irá viver momentos nostálgicos que lhe dirão sempre a mesma conclusão: vem, viver a vida amor, que o tempo que passou, não volta mais.

    Mas não só de pequenos snippets da vida diária se compõe este anime: temos momentos de acção absolutamente fabulosos, com uma animação espectacularizada que acaba por equilibrar com os outros episódios mais calmos e mais focados no dia a dia dos nossos viajantes.

    Cada personagem, em ambas as parties, tem o seu quê de único, sendo que o autor (suponho que do manga?) faz um esforço consciente para dar uma backstory válida aos que já morreram e um desenvolvimento pessoal e emocional aos que cá estão. Assim, não podemos caracterizar nenhuma destas personagens com uma ÚNICA palavra. Tomemos o exemplo da própria Frieren: muitos comentários afirmam que ela é autista. Pessoalmente, acho que a personagem é muito mais complexa do que isso (e que não tem qualquer característica autista nem neurodivergente). Frieren é uma maga poderosíssima, mas ainda assim com um toque de humildade. É estudiosa e extremamente curiosa, mas o facto de ter crescido num isolamento quase total não permite que compreenda na totalidade o comportamento humano dos seus companheiros. Isso dá azo a muitos mal entendidos, que tornam a série mais leve e engraçada nos momentos calmos. Assim, Frieren pode ser uma elfa, uma entidade quase imortal, mas a dor da sua imortalidade é evidente, tornando-a numa personagem multifacetada. 


    A questão da imortalidade sempre me foi querida, até estou (há anos) a trabalhar numa história com esse tema. Neste anime, a situação torna-se especialmente pungente: o tempo que passou não mais irá voltar, e as coisas que não foram ditas nunca mais poderão ser reveladas à pessoa certa na hora certa. E, agora que a nossa elfa tem uma segunda party, não irá deixar de aproveitar a oportunidade para FALAR, para dizer o que sente, e para aproveitar melhor o tempo que - infinito para ela - passa demasiado rápido para os outros.

    Foi um anime que apreciei muito, sendo a minha classificação de 7/10 para a primeira season. A segunda season é menos relevante, parecendo ser mais uma temporada de transição do que algo que realmente acrescenta à história. É uma história bonita, que dá que pensar, e que correu bem pois está altamente popular.



  • Análise: Mobile Suit Gundam (mas só UC)

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     Estamos no ano de 1979 e uma figura de génio surge no panorama do anime: Tomino. Este homem tem alguns elementos de personalidade fixos: é agressivamente pacifista, gosta de máquinas e gosta de distribuir chapadas. Comecemos pelas máquinas.

    Gundam, os Mobile Suits, Kidou Senshi, são máquinas de guerra invencíveis e imbatíveis, uma mistura de arma com escudo, cujo nome terá sido idealizado como "arma tão poderosa que consegue proteger uma barragem". Os Gundams são quase mágicos, na medida em que certos pilotos, aqueles nascidos já no espaço, conseguem ter um maior controlo sobre eles com a força da mente. São os chamados Newtypes, um conceito de humanidade muito interessante: a partir do momento em que nascemos no espaço, seremos considerados ainda como seres que pertencem a um planeta?

    Desde que vi Gundam a primeira vez, há muitos anos, gostei logo da ideia das Colónias, cilindros gigantes que orbitam à volta da Terra e que têm as suas próprias civilizações e comunidades. No entanto, nessa altura ainda não tinha compreendido bem a implicação de que as pessoas que nascem no espaço poderiam, efectivamente, considerar-se diferentes dos terráqueos e - por isso - ter uma razão para começarem uma guerra de independência.

    É nesta linha que surge o Principado de Zeon. Apesar de ser um principado, apesar de ter uma tendência bélica em tudo semelhante ao poderio do Eixo do Mal que vivemos nós próprios na Terra, Zeon acaba por ser um dos meus "mitos" preferidos. Em representação da luta contra as forças da Terra, a Federation, temos o misterioso Char Aznable. Ele conduz um Mobile Suit Zaku vermelho, o que torna tudo mais especial e espectacular, e a sua evolução enquanto personagem é como o vinho da adega da Ferreirinha: à medida que envelhece, fica mais gostoso.

    Isto porque a história do Universal Century em Gundam não se limita à Guerra do Um Ano: Char disfarça-se em Zeta como Quattro Bagina (um nome excelente, diga-se de passagem) para lutar contra uma equipa de pilotos que insiste que a Terra é o único lugar válido para se viver, tendo como objectivo desgraçar os habitantes da colónias. Em ZZ ele desaparece para dar lugar a outra antagonista excelente, Haman Karn, cujo maior desejo é restaurar os direitos governamentais à muito jovem princesa de Zeon. E, finalmente, tudo culmina com Char atirando uma Colónia para cima do planeta num auto de fé de destruição total, o que nos remete quase para o Nazismo.

    Como poderão reparar, Char Aznable é um dos meus antagonistas (vilão? Anti-herói?) favoritos de sempre. A Haman está num lugar bem próximo como personagem favorita do franchise inteiro, até fiz cosplay dela sem grande sucesso. Ainda gostaria de refazer esta personagem, num outro design. Também gosto muito do Noah Bright, falemos um pouco sobre ele.

    Bright, capitão almirante da nave de guerra White Base, vê a sua vida toda a andar pra trás quando a Colónia onde fizeram uma pausa para apanhar os Gundams é atacada e a sua nave (de guerra) fica cheia de civis. Crianças, nomeadamente. E o pior disto tudo é que ninguém faz aquilo que ele pede, nem aquilo que ele ordena, nem nada do que ele quer. Por isso, o recurso estilístico para resolver esta situação é.... Correr toda a gente à base da chapada! Yay! Gosto imenso desta atitude desesperada, e à medida que o personagem vai crescendo, também a sua paciência vai diminuindo.

    De resto, Tomino é anti-guerra. Em Gundam UC não conseguimos definir exactamente quem são os bons, nem quem são os maus.

    Se por um lado Zeon tem um design altamente nazi, e ideias bélicas muito ligadas a uma monarquia imaginária, do outro lado os Feddies também têm objectivos de guerra muito malévolos que envolvem o domínio completo das Colónias. Nada é preto no branco, sendo que a única coisa de que temos a certeza é que: a guerra mata, a guerra destrói, a guerra é muito, mas mesmo muito, merdosa.

    Suponho que Tomino tenha vivido a guerra na realidade, daí ter exposto o seu trauma, as suas ansiedades mas - também - o seu sonho de paz através de uma obra que disfarça tudo isto atrás de robots gigantes com espingardas e espadas mecânicas.

    Não posso despedir-me sem antes deixar uma nota para a animação genial de todas as quatro partes do anime (ZZ, com menor valor de produção, tem alguns momentos que deixam muito a desejar, tho). A realização deste anime é em tudo semelhante a um filme de cinema, com uso de perspectivas, cores e efeitos de luzes que nos remetem a uma realidade total. Podemos estar a viver na fantasia do Space Opera, mas a forma como tudo está dirigido e montado dá-nos um extremo realismo, e permite que realmente nos identifiquemos com as várias personagens.

    Também não disse que detesto o Kamille, porque ele faz tudo errado e é um vegetal. Enfim, é um anime que nos traz mesmo emoções fortes.

    Para sempre irei recomendar Mobile Suit Gundam. Mas só UC.



  • Análise: Chainsaw Man - A História de Reze

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     Supostamente um dos grandes candidatos ao Oscar de Animação, mas que não chegou a ser seleccionado, e supostamente o melhor filme de anime alguma vez produzido pela MAPPA, e também supostamente o melhor anime do transacto ano de 2025... Digamos que este filme, sequela imediata do anime de Chainsaw Man, tinha tudo para ser um sucesso e - realmente - foi um sucesso.

    Mas não é sobre sucesso ou popularidade que quero falar: isso é um denominador comum a todos os últimos shounens da moda, e Chainsaw Man - apesar de ser de qualidade ligeiramente superior - não deixa de ser um shounen da moda, altamente amado, altamente partilhado e com uma fandom obsessiva (como o deveriam ter os melhores animes, diga-se de passagem).

    O que realmente gostaria de dispersar por aqui é o facto deste filme, realizado por um mero freelancer usualmente renegado à key animation, se trata de uma obra maior da animação japonesa da actualidade. Este realizador essencialmente desconhecido faz um trabalho excelente na adaptação do manga, oferecendo dinamismo, fluidez e cores a uma história que - na sua simplicidade shounenesca - acaba por se tornar apaixonante.

    Denji acha-se meio estranho numa nova situação: está apaixonado. Uma rapariga muito sedutora e cheia de flirt, Reze, atrai-o sem que haja uma justificação lógica. Afinal, o amor (a paixão?) não precisa de regras. Infelizmente, rapidamente é revelado que esta bela rapariga afinal é um dos demónios que Denji tem de destruir: o Bomb Demon, demónio bomba perigosíssimo.

    Existem algumas cenas que me marcaram especialmente: quando Denji e Makima vão ao cinema, e essencialmente descreve o filme que vamos ver de seguida; e a cena da piscina, que é muito melancólica mas também muito cativante.


    Além de uma animação excelente, com momentos de grande virtuosismo, a própria história tem o seu quê de muito comovente, na medida em que o pobre Denji - que é uma criança crescida, que não conhece as relações humanas, que não conhece o amor - é seduzido para depois ser imediatamente traído pelo demónio bomba, que engana o nosso MC perdido de desejo e, com isso, lhe ensina duas coisas: sim, a paixão existe e é maravilhosa; e não, nem sempre as coisas são aquilo que parecem.

    De resto, temos uma cena bastante icónica do Angel Demon de lingerie.

    Fiquei muito surpreendida por ter gostado tanto deste filme, e a minha classificação final é de 8/10. Como desfã (o contrário de fã?) de animes para rapazes adolescentes, foi desafiante ver este anime mas, em conclusão, muito satisfatório.

    Reze recomenda, e eu também.




  • Análise: Pardalita - Uma miúda gosta de outra miúda...

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    Há sempre uma altura da nossa vida em que somos adolescentes. E os adolescentes são caracterizados por terem sentimentos muito intensos: eles amam intensamente, odeiam intensamente e têm um medo muito intenso também.

    É essa intensidade que é demonstrada neste volume de banda desenhada nacional, assinada por Joana Estrela e publicada pelo Planeta Tangerina, editora sobretudo dedicada ao público infantil. E é precisamente ao público infanto-juvenil que esta obra é dirigida, abordando um assunto que pode ser um pouco difícil de digerir por pais e educadores:


    O que acontece quando uma miúda gosta de outra miúda?


    A nossa narradora descobre-se a si mesma na relação com o outro: Pardalita é o objecto de afecto, mas desconhece-o. O facto de ser nominada um "pardal" tem uma importância significativa: um passarinho pequeno, frágil, mas com um poder oculto de psicopompo que tem uma força de atracção irresistível. Conhecem-se na escola, um ambiente neutro mas habitado por uma fauna que pode ser a maior crítica de si mesma. E a narradora envolve-se no mundo do teatro, um detalhe que achei fascinante, para estar mais próxima da rapariga de quem gosta.

    As dúvidas e ansiedades são expressas em desenhos simples, mas com muito dinamismo, acção e movimento, como se pode ver neste painel que cito:

    O teatro é uma fonte de cultura e aprendizagem, mas também é uma fonte de poder social. Subitamente, a nossa narradora não se vê confinada aos limites dos seus amigos de sempre: agora também tem todos os amigos que estão no palco e nos bastidores, e com esse novo poder poderá ganhar a coragem para se declarar, o que vem a ser consumido numa curiosa viagem a Lisboa (os personagens são do Norte), em que perante as cores e a paisagem fluvial, Pardalita aceita a sua nova companheira e - assim - se inicia uma relação.

    O que vai acontece no futuro é o mistério da vida adulta. Se um dia somos crianças, somos uma menina que recolhe um passarinho nas suas mãos para o amar e cuidar, no dia seguinte talvez esse pardal precise da liberdade de voar ou, talvez, aceite a domesticação do amor.

    Por isso, quando uma miúda gosta de outra miúda, as coisas podem não ser tão simples como neste livro, mas quem nos dera que fossem sempre assim tão belas.

  • Análise: O Velho e a Espada - Quando da paixão se faz um filme

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    Iniciamos o nosso novo modelo de revies com O VELHO E A ESPADA, filme de Fábio Powers, que fomos assistir numa sessão especial de exibição na sala de espectáculos da Universidade Lusófona.

    Conheci o Fábio Powers há muitos anos num evento que este organizou em Castelo Branco. Já nessa altura, o realizador alimentava a ideia de fazer um filme que fosse algo tipicamente português mas também muito ligado ao universo de fantasia de jogos (narrativos e digitais) e animes. Após anos de trabalho e dedicação, espremendo as pedras do amor e paixão pelo cinema, o resultado final está à vista como um filme de puro entretenimento.

    "O Velho e a Espada" conta a história de um homem, idoso e alcoólico, que não tem qualquer objectivo de vida, e subitamente se vê envolvido na luta contra os demónios que habitam o Alentejo mais profundo, tendo na sua posse uma espada mágica e demoníaca (criada da visão do realizador e construída por Paula Nunes, @asheriabot no Instagram, amiga que muito prezo e admiro pelo seu talento multifacetado).

     Este velho que agora possui a espada, interpretado pelo saudoso António da Luz, irá viver uma aventura inesquecível - para ele e para nós. A espada, com voz de João Loy, é sarcástica e cheia de personalidade, e os diálogos entre estes dois personagens inusitados são das partes mais engraçadas do filme.


    Mas o que torna esta história quase mágica é o choque com a realidade em que nos encontramos porque, em falta de conclusão o realizador optou por fazer algo tão absurdo como corajoso: quebrar a quarta parede. Com isso, o filme dá uma volta inesperada, e conseguimos avaliar que - sim - este conto não é real, é apenas um filme, mas na ideia do nosso MC é tudo realidade. Então ficamos na dúvida se a magia se encontra no alcoolismo e na força da bebida, ou se por outro lado foi tudo uma espécie de elaborada piada para com o pobre personagem, para lhe animar a vida ou algo mais.

    "O Velho e a Espada" foi seleccionado para vários festivais de cinema, tendo até sido premiado no Brasil. Afinal, trata-se de uma história cómica e improvável, mas que também muito caracteriza o interior do nosso país: triste, abandonado, alcoolizado e um misto de religioso e supersticioso.

    Tenho muito orgulho em poder dizer que conheço este realizador, e ainda mais orgulho em saber que do seu esforço e da sua paixão nasceu um filme tão engraçado e que vem preencher a grande lacuna de cinema fantástico em Portugal. 

     

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