O Pomar em Chamas
O Pomar em Chamas
Shena Mackay
1995
Romance
Há infâncias felizes e... Bem... Há outras que não o são. Este livro fala destas últimas.
Uma senhora visita a sua terra de infância apenas para recordar as coisas horrorosas que aconteceram. A sua melhor amiga, com a qual se divertia a tentar fugir da realidade, em quem os pais arreavam a porrada frequentemente, e ela própria - abordada sexualmente por um velhote aparentemente simpático.
O livro é uma memória dos anos 50, mas não é uma memória que abone muito em favor do sistema educativo, das pessoas daquela vila e das próprias famílias. A narrativa por vezes dá voltas que não nos levam a lado nenhum e que servem apenas para caracterizar este festival deprimente em que a criança vivia.
A tradução também deixa muito a desejar, sempre com notas de rodapé para as coisas mais vulgares.
Não recomendo.
Zodiac
Zodiac
David Fincher
2007
Filme
6 em 10
Há muito tempo que queria ver este filme, e finalmente tive a oportunidade. Talvez porque tinha uma expectativa completamente diferente, fiquei desapontada.
Narra a história dos crimes e investigação do criminoso conhecido como "Zodiac", que fez furor nos anos 60 e 80 com os seus crimes (não assim tão) horríveis e pelas mensagens misteriosas que enviava para que tentassem descobrir a sua identidade. O filme percorre os 15 anos entre os primeiros crimes e a edição de um livro com os resultados da investigação, mas - como se sabe pela história - sem culpados e sem consequências.
Confesso que pensava que os crimes eram muito mais horrendos e que o mistério dos criptogramas fosse extraordinariamente complexo. Por isso fiquei um pouco triste quando o filme se focou sobretudo nas relações entre as várias agências policiais e na falta de comunicação entre elas.
Ainda assim, foi um filme interessante e estimulante, que passou num instante.
Um Capricho da Natureza
Um Capricho da Natureza
Nadine Gordimer
1987
Romance
Recebi este livro através do BookCrossing, mas não era exactamente o que estava à espera. Primeiro, uma edição terrível, com letras minúsculas e estreitinhas, extremamente difícil de ler. Depois, uma narrativa densa e por vezes complexa, que me deixou aflita na leitura algumas vezes.
Este livro conta a história de Hillella, uma improvável interveniente nas revoluções da libertação da África negra e no fim do apartheid. O livro é quase como uma biografia imaginária, cruzando-se com referências da realidade. No entanto, a personagem principal é sempre indiferente a tudo aquilo que a rodeia e uma pessoa questiona-se porque raio é que ela se junta aos movimentos revolucionários se não aparenta ter uma ideia própria para pensar.
Apesar de existir uma boa caracterização do apartheid e do estado em que se encontravam os refugiados políticos na época, esta personagem esbatida acaba por tornar o livro numa narrativa estranha e quase desnecessária.
Desapontou-me.
her
her
Spike Jonze
2013
Filme
7 em 10
Um ensaio sobre a solidão.
Num universo tecnológico, muito aproximado à nossa realidade, um recém-divorciado encontra problemas em relacionar-se. Tudo muda quando adquire um sistema operativo com inteligência artifical, que se revela com uma identidade quase humana. E, humano e máquina, apaixonam-se.
Este filme é muito curioso porque apresenta a possibilidade de combater a solidão através das máquinas, ao mesmo tempo que permite o debate sobre o que é a realidade humana e o significado do amor. Neste debate, chego à conclusão de que toda esta sociedade (quase distópica) sofre do mesmo problema do nosso personagem principal, o que nos remete para o nosso próprio momento. Estamos tão desesperados por interacção que aceitamos a interacção da máquina como se fosse humana?
Com cenários simples e limpos, e uma luminosidade igualmente limpa, este filme é tecnicamente competente e vale, sobretudo, pela apresentação deste debate. Os personagens são palpáveis e apaixonantes. Fica em falha a conclusão, que talvez pudesse ser mais contemplativa.
De resto, recomendo.
Gunda
Viktor Kossakovsky
Filme
2020
8 em 10
Quando pensamos em filmes sobre a indústria da carne, surgem-nos sempre as pavorosas imagens do transporte e abate que, terríveis, apelam para o nosso lado da suavidade humana que odeia morte e violência. Mas “Gunda”, filme norueguês realizado por Viktor Kossakovsky, coloca-nos uma diferente perspectiva.
Filmado a preto e branco, com uma banda sonora composta exclusivamente de sons de animais e da natureza, este filme mostra-nos a vida diária de uma porca e seus porquinhos, uma manada de vacas e uma galinha perneta, numa aparente liberdade, com possibilidade de exibirem os seus comportamentos normais. O filme é extraordinariamente belo, com uma cinematografia comovente, mas o que o distingue em absoluto dos outros filmes apologistas do vegetarismo, é a naturalidade com que nos mostra a vida diária destes animais de produção que, livres, conseguem ter uma vida aparentemente normal.
Com uma sensibilidade quase cruel, os animais são-nos mostrados em todo o seu esplendor, com pequenas descobertas, pequenas dúvidas, e o crescimento de uma família. Este filme demonstra de uma forma concreta e silenciosa que, sim, os animais de quinta são também seres sencientes, que – à sua maneira própria – também amam e também querem ser livres.
Quis falar aqui sobre este filme porque penso que deve ser visto, não tanto para a compreensão da indústria da carne, mas para entendermos que aquilo que comemos esteve, realmente, vivo e que também teve algum tipo de sentimento.
Big Fish
Big Fish
Tim Burton
2003
Filme
8 em 10
Quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto. E isto é verdade para as pessoas com muita imaginação, nas quais incluo o meu pai e as suas histórias maravilhosas. No entanto, o pai deste filme tem um problema relacional com o seu filho: ele não acredita nas suas histórias e quer, simplesmente, saber a realidade fria e seca, sem floreados.
Este é um filme sobre o amor filial, com o qual me identifiquei muito, e sobre a imaginação. Uma homenagem a esses grandes contadores de histórias esquecidos, que para tornar a sua vida mais alegre acrescentam pontuação a fábulas simples e sem graça. E o resultado é espectacular. A cada história contada e a cada pista para a revelação do que realmente aconteceu, descobrimos que este pai não era um mentiroso, mas sim uma pessoa que gostava de tornar a sua vida mais divertida, lembrá-la como se ela tivesse sido mais divertida. E acho que é esse tipo de pessoa que eu gostaria de ser.
Com efeitos práticos espantosos, paisagens estranhas e surrealistas, mesmo ao estilo do Tim Burton, este é um filme que - apesar de não ter o aspecto gótico habitual - é de uma estética muito característica do seu autor.
Um filme extremamente comovente, em que o final feliz nos traz algo de agridoce.
It's A Sin
It's A Sin
Russel T. Davies
2021
Série
São os anos 80 e os rapazes são livres. Nesta Londres, os rapazes são livres para amar e para serem o que quiserem. São livres para o sexo. Mas uma doença misteriosa, uma epidemia fatal, começa a atingi-los. E conhecemo-la bem: SIDA.
Esta série segue um grupo de amigos homossexuais que se vêm atingidos por esta epidemia do século XX, uma doença estranha, desconhecida, considerada pecaminosa, que atingiu fortemente esta comunidade e que foi grandemente desprezada devido à conotação religiosa associada à homossexualidade. É realmente terrível vê-los em desespero, contraindo HIV, que depois se torna Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, sem ajuda, sem informação, sem saberem o que hão-de fazer e, ainda assim, inocentes: tudo o que eles queriam era amar e divertir-se com o amor.
Penso que talvez a série se tenha focado demasiado na comunidade gay, não falando das mulheres atingidas, sobretudo mulheres de meia idade. Ainda assim, é uma excelente análise à situação desta comunidade na época, das relações familiares que aí advêm e do longo caminho que se percorreu até à aceitação da epidemia como algo grave, que pode atingir qualquer um.
Também não gostei muito da solitária figura feminina, que parece apenas estar ali para proteger os seus amigos e não tem uma personalidade própria.
De resto, uma série comovente e assustadora.



