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Spike Jonze
2013
Filme
7 em 10
Um ensaio sobre a solidão.
Num universo tecnológico, muito aproximado à nossa realidade, um recém-divorciado encontra problemas em relacionar-se. Tudo muda quando adquire um sistema operativo com inteligência artifical, que se revela com uma identidade quase humana. E, humano e máquina, apaixonam-se.
Este filme é muito curioso porque apresenta a possibilidade de combater a solidão através das máquinas, ao mesmo tempo que permite o debate sobre o que é a realidade humana e o significado do amor. Neste debate, chego à conclusão de que toda esta sociedade (quase distópica) sofre do mesmo problema do nosso personagem principal, o que nos remete para o nosso próprio momento. Estamos tão desesperados por interacção que aceitamos a interacção da máquina como se fosse humana?
Com cenários simples e limpos, e uma luminosidade igualmente limpa, este filme é tecnicamente competente e vale, sobretudo, pela apresentação deste debate. Os personagens são palpáveis e apaixonantes. Fica em falha a conclusão, que talvez pudesse ser mais contemplativa.
De resto, recomendo.
Gunda
Viktor Kossakovsky
Filme
2020
8 em 10
Quando pensamos em filmes sobre a indústria da carne, surgem-nos sempre as pavorosas imagens do transporte e abate que, terríveis, apelam para o nosso lado da suavidade humana que odeia morte e violência. Mas “Gunda”, filme norueguês realizado por Viktor Kossakovsky, coloca-nos uma diferente perspectiva.
Filmado a preto e branco, com uma banda sonora composta exclusivamente de sons de animais e da natureza, este filme mostra-nos a vida diária de uma porca e seus porquinhos, uma manada de vacas e uma galinha perneta, numa aparente liberdade, com possibilidade de exibirem os seus comportamentos normais. O filme é extraordinariamente belo, com uma cinematografia comovente, mas o que o distingue em absoluto dos outros filmes apologistas do vegetarismo, é a naturalidade com que nos mostra a vida diária destes animais de produção que, livres, conseguem ter uma vida aparentemente normal.
Com uma sensibilidade quase cruel, os animais são-nos mostrados em todo o seu esplendor, com pequenas descobertas, pequenas dúvidas, e o crescimento de uma família. Este filme demonstra de uma forma concreta e silenciosa que, sim, os animais de quinta são também seres sencientes, que – à sua maneira própria – também amam e também querem ser livres.
Quis falar aqui sobre este filme porque penso que deve ser visto, não tanto para a compreensão da indústria da carne, mas para entendermos que aquilo que comemos esteve, realmente, vivo e que também teve algum tipo de sentimento.
Big Fish
Big Fish
Tim Burton
2003
Filme
8 em 10
Quem conta um conto, acrescenta sempre um ponto. E isto é verdade para as pessoas com muita imaginação, nas quais incluo o meu pai e as suas histórias maravilhosas. No entanto, o pai deste filme tem um problema relacional com o seu filho: ele não acredita nas suas histórias e quer, simplesmente, saber a realidade fria e seca, sem floreados.
Este é um filme sobre o amor filial, com o qual me identifiquei muito, e sobre a imaginação. Uma homenagem a esses grandes contadores de histórias esquecidos, que para tornar a sua vida mais alegre acrescentam pontuação a fábulas simples e sem graça. E o resultado é espectacular. A cada história contada e a cada pista para a revelação do que realmente aconteceu, descobrimos que este pai não era um mentiroso, mas sim uma pessoa que gostava de tornar a sua vida mais divertida, lembrá-la como se ela tivesse sido mais divertida. E acho que é esse tipo de pessoa que eu gostaria de ser.
Com efeitos práticos espantosos, paisagens estranhas e surrealistas, mesmo ao estilo do Tim Burton, este é um filme que - apesar de não ter o aspecto gótico habitual - é de uma estética muito característica do seu autor.
Um filme extremamente comovente, em que o final feliz nos traz algo de agridoce.
It's A Sin
It's A Sin
Russel T. Davies
2021
Série
São os anos 80 e os rapazes são livres. Nesta Londres, os rapazes são livres para amar e para serem o que quiserem. São livres para o sexo. Mas uma doença misteriosa, uma epidemia fatal, começa a atingi-los. E conhecemo-la bem: SIDA.
Esta série segue um grupo de amigos homossexuais que se vêm atingidos por esta epidemia do século XX, uma doença estranha, desconhecida, considerada pecaminosa, que atingiu fortemente esta comunidade e que foi grandemente desprezada devido à conotação religiosa associada à homossexualidade. É realmente terrível vê-los em desespero, contraindo HIV, que depois se torna Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, sem ajuda, sem informação, sem saberem o que hão-de fazer e, ainda assim, inocentes: tudo o que eles queriam era amar e divertir-se com o amor.
Penso que talvez a série se tenha focado demasiado na comunidade gay, não falando das mulheres atingidas, sobretudo mulheres de meia idade. Ainda assim, é uma excelente análise à situação desta comunidade na época, das relações familiares que aí advêm e do longo caminho que se percorreu até à aceitação da epidemia como algo grave, que pode atingir qualquer um.
Também não gostei muito da solitária figura feminina, que parece apenas estar ali para proteger os seus amigos e não tem uma personalidade própria.
De resto, uma série comovente e assustadora.
Houseki no Kuni
Houseki no Kuni
Kyougoku Takahiko - Orange
Anime - 12 Episódios
2017
6 em 10
Este anime deixou-me dividida.
Estamos num planeta onde um tipo de vida diferente nasceu: uma vida mineral, em que cada pessoa é uma pedra, mais ou menos preciosa. Neste mundo, estas pedras são perseguidas por pessoas da lua e têm de se defender.
Ora, o anime tem uma animação brilhante, com uma integração de elementos digitais praticamente perfeita, cenas de acção originais e fluídas com coreografias absurdamente boas. As paisagens também são muito belas e esta "terra dos lustrosos" é realmente um lugar lindíssimo.
O problema aqui foi a história. O anime é quase um slice of life deste mundo estranho, em que nada é esclarecido sobre a perseguição das pessoas da lua (porque é que elas querem as jóias?) e em que muito pouco é falado sobre alguns personagens. O desenvolvimento dos personagens também é um pouco errático e é estranho eles não terem género e ainda assim parecerem todos meninas fofinhas.
Esta falta de esclarecimento narrativo torna o anime frustrante. Por isso, quase considerei dar-lhe uma nota pior, mas a verdade é que a animação ultrapassa tecnicamente muita coisa que tenho visto ultimamente.
Cidade Invisível
Cidade Invisível
Carlos Saldanha
2021
Série
Como tenho muitos amigos brasileiros, fiquei a saber desta série da Netflix, que junta duas coisas improváveis mas muito curiosas: um policial e o folclore brasileiro.
O folclore brasileiro é riquíssimo e povoado por uma série de figuras mitológicas fascinantes, Saci, Curupira, Iara, Cuca... Enfim, façam uma pesquisa e vão ver a quantidade de histórias fantásticas com estas personagens. Com a sua floresta, já que estes elementos são na sua grande medida os seus protectores, a ser destruída, uma "cidade invisível" se forma: eles agora vivem como pessoas normais, na cidade. E quando um polícia do ambiente descobre um boto cor de rosa na praia, tudo começa a tomar proporções incontroláveis.
A interpretação dos mitos é muito engraçada, assim como as interpretações das figuras do folclore. Adorei sobretudo porem a Iara negra, porque normalmente aparece como uma linda sereia de cabelos loiros, o que é injusto - porque ela é da floresta brasileira e quantas nórdicas vivem lá.
A parte policial talvez seja o ponto mais fraco, assim como alguns dos efeitos especiais demasiado digitais. De resto, as interpretações são todas fantásticas e esta geração de actores brasileiros poderá vir a fazer grandes coisas.
Uma série de fantasia muito diferente do habitual!
Quixotte
Quixotte
Salman Rushdie
2019
Romance
Começo a ler as minhas prendas de Natal, que incluem o mais recente livro de Salman Rushdie. Este é um livro extremamente actual, crítica ao vício televisivo, ao racismo integrado na sociedade Americana e às idiossincrasias da emigração indiana para este país.
Um caixeiro viajante, viciado em programas de televisão, apaixona-se perdidamente por uma apresentadora viciada em opióides. Decide dar a si próprio o nome de "Quixotte" e, através da sua imaginação, cria Sancho, um filho que procura ter a sua própria independência - apesar de ser apenas imaginado.
Com um ritmo frenético, cheio de humor negro, Rushdie aborda todos estes temas, desenvolvendo cuidadosamente cada uma das personagens até as conhecermos como se fossem parte do nosso círculo de conhecimentos. Isto torna a história, que é plenamente fantasiosa, em algo muito palpável e verosímil.
À medida que a narrativa vai avançando, tudo começa a ficar com contornos bastante absurdos, mas está escrito de tal forma natural que aceitamos tudo e partilhamos do humor do autor.
Recomendo bastante.




