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  • O Homem Elefante

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    O Homem Elefante
    David Lynch
    1980
    Filme
    7 em 10


    Um filme comovente que conta a história real de Merrick, um homem com uma doença que, no século XIX, era considerado um freak da natureza e mantido num circo até um médico o resgatar. Após esse resgate, descobre-se que este homem vítima de uma mutação não é um monstro, é uma pessoa delicada, culta e ansiosa por se integrar na sociedade e ser tratada como outro humano qualquer.

    Um filme com uma cinematografia excelente, filmado com uma delicadeza pungente a preto e branco, cheio de atenção no detalhe, e efeitos práticos para criar este "homem elefante" surpreendentemente realistas. O actor por trás desta personagem faz também um excelente trabalho para expressar toda a sua panóplia de sentimentos por trás da pesada maquilhagem, fazendo a sua actuação praticamente apenas com o olhar.

    Seria essencialmente um filme sem defeitos, mas de certa forma a história de Merrick não me emocionou tanto como deveria no seu final, e as dúvidas suscitadas ("eu que me aproveito do monstro, serei eu o verdadeiro monstro?") acabam por ficar por responder.

    Ainda assim, fiquei com um pouco menos de medo do Lynch e recomendo este filme.

  • Uzumaki

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    Uzumaki
    Nagahama Hiroshi - Akatsuki
    Anime OVA - 4 Episódios
    2024
    5 em 10


    Disseram que esta animação estava horrível devido à quebra na qualidade da animação de episódio para episódio, mas sinceramente não foi isso o que me fez mais confusão.

    Achei simplesmente uma má adaptação. Não adaptaram as partes mais interessantes da história e a música torna todo o cenário extremamente estranho, já que o manga está em silêncio. As partes animadas a rodopiar também tornam tudo mais estranho do que assustador, porque o manga está parado, e é o facto de estar parado que torna as espirais tão fascinantes: olhamos para elas e sentimo-nos atraídos por elas. Quando elas estão em movimento, essa atracção desaparece.

    De resto, achei o anime tão relaxante quanto o manga, talvez um pouco menos devido à música muito irritante.

    Não recomendo, da mesma forma que o manga.

  • Gunda

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    Gunda
    Viktor Kossakovsky
    Filme
    2020
    8 em 10

                   Quando pensamos em filmes sobre a indústria da carne, surgem-nos sempre as pavorosas imagens do transporte e abate que, terríveis, apelam para o nosso lado da suavidade humana que odeia morte e violência. Mas “Gunda”, filme norueguês realizado por Viktor Kossakovsky, coloca-nos uma diferente perspectiva.

                    Filmado a preto e branco, com uma banda sonora composta exclusivamente de sons de animais e da natureza, este filme mostra-nos a vida diária de uma porca e seus porquinhos, uma manada de vacas e uma galinha perneta, numa aparente liberdade, com possibilidade de exibirem os seus comportamentos normais. O filme é extraordinariamente belo, com uma cinematografia comovente, mas o que o distingue em absoluto dos outros filmes apologistas do vegetarismo, é a naturalidade com que nos mostra a vida diária destes animais de produção que, livres, conseguem ter uma vida aparentemente normal.

                    Com uma sensibilidade quase cruel, os animais são-nos mostrados em todo o seu esplendor, com pequenas descobertas, pequenas dúvidas, e o crescimento de uma família. Este filme demonstra de uma forma concreta e silenciosa que, sim, os animais de quinta são também seres sencientes, que – à sua maneira própria – também amam e também querem ser livres.

                    Quis falar aqui sobre este filme porque penso que deve ser visto, não tanto para a compreensão da indústria da carne, mas para entendermos que aquilo que comemos esteve, realmente, vivo e que também teve algum tipo de sentimento.

     

  • Mank

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    Mank
    David Fincher
    2020
    Filme
    7 em 10

    Tinha visto o Citizen Kane em preparação para este filme, e ainda bem que o fiz, porque torna a experiência muito mais interessante.

    Mank é um filme biográfico, embora tenha algumas partes inventadas, sobre o argumentista que criou Citizen Kane (com ou sem Orson Welles é algo que se mantém como mistério). Fala sobre o seu processo, acamado, isolado, e sobre a sua inspiração, que retirou de figuras imperiais de Hollywood da sua época de forma menos discreta que o necessário.

    O curioso deste filme é que está estruturado de forma exactamente igual ao Citizen Kane, com muitas técnicas cinematográficas estreadas nesse filme e agora revisitadas. É uma excelente homenagem ao filme original e à ideia de Hollywood como paraíso das estrelas, um filme de amor ao cinema.

    Existem alguns momentos de grande brilhantismo técnico, quer da parte do realizador quer da parte dos actores, mas sabendo que muitas coisas apresentadas não ocorreram de facto, isso torna o filme menos verosímil do que poderia ter sido se se remetesse apenas à realidade.

    Gostei bastante e acho-o um forte candidato ao Oscar.

  • Yojimbo

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    Yojimbo
    Akira Kurosawa
    1961
    Filme
    7 em 10

    Fomos ao Cinema Nimas ver este filme em cópia digital restaurada.

    É um filme muito curioso e interessante em termos históricos: tanto é uma desconstrução do género western como, também, uma construção sobre esse género. Temos um protagonista misterioso, essencialmente justo e bom, mas que não o revela aos outros personagens. Ele apenas provoca o caso e isso é sumamente divertido, mesmo quando as coisas azedam para o seu lado. As soluções apresentadas para os problemas narrativos são originais e é um filme que nos mantém sempre agarrados.

    Também tem cenas de acção muito bem feitas, sobretudo para a época, em que finalmente vemos um filme com um pouco de sangue e gore, e grandes espadeiradas. A música é memorável, embora por vezes pareça estar um pouco fora do contexto.

    Uma referência para o cinema.

  • The Lighthouse

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    The Lighthouse
    Robert Eggers
    2019
    Filme
    7 em 10
    Um filme misterioso, filmado a preto e branco, numa ilha remota em que os únicos habitantes são um farol, o faroleiro e o seu ajudante. E as gaivotas. Estas entidades vão juntar-se naquilo que vai ser um estudo sobre o horror e sobre a loucura. A luz hipnotiza e é na busca dessa luz, qual Prometeu sujo e duro, que os personagens vão entrar em oposição.

    O filme é complexo e tem cenas muito simbólicas, em que deixamos de compreender o que é a realidade e o que é a loucura da solidão. Os actores têm papéis extraordinários, tendo para isso certamente feito um estudo detalhado sobre as pessoas da época retratada, do seu modo de ser e do seu modo de falar.

    As imagens são de uma beleza agreste e um pouco violenta, mas mesmo as partes mais aterrorizantes surgem como um quadro de matizes de tempestade. Outra presença constante no filme é a banda sonora, o uivo do farol, o trovejar das máquinas e das nuvens que se abatem sobre esta ilha. Isto é constante, o que causa grande ansiedade a quem está a assistir.

    Gostei muito e - se isto for um filme de terror - acho que afinal gosto de filmes de terror.
  • As Asas do Desejo

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    As Asas do Desejo
    Wim Wenders
    1987
    Filme
    7 em 10

    Celebrando o trigésimo aniversário deste filme, foi reposto no cinema da biblioteca aqui perto de casa. Fomos vê-lo e, diga-se, a sala estava cheia! Nunca tinha visto aquele auditório assim!

    Os anjos andam entre nós, observando-nos, ouvindo os nossos pensamentos, documentando a humanidade desde o seu surgimento no planeta. Mas existe um anjo que, neste momento, não se consegue conformar. O seu maior desejo é sentir as coisas, poder agarrar nas coisas, poder descalçar os sapatos. Como se fosse um ser humano. A sua decisão torna-se cada vez mais forte quando toma um especial interesse por uma trapezista frustrada. Será que esta história de amor vai vingar?

    É um filme pleno de detalhes que permitem leituras diversas e interpretações muito pessoais. Afinal, o que significam os anjos? Porque é que eles só vêm a preto e branco? Como sentem as emoções das pessoas, se a eles não é permitido ter emoções? É uma perspectiva um pouco assustadora, pensar que está sempre alguém aqui ao lado a ouvir os nossos pensamentos. Mas também é um pouco triste pensar que, estando eles aqui, não podem fazer nada. Não podem agir. Não podem intervir.

    Os cenários são os do muro de Berlim antes da sua queda. Imagens tristes, decadentes, apodrecidas mas, apesar de tudo, muito contemplativas. O autor consegue mostrar-nos o mundo pelos olhos dos anjos e isso tem o poder de nos transportar para um universo que, existindo ou não, nos deixa um vazio no coração.

    É um filme bonito mas, aparentemente, dividido em duas partes. Agora terei de ver a segunda.

  • O Sétimo Selo

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     O Sétimo Selo
    Ingmar Bergman
    1957
    Filme
    9 em 10

    Desde que ouvi dizer que havia um filme sobre um homem que jogava xadrez com a morte, tive logo imensa vontade de o ver. Esse momento aconteceu agora e, devo dizer, foi o filme mais brilhante que vi nos últimos tempos!

    O tempo é o da peste. O homem é um cruzado que volta para o seu castelo após dez anos na guerra, acompanhado pelo seu escudeiro. No dia em que a Morte o visita, ele propõe-lhe um acordo: jogar xadrez. Se ganhar, a Morte o deixará em paz. Mas quem poderá ganhar contra a Morte?

    Este é um filme com leituras diversas e uma complexidade narrativa tão rara como delicada. O homem busca o significado de deus, em busca do conforto que a vida ainda lhe poderá trazer, enquanto o jogo de xadrez não termina. Enquanto os dois homens viajam por aldeias consumidas pela peste e pelo medo dos demónios, conhecem uma série de pessoas que os acompanham, que os acompanham até à fatalidade.

    Apesar de tudo, é um filme pleno de humor e pequenos detalhes que, como uma reflexão do que é negro e assustador, trazem um um brilho discreto aos personagens e às situações, que se sucedem num perfeito equilíbrio entre o horror pessoal e a ambição pela vida.

    As imagens são de extrema beleza, um preto e branco maravilhoso que faz um uso perfeito da edição, dos planos e da variedade de sombras que se podem encontrar no mundo. Espantoso como como os recursos da época foi feita tão bela recriação de um ambiente tão antigo, com imagens emocionantes e tantas vezes comoventes.

    Este é um filme que demonstra um equilíbrio perfeito entre todos os componentes que fazem o cinema. Um exemplo primordial do que ainda pode ser feito.

  • Ed Wood

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    Ed Wood
    Tim Burton
    1994
    Filme
    7 em 10

    Vimos este filme já a semana passada mas, como terão visto, não tive muito tempo para vir actualizar este espaço. Gostei imenso do filme, que me fez rir muito, mas também me comoveu bastante.

    É um filme sobre a paixão do cinema. Sobre como um realizador sem muito talento mas com muitas ideias faz todos os possíveis para levar os seus projectos avante. É muito inspirador e dá muita vontade de fazer todo o tipo de coisas! Este realizador, Ed Wood, acaba por se tornar um ícone dos chamados "filmes série B", que são aqueles filmes de baixa produção e dos quais se costuma dizer que são tão maus que se tornam... Bons!

    Mas este personagem, que foi mesmo uma pessoa, tem muito mais nele do que a vontade de fazer filmes. Tem segredos, tem histórias que deseja mostrar ao mundo, tem amigos. E estes amigos acabam por ser tão dedicados à cinematografia como ele, ou não passariam por todas estas coisas, trinta por uma linha, para o acompanhar e "wrap the scene!"

    Destes amigos destaca-se uma importante figura: Bela Lugosi. Bela Lugosi, neste filme, ainda não morreu. Mas a sua história é contada paralelamente e acaba por ser triste, comovente, mas ao mesmo tempo cheia de candura. Porque aqui nos é contado o final de vida do primeiro Drácula, a forma como ele acabou por ser um actor ignorado e nunca contratado e se envolveu no mundo do consumo de estupefacientes (o que levou à sua morte, já em idade avançada).

    Para além disso, a forma como este filme está feito revela uma mestria poderosa e cheia de talento. O que mais aprecio em Tim Burton não são os seus efeitos coloridos, as suas histórias bizarras, as suas maquilhagens. É a forma como ele relata a vida estranha das pessoas normais: os estranhos não somos nós! São os outros! E em "Ed Wood" ele consegue dizer-nos isto, e de que maneira! O filme é todo a preto e branco, mas tem uma tal vivacidade que eu me recordo dele a cores...

    Assim, temos uma homenagem à arte de amar o cinema, ao amor por fazer o que se gosta e à dedicação. Tudo com "a little help from my friends..." ;)

  • Young Frankenstein

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    Young Frankenstein
    Mel Brooks
    Filme
    1974
    7 em 10

    Chegados a casa em noite de tempestade, faço o pedido: vamos ver um filme com pessoas para rir. E o Qui desencantou este filme. 8D

    Inspirado nas personagens do livro original, Young Frankenstein é um tributo em forma de comédia a todo o franchise antiquado "Frankenstein". Mantendo personagens e conceitos fiéis ao livro, acrescenta-lhes um twist cómico que dá azo a demasiadas gargalhadas.

    O trisneto do Frankenstein original não acredita no trabalho das gerações anteriores. Apenas quando se desloca à Transilvânia começa a trabalhar nisso, ficando totalmente obcecado com a ideia de reanimar tecido morto. Com ajuda dos seus assistentes, Igor e Inga, consegue criar "A Criatura", um ser enorme mas com um cérebro anormal, que o torna numa pessoa extremamente simples, delicada e ao mesmo tempo perigosa. No final, depois de muitas voltas, obtemos o mesmo elemento moral do livro original: apesar de todos termos medo da Criatura, ela não quer fazer mal a ninguém.

    O elemento cómico é obtido por séries de gags que apenas são melhorados pela capacidade dos actores. Igor, sobretudo, é um personagem hilariante e muito simpático. Também as situações em que aparecem grandes discursos altamente filosóficos, fazem com que até os mais fortes se desfaçam em risos.

    O filme está a preto e branco, em homenagem aos filmes antigos do Frankenstein, mas isso apenas o melhora. Todo o ambiente é de puro terror, com trovoadas, nevoeiros e lobos a uivar. Mas tudo isto aparece em oposição a um conjunto de personagens tão fabuloso que o efeito final é irónico e apenas nos faz gargalhar mais.

    Das melhores comédias que vi ultimamente, recomenda-se.
  • Dr. Strangelove

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    Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
    Stanley Kubrick
    Filme
    1964
    8 em 10

    Chegados a casa, vamos ver um filme. Mas a mim não me apetece nada de muito pesado, de muito pensativo, apetece-me algo um pouco mais simples. E, assim, colocámo-nos a ver o Doutor Estranhoamor. :)

    Sátira enlouquecida daquilo que foi a Guerra Fria, este filme cria um cenário absurdo - a recordar muito o Catch-22 - em que uma catástrofe nuclear está iminente. E porquê? Porque um general paranóico com a mania dos fluídos corporais decidiu activar o Plano R, que implica que todos os aviões B-52 com bombas atómicas se desloquem até à Russia e as deixem cair lá.

    Infelizmente o plano não pode ser parado, devido a uma série de regras impostas pelo próprio plano. Depois de uma conversa entre presidentes, ficamos a saber que para nossa desgraça a queda das bombas irá activar aquilo a que se chama "Dommsday Device". E vamos morrer todos :) Mas Dr. Strangelove tem a solução? E qual é...? Terão de ver o filme. :)

    Todo o absurdo das situações, dos diálogos e dos personagens torna este filme uma experiência absolutamente hilariante. Está cheio de pequenos detalhes cheios de graça, completamente gargalhantes. E como está a preto e branco (segundo consta porque não havia dinheiro suficiente para o fazer a cores), tudo isto aparece com um certo ar negativista e gótico que não liga nada com a hilariedade das situações. Tornando-as ainda mais engraçadas!

    Este filme não seria a mesma coisa se não fosse o actor Peter Sellers. Decorem este nome, pois foi das melhores performances - seja cinema ou teatro - que vi nos últimos tempos. Apesar de ser antiga, o trabalho de actor é sempre actual. O actor interpreta três personagens distintas, cada uma com as suas características. O general inglês, desesperado por salvar a situação, cheio de paciência. O presidente Americano, passivo-agressivo perante o seu equivalente russo. E o Dr. Strangelove, génio da ciência que tem a solução ideal para todas as coisas e uma mão independente que continua a gostar de fazer as saudações nazis. Cada personagem tem um trabalho corporal completamente diferente, não só nos movimentos mas também nas expressões e na voz. É verdadeiramente extraordinário.

    Não me ria tanto num filme há muito tempo. Até o final (catastrófico) foi calmo, bonito e simpático. Porque se tudo pode correr mal, porque não?

    Aparentemente este filme foi altamente criticado pelas esferas do governo americano na época, porque eles são paranóicos e não perceberam que o filme era a gozar com a situação toda. Agora, olhando para trás e considerando que estamos praticamente na mesma situação, o meu sentimento é: venha o holocausto nuclear. Vamos morrer todos de qualquer forma! =D
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