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  • O Sino da Islãndia

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    O Sino da Islândia
    Halldór Laxness
    1943
    Romance


    Livro que me oferecerem no Natal, mas que mais ou menos estive a adiar para ler porque me parecia um pouco aborrecido. E a verdade é que é mesmo um pouco aborrecido.

    Tudo começa quando levam o sino de uma aldeia da Islãndia para que o sino (derretido) participe no esforço de guerra. A partir daí seguem-se várias aventuras de um homem que é condenado à morte por assassinato, e exploramos um pouco a forma de vida nesta Islândia suja, triste e abandonada.

    Este romance não nos mostra as maravilhosas paisagens geladas nem o fulgor da natureza, preferindo em vez disso mostrar-nos uma série de paisagens urbanas que nunca me tinham cabido na imaginbação, pois nunca supus que a Islãndia pudesse ser um lugar aparentemente tão deprimente.

    O problema principal do livro é que se prolonga numa série de detalhes e personagens todas chamadas Jon, o que torna a leitura bastante complexa. Acabei por não o apreciar muito, talvez não tanto como deveria, e acabou por ser um desapontamento.

  • Viagens

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    Viagens
    Olga Tokarczuk
    2007
    Memórias


    Livro de memórias e pequenas considerações sobre viagens e exposições que a autora visitou. Nomeadamente a famigerada exposição de anatomia dos corpos humanos, que traumatizou tanto a autora que ela a descreve extensivamente durante páginas e páginas sem fim.

    Eu odeio anatomia.

    Este livro é tão horrivelmente aborrecido e tão horrivelmente irrelevante, porque afinal quem é que quer saber onde é que Olga esteve e como é que Olga ficou traumatizada com uma exposição anatómica a ponto de quase se transformar ela mesma numa peça anatómica, que foi uma tortura lê-lo.

    Para prémio Nobel, este exemplar da autora é um horror.

  • Outrora e Outros Tempos

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    Outrora e Outros Tempos
    Olga Tokarczuk
    1996
    Romance


    Outrora é uma aldeia entre dois rios de esquecimento. Perdida esta aldeia, acompanhamos as vivências das pessoas que lá vivem ao longo dos anos, afectadas pelas estações, pela convivência uns com os outros, pelas guerras que assolam a Europa.

    Digamos que esta é uma saga familiar, em que seguimos as aventuras e desventuras dessa família que é a própria aldeia ao longo de diversas gerações e, assim, conseguimos caracterizar toda uma Europa do leste destruída por uma política injusta e por fatalidades instituídas por homens poderosos que nada conhecem sobre a vida das pessoas normais.

    Apesar de, sim, estar muito bem escrito, este livro não me encheu as medidas e deixou-me tanto à espera de mais como desejosa de que terminasse. A moral do livro pode ser preciosa, mas a narrativa acaba por ser um pouco aborrecida, por ser extremamente longa, passando de geração em geração.

    Assim, não diria que poderia recomendar esta Nobel.

  • A Saga de Gösta Berling

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    A Saga de Gösta Berling
    Selma Lagerlöf
    1891
    Romance


    Livro que me ofereceram pelo Natal. Absolutamente adorei. Passado numa maravilhosa paisagem selvagem, conta a história de Gosta Berling, ex-pároco que abandona a fé para se dedicar às maravilhas da festa e da bebida. 

    É um conjunto de histórias puramente mágicas, que misturam lendas e fantasias com a realidade histórica. Assim, no meio de bruxas e deuses misteriosos, estão aldeões e pessoas ricas que se divertem e fazem festas, que amam e que odeiam, que vivem e morrem, tudo escrito com uma grande sinceridade e simplicidade que tornam esta narrativa numa coisa absolutamente deliciosa.

    Foi uma maravilha ler este livro e não posso deixar de o recomendar a toda a gente.

  • Uma Questão Pessoal

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    Uma Questão Pessoal
    Kenzaburo Oe
    1964
    Romance


    As minhas colegas acharam uns livros no lixo e decidi ficar com este, que é um prémio Nobel e tudo.

    Fala sobre um homem chamado Bird, que tem um filho com uma hérnia cerebral e agora irá passar uns tempos a fornicar com uma amiga da faculdade, à espera que os médicos deixem a criança morrer à fome. É um livro que nos faz questionar sobre os cuidados de saúde primários na pediatria no Japão, e que tem sequência absolutamente horrendas, da descrição do sexo anal que Bird tem com a sua amiga, até à descrição pavorosa do dito cujo bebé de duas cabeças, que é tão perturbadora que até tive sonhos com isso.

    A conclusão é a mais "boazinha", mas não sei se será a mais "justa".

    É um livro perturbador e chocante, que me custou bastante a ler.

  • O Acontecimento

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    O Acontecimento
    Annie Ernaux
    2000
    Romance Autobiográfico


    Livro da Nobel que recebi através do BookCrossing. Quando o li nunca me passou pela cabeça que seria uma história real, inspirada em factos da sua própria vida, e quando o descobri fiquei extremamente desapontada, porque não queria saber isso.

    No fundo é a história de como a autora engravida enquanto estudante universitária e não vê outra solução se não fazer um aborto, na altura um procedimento ilegal com direito a prisão. Ela descreve em detalhe como conseguiu os contactos, como foi realizo o dito procedimento, como se sentiu, como viu as coisas.

    Isto para mim foi uma leitura fascinante, mas a partir do momento em que soube que era apenas um relato da vida real, fiquei sem vontade nenhuma de saber mais: preferia que tivesse sido tudo inventado.


  • Uma Paixão Simples

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    Uma Paixão Simples
    Annie Ernaux
    1991
    Novela


    Livro minúsculo da mais recente Nobel, recebido através do BookCrossing.

    O relato de uma paixão simples mas muito intensa, entre a narradora e um homem - estrangeiro, casado - com quem mantém uma relação secreta. Um livro pequenino mas muito compacto, em que passamos do amor à amargura, do erotismo ao ciúme, da alegria ao desespero, tudo num instante, tudo num pequeno suspiro de quem já perdeu esse amor.

    Apesar de estar muito bem escrito, acho que este livro não transmitirá a verdadeira genialidade da Nobel, portanto fico à espera de ler mais.

  • Vidas Seguintes

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    Vidas Seguintes
    Abdulrazak Gurnah
    2020
    Romance


    Livro que recebi através do BookCrossing, recebido num agradável café de inverno.

    Tratando-se de um prémio Nobel, estava à espera de gostar mais. Mas não gostei assim tanto. O livro começa por explicar a vida de todos os antepassados de Ilyas, um homem que acaba por ir combater para uma guerra africana da qual eu nunca tinha ouvido falar. Depois explica a vida de todos os antepassados do amigo dele. E depois explica como Ilyas encontrou a irmã.

    De repente dá um salto muito confuso e passamos a falar de Hamza, um outro soldado dessa guerra misteriosa. Isto para mim foi tão confuso que pensei que Ilyas e Hamza eram a mesma pessoa (o segundo nome, talvez?) durante imenso tempo, e eu não estava de todo a perceber porque é a que a personagem tinha mudado completamente de origem, educação e atitude. Todas as partes referentes à guerra, não gostei nada delas. A caracterização do horror pareceu-me insuficiente, e não há qualquer base para quem não saiba do que se trata. Gostei apenas das secções com a rapariga, passadas dentro de casa, na cidade, que mostram um pouco como se vive nessa zona de África.

    Fiquei bastante desapontada com este livro.

  • A História de Meu Filho

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    A História de Meu Filho
    Nadine Gordimer
    1990
    Romance


    Livro que recebi num encontro de Escrita Narrativa. O primeiro livro de Nadine Gordimer que li não me cativou muito, mas decidi dar uma segunda oportunidade.

    Mais do que a guerra, o racismo e o apartheid, temas recorrentes na autora, este livro fala da vivência familiar de um conjunto de pessoas que, por acaso, também combate os temas anteriores. Um filho descobre que o seu pai tem uma amante, e a partir daí tudo irá dar uma grande volta.

    Gosto da forma como o livro retrata a África do Sul, o seu ambiente, as suas cidades, os seus bairros e a forma como as pessoas vivem. A história da família em si acaba por servir apenas como um fundo para que se possa fazer a caracterização desta forma de viver.

    A escrita é simples e directa, o que torna a leitura mais simples do que o esperado. Apesar disso, não o recomendaria.


  • Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos

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    Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos
    Olga Tokarczuk
    2019
    Romance


    Obtive este livro porque me ofereceram no Natal mais um Murakami que já tinha lido e fui trocar. Este estava em exibição nos mais recentes, então decidi trazê-lo, pois tinha bastante curiosidade por este novo Nobel.

    Este livro é uma viagem extraordinaria pelo campo da Polónia, protagonizado por uma personagem forte, altamente caracterizada, com qualidades com que nos identificamos de certa forma. O livro é quase um policial, pois fala de uma série de crimes cometidos, supostamente, pelos animais da floresta.

    Mas no fundo, o interesse principal não é o de resolver o mistério, mas sim de apreciar a qualidade literária fantástica desta escrita, com as considerações da protagonista sobre o papel do homem na natureza e sobre a influência que o mundo tem na vida da humanidade.

    Trata-se de um livro único, memorável e extremamente belo, que recomendo vivamente.

  • Viagem de Inverno

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    Viagem de Inverno
    Elfriede Jelinek / Companhia de Teatro de Almada
    2011 / 2020
    Teatro 

    Esta peça foi-me muito recomendada, portanto juntei-me à malta para irmos ver. A única conclusão que tiro é que ainda tenho de ver muito teatro. Porque, para ser completamente sincera, penso que não tenho capacidade intelectual para compreender esta peça.

    Trata-se de um texto longo, que eu pensava literário mas que afinal foi feito especialmente para o teatro, que é interpretado por três actrizes nesta encenação. Embora cada uma delas procure uma voz única dentro das palavras que estão a dizer, o texto é tão complexo que - sendo distintas - é impossível saber quem é quem. Talvez seja esse o objectivo final, apesar de tudo.

    Alguns momentos da peça foram muito interessantes, com ritmo, esforço físico e uma quase canção, mas entretanto algo me passou porque... Bem, adormeci. Muita gente adormeceu, portanto não me odeiem D: Muita gente se foi embora antes do fim, alguns tentavam participar na peça.

     No final eu só queria que a senhora do realejo se calasse e que ela mais o seu realejo se afundassem nas profundezas da neve.

    O teatro causa emoções, mas estas foram maioritariamente negativas. Também está certo!
  • O Fim do Homem Soviético

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    O Fim do Homem Soviético - Um Tempo de Desencanto
    Svetlana Aleksievitch
    2013
    Não-Ficção
    Este livro tinha sido muito recomendado no Bookcrossing, mas na altura escolhi não me juntar à lista de leitura porque tive medo que fosse muito grande e muito aborrecido. Quando no meu aniversário recebi (mais uma vez) o mesmo livro repetido de Murakami, decidi trocá-lo por este, que ainda por cima estava em promoção.

    Trata-se de um conjunto de relatos e entrevistas a pessoas russas normais que viveram tempos muito anormais. O foco principal é a mudança do estado de uma fase comunista para a perestroika, um assunto que conheço bastante mal pois era muito pequena quando estava a acontecer. Com este livro continuo sem saber muito bem os meandros políticos em que tudo aconteceu, mas uma coisa fiquei a saber: como todos se sentiram com as mudanças.
     
    Se por um lado temos histórias de amor improváveis, pontuadas por guerras horríveis de separação de um país em muitos, por outro lado temos relatos simpels da vida diária e de como de repente todos podiam comprar calças de ganga mas o dinheiro deixou de valer o que quer que fosse para ser uma riqueza inútil.
     
    Temos relatos terríveis sobre as guerras e sobre a participação das pessoas nelas e como ficaram traumatizadas para toda a vida pelas acções que teriam sido obrigadas a cometer. Denúncias, torturas, prisões... Mas também temos pequenos hinos à vida e ao prazer de ler e de participar nas manifestações, como se os momentos mais felizes fossem aqueles em que finalmente podia haver um envolvimento livre na política.
     
    A autora coloca-se na voz das pessoas e isso torna este livro único. Brutal e chocante por vezes, extremamente belo na maior parte das ocasiões.

  • Levantado do Chão

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    Levantado do Chão
    José Saramago
    1980
    Romance

    Este foi um livro de Saramago que, sendo muito saramaguiano na mesma, me deixou um pouco desapontada. Confesso que não aprecio muito a literatura portuguesa que se foca na pobreza e na agressividade da vida campestre, sobretudo quando relacionadas com temas como a guerra ou as colónias.

    Um romance visceral, quase uterino, conta a história da família Mau-Tempo, que vai vogando pelos campos de Portugal sem grande objectivo sem ser o de sobreviver à fome, à seca, ao lixo. As personagens são confrontadas com diversas situações em que, por vezes, lhes é permitido sonhar um pouco com um novo e diferente tipo de vida.

    Sonhos cortados pela raiz, ou afogados num balde à nascença, porque existe um conjunto de figuras negras, nunca as mesmas, que sob a égide de um Salazar fantasmagórico destroem, maltratam e matam, sem nunca permitir que o trabalhador, com fome, com sede, com caspa, tenha uma vida feliz para além dos seus dedos grossos.

    Mas, como digo, este não é um tema que me agrade.

  • The Old Capital

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    The Old Capital
    Yasunari Kawabata
    1962
    Romance

    Um delicado romance japonês, de um laureado Nobel, sugerido pelo grupo Eden.

    O narrador é apenas um olhar. Um olhar sobre a velha capital, a antiga cidade de Kyoto. Nesta antiga realidade, também as pessoas, os hábitos, as visões, tudo é revestido de uma idade que normalmente dignamos apenas às plantas.

    Com uma história muito simples, mas ainda assim cativante na sua falta de conclusão, o autor dedica-se a seguir os passos das nossas personagens, mostrando-nos através das suas contemplações como é a cidade na verdade. E é de uma beleza extrema, fulgurante e quase comovente. A observação das estações, da luz do sol, da cor das flores e do seu perfume. A admiração da sabedoria das ~´árvores e das pedras, a definição do templo, tanto o divino como o profano.

    Tudo isto feito de uma forma tão discreta que quase que não parece propositada.

    Um livro muito equilibrado, calmo e simples, uma leitura de puro prazer. Recomendo!

  • Todos os Nomes

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    Todos os Nomes
    José Saramago
    1997
    Romance

    Recebi este livro do Saramago numa actividade do BookCrossing, que confesso já não recordar qual era. Já há algum tempo que o queria ler, pois um amigo mo havia recomendado muito vivamente. Li-o de uma assentada e penso que, não sendo dos melhores do autor, é uma obra distinta.

    Neste livro, que é sobre todos os nomes, só há uma pessoa com nome: o Sr. José. O Sr. José trabalha na conservatória do registo civil e vive numa casa pegada a este edifício, ao qual pode aceder por uma porta no seu quarto. Um dia, durante o seu trabalho, encontra um verbete de uma mulher que o fascina. Passará o resto das páginas em busca dessa pessoa, comentendo crimes inusitados e muito inesperados.

    No fundo, este é um livro sobre a identidade e que fala sobre uma questão que eu gosto de discutir: a definição que um nome dá à nossa identidade. Afinal, o que é um nome? Para que serve um nome? O nome da mulher misteriosa, que tanto apaixona o Sr. José, acabará por significar alguma coisa? Os nomes que as coisas têm, significam alguma coisa? O próprio nome de José...

    Escrito com a simplicidade que tanto caracteriza o autor, é um livro que brota de uma inocência simples, observando de forma quase infantil a progressão da vida e as significâncias da morte. E, no fundo, porque chamamos as coisas como chamamos?

    Agora estará disponível para novas viagens! :)
  • Vagabundo ao Serviço de Espanha

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    Vagabundo ao Serviço de Espanha
    Camilo José Cela
    1948
    Livro de Viagens

    Recebi este livro numa actividade do BookCrossing, sendo que o escolhi porque - depois de ter lido um livro de José Cela no original Espanhol - gostaria de experimentar de novo este autor. Vim a saber, então, que uma das suas vertentes de escrita mais exploradas é a chamada literatura de viagens. Este livro é um desses exemplares.

    O autor traveste-se de "vagabundo", enquanto viaja por uma Espanha sulista sem um objectivo definido. É neste ambiente de calor e quase deserto que ele observa as formas de viver de cada lugar por onde passa e conversa com as pessoas que habitam esses ermos locais. Conhecemos, então, uma Espanha antiquada, violenta mas cheia de um sentido de humor desviado e ligeiramente ácido.

    O autor relata exactamente o que observa o que, por vezes, se torna ligeiramente enfadonho. Porque, para ser sincera, os hábitos e vivências destes lugares estão fossilizados numa época que já não existe e que, para mim, tem apenas um interesse lateral.

    Ainda assim, li este livro num instante, pelo que - para os fãs das viagens - recomendo bastante!

  • A Idade do Ferro

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    A Idade do Ferro
    J.M. Coetzee
    1990
    Romance

    Com uma impressionante capacidade literária, Coetzee volta a surpreender-me com um livro tão violento como altamente viciante.

    Uma senhora idosa na África do Sul acolhe sob sua protecção um sem-abrigo. Juntos, irão assistir a uma série de injustiças cometidas contra os seus amigos, companheiros e empregados negros, que estão a viver momentos de puro terror nos seus bairros isolados e cercados por uma autoridade corrupta e falível.

    Este livro não é apenas uma análise social da época vivida na África do Sul. É também um excelente estudo de personagem, em que o autor penetra nos segredos mais profundos destas pessoas e lhes dá uma voz tanto emocional como altamente lúcida e coerente.

    As imagens de terror que pontuam o livro atingem-nos com todo o detalhe, mas o facto de a narrativa ser a visão pessoal de uma personagem que está tão perdida como as vítimas torna-as ainda mais violentas. Afinal, esta velhinha encontra-se no meio de um problema que ela não pode controlar e vê-se desrespeitada por todos aqueles em quem confiava, acabando por transferir o seu voto de amizade ao sem-abrigo desconhecido que se protege no seu jardim.

    Um livro excelente que me ficará na memória.

  • Dias Tranquilos

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    Dias Tranquilos
    Kenzaburo Oe
    1990
    Romance

    E o último livro que trouxe da LFL da Quinta das Conchas. Na verdade, o único que queria realmente ler, hahaha ;)

    Este nobel da literatura tem um tema recorrente nos seus livros, que é a sua experiência autobiográfica na relação com a família e o filho deficiente mental. Neste livro ele coloca a narração na boca da sua filha do meio, Ma-chan, numa fase em que o autor (e personagem) e esposa se afastam para os Estados Unidos para reparar a criatividade do senhor, deixando os filhos entregues a si próprios.

    É relato, efectivamente, de dias tranquilos. O autor mostra-nos um pouco da vida diária dos três irmãos, com todas as complicações que vão acontecendo e também todas as coisas boas. é um verdadeiro fatia-de-vida, pois muitas partes do livro são apenas conversas sobre temas pouco específicos ou mesmo a descrição de filmes ou livros que afectaram as personagens.

    No entanto, reparo que neste livro há um certo debate do autor com os temas religiosos, nomeadamente com os dos católicos, sendo que existem muitas discussões sobre estes assuntos entre os intervenientes do livro.

    Uma leitura agradável, mas que não é de todo simples.

  • El Espejo y Otros Cuentos

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    El Espejo y Otros Cuentos
    Camilo José Cela
    1999
    Contos

    E agora, para variar, um livro da minha irmã que não só foi fixe como gostei imenso! Li este livro em Espanhol, o que não foi tão fácil como parecia porque tem muito vocabulário vulgar e gíria, que não conheço bem.

    Este é um conjunto de contos, uma antologia, que reúne algumas cenas da vida de um narrador, de um personagem, quiçá do próprio autor. O narrador sempre observa o mundo à sua volta, constatando as pequenas estranhezas da normalidade da vida e concluindo sempre de uma forma muito humorística. A verdade é que a conclusão da maioria das histórias dá muito em que pensar, pois a maior parte delas não termina quando a acção da história termina por si mesma. Antes. Assim, tudo parece um pouco incompleto, mas o efeito final é muito, muito intrigante.

    A minha história preferida foi sem dúvida a última (a do Chivo Smith), porque envolvia uma compontente de fantasia mas ao mesmo tempo de infantilidade que, dentro do contexto, caía tão a despropósito que o efeito é simplesmente hilariante.

    E, tenhamos em consideração, as coisas lidas em espanhol têm sempre a sua dose de piada extra. ;)
  • Tonio Kröger

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    Tonio Kröger
     Thomas Mann
    1958
    Romance

    Finalmente, o último livro que recebi no meu aniversário, desta feita cortesia da minha irmã e da minha mãe (a prenda é da primeira, mas foi a segunda que o foi comprar e escolher) :)

    Um dos primeiros romances do génio de Thomas Mann, fala sobre as complicações da vida de um rapaz que anseia ser escritor e acaba por se tornar um deles. No entanto, ele continua sempre a ser um burguês, pelo que para se afastar desse conceito acaba por se ir isolar numa estância de férias na Dinamarca. Lá, é mais uma vez confrontado com os desejos do seu passado.

    Escrito com grande mestria, este curto livro tem muita força pelo seu personagem principal. DE certo modo, identifiquei-me muito com ele. É um personagem pleno de dúvidas e questões sobre a sua existência, no mundo e em sociedade, e qual o lugar que pode encontrar para si próprio num universo onde tudo sobre ele é estranho e onde ele próprio se sente uma criatura bizarra e diferente, perante o fascínio que sobre ele exercem as "pessoas exemplares" que imagina na sua cabeça.

    Assim, temos uma dicotomia entre o que é real no personagem e aquilo que ele procura tornar-se através da sua escrita. Sai frustrada sua tentativa?

    Terão de ler para saber. :)
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