• A Enfermaria Nº6 e Outros Contos

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    A Enfermaria Nº6 e Outros Contos
    Anton Tchekov
    Contos
    1880s

    Outro livro apanhado aleatoriamente num jardim!

    Já havia lido um dos contos deste volume, mas voltar a Thekov é sempre e sempre um imenso prazer. Este senhor escreve com uma naturalidade indescritível, relatando-nos acontecimentos da vida normal da Rússia do século XIX sem qualquer tipo de pretensão. O autor limita-se a narrar-nos os acontecimentos, descrevendo tudo com destreza e clareza, sempre com uma certa dose de humor que, bem disfarçada, acaba por se tornar evidente na forma como cada história se torna prazerosa para o leitor.

    Este livro tem nove contos:

    "A Enfermaria Nº6" fala-nos de um médico pouco adequado à cidade que o rodeia que acaba por encontrar companhia na presença de um louco, tornando-se ele próprio louco. Há aqui uma belíssima desconstrução de personagem, que passa rapidamente da normalidade à maluquice, sem nunca compreender exactamente qual o seu verdadeiro problema.

    "Vizinhos" não me marcou, sendo que "Dô-Doce" nos mostra uma personagem fascinante pela sua incapacidade de resistir à manipulação emocional e intelectual. 

    "Um Assassinato" é um conto longo sobre a vida familiar de um grupo de religiosos um pouco histéricos e vale mais pelas descrições dos seus ritos. 

    Todas as histórias seguntes ("O Mendigo", "Sem Título", "O Adulador", "A Boticária" e "Uma Corista") são muito curtas mas, de todos os modos, fascinantes na forma como inesperadamente os personagens são diferentes do que aquilo que esperamos, sempre com uma pequena veia cómica pulsando na escrita do autor.

    Enfim, Tchékov nunca desaponta!
  • Caminhos Cruzados

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    Caminhos Cruzados
    Érico Veríssimo
    1935
    Romance

    Outro dos livros que apanhei no jardim!

    Já era tempo de ler um pouco de Érico Veríssimo, autor brasileiro que, a todo o propósito, é do meu estado brasileiro. Curiosamente, a linguagem é bastante diferente da outra literatura do país que havia lido até agora, pelo que nesse campo foi uma experiência muito revigorante.

    No decurso de cinco dias da semana, o autor mostra-nos pequenos laivos da vida de um grupo de pessoas que, não se conhecendo todas umas às outras, estão interligadas pelas circunstâncias. O livro faz um certo manifesto na comparação entre a realidade literária dos romances, que os personagens lêem, com a vida verdadeira destes. Como é lógico, as coisas da vida real não correm de todo como nos livros.

    Os personagens, esses, são a melhor parte. Vívidos, realistas, cada um com uma vida, personalidade e percursos bem definidos. Isto leva-nos a que nos identifiquemos muito com todos e, assim, queiramos sempre a melhor conclusão para as suas histórias. Mas a conclusão acaba por não ser muito satisfatória, porque acaba por não existir. Cada dia passa e mais dias se passarão, mas de certa forma gostaríamos de saber qual será o futuro remoto de toda esta gente.

    Um livro que achei delicioso e que me deu muita vontade de repetir o autor em grandes doses. :)

  • O Último Dia de Um Condenado

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    O Último Dia de Um Condenado
    Victor Hugo
    1829
    Romance

    No mesmo dia em que encontrei aqueles livrinhos abandonados que falei antes, fui passear com o Qui a um jardim em Lisboa. Subitamente... "Achei um livro, este é meu!", diz o Qui! E à medida que fomos vendo o jardim... Fui encontrando cada vez mais livros! Trouxe quase todos, até que descobri que fazia tudo parte de uma libertação em massa ao estilo BookCrossing, mas organizado pela biblioteca da zona :)

    Li este primeiro e devo dizer que gostei bastante.

    Trata-se de uma reflexão sobre a pena de morte e o desespero que pode daí advir, narrada pelo próprio condenado nos momentos que precedem a sua execução. O autor narra, através deste personagem anónimo, os horrores da prisão para trabalhos forçados e a serenidade que um homem pode manter perante semelhante situação, que se vai desfazendo à medida que o momento fatal se aproxima. É interessante e belo ler os sentimentos do personagem em constante mutação, desde a aceitação inicial, ao pensamento da fuga, passando pelo desespero final em que há um último pedido de absolvição.

    A situação que mais me tocou terá sido, sem dúvida, o momento em que o narrador se encontra com a sua filha de três anos, que não o reconhece, estabelecendo assim uma divisão profunda entre o condenado e aquilo que lhe resta da humanidade do seu passado.

    Como extra, temos um conto curto chamado "Claude Gueux", em que o autor faz um breve manifesto sobre a necessidade actual (dentro da época) de educar as populações de forma a evitar crimes, estabelecendo a realidade num personagem que deita tudo a perder devido à sua própria simplicidade. De certa forma, semelhantes palavras ainda se mantém actuais: se educarmos, reduziremos certamente todos os crimes. Não poderei é concordar na bíblia como livro essencial, mas prontes, deixa estar, é o século XIX em França.

    Agora não sei o que fazer com o livro, se o hei-de por a circular, se o devolvo à biblioteca, se o liberto no mesmo sítio... Ideias? :)

  • O filho de mil homens

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    O filho de mil homens
    Valter Hugo Mãe
    2011
    Romance

    Recebido num Ring do BookCrossing, foi mais uma experiência com Valter Hugo Mãe. Dizia eu que gostava imenso deste autor, mas ultimamente os livros que tenho lido dele têm sido um pouco desapontantes.

    Neste caso, é um livro sobre a família e sobre como qualquer grupo de pessoas pode constituir uma família desde que gostem umas das outras. Mais uma vez, é passado numa aldeia anónima, perdida num passado anónimo e difícil de situar. Porque estas pessoas têm tractores mas não têm telefones. Mais uma vez há uma insistência na falta de sentido das tradições seculares do nosso país, mas considerando que não conseguimos situar a narrativa no tempo, é um pouco difícil entender quais as verdadeiras opiniões destas pessoas.

    O autor mostra de forma violenta como todas as pessoas "renegadas" pelas suas opções amorosas e sexuais são tratadas neste universo, que tem muito de inventado e pouco realismo para que possamos sentir alguma emoção pelos personagens. Algumas pessoas referem o quão maldoso o autor é perante a homossexualidade (tema constante ao longo de todo o livro), mas isso pareceu-me ser parte da sua intencional crítica social, que se pode perder um pouco devido à linguagem do livro.

    Esta, é um pouco infantil demais considerando a idade de todos os personagens. O rapaz de 14 anos parece ter 6, a menina de 7 parece ter 15. É tudo muito difuso e escrito como se o autor contasse uma história para adormecer.

    Li-o num instante e, subitamente, acho que VHM já não é o meu escritor português preferido da actualidade.

  • Uma Vida Imaginária

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    Uma Vida Imaginária
    David Malouf
    1978
    Romance

    Recebido num BookRing do BookCrossing :)

    Foi a minha primeira experiência com este autor, que é tido por muitos como fundador de novas correntes filosóficas sobre a vida moderna em geral. Foi uma experiência quase transcendental: fui quase obrigada a ler este livro muito devagarinho, apenas para o poder saborear melhor.

    O poeta romano Ovídio foi exilado para um lugar do qual não se sabe muito. O autor situa-o numa montanha, mas junto ao mar. Ovídio não conhece a língua local, não pode comunicar. E reflecte muito sobre a vida e sobre o seu lugar no mundo. Quando adopta uma criança selvagem, que vivia na floresta como um animal, começa a redescobrir uma língua que antes só via nos seus sonhos infantis. E isso leva a que ele descubra muito sobre si próprio e sobre a sua relação com o mundo que o rodeia.

    Estas conclusões são belas, é um encontro do homem com a activa passividade da natureza, o encontro daquele que apenas sabia falar com um mundo real que é feito de silêncios e ruídos que não constituem palavras. O personagem, através da Criança, encontra um eu interior que estava perdido desde o momento da sua maturidade. Parece haver uma quebra entre os momentos em que Ovídio via a Criança e quando deixou de a encontrar. Agora, estão juntos de novo.

    Esta conclusão pode dar-nos muitas ideias sobre o que fazer com as nossas próprias vidas. O encontro da criança interior, a perda da linguagem. A eventual ligação, fatídica, com o mundo em nosso redor. A felicidade por nos encontrarmos nesse lugar.

    Por isto é que o livro é considerado como revolucionário. Porque nos mostra a realidade por uma perspectiva que está lá, que evidentemente está lá, mas que sempre nos recusamos a ver. Procurarei, agora, ser um pouco mais como Ovídio. Espero que leiam este livro e tentem sê-lo um pouco também :)

  • Beetlejuice

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    Beetlejuice
    Tim Burton
    1988
    Filme

    Finalmente tive a oportunidade de ver aquele que é o "filme mais Burton do Burton" :p

    Um casal vive na maior das felicidades, por vezes atormentados por uma imobiliária que lhes quer vender a casa. Ela acaba por o conseguir. Depois deles terem um acidente de automóvel. E voltarem como fantasmas. E o pior é que a nova família está a mudar toda a decoração da casa!

    Este é um filme sobre fantasmas, mas sobre os aspectos técnicos de se ser um fantasma. Isto é, pode ser estranho ser um deles, mas será que poderemos ter uma morte normal? Viver felizes para sempre após a morte? No fundo, é um filme que nos mostra como podemos ser bizarros mas ainda assim ter uma família e sermos amados, apesar de todas as nossas pequenas estranhezas.

    O ambiente é fascinante, em muito ajudado pelo detalhe nos cenários e guarda-roupa. Os personagens são cativantes e, mesmo que assustadores (não digas o nome dele três vezes!) sempre envoltos numa aura de comédia. E a segurança social do outro mundo é absolutamente hilariante!

    Também temos uma banda sonora exemplar que ajuda os personagens a fazerem as suas tropelias.

    Enfim, fartei-me de rir com este filme e, apesar de um susto ou outro, quase que dá vontade de ser fantasminha também :)

  • Em Busca do Tempo Perdido 6 - A Fugitiva

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    Em Busca do Tempo Perdido 6 - A Fugitiva
    Marcel Proust
    1927
    Romance
     
    Continuemos a ganhar tempo com a busca pelo tempo perdido! =D 

    O que acontece em "A Fugitiva"? Vou já mandar o spoiler. A Albertina morre. E o narrador processa as 200 páginas seguintes a pensar nela e a tentar viver com isso. Acaba por confirmar que as suas suspeitas sobre o mundo de Gomorra não eram infundadas, mas também nunca nos dá a certeza: ele próprio não pode ter a certeza, pois tudo neste universo é absolutamente manipulado para o prazer das pessoas certas.

    Isso continua a provar-se através das atitudes dos Srs. Guermantes e do reaparecimento de Gilberta, que passa a tornar-se o foco central da atenção do narrador. Mais uma vez debatemos assuntos como o anti-semitismo, mas o ambiente é tão deslocado da realidade que as conclusões não são de todo lineares e nunca ficamos a saber o que "é de bem" para estas pessoas.

    Proust escreve de forma maravilhosa, apesar de tudo. Os acontecimentos não são de todo importantes: prova-se com este livro que o prazer da leitura desta obra não está no conteúdo, mas sim na forma. É fabuloso como um autor tem a capacidade de nos levar por um mundo de palavras que, por si só, não possuem qualquer significado, mas que todas juntos nos trazem imagens de uma beleza quase fatídica.

    Estou ansiosa pelo último volume, para ver como termina a grande saga!

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