• Coco

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    Coco
    Lee Unkrich
    Filme
    2017
    6 em 10

    Dizem que a Pixar não faz maus filmes, mas à medida que o tempo passa parece-me que estão a ficar demasiado confortáveis no seu mundo de talento. Porque Coco, apesar de ter uma animação luminosa e brilhante, é um exercício de fórmula tão evidente que só pode irritar.

    Um rapaz mexicano tem uma família que odeia música. Mas ele adora. Acidentalemente, vai parar ao mundo dos mortos, lugar onde conhece os membros mais antigos da sua família e tentará fazer tudo para descobrir o seu trisavô, que poderá enviá-lo de volta ao mundo dos vivos. 

    Até aqui tudo bem. O que está mal é que, imediatamente, percebemos todas os imprevistos do filme e, assim, em vez de plot-twists temos apenas a constatação do óbvio. Tudo isto está feito de forma tão evidente que até sabemos em que secções vamos chorar (e chorei mesmo) e em que secções nos vamos rir. Felizmente, em termos de comédia, temos alguns momentos de puro génio inventivo e homenagem à arte.

    De resto, os momentos musicais são invulgares num filme Pixar. Apesar de as músicas, em si, não serem mais, o facto de o filme ser um musical contribui para a percepção de que foi uma peça feita para crianças muito pequeninas.

    A animação poderia salvar o filme, porque tem momentos de extremo realismo e faz uso de técnicas moderníssimas e com um elevadíssimo custo de produção. Os cenários são altamente detalhados e a utilização das cores é muito variada. O filme é um festim para os olhos, mas faz-me impressão a quantidade de orçamento que foi gasto neste filme que nem uma história de jeito tem para chamar de sua.

    Um desapontamento.

  • Húmus

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    Húmus
    Raul Brandão
    1917
    Romance

    Um livro engraçado: lembra-me a minha própria escrita de quando tinha 16 anos, embora tenha sido escrito em 1917 por um tipo que tinha a idade que tenho agora.

    Pois é, apesar de termos aqui um livro significante para as correntes do simbolismo da época, sendo que o autor faz uso - em prosa (o que é raro) - de várias imagens aparentemente incoerentes para nos transmitir uma ideia da sociedade em geral, todo este livro parece ter sido escrito por um adolescente desesperado por amor e atenção.

    O autor mostra-nos o quanto a sociedade é suja, porca, horrenda, como as personagens (que aparentam ser críticas a pessoas que ele conhece) são efectivamente nojentas e como a únca pessoa válida no meio disto tudo é o seu próprio reflexo, convenientemente chamado de "Gabiru". Isto tudo numa amálgama de frases altamente citáveis mas que, em termos de conteúdo, nos dão muito pouco e muito mal.

    Lê-se rápido, mas talvez não seja por uma boa razão.

  • The Handmaid's Tale

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    The Handmaid's Tale
    Bruce Miller
    Série - 10 Episódios
    2017

    Quando soube que um dos livros mais emocionantes de Margaret Atwood tinha sido adaptado para série, fiquei logo cheia de vontade de a ver. Eu, que nem séries vejo. Eu, que nem séries classifico, porque nem séries vejo. Mas vi esta. :)

    Num futuro distópico, em que não nascem bebés devido à contaminação nuclear, sobe ao poder nos Estados Unidos um grupo teocrata que acredita que, através do medo, violência e limitação cultural, conseguirão dar a volta à situação. Para fazerem nascer bebés segundo as ordens de um misterioso deus, fazem recurso das "handmaids", criadas que irão gestar e parir uma eventual criança-. São escravas. São prisioneiras. Foram tiradas das suas vidas normais para estar ali.

    Tudo isto funciona como no livro. Infelizmente vou ter de fazer uma comparação, pois este ainda está muito vivo nas minhas ideias. Nos primeiros episódios temos uma sucessão de flashbacks da vida normal, de como o mundo veio a ser assim, de como as "handmaids" foram ali parar. Nos seguintes, a série afasta-se do livro, mostrando-nos acontecimentos a outras personagens e explorando os antagonistas. Ao longo de toda a série há uma sensação de revolta, esperança e revolução que simplesmente não existe no livro. O facto de darem um nome a Ofred também ajuda a essa percepção de que estamos perante uma crítica social.

    Em termos cinematográficos, é uma série com erros de edição flagrantes, que retiram muitos dos momentos emocionais que a narrativa tem. De resto, guarda roupa e banda sonora estão excelentes, assim como a prestação das actrizes. Infelizmente, muitos dos momentos, devido à tal edição, acabam por nos dar a sensação de que estamos perante uma novela.

    Fiquei com muita vontade de ver a segunda season, espero que saia entretanto!
  • A Guerra do Fim do Mundo

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    A Guerra do Fim do Mundo
    Mario Vargas Llosa
    1981
    Romance

    Este livro estava na minha lista de leitura, mas estava em Espanhol. Considerei que os meus conhecimentos desta língua fossem, talvez, demasiado fracos para esta empreitada, pelo que pedi ao meu pai o livro emprestado numa versão em Português. Recebi um livro das edições Bertrand (não o da capa deste post) velhíssimo, a desfazer-se em pedaços, cheio de erros de ortografia e tipografia e com uma tradução absurda. Afinal, passando-se o livro no Brasil, seria de esperar que a narrativa estivesse na grafia desse país e não na nossa. Muito estranho, mesmo.

    Ignorando esse facto, temos aqui uma obra prima do autor, um épico de grandes proporções que não pode ser ignorado no panorama da literatura e, sobretudo, no universo da ficção histórica. Baseado em factos reais mas não de todo totalmente compreendidos, Vargas Llosa fala-nos da Guerra de Canudos, uma guerra civil com contornos de fanatismo religioso que assolou essa zona do Brasil nos inícios da primeira república.

    Com este livro aprendemos muito de história e quais os acontecimentos exactos que ocorreram nesta época conturbada. Mas sobretudo aprendemos as condições em que estas pessoas viviam, em que stas pessoas lutavam, o que faziam e a que horrores assistiam. Que eram realmente muitos e muito apavorantes. No entanto, o autor não nos explica exactamente o que leva toda a esta gente paupérrima e desesperada a acreditar no falso profeta e a lutar por ele da forma mais violenta possível. Nesse aspecto, senti que o livro falhava um pouco, pois as atitudes das personagens acabam por não ter um grande fundo emocional.

    De resto, como sempre, uma escrita fluída e apaixonante, embora um pouco imatura relativamente a outros livros que já li dele.

  • Treblinka

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    Treblinka
    Sérgio Tréfaut
    2016
    Filme
    7 em 10

    Um colega ofereceu-me uns bilhetes para ir ver este filme. Bem, o filme era grátis na mesma, mas ganhámos bilhetes, hihihi :) Ganhou o principal prémio para filmes portugueses no IndieLisboa 2016 e tinha ouvido falar dele numa entrevista na rádio. Portanto, estava muito curiosa.

    Com um orçamento muitíssimo reduzido, o autor faz um excelente trabalho em remeter-nos aos fantasmas do passado. As imagens são recorrentes: um comboio que marcha por paisagens nevadas. O frio. A humidade. E as pessoas que estiveram naquele mesmo comboio e que tiveram um pior destino. Que foram parar ao campo de concentração de Treblinka. São estes fantasmas, nus, solitários, gelados, que fazem a transição para a realidade da narrativa.

    Um narrador, cujo texto foi baseado no de um sobrevivente do tal campo de concentração, conta-nos, com muita calma, os diversos horrores que praticou e a que assistiu. E as imagens do comboio parecem servir apenas como pano de fundo, como ambiente, para as imagens que vemos nas nossas cabeças, pelo que conseguimos imaginar.

    Um filme muito curioso, bem filmado e cheio de humildade.

  • Gallery Fake

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    Gallery Fake
    Iwakami Atsuhiro - TMS Entertainment
    Anime - 37 Episódios
    2005
    5 em 10

    Um anime curioso e, oficialmente, a última série da minha Plan to Watch! Parabéns eu! =D Ainda faltam duas curtas, apesar disso. ;)

    Um homem que sabe muito sobre arte, um misto de avaliador, restaurador, falsificador e aldrabão em geral, vive diversas aventuras com a sua colega. Aventuras que giram em torno de quadros estragados, falsificações e grandes mistérios do mundo da arte, tanto a clássica como a contemporânea. É um anime essencialmente episódico, com uma aventura semanal, mas apesar de tudo não se torna especialmente cansativo. Isto porque os personagens são sempre divertidos e existe uma forte componente pedagógica: ensinam-nos, de semana a semana, cada vez mais detalhes sobre os quadros em causa (que são, na sua maior parte, bastante famosos), que incluem a sua história e mesmo as técnicas utilizadas. Também gostei muito de aprender sobre as técnicas de restauração e outros detalhes interessantes.

    Embora os personagens façam um duo muito dinâmico e divertido, é precisamente na sua relação e na sua química que se encontra o principal problema deste anime. A verdade é que a relação entre os dois nunca é levada a sério pelo autor, o que se manifesta sobretudo nas expressões utilizadas, que levam ao ridículo cada um dos diálogos e das piadas.
     
    De resto, a arte e animação são bastante más, sendo que a única coisa que tem o seu interesse nesse campo são as "réplicas" dos quadros apresentados. A música é um pouco repetitiva, mas não me cansou porque é um standard de que gosto muito. Desapontaram-me OPs e EDs, que não me pareceram ter muita relação com o tema da série.
     
    De todos os modos, foi uma experiência divertida!
     

  • Nathan, o Sábio

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    Nathan, o Sábio
    Companhia de Teatro de Almada - Gotthold Ephraim Lessing
    Texto - 1779/2017
    Teatro

    Conseguimos bilhetes para o último dia da reposição desta peça, encenada pela Companhia de Teatro de Almada e contando com diversos nomes de grande exposição e talento do nosso panorama nacional.

    Esta é uma peça com grande relevância histórica na sua época e que continua a mostrar um grande significado até aos dias de hoje. Nathan é um judeu muito rico e tido como um homem bom e sábio. Ao chegar de uma viagem, descobre - através da sua criada cristã - que a sua filha adoptiva foi salva de um incêndio por um templário. A partir daqui desenvolvem-se diversas narrativas que culminam numa evidente união de todas as religiões, tratando os dilemas com sabedoria e muita justiça, de forma exemplar.

    Apesar das reviravoltas serem um pouco previsíveis, esta peça chega-nos ao coração pelo retrato de um universo de respeito e amor ao próximo que nunca se viu em ocasião alguma. A peça não tenciona ter realismo neste aspecto, mas é como se fosse uma fantasia, uma transposição da experiência do autor perante a injustiça do mundo a uma idealização de como tudo poderia correr bem.

    A encenação, muito calma e minimalista, dá-nos a oportunidade de apreciar o texto sem distracções ou interrupções. Achei, por isso, que o intervalo foi desnecessário e um pouco incómod Essencialmente, não havia cenário nem nenhum objecto especial em palco: a mudança de espaços era indicada por variações num ecrã que nos mostrou uma variedade de pinturas.

    Também os actores, sem nunca se conterem, fazem um trabalho excelente na interpretação do texto, trazendo as emoções mais íntimas dos personagens ao de cima. Apesar de em várias ocasiões podermos colocar algum tique em certas personagens, fazem um bom trabalho em evitar isso ao máximo.

    Foi uma peça excelente, que espero que seja encenada em mais lugares. Nem que seja para que mais pessoas tenham oportunidade para a ver!
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