• Amadeus

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    Amadeus
    Milos Forman
    1984
    Filme
    9 em 10

    Havíamos regressado de uma festa diplomática em casa do Senhor Embaixador do Brasil. Meio enjoada com a quantidade de quitutes volantes e com a apresentação deprimente da Wanda Stuart (a do cabelo azul), amochei-me no amarelo para ver um filme. Não sabia que o filme ia durar três horas. Não sabia que o filme ia ser tão bom.

    Reconheço que Mozart não é de todo o meu compositor predilecto. Aliás, nunca gostei de tocar e gosto de ouvir muito pouca coisa. Mas uma coisa temos de admitir: o homem era um génio. Sempre foi um mistério para todos como acabou por morrer na maior das depressões e das misérias. Este filme mostra uma perspectiva moderna e refrescante sobre a sua história, contada por um outro génio da sua época, Salieri.

    Mozart é, no seu século, o que seria equivalente à rockstar de hoje em dia. Está simplesmente a fazer a sua cena, para desagrado da crítica, despenhando-se em vícios e em festas até que, no final, cede ao desespero e à doença. Por outro lado temos Salieri, um devoto que deseja ser o mais famoso da sua época mas a quem "deus" apenas dá o dom de reconhecer o imenso talento de Mozart. Na sua luta contra a gargalhada de deus, que na sua loucura Salieri acha estar especialmente contra si, ele faz tudo para levar Mozart à miséria, acabando por contribuir para a sua morte. Isso leva-o à loucura e a um asilo, que é onde a história é narrada.

    Esta história tem muitos elementos, desde o romance à intriga política, que só poderiam ser ilustrados nesta época de infâmias e de extremas vaidades. Apesar da época, a história e o diálogo são modernos, trazendo imenso realismo a toda a narrativa.

    Isto não seria conseguido sem a performance de actores extremamente competentes e, diria mesmo, extremamente talentosos. Ambos traduzem para o "palco" os seus personagens com uma perfeição constante e emotividade muito equilibrada. O papel de Salieri louco pareceu-me ser bem complicado e especialmente estimulante.

    O fausto e pompa da época estão nos cenários e nos guarda roupas, todos cheios de detalhe. As óperas estão concretizadas com uma mistura de modernidade e classissismo que as torna interessantes até para aqueles que nunca apreciaram ópera.

    É um filme de génio sobre génios. Com imensos detalhes saborosos, merece ser revisto vezes e vezes sem conta. Aliás, vi-o ontem e já estou ansiosa por o ver outra vez. Recomendo uma vez e mais outra.
  • Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres

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    Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
    Clarice Lispector
    1969
    Romance

    Tinha sobre Clarice Lispector a ideia preconcebida de que era uma americana feminista dos anos 80. Afinal não, é uma emigrada no Brasil que percorre muitos anos. Este extraordinário livro deixou-me muito curiosa em relação à sua obra completa, que desejo ler por inteiro. Foi o meu regresso ao Kobo (da classe dos Kobinhos), em que não pegava há bastante tempo por ter estado a ler muitos livros em papel.

    Lóri, de verdadeiro nome Loreley, tem uma estranha relação com um homem chamado Ulisses. Através dessa relação, entre o amor e a amizade, ela realiza uma viagem de auto-descoberta, uma realização sobre o que é ser uma pessoa, um humano, uma mulher. E qual a posição da mulher dentro da sua própria identidade, enquanto amante de homens ou deuses.

    A forma como o livro explora esta "aprendizagem" é como um sonho vívido. Existem muitas cores, sons e cheiros dentro deste texto, cada um representativo de um estado, de um momento do aprendizado. Há sobretudo o símbolo da água, seja no mar ou na chuva, que poderiam estar relacionados com a necessidade de amar. Também objectos como alimentos e frutas povoam todo este imaginário. Assim, é um livro com muita cor, mas de contornos pouco definidos: traz uma aura de estranheza e uma certa infelicidade.

    O final é misterioso, deixando-nos à beira de um final feliz. Mas poderá ser feliz este final? Descobriram estes personagens a verdade? Ou irão cair na tristeza dos dias assim que se afastarem do "estado de graça"? Tenho de ler mais livros da autora para saber. Quem os tiver em e-book que os apresente na minha mesa, por favor.
  • Litchi☆Hikari Club

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    Litchi☆Hikari Club
    Furuya Usamaru
    Manga - 9 Capítulos / 1 Volume
    2005
    7 em 10

    Um estranho manga, que envolve muito sangue e uma elevadíssima carga homoerótica. Terá sido inspirado numa peça de teatro dos idos anos 80. Só poderemos imaginar como seria a peça, tendo em conta o manga...

    O "Clube da Luz" é um clube muito especial. Estes rapazes, com certas características dos Sete Anões da Branca de Neve, constroem um robot alimentado a lichias. A função desse robot é apenas uma: apanhar raparigas. Estes rapazes querem conhecer a beleza mais pura. Então têm de ensinar Litchi, o robot, a identificar a beleza. E para isso ele necessita de características humanas.

    É neste ponto que a história se torna extremamente interessante. À medida que o robot começa a reconhecer-se como ser humano, desenvolve-se uma estranha história de amor entre Kanon - a rapariga número um - e Litchi. Paralelamente, há uma busca do poder dentro do Hikari Club, que acaba com a trágica morte de... Toda a gente.

    O manga explora de forma muito clássica alguns temas em que a ficção científica pega repetidas vezes. Mas a forma como esses temas são abordados torna-os  - a eles e aos dilemas que daí advêm - bastante elegantes e com um grande sentido estético. A arte usa muito o preto e o branco. Também o vermelho, apesar de tudo ser a preto e branco: conseguimos distinguir o vermelho, uma cor essencial nesta história. O design dos personagens é directo e original, algo de horrivelmente belo.

    Apesar de a narrativa ser muito rápida, não parece pecar por falta de conteúdo. Aliás, se fosse mais longa correria o risco de se tornar repetitiva e aborrecida. Achei que - talvez - o maior (quiçá único) defeito foi o excesso de sangue e tripas, que poderiam não ser necessários caso a abordagem às mortes fosse mais emocional e psicológica, em vez de gráfica.

    Como é um manga bastante curto, posso recomendá-lo. Mas aviso desde já que não está censurado, pelo que a quem se perturbe com isso não direi para ler.
  • Nero e Nina

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    Nero e Nina
    Mário Cláudio e Evelina Oliveira
    2012
    Livro Infantil

    Era Natal de 2012 quando me ofereceram este livro, autografado e tudo. Foi uma série de coincidências: era Natal, o autor estava a autografar o livro e eu gosto de cães. Portanto, recebi-o. Mas como não dá muito jeito de o transportar e à primeira vista achei que o texto fosse maior, fui adiando o momento de o ler. Cá chegados, posso dizer que afinal foi um instante.

    Acompanhamos a história de Pedro e Inês sob uma perspectiva diferente: a dos cães de Pedro e Inês, Nero e Nina. Numa narrativa muito portuguesa, intercalamos entre um cão e outro até descortinar a história. Tiveram um final mais feliz do que os seus donos, posso já dizê-lo.

    No entanto, para livro infantil, achei que a linguagem era demasiado extrema, demasiado tradicional, muitas vezes difícil de compreender. Notas de rodapé enchem a última página, mas para uma criança será um livro bastante difícil. Será um livro mais apropriado a adultos que gostem de ilustrações.

    As ilustrações são muito interessantes e texturizadas. Os cães são bastante expressivos, embora tenha achado que Nero não tem muito tempo de antena comparado com a namorada. Além disso, as ilustrações não ajudam muito na compreensão da história, mostrando apenas o cenário em que cada momento se passa.

    Mas gostei deste livro, porque gosto de cães.
  • Ouro da Casa

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    Ouro da Casa
    Maurício de Sousa Produções
    2012
    Banda Desenhada

    Esta foi, sem dúvida, a minha melhor aquisição da Bienal de São Paulo. Já foi ao tempo - dois anos - mas tinha guardado este album para ler devagarinho, com paciência e atenção ao detalhe. Porque é, simplesmente, tão bom.

    A Turma da Mônica, emparelhada com o Tio Patinhas, foi a minha primeira exposição ao mundo da banda desenhada. Apesar de se basear em histórias muito curtas e tirinhas, sempre adorei a forma inocente e complexa de rir do mundo e, sobretudo, algumas histórias muito intimistas e filosóficas. Os personagens são simples e ficam imediatamente marcados. São bons personagens, são pessoas boas, são personagens que nos motivam a ser melhores, mais criança.

    Neste "Ouro da Casa" temos uma perspectiva diferente da Turma que marcou gerações: desta vez a arte, as histórias, tudo é feito pelos membros da Maurício de Sousa Produções, sem influência do próprio Maurício de Sousa. É um show-off dos artistas que fazem o trabalho invisível. Aqui participam os roteiristas, os arte-finalistas, os letristas, os coloristas... Todas as pessoas que contribuem para que todas as semanas saiam novas historinhas nas revistas, mas às quais nunca damos grande atenção. Não são elas a cara da empresa. Mas são elas que fazem a empresa. E a prova está aqui.

    Cada história tem um estilo artístico diferente, pontuada com algumas ilustrações. A arte é uma nova maneira de experienciar estas histórias e toda ela é extremamente boa, seja detalhada ou simplista, seja digital ou tradicional. Cada uma é única.

    E as histórias... Sem dúvida que temos algumas mais adultas. Outras, recordam-nos como é bom ser pequenino. Mas todas elas demonstram a paixão que estes funcionários têm pelo seu trabalho.

    No final,  vem um artigo sobre a produção das revistas da Turma da Mônica e pequenas biografias sobre toda a equipa. Não são muitos. Mas são bons.

    Este livro será difícil de encontrar em Portugal, mas para quem gosta da Turma, aconselho vivamente a que o obtenham e consultem. Tal como se fazia com as revistas. Mas agora é com um belo volume, para recordar e acarinhar.
  • Cruel Intentions

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    Cruel Intentions
    Roger Kumble
    1999
    Filme
    5 em 10

    Filme que se apanhou pouco antes do meio, já passava hora de ir dormir, mas que se ficou a ver porque a vossa narradora não consegue estar à frente de uma televisão a passar coisas em movimento sem se concentrar completamente no assunto, mesmo que não esteja a perceber nada.

    Porque, realmente, até eu perceber quem era quem no filme demorou uma eternidade. Era toda a gente parecida. Mas eu também vejo mal ao longe.

    Sebastian tem uma meia-irmã muito má que faz uma aposta com eles. Se for para a cama com a miúda mais inocente da escola ganha a aposta, se não perde a aposta. Mas Sebastian apaixona-se pela moça.

    É um filme divertido, que não merece a bolinha vermelha, com personagens muitos simples mas interessantes e alguns detalhes em estilo grunge que fazem rir. De resto, é quase terrível. A história não é muito interessante e os actores não fazem muito por ela.

    Salva-se a música, que tem alguns momentos bastante nostálgicos. Bem, na época eram modernos...

    Bom filme para ver antes de ser um pedregulho cheio de musgo.
  • Festas de Corroios - Azeitonas

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    Festas de Corroios

    Já estava convencida de que este ano iria quebrar a minha tradição de ir às Festas de Corroios. Pode não ser há muito tempo, mas já vou desde que entrei na faculdade. E para quem vive em Lisboa isso significa bastante, creio eu de que.

    A feira é sempre igual a si própria, com as suas banquinhas de comidas e bebidas e passarinhos e roupas e jogos diversos. As aquisições deste ano distinguiram-se por, principalmente, ter adquirido alguma coisa. A primeira foi uma sangria mágica que deitava fumo. Era gelada e deitava fumo! Não pude deixar de a experimentar! Mas além de deitar fumo, não fazia mais nada de especial, era igual a todas as outras sangrias. A segunda aquisição foi um jogo de roleta de uma banca de peluches gigantes. Ganhei uma flor vermelha que, além de se rir, enrola-se toda sobre si própria.

    Um dos membros do grupo resistente manifestou grande desejo de andar numa brincadeira chamada MONSTER. Só de olhar para ela fiquei cheia de medo. Era um pêndulo enorme, gigante, para oito pessoas de cada vez, que andava à roda e as cadeiras onde as pessoas estavam andavam à roda também, por forma a toda a gente balançar a ponto de ficar de cabeça para baixo. Só de a observar durante uns minutos fiquei com elevadíssima cefaleia.

    No final parámos na política. Interessante que o PSD e o CDS estavam encaixados entre o Bloco de Esquerda e o PCP, o que lhes devia causar certo pânico. O que é certo é que os partidos de esquerda eram a última coisa a fechar.

    Mas... E a música? Desde logo, ainda antes de irmos, manifestei o meu desinteresse pela banca convidada desse dia sabático. Mas afinal revelou-se uma surpresa agradável, se bem que nada de genial.

    Eram eles

    Os Azeitonas

    Pouco conhecia desta banda e o que é verdade é verdade: sabem dar um belo espectáculo. É realmente muito animado.
    As músicas são muito simples, com letras ligeiramente ilógicas. Apresenta-se uma tara quase infantil pelo imaginário do cinema americano, quer na sonoridade quer nas letras (muito desejo têm estas pessoas de ir a Hollywood). Não se percebia bem o que fazia a rapariga da pandeireta, além de tocar pandeireta e cantar em francês.

    Mas o que é certo que até eu, que nutria enorme aversão por esta banda com nome de baga gordurosa, acabei o concerto dançando e fazendo pripripri (que é a minha maneira de cantar e dançar). É uma banda cheia de energia e, sendo grátis, se calhar vale a pena ver.

    No palco apresentava-se um grande "Az", pelo que esta banda também poderá - não oficialmente - ser chamada de Azoto.

    No dia seguinte dormi até ao infinito.

    Fim.
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