• A Morte Feliz

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    A Morte Feliz
    Albert Camus
    1936
    Romance

    Nunca tinha lido Camus. Assim, quando apareceu a oportunidade no BookCrossing de receber este livro, fui logo a primeira a por o dedo no ar! Diziam os comentários no site que este não seria o melhor livro dele e que toda a gente estava desapontada. Também que não era o melhor para começar. Mas achei precisamente o contrário. A verdade é que adorei o livro e tornou-se bastante especial para mim. Espero poder ficar com ele. Li-o de uma assentada no comboio para o Porto (como verão, mais livros virão e eu rimei)

    Este livro fala da depressão. Um jovem que se sente inadaptado na sua cidade e na sua época, acaba por assassinar um conhecido que tem muito dinheiro, roubando-lhe a fortuna e viajando pela Europa. Na sua viagem, apenas encontra mais angústia, decidindo mudar-se para perto do mar, onde é assolado por uma misteriosa doença que acaba por lhe ceifar a vida.

    Isto tudo poderia ser quase um Crime e Castigo, excepto que este livro não explora os conceitos de arrependimento e redenção. São significantes os locais e os objectos que o personagem encontra nas suas viagens, cada um deles representando algo que o atormenta e lhe perturba o sistema biológico, levando ao desenvolvimento da doença que acaba por o matar e encontrar a paz. Essa paz será motivada pelo encontro com jovens raparigas numa casa de onde se vê o sol, lugar que representa a calma e o regresso à inocência primitiva. Talvez o facto de não se ter falado da infância do personagem tenha ajudado nesta afirmação.

    O livro é leve, bem escrito, sem forçar o conteúdo depressivo. Apenas acompanhamos a viagem do homem, com o seu declínio e finalmente a recuperação, com toda a naturalidade.

    No geral, gostei mesmo muito e recomendo. Agora estou cheia de vontade de ler mais deste autor.
  • Memória das Minhas Putas Tristes

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    Memória das Minhas Putas Tristes
    Gabriel García Marquez
    2004
    Romance

    Um livro que fizeram o favor de fazer circular no BookCrossing. Era uma oferta, mas eu fiquei com tanta pena de não ter ficado com ele que acabaram por fazer um bookring. Viva! Viva!

    Como saberão (ou não, acho que não li nenhum livro deste autor desde que tenho este espaço) eu adoro positivamente o senhor Gabriel. Acho-o super fofinho e adoro ler os livros dele, porque são fascinantes e muito divertidos. Não nos temas, os temas são sempre tristes, mas a escrita é perfeitamente deliciosa.

    Neste livro, Gabriel disserta um pouco sobre a velhice. É o seu último livro e parece-me uma boa ocasião para falar sobre o assunto, que o deveria atormentar na altura. Um velho de 90 anos decide, no seu dia de aniversário, regalar-se com uma prostituta virgem. Ao entrar no seu quarto, ela está a dormir. E continua sempre a dormir. Daí se desenvolve uma história de amor, estranha mas muito pura.

    O que distingue esta história é que o personagem, idoso e sozinho, nunca tinha aprendido a amar no passado. Nunca teve mulher, apesar de terem passado centenas de mulheres na sua vida. Nunca se tinha apaixonado. É perante a inocência e o medo da adolescente que ele aprende o que é verdadeiramente amar outra pessoa, desesperar-se por ela, apesar de a rapariga não ter nenhuma acção directa na sua vida e nunca trocarem uma palavra.

    A escrita é, como sempre, fluída e cheia de charme. A melancolia está muito presente e toca profundamente no coração do leitor.

    Um livro que gostava que o meu pai lesse, por isso acho que o vou comprar para lho oferecer. :)
  • Assassinatos na Academia Brasileira de Letras

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    Asssassinatos na Academia Brasileira de Letras
    Jô Soares
    2005
    Policial

    Recordam-se do Jô Soares. Aquele amiguinho gordinho da televisão brasileira, que tinha sempre piada! Pois bem, quando vi um livro dele (aliás, dois) na lista que me mandaram fiquei com curiosidade de o ler. Revelou-se um senhor extremamente culto, além de revelar com classe o seu bom-humor que sempre o caracterizou.

    Este livro é um policial passado no Rio de Janeiro dos anos 20. Um a um, membros da Academia Brasileira de Letras vão sendo assassinados por um misterioso envenenador. Há muitas pessoas, muitas mulheres atraentes, um anão, um médico legista e muitas coisas muito engraçadas.

    Mas o que é a Academia Brasileira de Letras. Pois bem, a quem não sabem, é como se fosse um "clube" que reúne os melhores escritores brasileiros, a nata da intelectualidade. Mantém-se até hoje e tem nomes importantíssimos. É quase certo que se um escritor pertence a este grupo, a sua obra é de génio. Mas, revela este livro, nem sempre terá sido assim... A obra revela todo um universo de corrupção e de venda de favores em troca de um lugar na prestigiada Academia, para além da leviandade de seus membros que não têm mais nada com que se entreter do que tomar chá e participar em grandes festanças sociais.

    O personagem principal, comissário Machado Machado (assim chamado por o seu pai, Rubino Machado, ser grande apreciador e fã de Machado de Assis) está muito bem construído, com um detalhe primoroso nas suas acções e personalidade. A forma irónica como aborda os factos torna-o cativante, tudo isto polvilhado com uma pitada de Machado de Assis. Porque Machado Machado conhece bem e cita a sua obra integral. Não apreciei, no entante, as suas capacidades infalíveis de galã. Pareceu-me exagerado que atraísse mulheres lindíssimas ao primeiro contacto, ao primeiro olhar, a ponto de se reproduzirem cenas eróticas em vários pontos do livro que em nada contribuem para a história.

    Também não contribuem para a história, mas têm o seu quê de engraçado, as reflexões sobre cada uma das personagens que é apresentada, com detalhes sobre a sua vida privada. No entanto, é maneira de os conhecermos e de os colocarmos o retirarmos da lista de suspeitos.

    O mistério mantém-se até ao fim, com muitas pistas ocultas que requerem um grande conhecimento de literatura para fazer uma dedução lógica antes do tempo. O assassino é totalmente inesperado e de uma loucura irrepreensível, simplesmente de tão cómica que é.

    Agora estou desejosa de ler o outro livro que tenho dele. A linguagem transporta-nos para a época de todas as coisas com classe, os loucos anos 20, e o autor demonstra um seguro uso da palavra. Gostei muito e é para repetir.
  • Coisas que Acarinho e me Morrem Entre os Dedos

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    Coisas que Acarinho e me Morrem Entre os Dedos
    Dulce Maria Cardoso
    2012
    Conto

    Ora bem, com a adição do Kobo na minha vida, este blog agora terá mais uma vertente literária. A dos contos. Eu não tenho por uso ler contos que encontro na net, apesar de gostar que leiam os meus, simplesmente porque gosto de separar os meus momentos de leitura dos meus momentos de estar na net. Mas agora com o bicho digital, posso lê-los nos meus espaços de leitura (autocarros, mesa do trabalho à hora de almoço, etc.) Assim, escrevo aqui um apelo-barra-oferta:

    Novos escritores, enviem-me os vossos contos ou e-books e eu terei todo o gosto em lê-los. A leitura poderá não ser imediata, porque as minhas escolhas do "próximo a ler" são bastante ecléticas, mas serão lidos mais tarde ou mais cedo. E, para mais, irei comentá-los neste espaço e poderão usar isso como crítica (construtiva, espero eu). :) Por isso, bring it on!

    Sobre este conto: foi a minha primeira experiência com esta autora tão aclamada. Gostei bastante e fiquei curiosa em relação às suas outras obras. É um conto muito moderno, que faz referência aos nossos hábitos do agora. O de acordar e ir à net, o de perder tempo e estar na net. Também reflecte sobre a ansiedade que nos assola e que nos provoca isolamento e na relação que a informação que encontramos online tem com o facto de não conseguirmos conhecer as pessoas.

    É isso o que é importante, talvez a ideia que tinhamos das pessoas antes de as conhecermos, e que se perde por entre os dedos. Assim, o conto é muito forte e muito triste. Ficará certamente na memória e mal posso esperar para ler mais da autora!
  • Frozen

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    Frozen
    Chris Buck e Jennifer Lee - Disney
    Animação Ocidental - Filme
    2013
    6 em 10

    Aos Domingos, por vezes, muitas vezes, fazemos um piquenique ou um passeio ou props de cosplay. Este que passou fomos para casa de um amigo ver o Frozen. O filme já me causava certa irritação, por causa da abundância sem paralelo de jpgs e gifs e ficheiros de som que populam todo o Tumblr. Mas também por causa desse excesso, tinha certa curiosidade em saber se o filme era realmente assim tão bom.

    Não é. Não é sem razão que há quem diga que a Disney perdeu a magia. Se calhar fomos todos nós que crescemos... Enfim, o filme tem os seus momentos, mas de resto não tem grande coisa onde pegar. Começa logo pelo epíteto de "baseado na história da Rainha da Neve". Ora bem... Eu adoro a história da Rainha da Neve. Mesmo. E este filme, de Rainha da Neve, tem neve e rainha, mais nada. A história é tão bonita, porque é que fizeram algo completamente diferente? A inspiração? Nenhuma!

    A história é simples, a causa e efeito do amor fraternal e da relação entre irmãs. De certa forma, o filme distingue-se por dar um certo poder ao amor entre as duas, a capacidade feminina. As princesas não são frágeis, apesar de serem puras e inocentes. Ainda assim, acho que o Tumblr anda a ler demasiadas coisas entre as entrelinhas... Não creio que o filme seja representativo de feministas ou doenças mentais (apesar de haver um personagem com uma rena que é esquizofrénico).

    A arte é plástica, bem modelada, mas a paleta de cores é extremamente aborrecida. É tudo demasiado azul, não havendo aproveitamento das várias imagens de paisagens nevadas. Bem, eu só vi neve uma vez, mas já vi fotografias e os campos gelados não são assim tão monótonos.

    As músicas... Demasiadas. Esta gente está sempre a cantar e como são feitos por computador parecem pessoas e isso é estranho. Pareceram-me todas parecidas umas com as outras e ficaram-me na cabeça... Mas todas misturadas. Por isso tenho andado a cantar "LET IT GO LET IT GO THE COLD NEVER BOTHERED ME ANYWAY DO YOU WANNA BUILD A SNOWMAN"

    Em resumo, o filme parece-me sobrevalorizado, apesar de ter os seus momentos. Gostei imenso do Olaf, apesar de ter pensado que ele me ia irritar. A verdade é que é um bonequinho bem simpático.
  • Caim

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    Caim
     José Saramago
    2009
    Romance

    Apetecia-me ler um livro do Saramgo. Tinha saudades do seu humor tão especial e das palavras todas que ele sabia. Tinha este no Kobo e assim foi.

    Uma reinvenção do Antigo Testamento da Bíblia, requer algum conhecimento prévio das histórias originais. Por isso, às vezes dou graças ao facto de ter andado tantos anos num colégio católico. Tudo começa com a criação da humanidade, Adão e Eva. Depois Caim e Abel. Caim mata Abel e deus condena-o a viajar pelo mundo sem destino. O que deus não percebe é que Caim começa a vaguear entre o passado e o futuro, entre os vários presentes, e assiste a todas as coisas que deus faz, concluindo que as faz injustamente.

    Assim, Caim é - como personagem - a "consciência" de deus, aquele que vê e tenta impedir as coisas terríveis que foram feitas em nome do poder divino e da sua manutenção. De Sodoma e Gomorra até ao Dilúvio Universal, Caim vê, toca e critica todas as coisas que deus faz, discutindo com ele e com os seus anjos até ao fim dos tempos.

    Caim serve como a voz humana às injustiças divinas. Rejeitou deus ao início e cada vez mais, de forma inócua e natural, recusa que ele seja o gerador do amor. Considera, na verdade, que deus é o gerador das guerras, as maiores e as menores, e que sem ele estaríamos todos melhor.

    Isto é, o personagem é a voz do autor. É uma auto-inserção por forma a criticar o que Saramago entendia pelo exagero da religião e todos os problemas que daí advêm.

    Facto é que o livro é extremamente divertido e muito bem escrito. Não será a obra prima do autor (mas é a última), mas vale a pena ler só pelo factor de entretenimento.
  • Senya Ichiya Monogatari

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    Senya Ichiya Monogatari
    Osamu Tezuka - Mushi Productions
    Anime - Filme
    1969
    8 em 10

    Para marcar um momento importante, decidi ver um filme. O filme teria de ser bem escolhido, por isso pensei em ver um clássico esquecido. Já me tinham dito coisas estranhas sobre esta obra e queria saber o que realmente se passava com ela. Afinal, o momento importante deverá acontecer com outro filme, por um engano que ainda não compreendi bem. Mas vamos falar agora sobre este.

    Ambiente surreal, estas 1001 Noites são uma alegoria para a vida moderna e para os desejos do homem actual. Temos de ter em consideração a data em que este anime foi feito: existem miríades de influências hippies e avant-garde, que aparecem tanto na história como na arte.

    Falarei primeiro da história. Um vendedor de água em Bagdad apaixona-se por Miriam, uma escrava. Depois, vive estranhas aventuras pelo universo de influência árabe. Cada uma das aventuras pode ser representativa de algo para a vida normal, servindo como metáfora aos desejos de cada pessoa. A componente sexual é muito forte e explícita, apesar de não ser gráfica (como veremos depois). A luta pelo poder, o desejo de vingança, as dependências, tudo está simbolizado através de objectos, como animais estranhos e objectos mágicos, ou pessoas, outros personagens. No final, temos uma conclusão de que o ser humano é sempre um ser mutável e adaptável e que tudo poderá correr bem se nos mantivermos com sentimentos positivos, o sentimento flower power que grassava na época.

    Tudo isto é atingido por uma capacidade artística cheia de detalhes. O bizarro é atingido pela paleta de cores, pelo uso variado de texturas, mistura com imagens reais de paisagens e assim por diante. Existem algumas sequências, nomeadamente as relacionadas com a actividade sexual, que são estranhamente brilhantes, pois demonstram de forma nada gráfica o erotismo da situação, tornando o filme apropriado a todas as idades.

    Falando em todas as idades, o filme peca pela infantilidade de alguns momentos. Existem muitas piadas, verbais e estruturais, que por vezes calham mal, sobretudo ao início. A partir do meio do filme, parece que nos habituamos ao ritmo e acabamos por sorrir com as feitas e desfeitas de Alladin, o nosso personagem.

    Uma nota especial para a música: o tema é recorrente, mas é excelente. Com uma clara influência progressiva, molda-se em cada situação e fica sempre bem.

    No geral, um excelente filme que recomendo. É uma pena que todos se esqueçam destes clássicos, que nos deram tanto e nos fizeram chegar aos dias de hoje.
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