A Tia Julia e o Escrevedor
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A Tia Julia e o Escrevedor
Mario Vargas Llosa
Romance
1977
De todos os Vargalhosa que li até agora (e ainda não são muitos, mas estão todos neste blog por isso parecem uma multidão) este foi o mais engraçado, o mais cativante e, sem nenhuma sombra de incerteza, o mais absolutamente delicioso gelado de Verão que me podia calhar em sorte.
Isto tem o seu quê de autobiográfico. Marito Varguitas (ou, para os amigos, Mario Vargas - tão a ver o connect, tão?) é um jovem com pretensões a escritor que trabalha a recortar notícias para a Radio Pan-Americana. Entretanto aparece-lhe na família uma tia vinda da Bolívia, Julia, com a qual se desenvolve uma tragicomédia de amor. Intercaladamente aparecem histórias dos folhetins de Pedro Camacho, que os escreve para a mesma rádio. Assim, temos duas histórias dentro da mesma história, a da ascensão do amor e a da ascensão dos folhetins, seguidos pela sua queda e pelo futuro dos seus intervenientes.
A história de amor é rocambolesca. A tia Julia é mais velha e divorciada, Varguitas é um estudante sem um chavo, como poderemos solucionar isto? Mas solucionam-no da maneira mais exasperantemente improvável e divertida (para o leitor, para eles não deve ter sido muito)
Mas para mim o maior encanto reside nos folhetins. Cada capítulo é um folhetim diferente, escritos com um vocabulário absolutamente floreado, requintado e desapropriado, contando histórias que, sendo do quotidiano, se distinguem por terem uma certa aura surrealista. Os personagens dos folhetins são desenvolvidos a uma profundidade sem limites, mas nunca sabemos o que lhes vai acontecer, fica sempre para o próximo capítulo e só à medida que o livro vai avançando é que percebemos que o seu fim vai ser extremamente bizarro. Posso avançar desde já que sim, é. Porque parte da história consiste na loucura de artista de Pedro Camacho e como isso se reflecte nas suas histórias que, no fundo, são a sua vida.
São livros como estes que me dão mais vontade de escrever. São livros como estes que provam que um excelente autor também tem de ser dotado de sentido de humor. São livros como estes que provam que um excelente autor, antes de mais, adora escrever.
Gostaria de o recomendar a toda a gente, mas devido à intensidade do vocabulário pode ser um pouco difícil para quem não esteja habituado a ler literatura "da pesada". Ainda assim experimentem lê-lo. Vão ver-se envolvidos num mundo de fantasia que ultrapassa os limites da própria fantasia e que, melhor de tudo, é absolutamente real.
By : ladyxzeus
Karigurashi no Arietty
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Karigurashi no Arietty
Hayao Miyazaki - Studio Ghibli
Anime - Filme
2010
7 em 10
Todos gostamos da Ghibli e vamos sempre dizer que os filmes são geniais, mas permitam-me discordar. Arietty é um bom filme. Arietty é um filme divertido. Mas Arietty não é um filme genial.
Esta filme conta-nos o improvável encontro de um miúdo a morrer de insuficiência da mitral com Arietty. Acontece que Arietty é, bem, pequenina. É uma rapariga à escala de polegar. Vive por baixo de uma casa com o seu pai e a sua mãe e, para sobreviver, "tomam emprestadas" coisas que as pessoas da casa já não utilizam. Sho vê-a e, atraído pela sua existência, tenta comunicar com ela da melhor maneira que consegue, que não é de todo a ideal. A história é fofa e tenta dar-nos a moral de "nunca desistas de viver", mas pareceu-me que esse aspecto não foi desenvolvido com, bem, desenvoltura! Em termos de personagens temos a habitual mulher forte dos filmes Ghibli, mas pouco mais. Achei graça a Haru-san, cuja "maldade" tinha uma origem absolutamente inocente e infantil.
A arte é o ponto forte. É maravilhosa. Conseguem tornar um jardim numa floresta, cheia de detalhes e de pequenas coisas. A casa das pessoas pequenas também é absolutamente deliciosa. Vale a pena ver o filme só pela arte.
A música está muito adequada e transmite beleza.
Reparei em dois erros crassos de planeamento: a porta que estava trancada abriu sem ser destrancada e a cortina corrida numa cena aparece toda aberta na cena seguinte. Estas pequenas coisas são, de facto, pequenas, mas para mim fazem todo um filme.
Talvez compre o DVD para ver com a minha macaca de estimação.
By : ladyxzeus
Boys Be...
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Eu quando vejo estas coisas costumo ignorar bué porque são demais, mas como é da minha amiga estou a publicitar. Fiquem com o bicharoco, que é muito boa pessoa. Fiquem com o neko-chan e chamem-lhe Chi. Dêem uma Sweet Home à Chi!
Boys Be...
Kawase Kouhei - Hal Film Maker
Anime - 13 Episódios
2000
7 em 10
A imagem que escolhi para este anime é enganadora, mas não há muito mais que seja diferente. Boys Be não é um harém. Não é um H-rated. Não é uma poça de fanservice. Boys Be é como um shoujo. Mas um shoujo invertido. É difícil de classificar o seu género porque é algo completamente diferente. E é isso o que lhe dá tanta graça.
Boys Be é um conjunto de histórias de amor, de pequenas relações juvenis que passam da hesitação à acção e à relação propriamente dita (ou a desfechos mais infelizes) ao longo de 12 episódios mais 1. Mas, e aqui reside a diferença essencial, é tudo contado da perspectiva dos rapazes, os Boys. Temos três rapazes imberbes a experimentar-se no universo das relações amorosas, e o anime mostra a sua atracção, as suas tentativas, os seus sucessos, os seus falhanços e, acima de tudo, a sua maneira de lidar com as situações que vão aparecendo. Por vezes isto tem muita piada, mas no geral há um tom de simplicidade e de melancolia presente ao longo de toda a série.
Os personagens vão evoluindo, mais uma vantagem destes rapazes. A sua inocência inicial vem sendo substituida por uma maturidade crescente e por uma melhor capacidade de resolver os problemas.
A arte é daquele tipo com que eu implico. Mesmo assim não está mal, tem alguns momentos de beleza. As cores são fortes e sólidas, não há grande foco em cenas de animação mas também não há aquela coisa irritante de transformar mãos em bolinhas que andam para cima e para baixo.
A música é ambiental, com uma OP e ED pouco distintas mas apropriadas que trazem algum sentimento aos acontecimentos que estão para vir.
Uma nota interessante é o fanservice. Porque o fanservice não é verdadeiro fanservice. As mamas, os rabos, as camisas molhadas, os fatos de banho, são coisas que os rapazes vêm. Não são coisas inúteis. São elementos importantes para percebermos o estado de espírito dos personagens naquele preciso momento. Posso mesmo arriscar dizer que até ajudam no desenvolvimento da história.
Numa nota diferente, uma amiga minha tem o seguinte ser para adopção:
By : ladyxzeus
Yebisu Celebrities
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Yebisu Celebrities
Fuwa Shinri
Anime OVA - 1 Episódio
2010
4 em 10
Não será difícil de notar que BoysLove é o meu género preferido (a seguir josei, a seguir shoujo, a seguir desporto, a seguir seinen e assim por diante etc. em vez de assim por diante etc.) Por isso esperava com ansiedade a oportunidade de ver Yebisu Celebreties, um dos últimos BL a sair (e pensar que já foi há dois anos!)
Mas cada vez o género me desaponta mais. Cada vez mais. Que bela bosta.
Eu não entendo, não entendo, porque é que ganharam esta mania de fazer animações para Drama CDs qua consistem em slideshows e sucessões de imagens em que a única coisa que mexe é a boca. Ok, é barato. Mas os fãs de BL são pessoas adultas, são pessoas com dinheiro, especialmente no Japão onde gajas com obsessões estranhas normalmente estão casadas com gajos muito ricos. Os designs são bonitos, da moda (mãos grandes, bocas grandes, a situação institucionalizada por Junjou Romantica) mas animação é nenhuma. Bem, acho que antes nenhuma do que muito má. Ao menos a incapacidade é discreta.
A história é mais do mesmo, mas desta vez envolve fatos e gravatas (que excitante!) Jovem inexperiente cai nas mãos de um patrão exigente tanto profissionalmente como sexualmente. Revela-se entretanto que o patrão afinal é gente boa.
Música muitíssimo discreta e ambiental, o próprio de um Drama CD (havia de experimentar ouvir, um dia destes, mesmo não percebendo ficaria a saber como é a experiência)
Um mau exemplo de BL. Nem serve para a fã adolescente hiperssexualizada porque, spoiler, não tem pilinhas a entrar dentro de rabinhos.
By : ladyxzeus
Itazura na Kiss
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Itazura na Kiss
Yamasaki Osamu - Bandai Visual
Anime - 25 Episódios
2008
5 em 10
Não sei o que se passa com a minha sina, mas isto anda a ser uma injecção de fatia-de-vida que já me cansa um bocadinho. E, garanto-vos eu, eu vejo o anime da minha pasta de maneira aleatória, não escolho o que vou ver a seguir.
Bem, Itazura no Kiss (ou "o beijo badalhoco") é só mais uma história de amor. Simples, fofa, eficiente. Kotoko Aihara é uma pequena entidade cavalar que, sem razão aparente, se apaixona por mais elevada entidade, Naoki Irie. Este não lhe passa cartão, até que passados diversos anos e diversas investidas (fomentadas pelo facto de - POR PURA COINCIDÊNCIA - começarem a viver na mesma casa) finalmente há enrolação. Aliás, corrijo, beijam-se e (spoiler) casam-se.
E aí vem o bom deste anime! É que neste anime a vida continua para além da escola secundária. E continua para além do casamento. Vemos a sua passagem pela universidade, Kotoko (spoiler) torna-se enfermeira para seguir os passos do seu novo marido que se torna médico, vemos o amor a acontecer (felizmente de maneira pouco gráfica), vemos novos amigos cujas histórias de amor se vão desenvolvendo paralelamente, vemos uma (spoiler) criança a nascer. O que é bom. No entanto, apesar de terem tempo (sim, porque de repente, 4 ANOS DEPOIS! ou SEIS MESES DEPOIS?) os personagens em si continuam sempre iguais a si próprios. Irie(-kun) é um crápula abusador (e, realmente, o que se passa na cabeça destes Japoneses para resolverem todos os problemas conjugais à chapada?) e Kotoko é uma inútil que tem ciúmes até da sua própria filha. Enquanto isto é uma boa fuga para a comédia não funciona bem em termos qualitativos de caracterização.
Arte bastante má para uma coisa com tão poucos anos de idade, OP e ED apropriadas mas pouco salgadas.
Um bom entretenimento, mas não o recomendo nem para os maiores fãs de shoujo. Porque só me apetecia entrar ali e dar pontapés na boca a toda gente (menos aos cães)
By : ladyxzeus
Muramasa
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Muramasa
Osamu Tezuka - Tezuka Productions
Anime - Filme
1987
8 em 10
Este é um filme de 8 minutos dirigido por Osamu Tezuka, o rei do anime e pioneiro da animação japonesa.
Aí está para vocês verem, que vale muitíssimo a pena e não custa nada a ninguém.
Um pouco de história só para ter a noção: era uma vez um tipo chamado Sendo Muramasa que fazia espadas. O gajo era um bocado passado da caixa dos pirulitos, por isso formou-se à volta dele uma lenda que dizia que quem pegasse numa espada dele ficava doidão. Mas mesmo sem esta noção, o anime desenvolve uma situação muito mais complexa que uma espada assombrada.
"Aquele que segurar uma espada para destruir espantalhos também se tornará num espantalho"
Seguimos portanto o caminho de um homem que começa por destruir espantalhos e a sua sede de sangue, ilógica e injustificada (como todas o são), se desenvolve até à sua própria morte. É um pequeno elogio à loucura, com uma moral discreta: também tu podes morrer sob o mesmo objecto que mata os outros. Quase se pode dizer que é um manifesto anti-guerra, anti-morte, anti-tortura, anti-sadismo, anti-sofrimento.
Temos uma animação muito simples, duas frames de cada vez, mas muito eficiente em conjunto com a música. É uma curta que, como todas deveriam, prima pela simplicidade. Os desenhos são muito bonitos e os poucos momentos de animação estão muito bem feitos.
Um perfeito exemplo do que uma pessoa verdadeiramente talentosa pode fazer. Muito recomendado.
By : ladyxzeus
Optimus Alive
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Eu era para não ir ao Alive. Queria muito ir, ao dia 14, queria muito ir ver The Cure e queria um bocadinho ver a Florença e as Máquinas, mas não tinha ninguém para vir comigo. Mas depois a Sandra disse que ia! E outros amigos ganharam bilhetes num passatempo! Viva! Fui!
Mas, ao contrário de outros Alives que estiveram cheios de aventuras, este não foi uma experiência muito agradável psicologicamente.
O espaço é o de sempre, três palcos mas bandas a tocar à entrada. Muitos espaços com presentes e muitas actividades. E achei esse o maior defeito. Tantas actividades que parecia que as pessoas não estavam lá nem pelos concertos nem pela música. Passei três concertos na fila para uma t-shirt (mas eram concertos que não me interessavam muito. Mas também não fiquei a conhecer as bandas, que era o meu objectivo), que saiu bastante gira e estou a usar neste momento.
Depois houve ali um momento na casa de banho que envolveu umas filas de proporções gargantuescas. Que me pôs completamente psicótica. Completamente passada da marmita. Desculpas a todos. Ao menos não fui expulsa.
Depois não podia beber sob o risco de ter de ir à casa de banho durante o concerto.
E depois não vi Morcheeba.
Mas ainda assim valeu a pena. Valeu a pena porque vi The Cure. E, sem contar com toda a existência do Gackt, The Cure é a minha banda preferida e Robert Smith era o tio que eu queria ter (porque ninguém substitui o meu pai)
Estávamos um bocado mal localizados, por isso só podíamos ver os ecrãs. Fomos avançando ao longo do concerto, mas mal os conseguimos ver. Mas estavam lá. Via-se no ecrã. O Robert está um bocado mais envelhecido do que da última vez que o vi, mas ainda assim esteve ali a dar-lhe com a fé toda. E continua a pintar os lábios com coelhinhos de amora. <3
Para mim foi um concerto maravilhoso. Apesar de terem tocado algumas músicas que eu não conhecia (o que me deixou em grande suspense, eu pensava que sabia a discografia toda! Terei perdido um álbum recente?) o ambiente geral foi muito bem conseguido, com um ritmo constante, fácil de gostar, fácil de dançar. Muitos solos, o Robert estava todo passado. Mas solos mesmo bonitos. Dizem que era para fazer o concerto durar mais tempo, mas eu acho que estavam lá a acreditar no que queriam fazer. Deram-lhe muito nas músicas lentas, o que deixou o público um bocado atazanado, mas eu gostei. O Robert quis tocar uma música e não o deixaram e isso reflectiu-se no resto do concerto. Como público, achei que lhe falhámos.
As pessoas não estavam viradas para ouvir a introspecção do Robert. As pessoas queriam dançar. Mas o Robert queria uma cena calma, era a onda que tinha nesse dia. O que não é ideal para um concerto de festival, mas quando se é o líder dos The Cure pode-se estar na onda que se quer e dizer a toda a gente "ma cagar". E foi o que ele fez. Falhámos quando ele nos pediu, mas ainda assim foi um fofo e continuou lá. Durante três horas e meia. Com três encores. And that's it. Não percebi o que fazia tanta gente a ir-se embora, tanta gente a reclamar e tanta gente a mandar vir. Não gostam não viessem! Senti falta dos verdadeiros fãs, mas se calhar era porque estava muito longe do palco.
Os arranjos eram diferentes do que estamos habituados a ouvir no album, mas tudo aquilo juntamente com as luzes, com a voz sentimental do Robert Smith e com o fabuloso talento que esta banda tem para tocar os seus instrumentos, tornou-se numa viagem lindíssima, um pouco psicadélica mas muito feliz.
Uma bonita trip que envolveu dançar e cantar non-stop durante as horas todas (com pausa para ir embora porque ninguém estava à espera de três encores)
Obrigada Robert, por me fazeres tão feliz. Mesmo com todas as outras coisas. Tu fazes o dia valer a pena.
By : ladyxzeus

