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  • A Criação do Mundo

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    A Criação do Mundo
    Miguel Torga
    1937-1981
    Autobiografia

    Quando comecei a ler este livro, achei tudo tão improvável que pensava que era uma história inventada. Só muito mais tarde me atingiu a conclusão de que é uma autobiografia em seis actos de um dos autores mais profundos da nossa nacionalidade.

    Miguel Torga conta a sua vida desde a infância profunda nas terras transmontanas, passando pela sua adolescência brasileira e, finalmente, a sua grande luta por se poder educar, com esforço e dedicação, contra todas as possibilidades: afinal, era muito difícil para uma criança pobre receber algum tipo de educação superior se não se tornasse seminarista (o que realmente aconteceu, sendo posteriormente abandonado)

    Adorei saber que Torga foi médico e todos os pequenos detalhes da actividade, que eu reconheço pela minha profissão. O relato de alguns casos e a forma como estes mudaram a perspectiva do mundo para o autor, a luta constante entre a morte e a criação da vida, a incapacidade de resolver assuntos pela falta de meios, a falta de confiança para sempre inerente à profissão... Revi-me em todas essas coisas!

    O autor fala também do tempo em que esteve preso, do sofrimento que por lá passou, não tanto físico mas emocional: afinal, nunca sabemos se vamos resistir às perguntas, à pressão, à tortura, sem antes passarmos por elas. O corajoso em potencial poderá fraquejar a qualquer momento e o autor rapidamente o reconhece.

    Sobretudo, este é um livro maravilhoso porque está especialmente bem escrito. Cada palavra nos agarra e nos remete para um Portugal ligado à terra e às gentes da terra.

    Fiquei com muita vontade de ler o resto da obra do autor, mas infelizmente muito dela se perdeu graças ao Estado Novo. Ainda assim, lerei o que restou. :)
  • Contos da Montanha

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    Contos da Montanha
    Miguel Torga
    1944
    Contos

    Com este autor, comecei tudo ao contrário. Havendo lido a sequela, encontrei-me agora a ler os originais "Contos da Montanha". Gostei ainda mais que do segundo livro!

    São contos sobre as pessoas que vivem no interior rural das regiões montanhosas de Portugal. Isto signiica que estas pessoas vêm o mundo de uma forma um pouco distinta, sendo que há nesta escrita toda uma força quase nacionalista (mas nunca fascista), na medida em que as pessoas aqui retratadas poderiam representar a pureza do povo trabalhador.

    São pessoas religiosas, que muito trabalham, mas que também têm muitas emoções diversas e, por vezes, surpreendentes. Os meus contos preferidos (já não recordo os nomes), foram os da criança que esperava uma prenda de Natal, o da senhora que pôs um casaquinho na estátua do santo e a do homem que matou a mulher.

    Entre muitos outros, claro, porque temos uma colecção de 23 contos (o que é bastante, apesar de todos serem bastante curtos)

    A escrita é intrincada e cheia de tradicionalismos que poderão ser difíceis de compreender à primeira. Mas a partir do momento em que nos engrenamos na leitura, tudo se torna absolutamente evidente.

    Mais uma vez, Miguel Torga não desaponta. Sinto-me tentada a maratonar toda a sua obra. :)

  • Bichos

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    Bichos
     Miguel Torga
    1940
    Contos

    Numa das vezes que fui ao Porto, senti-me com falta de livros para ler. Comprei dois numa mini-feira que havia no centro comercial Via Catarina, incluindo este. Chegada ao hotel... Não o posso ler! Como o livro é do tempo da tuberculose, tinha as páginas todas coladas. Quando finalmente chegou a altura de o começar, tive de as cortar com uma tesoura. O ideal seria uma navalha, mas não sei onde para a minha (oferta do meu pai)

    Cada conto é protagonizado por um bicho. Ou melhor, pela visão humana que o autor tem de um bicho. São aventuras muito próprias de cada espécie referida, caracterizando muito bem a sua natureza. Nestas histórias lutam contra os elementos, contra deus, contra os homens... Mas também os amam. Talvez a história mais emocionante, no que respeita à união com o mundo natural, seja a da cigarra, Cega-Rega. Mas as histórias que gostei mais foram a do cão (Nero), do gato (Mago) e do corvo (Vicente).

    Na primeira, o cão recorda a sua vida enquanto espera a morte. Apenas pode morrer depois de ver as pessoas de quem gosta, e aguarda por ela.

    A do Mago é a mais divertida, porque conta como um gato de rua foi parar a uma casa de uma senhora e vive a humilhação por se ter domesticado. No entanto, a história demonstra também que o autor não conhece muito da natureza dos gatos, animais extremamente sociais que formam laços muito fortes.

    Finalmente, Vicente luta contra deus aquando o dilúvio universal. A sua obstinação, inteligência e, sobretudo, desejo pela liberdade são qualidades tanto animais como humanas. E é esta a história que prova que todos, humanos e não humanos, somos bichos.

    Um livrinho que recomendo muito e que colocarei a circular. :)
  • Odes

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    Odes
    Miguel Torga
    ???
    Poesia

    Livrinho muito velhinho recolhido da convenção do BookCrossing do ano passado. Qual a minha surpresa quando o abro e vejo que é uma edição especial de 60 exemplares numerados, todos eles assinados pelo autor! Mas quel preciosidade, meldels!!

    é um conjunto de odes, várias homenagens a diversas coisas. São essas coisas da natureza e deuses gregos, que - por si - também representam coisas da natureza. A cada página virada, um sorriso se abria. Cada nova ode era uma surpresa, e há odes para tudo, desde o sol à música.

    São pequenas constatações do que é observado, mas com uma beleza extraordinária. Um olho clínico que encontra nas coisas mais simples características que são puras e verdadeiras, se bem que por vezes apresentam expectativas inesperadas.

    Sem dúvida vale a pena ler.

    O que gostei menos foi o da lua, mas deixo aqui o que gostei mais.

    À Terra

    Também eu quero abrir-te e semear
    Um grão de poesia no teu seio!
    Anda tudo a lavrar,
    Tudo a enterrar centeio,
    E são horas de eu pôr a germinar
    A semente dos versos que granjeio.

    Na seara madura de amanhã,
    Sem fronteiras nem dono,
    Há-de existir a praga da milhã,
    A volúpia do sono
    Da papoila vermelha e temporã,
    E o alegre abandono
    De uma cigarra vã.

    Mas das asas que agite,
    O poema que cante,
    Será graça e limite
    Do pendão que levante
    A fé que de tua força ressuscite!

    Casou-nos Deus, o mito!
    E cada imagem que me vem,
    É um gomo teu, ou um grito
    Que eu apenas repito
    Na melodia que o poema tem.

    Terra, minha aliada
    Na criação!
    Seja funda a vessada,
    Seja à tona do chão,
    Nada fecundas, nada
    Que eu não fermente também de inspiração!

    E por isso te rasgo de magia
    E te lanço nos braços a colheita
    Que hás-de parir depois...
    Poesia desfeita,
    Fruto futuro de nós dois.

    Terra, minha mulher!
    Um amor é o aceno,
    Outro a quentura que se quer
    Dentro de um corpo nu, moreno!

    A charrua das leivas não concebe
    Uma bolota que não dê carvalhos;
    A minha, planta orvalhos...
    Água que a manhã bebe
    No pudor dos atalhos.

    Terra, minha canção!
    Ode de polo a polo erguida
    Pela beleza que não sabe a pão
    Mas ao gosto da vida!
  • Novos Contos da Montanha

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    Novos Contos da Montanha
    Miguel Torga
    1944
    Contos

    São 22 contos muito pequeninos, meia dúzia de páginas cada um. No entanto, não posso deixar de recomendar este livro como um dos melhores que li dentro da literatura Portuguesa.

    Os contos são passados na montanha, em aldeias da montanha, onde há lobos, onde neva, onde as pessoas vivem com ovelhas e vivem como ovelhas. Há uma caracterização perfeita da vida destas pessoas e do ambiente que as rodeia. Cada uma é única e faz coisas únicas. Mas podiam ser outras pessoas quaisquer.

    Está escrito de forma implacável e crua, com recurso a vocabulário que, para mim, é um pouco estranho, mas que é típico dessas terras e dessas montanhas. Isto demonstra um outro nível de erudição. Saber estas palavras antigas e saber usá-las tão bem é mais que um dom, é uma coisa que foi estudada até se tornar natural. Ou então já é natural de origem.

    Com este livro fiquei curiosa para ler mais de Miguel Torga, autor que eu nunca tinha lido. Só agora sei o que perdi.
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