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  • A Palavra que Resta

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    A Palavra que Resta
    Stênio Gardel
    2021
    Romance


    Um livro pequenino e maravilhoso que recebi via BookCrossing.

    Um homem homossexual recorda os seus momentos de infância, o seu primeiro amor, a sua luta pela identidade e por um lugar na sociedade. E à medida que nos conta esta história, percebemos que durante muito tempo este homem não soube ler nem escrever, mas que agora está aprender para poder ler uma carta do seu primeiro amor. Neste revisitar de memórias, descobrimos sobre a aceitação (ou não) da diversidade sexual num universo geográfico pobre e isolado, o que tem momentos terríveis mas também alguns momentos de grande beleza.

    Primorosamente bem escrito, este livro terá sido um exercício de escrita criativa no seu fundamento, mas evoluiu para algo mais, evoluiu para uma análise do que é ser "diferente", do que é ser um homem gay num Brasil que está contra tudo o que sai da norma. O segredo, e depois a admissão e a correspondente libertação, tudo isto foi algo de muito bonito.

    Adorei este livro e recomendo vivamente.

  • Dom Casmurro

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    Dom Casmurro
    Machado de Assis
    1899
    Romance


    Livro que me foi oferecido pelo Natal do ano passado.

    Sempre quis saber de onde vinham os "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" e é daqui que vem. Este livro é uma obra prima de simplicidade e hilariedade, que me fez ir até às lágrimas com a improbabilidade dos acontecimentos relatados e a forma como os personagens se comportam, que é simplesmente.... Como hei-de dizer... Catita. :)

    Bentinho é um rapaz que está condenado desde a infância a ir para o seminário. Mas está apaixonado por Capitu (oblíqua e dissimulada) e tudo fará para resistir ao que o destino lhe reserva. E isto tudo é contado com uma mestria tal, e com um sentido de humor tão aguçado, que uma história de amor que poderia ser muito simples, e um triângulo amoroso que poderia ser muito aborrecido, se torna uma novela de faca e alguidar, digno de passar em horário nobre na TV Globo.

    A parte que mais gostei foi, sem dúvida, o capítulo que eles passam inteiramente a *olhar para o tecto*. Ri-me que nem uma perdida.

    Machado de Assis é perfeito.

  • Romance Negro

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    Romance Negro
    Rúbem Fonseca
    1992
    Contos


    O último livro de contos que tenho do autor foi talvez o que menos gostei. A sua escrita continua acutilante, ácida, e ele consegue observar o mais evidente através dos olhos dos seus personagens estranhos e cativantes.

    Gostei especialmente de dois contos: o do vegetariano, que é perturbador e assustador ao mesmo tempo, e que nos fala sobre o significado da morte alimentar, o significado da morte enquanto nutrição física e mental; e o que dá título ao volume, que conta uma história policial mas ao contrário, e cujo mistério se desenrola com uma mestria tal que não conseguimos parar de ler.

    Com estes livros fiquei a conhecer melhor este autor, e está já no meu top de contista favoritos de sempre. Genial.

  • O Buraco na Parede

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    O Buraco na Parede
    Rubem Fonseca
    1995
    Contos


    O segundo livro de contos de um conjunto de dois, que o meu pai me ofereceu.

    Mais uma vez, contos sobre a sociedade marginalizada no Rio de Janeiro, com polícias e ladrões, amantes e traições, pobres e ricos, oposição entre todos estes. O conto que dá nome ao livro é um dos mais interessantes, todo à volta de um buraco numa parede de uma pensão, por onde se vê uma casa de banho e todas as mulheres nuas que por lá passam.

    Gostei também muito do primeiro conto, que - como todos - está cheio de humor. O balão "Fodão" vai ficar-me na memória durante muito tempo.

    A escrita é limpa e económica, mas ainda assim cheia de uma beleza subtil e quase aromática. Um autor a não esquecer.

  • Flauta de Bambu

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    Flauta de Bambu
    Haroldo Maranhão
    1982
    Contos


    Livro que o meu pai resgatou da biblioteca da Embaixada do Brasil. Ofereceu-me dizendo que não era nada de especial e, por isso, as minhas expectativas não eram especialmente altas. Mas estes contos surpreenderam-me bastante e, por isso, passei este livro para a minha estante, a dita "colecção permanente". Não será BookCrossiado.

    São contos muito curtos, a maioria com apenas um par de páginas, que contam situações bizarras e inusitadas que aconteceram (ou não) ao autor. Nestes pequeninos contos, Haroldo Maranhão conta-nos coisas de hábitos da Baía, conta-nos coisas das suas viagens pela América Latina e monstra-nos um conjunto de personagens muito vívido e marcante.

    Assim, torna-se um livro muito pequeno mas de todos os modos inesquecível.

  • Um dia chegarei a Sagres

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    Um dia chegarei a Sagres
    Nélida Piñon
    2020
    Romance


    O meu pai emprestou-me este romance a propósito de o ter ganho da própria autora. Até tem uma dedicatória só para ele! Pensei que seria uma leitura bem rápida, mas afinal não.

    É um livro de escrita lenta e muito complexa, que aborda o sentido da portugalidade, mas por uma perspectiva inteiramente fresca - já que Nélida Piñon é brasileira. O persoangem principal, Mateus, é um andarilho cujo sonho era chegar a Sagres. Mas quando lá chegou, partiu-se o sonho.

    A grande questão deste livro está na edição fraquíssima, com imensos erros estruturais e de lógica, e também com inexactidões temporais entre cada acção das personagens. A autora parece ter pesquisado muito sobre a vida dos portugueses em Portugal e ainda assim engana-se no nome do D. Afonso Henriques, em todas as vezes.

    No fundo a história é bem simples, um triângulo amoroso diferente do habitual, mas que com esta escrita densa se torna um pouco fastidiosa.

    Assim, acabei por ficar bastante desapontada.

  • Macunaíma

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    Macunaíma
    Mário de Andrade
    1928
    Romance (?)

    Livro que me foi oferecido pelo meu pai e que.... Céus.... É inexplicavelmente bom.

    Macunaíma é a representação de todo o povo brasileiro, por isso é um herói. Mas é um herói sem nenhum carácter. Mário de Andrade vai contar-nos as aventuras dele e porque é que uma série de coisas existem hoje em dia: é por culpa do Macunaíma.

    Fartei-me de rir com este livro, apesar de não entender nem metade dos termos. Sei que eram fauna, flora ou mineral, nas suas mais variadas formas e sentidos, alguns que nem sequer existem. Aprendi imenso folclore, algum mesmo recolhido das várias aldeias por onde o autor passou na sua viagem sabática, outro simplesmente inventado, porque.... Porque não?

    É um livro que sem dúvida ficará na memória e ao qual, um dia destes, quero voltar.

  • Somos mais limpos pela manhã

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    Somos mais limpos pela manhã
    Jorge Ialanji Filholini
    2016
    Contos

    Arranjei este livro em formato ebook num blog que sigo no Wordpress. Foi uma óptima aquisição, porque este novo autor surpeendeu-me pela positiva.

    Temos contos tipicamente urbanos, de uma urbanidade também ela típica: tipicamente brasileira. O autor não tem vergonha de falar dos problemas que assolam a sociedade moderna brasileira, a criminalidade e o tráfico, a obsessão pela religião, a inveja do sexo. Se existe algum problema nos contos do autor é que muitas vezes eles abordam mortes violentas, o que torna o tema um pouco repetitivo.

    Existem contos memoráveis e todos eles estão escritos com esmero e dedicação. Para uma primeira obra, tem uma excelente edição e a linguagem é plenamente acessível.

    Recomendo.

  • O Homem que Calculava

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    O Homem que Calculava
    Malba Tahan
    1939
    Romance

    Confesso que eu nunca gostei de matemática. Até houve uma vez que comprei um livro de exercícios de matemática (e o meu pai se zangou comigo porque era muito caro) mas não consegui resolver nenhum. Mas este "O Homem que Calculava" fez renascer uma paixão adormecida, uma paixão por contar (só sei contar até sessenta, acho eu) e por resolver desafios matemáticos.

    Romanceado sob a forma de um conto das arábias, o autor mostra-nos uma série de desafios que envolvem números, probabilidades e geometria. O autor ensina sem nunca aborrecer e ficamos sempre ansiosos para saber como o personagem vai resolver aquela conta, aquele exercício. As imagens do livro são cativantes e belas, com descrições preciosas sobre a paz e luxuosidade do médio oriente. O autor é justo para com este povo normalmente desprezado e hoje em dia colocado em xeque, homenageando esses que foram os criadores de muitas regras numerais a que obedecemos ainda hoje em dia.

    No final, há uma explicação para todos os exercícios utilizando uma linguagem mais técnica. Para além disso, o livro tem ilustrações muito interessantes, que nos fazem mesmo acreditar que este é um romance escrito naquela terra e naquele tempo.

    Recomendo vivamente!

  • Livro Sobre Nada

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    Livro Sobre Nada
    Manoel de Barros
    1996
    Poesia

    Um livro de poesia que li numa viagem de autocarro. É realmente uma leitura rápida, mas tem muito mais densidade do que se esperaria de um livro tão curto.

    Através da contemplação do Eu enquanto o próprio autor, este poeta observa as pessoas como um todo, chegando a conclusões tanto belas como desconcertantes. Apesar de nenhuma frase em concreto me ter ficado na memória, penso que este livro, que se diz sobre nada, fala mais do tudo do que sobre a ausência do todo.

    Ricamente ilustrado, foi uma leitura prazerosa e que recomendo.

     

  • A Hora da Estrela

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    A Hora da Estrela
    Clarice Lispector
    1977
    Romance 
     
    Um estranho narrador procura contar uma história. Ele não sabe exactamente que história contar, então conta a história de Macabea, uma nordestina pobre, e a sua vida miserável.
     
    Neste livro, Clarice Lispector explora a miséria e a pobreza, material e de espírito, encarnadas nesta Macabea, feia e ignorante. É como se a personagem encarnasse toda uma faixa popular, representando o horror paupérrimo em que tanta gente vive.
     
    As crendices da personagem tornam-na apenas tanto detestável como vítima de pena, uma quase mendiga, uma idiota, coitada. É o completo oposto da personagem típica de romance, e a sua conclusão também é antígona ao típico romance.
     
    Escrito maravilhosamente, foi um livro que me chocou um pouco, porque destila ódio, destila desprezo, por esta personagem que - coitada - não tem culpa de ser como é. Ainda bem que quem escreve o livro não é Clarice. É outra pessoa que Clarice transmite. 

     

  • Essa Gente

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    Essa Gente
    Chico Buarque
    2019
    Romance 

    Recebi o novo de Chico Buarque pelo Natal.

    Este livro procura ser um retrato irónico do estrato alto da sociedade brasileira. Um escritor precisa desesperadamente de criar uma história convincente para renovar o seu contrato. Enquanto isso, o mundo à sua volta continua a acontecer. O problema é precisamente esse: apenas este personagem se desmorona, enquanto a vida na cidade continua nos seus afazeres, com as suas paranóias e com as suas aventuras.

    Apesar de o livro ter alguns momentos engraçados, pois o sentido de humor de Chico se mantém apurado, a velocidade a que tudo acontece, na tentativa de caracterizar o bulício da cidade, tira riqueza à história. Acabamos por conhecer muito pouco da sociedade que o autor tenta descrever, focando-nos apenas numa lateralidade humorística em que tudo é negro.

    Claro que esta é apenas a perspectiva do personagem, mas considerando que o autor é precisamente um membro desta elite cultural, senti uma certa vergonha alheia. Considero que o autor não se reconhece no que escreveu e que em vez de fazer uma autocrítica consciente, ataca as pessoas que conhece e conheceu.

  • A Estrutura da Bola de Sabão

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    A Estrutura da Bola de Sabão
    Lygia Fagundes Telles
    1978
    Contos
    Comprei este livro no alfarrabista que está na estação dos comboios do Pragal. Passei por lá e vi-o bem escondido. Escondi-o melhor para depois o poder trazer comigo quando voltasse. Já tinha ouvido falar do nome da autora e, com este título, fiquei bastante curiosa.

    Trata-se de uma colectânea de contos, que falam sobre as mulheres e os homens na vida das mulheres. É um retrato irónico da cultura brasileira da época, através de histórias que, aparentemente simples, tocam profundamente as nossas ideias. A autora transmite com mestria e simplicidade as dúvidas e as ansiedades da sua geração, sobretudo através de um conjunto de personagens femininas muito fortes, embora aparentemente delicadas ou fadadas ao insucesso.

    Também existe acção, crime, drama. Mas isso é paralelo à análise dos elementos da vida real, dos sentimentos que percorrem as veias destas pessoas que, não existindo, não deixam de ser puramente reais. “A Estrutura da Bola de Sabão” é como um espelho um pouco sujo, em que podemos ver o reflexo da realidade sob uma capa de desfoque que nos remete ao sonho.

    Foi uma fantástica descoberta!
  • História de Dois Amores

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    História de Dois Amores
    Carlos Drummond de Andrade
    1985
    Livro Infantil
    Apanhei este ebook por mero acaso e foi uma leitura muito rápida e muito agradável.

    Conta a história de um pulgo que faz amizade com um elefante, e a história de como os dois - cada um à sua maneira - encontra o amor da sua vida. Sendo um livro infantil, temos uma história muito simples. Mas o artista é um bom artista e consegue, através da sua infinita capacidade literária, tornar esta simplicidade numa história cheia de detalhes e pequenos encantos.

    As ilustrações, bastante modernas para a época em que o livro foi publicado, são muito engraçadas e condizem perfeitamente com a história. 

    Fiquei apaixonada por este pulgo e por este elefante. Ganhei também dois amores novos. :)
  • Os Sertões

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    Os Sertões
    Euclydes da Cunha
    1902
    História

    Quando o meu pai me cedeu "A Guerra do Fim do Mundo", trouxe-me também este livro, dizendo que tratava do mesmo tema numa outra abordagem também muito interessante. Na verdade, veio parar-me às mãos um dos épicos maiores da literatura brasileira e deu-me imenso prazer lê-lo.
     
    Inicialmente, o autor estabelece o lugar onde estamos. Isto é, descreve o que são os "sertões". Através de uma muito detalhada análise da sua geografia, fauna e flora, conseguimos visualizar com toda a perfeição os espaços onde se irá desenrolar a acção seguinte. Para mim, talvez, temnha sido esta a parte mais fascinante do livro. Depois disso, Euclydes da Cunha discorre sobre os habitantes destes sertões.

    É aqui que o livro peca por ter sido escrito nos primeiros anos do século passado. É que o autor teoriza sobre as qualidades raciais da humanidade, fazendo uma divisão e catálogo de cada raça, mistura de raças, entre outros, o que - na perspectiva do agora - soa tão ridículo como terrível.

    De todos os modos, ficamos também a conhecer os principais intervenientes desta história que foi a guerra de Canudos. Infelizmente, o autor esteve do lado dos "bons" (e esteve mesmo, como jornalista da Folha de S. Paulo), o que faz com que as suas descrições do inimigo, seguidores do estranho António Conselheiro, sejam relativamente curtas, limitadas e muito pouco abonatórias. Este não é o livro perfeito para uma análise sociológica do que realmente se passou com este grupo de seguidores. Talvez nunca fiquemos a saber realmente como o líder os conquistou e quais as suas ideias. Era este o aspecto que mais curiosidade me dava.

    Finalmente, o autor descreve a guerra propriamente dita. E esta secção pode ser morosa, pois são muitos nomes que se sucedem (porque morrem, muitas das vezes). Ainda assim, não deixa de ser altamente interessante, porque o autor não deixa de fazer os seus comentários pessoais à atitude dos líderes das batalhas, descrevendo as suas limitações, os seus erros e as consequências horrendas destes com um certo sentido de humor revestido de pena que se pode considerar delicioso.

    Foi um livro de que gostei imenso e só tenho que agradecer ao meu querido pai por se ter lembrado de me o trazer. :)


  • Dom Casmurro

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    Dom Casmurro
    Machado de Assis
    1899
    Romance

    Fui à Quinta das Conchas encontrar-me com um editor de uma revista e aproveitei para levar alguns livros para a pequena biblioteca que lá está (a Little Free Library da Quinta das Conchas). Aproveitei para trazer este livro, que já queria ler há imenso tempo. Afinal, é um dos epítomos da literatura brasileira e já o devia ter lido há que tempos!

    Infelizmente, não gostei muito. Temos de admitir que o livro está muito bem escrito. Machado de Assis escreve melhor português do que qualquer residente em Portugal. Começa logo por aí. Mas a história, apesar de simples, directa e bastante bem-humorada, está descrita de uma maneira que me levou ao sono demasiado frequentemente.

    Para começar, há uma insistência por demais nas situações do seminário, que se arrastam durante quase toda a narrativa e que, no fundo, não têm grande interesse para a caracterização dos personagens. A revelação final é absolutamente inesperada, pois antes disso não há qualquer referência a uma desconfiança ou sequer suspeita.

    Os personagens também não sofrem muita caracterização, o que torna um pouco difícil de os identificar.

    O principal prazer deste livro é a forma como está escrito. Mas fiquei um pouco triste por não ter gostado tanto como pensava.

  • O Grande Mentecapto

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    O Grande Mentecapto
    Fernando Sabino
    1979
    Romance

    Divertido clássico da literatura brasileira, mais uma pedra no caminho para descobrir este mundo riquíssimo do meu país paterno.

    Geraldo Viramundo foi uma criança normal em todas as medidas, numa pequena vila de Minas Gerais, fazendo as suas tropelices e marotices. Até ao dia em que decide, depois de uma treagédia que afecta as crianças e adultos da vila, tornar-se padre e ir para o seminário. A partir daí, a sua vida vai dar uma volta ao mundo tremenda, pois ele enceta uma viagem sem fim por todo o estado de Minas em busca da sua amada e de outras coisas incompreensíveis.

    É um livro que fala sobre as aventuras e desventuras de um personagem muito cativante, poisa sua esperteza e inocência conseguem dar a volta a todos os problemas, por mais inusitados que sejam. O grande mentecapto toma parte em acontecimentos incríveis, narrados com uma ligeireza e desprendimento que tornam esta uma leitura muito agradável.

    O próprio autor parece não se levar especialmente a sério, o que é sempre refrescante. :)

  • Auto da Compadecida

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    Auto da Compadecida
    Ariano Suassuna
    1955
    Peça

    Há quantos anos não lia eu, por puro gosto, uma peça de teatro? Acabei com a minha pausa e, devo dizer, adorei sumamente este pecinha brasileira!

    Este texto é muito importante em termos sociais e literários, pois mistura elementos clássicos do teatro Vicentino com mitos e histórias típicas do Recife brasileiro. Tudo isto com uma inteligência e graça que surpreenderão até os mais cépticos! :)

    Tudo começa com uma aldrabice, em que um homem muito malandro cria - para seu próprio proveito - o testamento de um cão falecido. A partir daí só acontecem desgraças, que irão depois ser julgadas por deus e diabo, tendo a Compadecida como advogada.

    O desenvolvimento das trapaças é subtil mas, ainda assim, muito bem pensado. Assim, cada um dos momentos da peça iria dar origem a uma série de gargalhadas descontroladas.

    Se fosse eu a encenar esta peça (confesso que tive vontade), usaria um cenário minimalista com ciaxas e estruturas quadradas, alteraria um pouco o texto para dar mais uns momentos de piada e, sobretudo, faria o Encouraçado altamente efeminado, porque acho que isso seria hilariante. :)

    Uma pena que esta peça seja praticamente desconhecida dos portugueses, porque é mesmo muito cómica!

  • Lavoura Arcaica

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    Lavoura Arcaica
    Raduan Nassar
    1975
    Romance

    Raduan Nassar, autor brasileiro, de São Paulo, ganhou este ano o prestigiado Prémio Camões pelo conjunto da sua obra. Curiosamente, fez menção de recusar o prémio por afirmar que nunca escreveu um livro na sua vida. Afinal, a sua carreira limitada ficou plenamente limitada aos primeiros quatro romances, sendo que depois foi imediatamente abandonada, ainda na juventude do autor. Por estas e outras razões, fiquei cheia de vontade de conhecer a sua obra, sendo que este volume me foi gentilmente cedido no BookCrossing, em formato e-book. :)

    Trata-se de um livro denso, difícil, cheio de significados, com uma ligação à terra e à família muito perturbadora, assim caracterizada por sucessões de palavras, enumerações de sentimentos, comparações e metáforas, num discurso por vezes confuso, mas sempre bem direccionado ao objectivo final. Trata-se de uma história familiar, em que o personagem principal foge da sua vida e da sua casa, em oposição a uma opressão constante pela parte do pai e do irmão mais velho, que não permitem qualquer tipo de diversão e se dedicam, portanto, à lavoura, aos animais e à religião.

    O narrador sente-se, portanto, incompleto e desesperado, sendo que há também uma ligação apaixonada a uma das irmãs que fica bastante clara ao longo da narratia. Por isso, afasta-se da família. No momento do regresso, uma espécie de "filho pródigo sempre retorna", apresenta-se uma oposição que se revela fatal, pela falta de compreensão da família tradicional em relação aos valores da modernidade.

    Assim, trata-se de uma narrativa espectacular que coloca em cheque aquilo em que os "antigos" acreditam, versus o desespero da modernidade perante estas crenças desactualizadas.

    Mas sem dúvida que se trata de um livro complexo, muito difícil de penetrar e compreender. Ainda assim, recomendo-o a quem se sentir com coragem :)

  • Gabriela Cravo e Canela

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    Gabriela Cravo e Canela
    Jorge Amado
    1958
    Romance
    Este livro foi um pouco custoso e ler. Não exactamente pelo seu conceito ou forma de escrita, até porque é mais um de Jorge Amado, sempre divertidíssimo, mas mais exactamente pelo tamanho das letras, que eram diminutas e eu sou muito pitosga. 

    Tornado famoso pelas múltiplas novelas e adaptações para filme, teatro e dança, este livro fala de uma pacata cidade, Ilhéus, e as pessoas que lá vivem. Quando o árabe Nacib fica sem cozinheira, acaba por contratar Gabriela, que veio de terras secas para esta cidade próspera em cacau. Daí se desenvolve uma história de amor, intercalada com outros amores de outras personagens.

    Estes estão bem construídos, embora não haja aqui tanto detalhe como seria de esperar. A caracterização principal é feita à cidade em si, com seus hábitos, cores e cheiros. Trata-se de um romance de costumes, que pretende mostrar como uma cidade pode mudar as suas concepções através das pequenas atitudes de cada um dos seus habitantes.

    No entanto, não gostei muito da causa destas transformações. Isto é, se era aceitável no passado um marido traído matar tanto mulher como amante, será que é aceitável não os matar mas enchê-los de pancada? O livro parece ser bastante apologista da violência em relação à figura feminina, sobretudo porque esta não abandona de imediato a fonte de violência e continua a ela apegada até ao final.

    Ainda assim, é bastante divertido acompanhar estas pequenas histórias. Pena as letras serem tão canochas.

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