• The Hunger

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    The Hunger
    Tony Scott
    1983
    Filme
    6 em 10

    E como David Bowie é uma paixão amada, continuamos a ver a sua filmografia. Desta feita, um filme de vampiros um pouco diferente, que coloca as coisas em perspectiva.

    John e Miriam são um casal misterioso. Ficarão juntos para sempre. Porquê? Porque são vampiros. Mas a vida de vampiro de John aproxima-se do fim e, rapidamente, ele começa a deixar de conseguir dormir e a envelhecer numa progressão extremamente rápida. Então, entra em contacto com Sarah, uma especialista do ramo do envelhecimento. Infelizmente, nem tudo é o que parece... O que irá acontecer?

    Neste filme uma diferente perspectiva sobre a lenda do vampiro é relatada. Aqui, há muita relação com a mitologia egípcia e às personagens são oferecidas várias camadas que lhes permitem progredir dentro da narrativa. Por um lado, vemos o desespero do vampiro que "morre" sem nunca poder deixar o plano terreno. Por outro lado, vemos que Miriam afinal não é tão boa pessoa quanto nos parecia ao início e é ela a verdadeira vampira: pois não se alimenta apenas de sangue, mas também de emoções.

    O filme tem partes de puro horror (que me impressionaram um pouco) e também muitas partes altamente erotizadas, no feminino, o que é uma mistura bastante bizarra mas que, dentro do contexto, acaba por funcionar muito bem.

    A conclusão é fatídica e impressionante. Mas o mais surpreendente de tudo isto é o trabalho dos artistasd e maquilhagem, que fazem uma caracterização tão perfeita do envelhecimento de Bowie que o tornaram muito parecido àquilo que ele veio a ser no final da sua vida terrena.

    No final deste filme, ficamos com uma imagem: os vampiros nunca morrem. Pois bem, o David Bowie também não :)
  • O Castelo

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    O Castelo
    Franz Kafka
    1922
    Romance

    Este livro foi-me oferecido pelo Qui pelo meu aniversário em 2015. Depois de ter lido O Processo e as Cartas ao Pai, vinha alimentando a vontade de ler o resto da obra de Kafka. Agora surgiu esta oportunidade.

    Este é um livro um pouco diferente d'O Processo na medida em que o pesadelo vivido por K., o personagem principal, consiste na busca pela autoridade, enquanto que no livro anterior ele fugia desta. O que se passa é que K. é contratado como agrimensor para ir trabalhar para um castelo mas, chegado à aldeia vizinha, percebe que não há maneira de lá chegar nem de contactar com ninguém que lá viva ou trabalhe. Assim, K. envolve-se numa série de meandros burocráticos, que não têm fim e que não fazem qualquer tipo de sentido. O livro está cheio de detalhes que tornam tudo como num sonho, um puro exercício de surrealismo, como ser de manhã e de repente ficar de noite ou os personagens estarem sempre a contradizer-se nos seus discursos.

    Desta feita, K. conhece uma série de pessoas com as quais se relaciona, mas todas elas parecem ser apenas marionetas influenciadas pelo Castelo, a grande personagem principal, o grande ponto inatingível. Os seus discursos são longos e não trazem nenhuma informação últil. Aliás, confundem tanto o personagem principal como o próprio leitor, uma característica deste livro. Nunca sabemos o que um personagem nos vai dizer a seguir: num momento amam K., no outro momento desprezam-no. São estas relações que tornam esta busca pela autoridade num verdadeiro terror.

    Este é mais um livro inacabado, para além de ter sido publicado após a morte do autor. Mas, segundo o posfácio, o final iria ser tão maléfico e inconclusivo como resto da história. Mas, no geral, é um livro intenso e maravilhoso, em que descobrimos sempre novas coisas por detrás de cada esquina e que nunca deixa de surpreender.
  • Labyrinth

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    Labyrinth
    Jim Henson
    Filme
    1986
    7 em 10

    Pois é, o fatídico dia aconteceu. Todos pensávamos que ele ia sobreviver ao resto da humanidade, mas a verdade é que David Bowie entrou na nave espacial para voltar ao seu planeta natal. Fiquei triste, mesmo muito triste. Até chorei um bocadinho, é verdade. Mas a melhor forma de celebrar um artista não é chorar a sua morte, nem brindar vezes e vezes sem fim enquanto nos entristecemos ainda mais. A melhor forma é mesmo admirar a sua obra. Portanto, para além de terminar de ouvir a discografia, de ouvir repetidamente o novo (e último) album... Vamos ver os filmes que me faltavam ver! Começamos pelo Labirinto, um filme de fantasia dos anos 80 que veio mesmo a calhar, pois *adoro* este tipo de filme!

    Uma miúda mimada vive num mundo de fantasia, em que o Rei dos Goblins é o seu apaixonado e onde ela pode fazer tudo o que quiser. Mas quando o verdadeiro Rei dos Goblins aparece e leva o seu irmão bebé para longe, para o tornar num goblin, a rapariga tem de mudar um pouco a sua perspectiva de vida. Pois, para salvar o irmão, tem de ultrapassar um misterioso e complicado labirinto, cheio de criaturas estranhas que nem sempre são muito simpáticas.

    É um filme simples, com uma moral amorosa no final. Afinal, é revelado que tudo não passa da imaginação da moça, os goblins, Jareth (o rei) e até mesmo os seus amigos, e que a imaginação pode controlar uma pessoa até a dominar completamente. O melhor é focar-nos na vida real e voltar a esse reino encantado só de vez em quando, para fazer uma festa.

    A minha parte preferida é, sem dúvida, o universo em que isto se passa. Os bonecos e marionetas estão todos muito bem feitos e são muito realistas, embora alguns efeitos especiais estejam já desactualizados. Os personagens têm todos muita força, uma capacidade inata para nos encantar e desejar viver neste reino dos goblins onde David Bowie é o rei. Para mim, é realmente o rei de todo o filme. Não só porque compôs uma banda sonora cheia de vivacidade, fazendo as vozes necessárias a todos esses personagens, como manda naquela gente toda e é o mais maluco do conjunto. <3

    Talvez a parte menos boa tenha sido a actriz principal, que não foi muito expressiva e que não demonstrou correctamente a evolução da sua personagem.

    Mas confesso que adorei o filme: eu gosto imenso desta fantasia cinematográfica dos anos 80 e por mim via estes filmes todos os dias!
  • Digimon Adventure Tri: Saikai

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    Digimon Adventure Tri: Saikai
    Motonaga Keitarou - Toei Animation
    Anime - Filme
    2015
    6 em 10

    Confesso que foi com grande excitação que recebi a notícia deste filme. Afinal, Digimon foi uma parte integrante da minha infância e adolescência. Lembro-me que ao início rejeitei vê-lo: "não passa de uma imitação barata do Pokémon!". Mas depois, à medida que me fui embrenhando no mundo digital, fui percebendo as diferenças essenciais e passei a viver o mundo como se eu própria fosse uma digi-escolhida. Qual seria o meu amigo digimon? Bem, gosto de todos. :) Menos daqueles que são baratóides.

    Enfim, este filme foi uma grande emoção. Foi realmente comovente ouvir a música logo ao início, que cantei atabalhoadamente em Português enquanto recordava aquela vez num evento de anime que fizeram um comboio quando passou (foi um pouco deprimente, mas foi fixe também). Mas, à medida que o filme foi decorrendo, re-ganhei a minha objectividade e acidez característica e acabei por admitir que não lhe podia dar mais que uma nota mediana, tal como o dei às séries que vi.

    Pois bem, neste filme tudo começa com a vida normal dos nossos amigos na escola. Um dia desses, há vários eventos importantes: um concerto, um jogo de futebol, etc. E nesse dia, há uma falha qualquer na divisão do mundo normal e do mundo digital e o nosso universo é invadido por um feioso que se mete a destruir tudo. Tai prepara-se para o parar com as suas próprias mãos quando... Aparecem os nossos amiguinhos digitais!

    Até aqui tudo bem. Infelizmente, achei que o facto de todos terem digivoluído assim que aparecem um pouco exagerado e sem contexto, como se as digivoluções fossem apenas uma oferta para os fãs e não fossem de todo necessárias para a narrativa. Esta, não tem consistência e não procede com um ritmo adequado. Apesar de o filme estar cheio de acção, acaba por não se chegar a lado nenhum, servindo apenas como um ponto introdutório ao tema. Sei que existirão outros filmes (mais três, segundo consta), mas gostaria que tivesse havido mais conteúdo nesta primeira instância.

    A animação não está má mas, apesar dos elevados valores de produção, não existem cenas espectacularmente bem feitas. Está bastante mediano, até. Surpreendentemente, ao contrário de muita gente, até gosto bastante dos novos designs. Nos digimons não se nota muita diferença (estão mais magrinhos, talvez), e nas pessoas a evolução do estilo combina bem com o crescimento físico dos personagens. Infelizmente, estes não são explorados nas suas diferenças em toda a plenitude. Existem vários momentos em que os personagens referem o quanto mudaram ao longo dos anos, mas no fundo a mudança não é de todo evidente e mantêm-se exactamente iguais àquilo que eram há 10 anos atrás.

    A música é absolutamente nostálgica e uma das melhores partes do filme.

    No entanto, todo o filme acaba por ser um aviso à nostalgia, apenas um presente de fãs para fãs. Não me parece que sirva bem para introduzir novas pessoas no universo desta fandom e acaba por ser uma mera bolachinha que, sabendo bem, acaba rápido e se esquece facilmente.

  • Otaku no Video

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    Otaku no Video
    Mori Takeshi - Gainax
    Anime OVA - 2 Episódios
    1991
    6 em 10
     
    Um anime muito curioso, pois trata-se de um peça documental. Isto é muito raro neste meio e talvez tenha sido o primeiro e único documentário em anime que vi. Faz uma análise moderna e coerente sobre o fenómeno "otaku" no Japão, recorrendo a uma história em anime, um fio condutor que está mais ou menos baseado na fundação do estúdio produtor (Gainax), e várias entreviastas aos verdadeiros "otaku", mostrando dados estatísticos muito interessantes.

    Para começar, é importante definir o termo: "otaku" é aquele que tem um envolvimento tão profundo num hobbie ou subcultura que acaba por descurar outros aspectos da sua vida, nomeadamente a vida social. O que indica que nenhum de nós é isso, pelo que desprezo a utilização do termo por um mero weeaboo ocidental (gosto muito mais deste, aliás, até eu própria me caracterizo com ele). Para mais, "otaku" é um termo ofensivo que se aplica não só a fãs obsessivos de anime, mas também a fãs de muitas outras coisas. Por exemplo, pode haver um otaku de perfumes ou de camisolas de lã.

    Agora que temos isto esclarecido, falemos do anime. Começando pelas entrevistas, achei-as a parte mais interessante do OVA, já que caracterizam directamente toda esta geração de fãs de anime, no final dos anos 80, inícios de 90, que revelam uma série de problemas a nível social mas que encaram essas limitações de forma positiva. Por exemplo, "não tenho namorada mas tenho os meus animes e gosto muito deles". Este tipo de relato, o da relação amorosa, tem sido muito explorado academicamente, pois parece ser o problema mais prevalente neste tipo de pessoa. Mas também gostei da perspectiva ocidental, em que entrevistam um americano a viver no Japão e a viver a cultura pop. No entanto, achei também muito curioso que todos os entrevistados respondessem "não" à pergunta "és feliz?" Isto parece-me revelar muita coisa.

    Quanto às partes animadas, estas acabam por ser ofuscadas pelo interesse das entrevistas. Mostram como uma pessoa normal acaba por se tornar num "otaku" e ganhar a vida com isso. A narrativa pareceu-me exagerada e bastante afastada da realidade, apesar de servir para tentar retratar em animação os aspectos que depois são abordados pelos dados estatísticos. Para mais, a animação não tem nada de especial, havendo muitas vezes perda de detalhe na forma e falta de cuidado no desenho base.

    Musicalmente, temos OP e ED bastante apropriadas e quase cómicas.

    Um anime muito interessante para quem quer conhecer mais sobre este termo, mas que poderá estar um pouco desactualizada em relação aos anos 10 em que nos encontramos. No entanto, terá também um certo valor histórico que não podemos ignorar.

  • Requiem from the Darkness

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    Requiem from the Darkness
    Tonokatsu Hideki - Tokyo Movie Shinsha
    Anime - 13 Episódios
    2003
    6 em 10

    Kousetsu Hyaku Monogatari, 100 Stories ou Requiem from the Darkness. Muitos nomes para um só anime. Um anime que é tecnicamente perfeito mas que, por alguma razão, não me cativou totalmente.

    De natureza episódica, conta várias histórias de horror presenciadas por um escritor que deseja coleccionar cem histórias de mistério. As histórias variam entre olhos derretidos, muitas espadas e cabeças cortadas, mas todas elas estão relacionadas com a incapacidade humana de aceitar a realidade, sendo que muitas vezes os "monstros" horríveis que aparecem são apenas criações da mente. No entanto, cada arco narrativo acaba por ser um bocadinho previsível e nem mesmo o extremismo gráfico me fez capaz de encontrar um terror psicológico nestas histórias curtas.

    Os personagens recorrentes aparecem apenas como motor narrativo e não têm caracterização, que está reservada para os intervenientes em cada uma das histórias. Infelizmente, cada uma delas é demasiado curta para que haja um uso correcto destas pessoas, que até têm potencial até chegarem ao momento do "pânico", que tem os problemas já referidos anteriormente.

    A arte é original e a animação está muito bem feita. Foi uma opção estilística muito interessante que combina muito bem com a natureza das histórias, especialmente a paleta de cores escuras e o uso (e abuso) de linhas fortes e linhas cinéticas.

    A música também é original, já que fazem uso de canções em inglês para a OP e ED, um swing lento que nos remete a um universo envolvente.

    No entanto, não me senti motivada enquanto via este anime, talvez pela falta de força dos personagens. Assim, não lhe poderei dar uma melhor classificação (no caso, poderei dizer que este valor é puramente subjectivo)

  • Zipang

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    Zipang
    Furuhashi Kazuhiro - Studio Deen
    Anime - 26 Episódios
    2004
    8 em 10

    Há muito tempo que não via um bom anime e, para mais, um anime de guerra que estivesse realmente bem feito. Apesar de alguns defeitos, não me coibi de dar uma excelente classificação a Zipang, um anime memorável e marcante que poderá ter passado ao lado da maioria dos fãs.

    Tudo começa quando Mirai, uma embarcação militar com todo o top de modernidade e todas as características mais evoluídas que poderá ter este tipo de objecto, navega pela primeira vez e, numa noite de nevoeiro, é atingida por um raio. Qual a surpresa dos seus tripulantes quando se vêm no meio do Oceano Pacífico em plena Segunda Guerra Mundial! Isto, desde já, é um pouco revolucionário no mundo do anime: é uma raridade ver animes sobre a grande guerra que tratem do assunto com objectividade e relatem factos verdadeiros sem os ocultar debaixo de metáforas como naves espaciais, robots e toda essa parafernália de invenções. São giras, claro, mas por vezes faz falta um pouco de realidade nua e crua. Mas a força da narrativa atinge o seu verdadeiro significado quando os personagens são postos à prova perante o seguinte paradoxo: este barco tem o poder de ganhar a guerra, com todas as suas características tecnológicas; no entanto, se mudarem o passado, a vida que eles têm no século XXI poderá ser completamente diferente? O que fazer? As coisas mudam quando, por acaso, salvam um agente das secretas de morrer afogado. E aí, o passado entra em jogo.

    É um anime que provoca debate aceso entre os personagens, entre o que deverá ser feito moralmente, o que deverá ser feito na prática, e as consequências disto para o futuro que todos conhecemos. Os nossos personagens começam a participar activamente, embora de forma puramente defensiva e com o objectivo de "salvar vidas" numa guerra que está perdida desde a sua génese. Acabam por conhecer outras pessoas que concordam, mas também outras que não conseguem aceitar isto. E é neste caldeirão de personalidades que o espectador tem de procurar uma identificação. É fácil de encontrar alguém neste anime por quem nutrir algum carinho: há uma grande variedade de pessoas, cada uma perfeitamente construída sobre uma base sólida (um passado, uma família, uma maneira de ver o mundo) e cada uma, também, com um caminho evolutivo evidente. Os personagens que conhecemos no início de Zipang mudam radicalmente à medida que o anime se aproxima do fim e mais coisas terríveis começam a acontecer à nossa tripulação.

    Se temos uma história e personagens muito sólidos, não poderemos, infelizmente, dizer o mesmo da arte. Teremos de aceitar que toda a maquinaria está muito bem estudada, com designs historicamente informados e muito funcionais. Aliás, o facto de todos estes navios e aviões terem existido realmente é um ponto fulcral na narrativa, pois permite aos personagens do "presente" ter uma vantagem em relação aos do "passado". No entanto, efeitos especiais como explosões, efeitos aquáticos, fumo, tudo isso foi feito por métodos digitais que não se coadunam bem com o resto do cenário. Este, tem pouco detalhe paisagístico e está bastante limitado a eventos marítimos.

    Musicalmente, temos alguns momentos um pouco repetitivos, mas OP e ED apropriadas ao assunto que vai ser tratado.

    Talvez a pior parte deste anime tenha sido o facto de não haver um final conclusivo para a história. O anime de Zipang conta-nos apenas um arco muito inicial de uma narrativa que se prolonga por pelo menos mais três anos (até ao fim da guerra). Isso desapontou-me bastante, mas não o suficiente para reduzir a classificação do anime.

    Assim, recomendo vivamente que todos vejam esta peça. É original, único e muito bem feito em termos históricos e narrativos. Impressionou-me muito em algumas partes, noutras comoveu-me. Irei lembrar-me dele por muito tempo.

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