• A Vida é Breve

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    A Vida é Breve
    Jostein Gaarder
    1996
    Carta

    Este livro é uma suposta tradução de um tal de "Codex Floriae", carta da amante de Santo Agostinho ao próprio, explanando as razões pelas quais teria sido muito melhor eles terem ficado juntos, em vez de Agostinho se ter convertido ao ascetismo e abstinência.

    Supostamente uma tradução do latim (e, se não for, é uma mentira muito bem feita), Floria - a tal mulher que deu um filho ao santo antes da sua conversão, revela-se uma mulher culta e erudita, apresentando argumentos lógicos e apoiando-se em referências filosóficas inegáveis.

    No entanto, as citações das Confissões do santo parecem estar retiradas de um contexto muitomaior e parecerem significar algo que não seria o seu objectivo inicial.

    De todos os modos é um livro apaixonado, romântico e ainda assim muito simples e fácil de ler. Em uma horinha de descanso despacha-se a toda a velocidade.

  • Fernão de Magalhães

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    Fernão de Magalhães
    Stefan Zweig
    1975
    Biografia

    Não tenho muito por uso ler não-ficção, mas desta vez calhou. Uma biografia de Fernão de Magalhães, português, argonauta e a primeira pessoa a dar a volta ao mundo por via marítima, provando definitivamente que este planetazito é, sem mais discussões, esférico e redondo.

    Aprendemos sobre a vida deste personagem histórico nos seus meandros desde a infância até à sua morte, com todas as consequências seguintes das suas descobertas náuticas. É muito curioso ver alguns detalhes que não nos foram bem explicados nas aulas de história, nomeadamente os traços da personalidade rígida e férrea de Magalhães, com a qual ele consegue lidar na perfeição com motins , revoltas, com a fome nos seus navios e com outros problemas que vão aparecendo ao longo da viagem. Também é muito interessante ver como é precisamente esta personalidade imbatível que leva ao fracasso da missão enquanto conquista de novos espaços, pois Magalhães é morto em combate de uma forma um pouco ridícula (bem, na altura ninguém deve ter achado graça nenhuma).

    Para além do mais o livro está escrito de uma maneira muito cativante e viciante, que nos elva realmente a querer saber o que vai acontecer, como se de um verdadeiro livro de aventuras se tratasse. Claro que a viagem de Fernão de Magalhães foi uma aventura, mas daquelas reais!

  • Koe no Katachi

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    Koe no Katachi
    Yamada Naoko - Kyoto Animation
    Anime - Filme
    2016
    8 em 10

    Depois de uma pessoa ver tanto anime, começa a pensar que já nada a vai surpreender. Sobretudo, que já nada sobre a vida real a vai surpreender. E é então que surge este filme. "A Forma da Voz" é um romance inesquecível, uma história de crescimento pessoal e um encontro com a nossa própria adolescência perdida. Vejamos.

    Um rapaz do sexto ano diverte-se com os seus amigos, até ao dia em que aparece uma nova estudante na turma. Shouko tem uma característica especial: é surda. E isso leva a que todos gozem com ela, sendo que rapidamente se torna a preferida vítima de todas as partidas. Muitos anos mais tarde, todos se voltam a encontrar. Mas será que as feridas do passado estão curadas?

    Com um conjunto de personagens de excelência, com vozes muito bem trabalhadas, temos uma história sobre o passado e sobre o presente, uma história que pode não ter futuro mas que a qualquer momento se pode alterar. São pessoas, são humanos, com uma sensibilidade em tudo semelhante à nossa, com problemas que qualquer pessoa que tenha tido uma adolescência complicada poderá compreender. No meu caso, o filme tocou-me de uma maneira especial: se Shouko é surda, também nós poderemos ter um pouco dessa surdez. A incapacidade de nos ouvirmos uns aos outros, a incapacidade de nos vermos uns aos outros, a incapacidade de nos compreendermos uns aos outros. E à medida que o filme se vai desenvolvendo, acabamos por encontrar um ponto de equilíbrio: a forma da voz não é só a capacidade de a ouvir. É, sobretudo, a capacidade de a compreender.

    A animação é, também ela, um foco de brilhantismo. Com cenários extraordinários, de uma beleza e detalhe quase fotográficos, um uso de cores e luzes emocionante, todos os momentos deste filme são um encontro com a pura beleza. Os cenários são poucos, reduzidos, mas reflecte-se neles a mudança das estações e a mudança da história que vai acontecendo em volta.

    Finalmente, a banda sonora. Com um conjunto muito reduzido de peças, temas em variações, todas elas nos transmitem um sentimento de melancolia, de ausência, de saudade de um tempo que foi desperdiçado e não mais voltará.

    Um filme que me tocou muito pessoalmente e que recomendo vivamente.

  • Moonlight Mile: Lift Off

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    Moonlight Mile: Lift Off
    Suzuki Iko - Studio Hibari
    Anime - 12 Episódios
    2007
    5 em 10

    Este é um anime sobre a exploração espacial. Aliás, um anime sobre a competição para ser um astronauta digno de de fazer a dita exploração espacial.

    Um homem escala montanhas e, depois de chegar ao topo do Evereste, promete ao seu amigo que ambos irão escalar as grandes montanhas do espaço e da lua. Mas nem tudo é assim tão fácil e existe uma imensa guerra interna para ver quem chega primeiro à escola dos astronautas.

    Os personagens têm o seu interesse, sobretudo o principal, mas existe muito pouco desenvolvimento para além do "eu sou melhor que tu". As relações entre eles são muito forçadas e relativas à luta para chegar a astronauta. A partir do momento em que eles chegam lá tudo se torna muito mais aborrecido, porque o mote principal se perde.

    É um anime um pouco violento em palavras e acções, embora não haja sangue nem nada do género. Existem muitas cenas de nudez e sexo, em que é patente a fraquíssima qualidade da animação. Existem erros anatómicos pavorosos e que não fazem sentido para um grupo de profissionais e também há um uso muito evidente de CG, que acaba por ser utilizado nas ocasiões menos adequadas. De resto, não existe nada de especialmente impressionante quer na maquinaria quer nas paisagens e cenários.

    A música também é pouco impressionante e não fica na memória.

    Fiquei sem vontade de ver a segunda season.

  • Antigas e Novas Andanças do Demónio

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    Antigas e Novas Andanças do Demónio
    Jorge de Sena
    1976
    Contos
    Este é aquele tipo de livro que eu gostaria de ter escrito. Todos os contos são tão feitos para mim que eu sinto que poderia ter sido eu a criá-los. E isso dá um gozo tão grande quando se lê que não posso deixar de recomendar.

    Estes são contos, escritos ao longo de vários anos, sobretudo os da juventude do autor,. que falam de pequenas coisas que podem ou não ser ligeiramente demoníacas. São contos estranhos, muitas vezes surreais, muitas vezes com um toque de infantilidade perversa que os torna absolutamente inesquecíveis.
     
    O meu conto preferido, e que me ficará durante muito tempo na memória, é o do peixe-pato. Achei-o igualmente triste e encantador, um pouco aterrorizante, como um sonho que tem tudo para dar uma noite descansada mas que se vai alterando até se tornar num foco de melancolia.
     
    Não gostei especialmente dos vários contos dedicados ao Natal, pois me pareceu que a caracterização deste feriado estava feita de forma demasiado religiosa (embora seja difícil de fugir a este facto).
     
    De todos os modos, foi um livro que adorei ler e que adorarei reler um dia mais tarde. Espero que, podendo, lhe dêem também uma oportunidade!

  • Doutor Jivago

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    Doutor Jivago
    David Leans
    1965
    Filme
    7 em 10
    Vimos este filme em dois dias, porque é sem dúvida demasiado longo para a nossa existência. Terei de, necessariamente, compará-lo com o livro.

    Este épico do cinema conta-nos a história dos amores e desamores de Doutor Jivago, um médico apanhado no seio da revolução russa, com todos os problemas que isso acarreta. Infelizmente, Jivago é aqui caracterizado como uma pessoa plena de fragilidades, que ama apaixonadamente por razões arbitrárias, enquanto que no livro o personagem era uma pessoa ausente que ia mudando de cidade e de esposa com o vagar do vento, uma espécie de Don Juan inveterado interessado unicamente na sua procura pessoal. Aqui, existe enquanto poeta incompreendido pela sociedade, que se alterou subitamente, apresentando-se como uma pessoa passiva que não consegue controlar os seus impulsos de artista.

    Assim, a história do filme encontra-se completamente alterada relativamente à do livro, baseando-se nas duas mulheres de Jivago e da sua relação com este homem a quem só acontecem azares que levam à consequente separação daqueles que ama. Tudo o que lhe acontece é por acaso e ele não parece tomar nenhum tipo de decisão, excepto no capítulo final em que se recusa a abandonar a Rússia e, evidentemente, irá morrer às mãos dos revolucionários, uma espécie de suicídio cultural motivado por elementos estranhos ao personagem, que não aparenta ter uma causa e razão para s sua decisão fatalista.

    No entanto, o filme tem alguns pontos muito positivos que não poderemos deixar de notar. Os actores são surpreendentes na sua sinceridade e naturalidade, fazendo um trabalho que tem tanto de teatral como de cinematográfico. As suas expressões são detalhadas e delicadas, transmitindo precisamente todos os pensamentos e sentimentos das personagens, embora estas sejam um pouco fracas em comparação com o livro. Também a cinematografia, relativamente às imagens, edição e fotografia, é extraordinária. Apresentam-se-nos desesperantes paisagens geladas, de uma beleza petrificante, o que ajuda muito à transmissão do que realmente se passa em termos de caracterização.

    Também temos uma banda sonora épica, contundente, que muito ajuda na solidificação do filme enquanto unidade.

    Fiquei um pouco desapontada por ser muito diferente do que estava à espera, mas não deixa de ser um épico imperdível.

  • Irmãos Catita

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    Irmãos Catita
    Concerto
    A propósito do Festival Internacional de Teatro de Almada, inauguraram os Irmãos Catita, banda tão respeitada no círculo cultural, o espaço "café-concerto": concertos na esplanada de um dos palcos participantes neste festival.

    Pois que chegámos na dúvida se o concerto seria à meia-noite ou uma hora antes: na agenda dizia uma coisa, depois eventos diversos na internet diziam coisas diferentes. Mas, pelos vistos, chegámos a tempo. Imediatamente constatámos que a maior parte do público presente era uma fila interminável para a obtenção de fontes de hidratação. Decidimos ir buscar as ditas cujas ao café do lado.

    Mais tarde, começa o concerto. Percebe-se de imediato que algo errado se passa: a voz não se ouve. Mais especificamente, a voz do Vieira não se ouve. Tudo o resto se ouve, menos a voz do senhor. Felizmente, este consegue lidar com a situação que nem um lord, hidratando-se com coptios oferecidos por caridosos voluntários. Tantas vezes ignorados foram eles, mas sempre voltaram, sempre regressaram, com os copos necessários para a hidratação da banda.

    As músicas eram sabidas de todos nós, de todos nós menos da própria banda. Vieira admite-o logo ao início, demonstrando soberbo talento na leitura da letra escrita num tablet. Claro que, de vez em quando, havia coisas que estavam mal escritas, pela ordem errada ou que não faziam sentido. Mas, que mal tem isso?

    De resto, foi um concerto realmente divertido, porque estas letras, estas músicas, são tanto badalhocas como quase surrealistas. E é nesta falta de sentido que está a verdadeira diversão de ouvir esta banda.

    As condições não terão sido as melhores, mas não teria escolhido outro programa para a noite.
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