• Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno

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    Novíssimas Crónicas da Boca do Inferno
    Ricardo Araújo Pereira
    2013
    Crónicas

    Ofereci este livro à minha irmã e, envolvida como estou na leitura da sua biblioteca, acabei por chegar a ele. Confesso que nãoe sperava grande coisa, porque já perdi há muito a esperança no humor em Portugal. No entanto, acabei por apreciar estas crónicas de uma maneira que me surpreendeu um pouco.

    Ricardo Araújo Pereira, que não gosto de ouvir falar nem actuar, escreve de uma forma plena de um humor irónico e acutilante que, de vez em quando, faz falta na nossa vida. Apesar dos temas falados neste livro já estarem bastante desactualizados, em termos sociais e políticos, existem algumas coisas que ainda se mantêm como tristes verdades.

    Revelando muita cultura e um grande senso moral, o autor faz uso de comparações e referências tão inusitadas que não podem deixar de fazer rir. Assim, trata-se de uma leitura muito divertida e que até nos pode ensinar algumas coisas que não sabíamos antes.

    Gostei bastante, embora não me tente a ler mais livros de crónicas do autor.

  • Palme no Ki

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    Palme no Ki
    Nakamura Takashi - Genco
    Anime - Filme
    2002
    8 em 10

    Um filme fascinante e surpreendente do animador que nos trouxe Akira e Fantastic Children.

    Num estranho universo pleno de vida vegetal bizarra, uma marionete de madeira (Palme) tem uma missão muito importante: levar um objecto que uma estranha mulher lhe deu para o mundo "inferior". Não se sabe exactamente a função desse objecto, mas supõe-se que salvará os habitantes dessa zona do mundo. Para chegar lá, Palme encontra diversos amigos que farão tudo para o ajudar, apesr de a sua atitude nem sempre ser a ideal. Porque, afinal, este boneco deseja tornar-se humano acima de tudo, para que possa ficar com a rapariga que lhe lembra a figura materna.

    Esta é uma história que fala muito das relações familiares em como elas nos podem magoar e ferir, levando a atitudes exageradas de vingança. Mas é sobretudo um anime sobre a descoberta de si próprio e sobre a humanidade que vive em cada um de nós. Com personagens cativantes, excelentemente caracterizados, acompanhamos a viagem de Palme na busca por se tornar uma pessoa real, sendo que a todo o momento ele se revela cada vez mais humano, na medida em que aprende conceitos como a maldade, o egoísmo, a inveja e o desespero. Nesse campo, o boneco afasta-se cada vez mais do ideal para que tinha sido criado (acompanhar uma mulher doente), tornando-se progressivamente mais próximo das pessoas que o rodeiam. Acredita que se levar o objecto até uma certa árvore mágica ela lhe dará os poderes para ser uma pessoa, mas o final revela que nem tudo é o que parece e que nem ele nem a mulher que o colocou nesta viagem são o ideal de perfeição.

    Para ilustrar tudo isto, temos uma brutal animação, com designs cuidados, estranhos e muito originais e sequências tão brilhantes que fazem muito anime da actualidade empalidecer. Esta animação toma formas, muitas vezes, grotescas. Isto permite mostrar, com maior intensidade, a evolução da narrativa e, sobretudo, a evolução dos personagens.

    Musicalmente, temos um tema recorrente muito belo e efeitos sonoros que adicionam a toda a estranheza do filme, intensificando muitos dos momentos de uma forma que pode mesmo causar uma certa ansiedade.

    Um filme excelente, que recomendo vivamente.

  • Marido e Outros Contos

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    Marido e Outros Contos
    Lídia Jorge
    1997
    Contos

    Curiosamente, este livro está no Plano Nacional de Leitura (também é da minha irmã), o que me parece curioso pois esta autora, Lídia Jorge, não tem muito de adolescente dentro dela. Trata-se de uma colectânea de contos, publicados em diferentes locais e ocasiões.

    São contos que falam da vida diária de pessoas, de conjuntos de pessoas, da forma como as pessoas se influenciam umas às outras e da consquência que isso pode ter na vida de todos. Com uma escrita simples (no contexto desta autora), são bastante directos ao assunto e não deixam muito que pensar. O sentimento final foi sempre, para mim, o de uma incompletude emocional. Estranhamente, é um sentimento muito agradável numa leitura.

    Gostei mais de uns contos do que outros. Os que mais gostei foram o do observador de pássaros, das raparigas na praia e, sobretudo, o da Instrumentalina. Sempre pensei que este nome fosse algo de petulante, quando o tinha visto referido em outros locais, mas trata-se simplesmente de uma alcunha para uma bicicleta. E que bela história tem esse bicicleta. Apaixonei-me completamente pela Instrumentalina e gostaria imenso de ter andado nela. Essa história inspirou-me a escrever uma, que publiquei no meu outro blog: O Bentivi Urbano.

    Achei um excelente livro introdutório à obra da autora.
  • A Delicadeza

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    A Delicadeza
    David Foenkinos
    2009
    Romance

    Mais um dos livros da minha irmã. Este fui eu que lhe ofereci e, diga-se de passagem, tem todo o aspecto de nem nunca ter sido aberto. O que é uma pena, porque até é um livro bastante engraçado e penso que escolhi bem.

    Quando falamos de histórias de amor, temos tendência a pensar naquelas em que existem uma série de peripécias mais ou menos trágicas e em que tudo fica bem no fim. Neste livro, tudo fica bem no fim, mas não há qualquer tipo de peripécias.

    Um verdadeiro fatia-de-vida literário, conta a história de Nathalie que, depois da destruição de um casamento perfeito (terão de ler o livro para saber o que aconteceu ;) ), procura encontrar uma nova razão de viver. No processo, faz um novo amigo, Markus, com quem acaba por desenvolver uma relação amorosa. Pelo meio há pequenos dramas de escritório e atitudes dos personagens que demonstram a sua relação com o mundo que os rodeia.

    São personagens encantadores, bem caracterizados, com diálogos plenos tanto de humor como de realismo. O leitor aproxima-se realmente deles e começa a torcer para que tudo corra pelo melhor. O livro é intercalado por dados irrelevantes, mas que simbolizam - mais uma vez - o dia a dia das pessoas normais. Estas personagens são pessoas normais, o que é tão raro de encontrar!

    Lê-se num instante, é muito simples e dá vontade de amar, sempre e cada vez mais.

  • Mobile Suit Gundam Thunderbolt

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    Mobile Suit Gundam Thunderbolt
    Matsuo Kou -  Sunrise
    Anime OVA - 4 Episódios
    2015
    7 em 10

    Apesar de adorar o universo Gundam, já há algum tempo que não via nada de novo. Este OVA, lançado entre 2015 e 2016, veio preencher essa lacuna.

    Situado na timeline de Universal Century (UC), mostra-nos uma perspectiva diferente da guerra entre a Earth Federation e o império de Zeon. Em quatro curtos episódios (cerca de 18 minutos cada um) é-nos mostrada a oposição entre estes dois exércitos da maneira mais realista possível, correlacionando as estratégias bélicas com o horror decorrente destes acontecimentos para todos os envolvidos. Com cenas de uma violência brutal (como a destruição de um zaku perspectivada pelo seu próprio piloto), é um anime que fala dos sacrifícios necessários para que se possa salvar algo de mais importante. Como vencer uma maquinaria infalível (Gundam) para salvar os nossos parceiros, os outros militares que, por uma razão ou outra, estão aqui. É um anime que demonstra o apogeu do horror, mas sem nunca ser gratuito. Um exercício de imaginação que nos relata o como todas as guerras são tremendas, mesmo que inevitáveis, com todos os factores humanos envolvidos.

    Os personagens têm uma caracterização simples e algum desenvolvimento, mas senti que o anime foi demasiado curto para que se pudessem explorar todas as nuances destas relações entre militares e as pessoas que os rodeiam. No entanto, a caracterização é suficientemente completa para que o efeito retido das batalhas seja brutal.

    A isso ajuda uma animação exemplar, com designs muito detalhados e cuidados, sem exagero nas cenas de acção mas ainda assim com efeitos especiais extremamente bem conseguidos. As cores são vivas, apesar do ambiente muitas vezes escuro e a correcção da anatomia acaba por se tornar fascinante.

    Também a música tem um pouco de genial, pois está cheia de personalidade. Com uma sonoridade muito jazzística, a ironia da banda sonora utilizada ajuda muito neste retrato do terror.

    Talvez o único aspecto que me tenha impedido de dar uma nota mais alta seja a falta de acessibilidade que este anime demonstra para quem não está dentro do universo Gundam. As relações entre a Federation e Zeon não são explicadas, assim como há referência a vários conceitos (como as partículas minovsky e os Newtypes) que seriam incompreensíveis para alguém que nunca viu nada do franchise. Assim, um anime que poderia ser perfeito para mostrar a não-fãs de anime, pode acabar por se tornar muito confuso a quem não tenha noção do contexto.

    De todos os modos, recomendo vivamente. Uma das melhores coisas que Gundam nos revelou ultimamente.

  • Yuusha Tokkyuu Might Gaine

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    Yuusha Tokkyuu Might Gaine
    Takamatsu Shinji - Sunrise
    Anime - 47 Episódios
    1993
    4 em 10

    Este é um anime tão reminiscente dos mechas dos anos 70 que parece ter mesmo sido feito nos anos 70. Uma qualidade fraquíssima, uma história sem jeito e sempre o final objectivo de se venderem muitos brinquedos.

    Numa nova Tóquio muito linda (que não aparece em qualquer tipo de cenário, pois toda a cção parece decorrer em sítios inóspitos), um comboio luta contra as forças do mal. Este comboio transforma-se num robot. Quando é necessário, junta-se a outros comboios para que se façam robots maiores. E lutam contra um inimigo semanal, cada vez maior e mais poderoso, até à apoteose final de cada episódio. Não existe uma história estruturada e a motivação para que se avance de episódio em episódio fica reduzida ao mínimo assim que se percebe que são todos iguais.

    Em termos de personagens, temos o maquinista do comboio robot, um rapaz assim em jeito de Batman, muito rico, muito secreto, com muitos poderes robóticos. O comboio tem inteligência artifiial e fala com ele, mas as suas conversas não envolvem nada de interesse. Para acompanhar este pseudo-herói, temos uma fonte de paixão e um melhor amigo e um criado (mais Batman?), que também não sofrem qualquer tipo de caracterização e muito menos desenvolvimento.

    A animação é de tão fraca qualidade que até merece uma nota de pena. Para os anos 90, tudo isto é terrível, com sequências de animação recicladas em todos os episódios, design de maquinaria obsoleto e inexistência de fluidez ou coreografias nos momentos de acção.

    Musicalmente, temos sons característicos do género e pouco mais.

    Apesar de tudo, até foi ligeiramente divertido ver isto, porque nunca se sabe quando uma coisa má pode ainda ficar pior.
  • Fortaleza Digital

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    Fortaleza Digital
    Dan Brown
    1998
    Romance

    Na altura do pico de popularidade deste autor, prometi a mim própria, após uma leitura em diagonal de uma edição francesa dos seus livros, que nunca lhe iria tocar nem com o cabo de uma vassoura. Mas entretanto parece que o cabo de vassoura se tornou no cabo de um piaçaba, porque não cumpri a promessa: dentro dos livros furtados à minha irmã estava este e não resisti a lê-lo.

    De leitura simples, este é um romance sobre a paranóia dos segredos digitais (mais tarde revelados verdade pelo Sr. Snowden), cheio de acção e muitos twists para resolver. Infelizmente, tudo é bastante previsível e simplificado, uma espécie de Umberto Eco para as crianças (digamos assim).

    Os personagens são, para começar, demasiado perfeitos. Inteligentíssimos, brilhantes, bonitos, atraentes, tudo têm de bom. E a verdade é que não ficam nem melhores nem piores, porque são completamente estáticos na sua caracterização.

    Depois, os mistérios e a forma de resolução são tão previsíveis como pouco coerentes. Como é que a mestra dos anagramas e da criptografia tem de ser ajudada pelo seu noivo para resolver o problema. Para mais, há um denegrir da figura feminina ao longo de todo o livro, em que estas figuras são sempre tomadas como o elo mais frágil da cadeia, não demonstram qualquer tipo de personalidade nem movimento em relação à acção que se desenrola.

    Apesar de ser um livro enorme, lê-se num instante, como um qualquer blockbuster de cinema.

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