• Poesia de Alberto Caeiro

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    Poesia de Alberto Caeiro
    Alberto Caeiro
    Anos 10
    Poesia

    Finalmente, a última pessoa de Pessoa que me foi dada a oportunidade de ler. Alberto Caeiro é considerado, tanto como pelo seu nemesis como pelos seus pares, o mestre de todos os heterónimos. E neste volume é-nos dado a conhecer um pouco sobre ele.

    Este volume compreende, então, "O Guardador de Rebanhos" (colectânea máxima do autor), "O Pastor Amoroso" e alguns dos "Poemas Inconjuntos".

    Recordo mal o que aprendi no secundário sobre Caeiro, mas lembro-me de que me diziam que se tratava de um simplório naturalista fascinado pelo ambiente bucólico dos campos. Mais uma vez se confirma que o professor da altura sofria de acefalia, porque o entender sobre estes poemas que tive é totalmente diferente. Caeiro admira a natureza não pela sua beleza infantil mas sim pela sua capacidade de se manter sempre igual na mutabilidade que a caracteriza. Porque Caeiro não procura escrever sobre o belo nem sobre os elementos descritivos, mas sim sobre a sua visão da vida: a vida não é uma vida, porque simplesmente existe. É essa manifestação, o "simplesmente", afecta a vida desta figura nos seus mais variados aspectos: a admiração do mundo natural é apenas a constatação da passagem do tempo pela vida. Sentimentos como o amor reflectem-se na capacidade que temos de aceitar a nossa insignificância como elementos da própria natureza.

    O resultado é simples, eficaz e muito belo. Também curioso e por vezes bem humorado, sobretudo nos momentos de reflexão sobre a religião.

    Deixo-vos, então, aqui um par de poemas de que gostei bastante. O primeiro porque achei giro, o segundo porque concordo tanto que me fartei de rir =D

    II

    O meu olhar é nítido como um girassol.
    Tenho o costume de andar pelas estradas
    Olhando para a direita e para a esquerda,
    E de vez em quando olhando para trás...
    E o que vejo a cada momento
    É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
    E eu sei dar por isso muito bem...
    Sei ter o pasmo essencial
    Que tem uma criança se, ao nascer,
    Reparasse que nascera deveras...
    Sinto-me nascido a cada momento
    Para a eterna novidade do Mundo...

    Creio no Mundo como num malmequer,
    Porque o vejo. Mas não penso nele
    Porque pensar é não compreender...
    O Mundo não se fez para pensarmos nele
    (Pensar é estar doente dos olhos)
    Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

    Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
    Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
    Mas porque a amo, e amo-a por isso,
    Porque quem ama nunca sabe o que ama
    Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

    Amar é a eterna inocência,
    E a única inocência é não pensar...




    A manhã raia. Não: a manhã não raia.
    A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
    Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
    Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
    É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
    Como o é se lhe chamarmos a manhã,
    Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
    Devemos nunca lhes por nomes alguns.
  • A Ratazana

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    A Ratazana
    Günter Grass
    1986
    Romance

    Este livro foi obtido numa troca por um voucher que me ofereceram da minha livraria habitual (que, por sinal, é a Bertrand. Nada de alternativo por aqui) pelo meu aniversário. Quando li a sinopse na contracapa fiquei logo rendida à ideia: uma ratazana, representante da sua espécie, conta toda a história da humanidade pelos seus olhos, desde Noé até ao fim dos tempos.

    Infelizmente, o livro não correspondeu propriamente à sinopse. Mas não deixou de ser muito interessante.

    Um homem, o narrador, recebe pelo Natal aquilo que sempre desejou: uma ratazana de estimação. Esta ratazana, a Rata de Natal (pois...) começa a falar com ele num sonho em que o narrador se encontra amarrado a uma cadeira numa cápsula espacial e consegue ver o fim da humanidade como a conhecemos, por influência desta espécie de muscelídeos. No entanto, temos vários pontos narrativos que se interligam uns com os outros, para no final se juntarem todas as pontas nesse fim do mundo rático em que a espécie dominante são estes bicharocos.

    Temos então a história das ratazanas propriamente dita; depois a história de um grupo de mulheres que conta medusas no oceano a bordo de um navio; a história de um realizador de cinema que visita a avó pelo seu centésimo sétimo aniversário; finalmente, a história dos contos de fadas do filme que este vai realizar.

    Este conjunto de histórias pode começar por ser um pouco confuso, mas à medida que se vão reunindo todas as ideias no mesmo arco narrativo (o das ratazanas) começamos a perceber melhor a existência de todos estes pontos. Na verdade, o autor tece neste livro mais do que uma história mas sim uma crítica social contundente relativamente ao advento da tecnologia e à destruição da Natureza. Pois é devido a estes que a a humanidade acaba por perecer, sem sequer perceber muito bem como.

    A escrita é bastante leve, apesar da narrativa ser complexa. Mas devo confessar que odiei a tradução: qual a necessidade do tradutor explicar palavra por palavra o seu significado na língua original?

    Uma leitura um pouco difícil, que à primeira vista não recomendaria.

  • Ed Wood

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    Ed Wood
    Tim Burton
    1994
    Filme
    7 em 10

    Vimos este filme já a semana passada mas, como terão visto, não tive muito tempo para vir actualizar este espaço. Gostei imenso do filme, que me fez rir muito, mas também me comoveu bastante.

    É um filme sobre a paixão do cinema. Sobre como um realizador sem muito talento mas com muitas ideias faz todos os possíveis para levar os seus projectos avante. É muito inspirador e dá muita vontade de fazer todo o tipo de coisas! Este realizador, Ed Wood, acaba por se tornar um ícone dos chamados "filmes série B", que são aqueles filmes de baixa produção e dos quais se costuma dizer que são tão maus que se tornam... Bons!

    Mas este personagem, que foi mesmo uma pessoa, tem muito mais nele do que a vontade de fazer filmes. Tem segredos, tem histórias que deseja mostrar ao mundo, tem amigos. E estes amigos acabam por ser tão dedicados à cinematografia como ele, ou não passariam por todas estas coisas, trinta por uma linha, para o acompanhar e "wrap the scene!"

    Destes amigos destaca-se uma importante figura: Bela Lugosi. Bela Lugosi, neste filme, ainda não morreu. Mas a sua história é contada paralelamente e acaba por ser triste, comovente, mas ao mesmo tempo cheia de candura. Porque aqui nos é contado o final de vida do primeiro Drácula, a forma como ele acabou por ser um actor ignorado e nunca contratado e se envolveu no mundo do consumo de estupefacientes (o que levou à sua morte, já em idade avançada).

    Para além disso, a forma como este filme está feito revela uma mestria poderosa e cheia de talento. O que mais aprecio em Tim Burton não são os seus efeitos coloridos, as suas histórias bizarras, as suas maquilhagens. É a forma como ele relata a vida estranha das pessoas normais: os estranhos não somos nós! São os outros! E em "Ed Wood" ele consegue dizer-nos isto, e de que maneira! O filme é todo a preto e branco, mas tem uma tal vivacidade que eu me recordo dele a cores...

    Assim, temos uma homenagem à arte de amar o cinema, ao amor por fazer o que se gosta e à dedicação. Tudo com "a little help from my friends..." ;)

  • Prosa Crítica e Ensaística

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    Prosa Crítica e Ensaística
    Fernando Pessoa
    Anos 10 - 30
    Crónica

    Dizia eu há uns minutos que se calhar prosa não é o forte do nosso amigo Fernando. Mas veio-se a revelar muito rápido que essa afirmação é uma mentira! Porque este livro de críticas e ensaios curtos, crónicas (por assim dizer) é um regalo para mente!

    Aqui, Pessoa discorre sobre os mais diversos assuntos que atormentam a sua alma crítica. Fala de todo o tipo de assunto, da literatura ao funcionamento dos eléctricos, passando por contemplações sobre a natureza feminina e o estado do tempo. E faz isto com tanta acidez e humor que uma pessoa até ganha uma úlcera no duodeno de tanto mostrar os dentes.

    "Um crítico de segunda ordem tem, por natureza, tanto poder de teorizar como uma tainha ou um caracol". Espero eu não ser uma comentadora de segunda ordem, porque não quero ser tainha! Embora não me importasse de ser caracol... Enfim, uma pequena frase para ficarem com uma ideia da forma como Pessoa trata dos seus combates pessoais.

    É desta feita que finalmente conhecemos um pouco mais de Lisboa destes anos, não através de puras descrições do ambiente, mas sobretudo através das pessoas que nele vivem e que o autor nos mostra a pouco e pouco nos seus comentários. Talvez a parte que tenha gostado menos tenha sido o prolongado ensaio sobre os direitos e deveres das criaturas fêmea, que estão brutalmente desactualizados e revelam uma natureza muito pouco didática sobre o assunto, revelando que Pessoa - apesar de escrever muito bem - não sabia grande coisa sobre o assunto.

    Gostei deste livrinho! Será libertado ao vento, sob o jugo do BookCrossing!

  • O Vale da Paixão

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    O Vale da Paixão
    Lídia Jorge
    1998
    Romance

    O primeiro livro que li desta autora não me agradou muito... Mas este superou plenamente as minhas expectativas!

    Esta narrativa está localizada num enorme casarão numa ladeia perto de Sagres. O dono desta velha casa, também ele velho, tem vários filhos mas um deles é do piorio: anda sempre a vagabundear e acaba por engravidar uma rapariga. E a história é narrada pela filha destes, sendo que para ela o pai é o "tio" e o seu tio acaba por se tornar o verdadeiro "pai". Mas o personagem principal é, realmente, este homem que anda sempre em viagem, livre como um pássaro, como os pássaros que desenha nas suas cartas vindas de todo o mundo.

    Pelos olhos desta menina, depois mulher, vemos o que causa a ausência deste pai, seguida da partida de (quase) todos os irmãos, deixando uma unidade familiar sozinha numa enorme casa sem sentido e sem caminhos, tão grande que se conseguem distinguir as pessoas pelo som dos seus passos. Mais do que um drama de família, este é um relato da vivência de um grupo de pessoas perante condições inabaláveis e que tanto afectaram (e afectam) os mais variados grupos de pessoas neste país. 

    O tema central é sempre a solidão.

    Escrito com mestria, a narradora conta-nos a história de seu "tio" e da sua família misturada com as suas próprias aventuras. Assistimos ao seu crescimento, de criança ignorada a única pessoa presente, através de palavras escolhidas com toda a certeza, mas também com toda a delicadeza própria de uma escrita eminentemente feminina.

    Um livro claro e brilhante.

  • O Livro do Desassossego

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    Livro do Desassossego
    Bernardo Soares
    Anos 10-30
    Crónicas

    Fernando Pessoa é um dos ícones da cultura literária Portuguesa, mas sobretudo um ícone da sua culutra Pop. Por todo o lado vemos o seu bigode e os seus óculos redondinhos, que popularizou mesmo antes do rapaz com o raio na testa. Ora, talvez essa iconicidade tenha uma razão de ser para além da genialidade dos seus poemas. É que Fernando Pessoa também escreveu prosa e a maioria encontra-se reunida sob o nome de outra pessoa: Bernardo Soares.

    Mas Bernardo Soares não é um heterónimo puro, mais uma das personalidades desviantes de uma Pessoa de Fernando. Na verdade, Fernando assinava muitas vezes em conjunto com ele. Assim, poderíamos depreender que Soares é apenas um nome que Fernando usou para dizer coisas que achava sobre a vida e que lhe apeteciam. Mas eu espero bem que não.

    Porque Bernardo Soares escreve tal e qual uma miúda hipster de meados de anos 2000.

    Os seus assuntos grassam sobre temas tão relevantes como "sou feio", "estou triste", "não tenho amigos". Todas as suas frases dão grandes citações quando tiradas do contexto. E é nisso que este livro se torna: um livro de citações sobre a decrepitude da vida, tal qual como seria vista por uma rapariguinha inadaptada na sua escolinha.

    Esta amálgama de citações acaba por não nos levar a lado nenhum, já que as opiniões que Soares prega sobre o mundo são completamente destituídas de maturidade e, consequentemente, de interesse. Não revelam nada sobre os usos e costumes da sua época, não descrevem qualquer tipo de paisagem urbana, o que teria muito interesse (já que se trataria da cidade de Lisboa), referem a passagem do tempo como uma tortura mental por ser sempre igual e sempre igualmente deprimente.

    Portanto, este livro irritou-me de sobremaneira. Portanto, adeus.

  • Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans

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    Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans
    Nagai Tatsuyuki - Sunrise
    Anime - 25 Episódios
    2015
    6 em 10

    Tenho estado um pouco ausente deste espaço porque estou numa aglomeração brutal de trabalhos diversos. Na verdade, neste momento encontro-me um pouco enlouquecida de sono. Mas em breve colocarei aqui uma série de comentários (uma dúzia, para aí, a maioria de livros). :)

    Mais uma season e não perdi o novo Gundam. Mas acho que esta foi a gota de água que me fez perder completamente a esperança neste franchise. E acabo por detectar que o problema não é a timeline: IBO é UC. O problema é que as ideias são boas, mas a execução é tão frustrante que o resultado final acaba sempre por cair no limiar da mediocridade.

    Nesta instância, assistimos a uma rebelião num local onde as crianças são obrigadas a trabalhar em esforços violentos. Depois, há grandes revoluções políticas desregradas em que as crianças se tornam independentes. Ora, isto é tudo muito bonito mas o anime esquece-se que as crianças são efectivamente infantis. Como poderia um grupo de adolescentes e miúdos liderar uma revolta política se não num universo animesco pouco inspirado? Assim, as respostas para todos os males destes personagens são sempre limitadas a um conceito de "os adultos são maus, baw". E isto irrita-me, porque eu sou um deles.

    É certo que os personagens de alguma forma evoluem. Se ao início estão um pouco perdidos, encontram o rumo e percebem o que se está a passar. Mas a inclusão de novos antagonistas, uns a seguir aos outros, ao longo de toda a série, tornam o anime repetitivo e narrativamente incoerente, sendo que tudo isto parece acontecer para que grandes lutas entre robots gigantes possam brilhar. E estas... Bem, se não temos pilotos cativantes, como nos poderão interessar estes combates? Pela animação?

    É luminosa, colorida, cheia de detalhes no respeitante a estes dados. Mas as coreografias parecem-me recicladas de outras instâncias Gundam (o que prova que há sempre uma reciclagem, em qualquer que seja o campo) e, tendo isto em conta, serão insossas para um fã mais antigo. Os designs dos personagens são um pavor, com cabelos que não lembram ao diabo mais velho e roupas que não fazem qualquer sentido dentro do contexto. Mais uma característica que infantiliza o franchise e o torna, mais uma vez, numa máquina de vender bonecos. O design da maquinaria não chama a atenção pela diferença.

    Musicalmente, temos uma banda sonora bastante normalóide que não traz nada de novo ao panorama.

    Portanto, acho que por uns tempos vou desistir do meu querido Gandamu.
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