• 21º Super Bock Super Rock

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    21º Super Bock Super Rock
    (Quinta e Sexta-Feira)
    Festival de Música
     
    Começa a época alta dos festivais de música. Este ano não estava muito motivada. O mais perfeito era no Porto e não era conveniente lá ir e de resto não vi nenhum cartaz altamente aprazível que me dissesse "tens de ir a este festival sem falta". De alguma forma, lá fui convencida pelo Qui a ouvir Blur para depois ir ver. Entretanto, a minha mãe ficou sem companhia para ir ver o Sting e, portanto, fui com ela. Segue-se então o relato das aventuras.

    Quinta-Feira
     
    Tinha ido a uma entrevista na Margem Sul, de onde imediatamante me dirigi para o recinto. Após atribulada viagem de metro, chego ao local, onde está uma multidão de seres humanos numa fila, aparentemente esperando trocar bilhetes por pulseiras. Aí aguardo pela chegada da minha mãe (doravante conhecida por Minha Mãe) e da amiga dela, que também é prima (doravante conhecida por Rosarinho). Comi um gelado estranhíssimo à porta: dizia que tinha sabor a marshmellow, mas tinha uns veios amarelos.
     
    Enfim, entramos e vemos mais ou menos o espaço. De um lado está o Pavilhão Atlântico (agora chama-se Meo Arena, mas eu continuo a chamar-lhe assim), à sua frente um pequeníssimo palco, o Palco Antena 3. Do lado esquerdo passamos por tendas alimentares diversas e debaixo da pala do Pavilhão de Portugal está outro palco, o Palco EDP. No Pavilhão de Portugal está uma exposição sobre o festival e passando por umas portinhas maléficas vamos ter a um jogo de reciclagem, casas de banho e outras comidas.

    Bem, o espaço estava catita. Uma enorme quantidade de caixotes do lixo, incluindo amarelos para coisas de plástico, impedia que o chão estivesse impróprio para sentar. Fazia falta algum ponto verde, um bocadinho de clorofila. Apesar de não estar cheio e de, por isso, haver bastante espaço, senti que o local era muito pequeno e em nada comparável à dimensão normal de um festival de música. A parte melhor é que as casas de banho eram bastantes e normalmente estavam aceitáveis. E com papel! Yay!

    Dirigimo-nos então para o Palco EDP para ver Perfume Genius. Era a única coisa que queria mesmo ver neste dia, porque é uma música realmente bonita e muito sentida. Apesar de o concerto ter tido alguns problemas de som no início (que se vieram a prolongar durante todo o festival), o jovem Perfume Genius decidiu usar esse tempo para distribuir abraços pelas pessoas. Depois, o concerto foi lindíssimo, muito emotivo. Ele parecia estar realmente feliz por estar ali, apesar da sua constante depressão. A Minha Mãe manifestou desejos de o adoptar para fazer companhia à minha avó.


    A pouca distância do fim do concerto, decidimos comer. Fomos ao Psicológico, a roulotte de hamburgueres que me tem salvado frequentemente, mas não fomos muito bem servidas, o burguer estava frio e meio cru e era tudo meio horrível. 

    Depois fomos para o Palco Antena 3 para ver o PZ. Foi um concerto bem divertido! Apresentaram-se todos de pijama às riscas, o que é sempre simpático, e tocaram todos os novos sucessos, cheios de humor característico. Fiquei super feliz quando apareceu a verdadeira Cara de Chewbacca! E fiquei a conhecer alguns sons novos que nunca tinha ouvido, que também soaram muito bem. Achei curioso como tocaram os intrumentais ao vivo, com sintetizadores e guitarras.


    E, de repente, vemo-nos sem nada que fazer! A Rosarinho sugere ir ver o Noel Gallagher ao Palco principal (Palco Super Bock), mas confesso que nem vi com atenção. Acho um som bastante detestávelzinho. Assim, de quinze em quinze minutos mais ou menos, revezava-mo-nos para sairmos dos lugares no primeiro balcão que tinhamos arrebanhado e dar passeios mais ou menos longos pelo espaço. Casas de banho limpinhas, uma oferta ou outra (apanhámos uns lenços e umas bolsas de cintura), bares com bebidas mais chiques, como o gin da moda. Até que, finalmente, chega a hora do Sting!

    Sting aparece-nos com um barbão gigante que, segundo a Minha Mãe, o faz parecer ter 70 anos. Procede a cantar todos os sucessos, tanto dele como um ou outro dos Police e vejo a Minha Mãe e a Rosarinho a delirar nas suas cadeirinhas. Também eu bato palminhas. Foi um concerto muito bom! Sting tem uma grande presença de palco e tantos anos de experiência fazem com que as suas atitudes e a sua forma de puxar pelo público sejam simplesmente perfeitas! E, curioso, pensava eu que não sabia nenhuma musica e afinal sabia todas! Gente popular é assim. :)


    Saímos um pouco mais cedo para evitar a debandada e o trânsito. Tinha de descansar bastante, pois o dia seguinte seria extremamente cansativo! Vamos lá?

    Sexta-Feira
     
    Encontro-me com o Qui e fazemos (outra) atribulada viagem de metro até ao local. Desta vez não está tanta gente à porta, mas nós lá ficamos. Afinal, ainda estamos a aguardar a chegada de um outro amigo, o Gamito. Lá estamos nós falando quando somos abordados por uma pessoa muito chateada com a vida, da qual fugimos. Oferecem-me uma pulseirinha inútil no momento da fuga.

    Entramos e faço aos dois uma pequena tour. Afinal, o espaço também não é muito grande. Reparamos em como tudo está tão bem separado e dividido e, mais uma vez, na limpeza do espaço. Realmente estamos a ficar pessoas mais civilizadas, que separam o lixo. Vamos para o Palco EDP ver o poucochinho que falta de Benjamin Clementine. Por um lado, está tudo a correr bem: tudo está a começar a horas. Nós é que estamos atrasados. Não conhecia este cantor, mas gostei imenso do bocadinho do concerto que vimos. Um piano lindíssimo, uma voz maravilhosa, um concerto emocional que me deixou com curiosidade para saber mais sobre o autor.


    Dirigimo-nos para o Palco Antena 3 onde estava a dar uma coisa qualquer que já nem sei (acho que era White Haus), à qual não achei piada nenhuma. Depois fomos para o Palco Principal, onde estava a dar The Drums, banda à qual também não acho piada nenhuma e cujo concerto não convenceu. Linhas melódicas muito simples e um estilo igual a toda a gente do indie, muito sem sal. Recuperámos o sal depois de nos alimentarmos. Escolhi desta vez uma roulotte de bagels, onde mastiguei uma coisa maravilhosa com salmão fumado e queijo em paté, nham nham, quero comer outro se encontrar aquela maravilhosa roulotte.

    Seguimos para o Palco EDP, onde já iam a meio Savages. Sem dúvida o concerto revelação do festival, esta banda feminina de pós-punk colocou toda a gente aos saltos selvagens. Com uma energia inesgotável e contagiosa (até eu que estava em stand-by, a dormir uma pequena sesta acordada, estava a curtir imensamente), mostraram-nos sons inacabáveis, apesar de curtos, que falavam precisamente dos nossos sentimentos jovens em geral. Uma banda que vale a pena ouvir de novo!
     
     
    Depois aconteceu o meu pequeno drama pessoal. Eu estava mesmo a contar esta hora entre as Savages e dEUS para descansar e estar sentada sem fazer nada. É que Blur, a banda que íamos ver, era só à uma da manhã. À uma da manhã já eu estou a dormir que nem um pedregulho com musgo! Mas não descansámos. Vimos um bocadinho horrífico de uns Bombaim do não sei quê e não me interessa e depois cirandámos pela exposição do Super Bock, onde o nosso amigo se fartou de encontrar caras conhecidas nas fotografias. Encontrei um mini jardim interior maravilhoso onde queria ficar o resto do tempo, mas continuámos a nossa deslocação, admirando os vários passatempos e umas pessoas a fazerem acrobacias aquáticas com luzes neon. Realmente as coisas de que as pessoas se lembram. Enfim, eu dei o meu melhor para resistir, mas entretanto já me doíam tanto as pernas que tive mesmo de parar e descansar. Levantámos mesmo a tempo de dEUS, mas mesmo assim eu estava fora de serviço e tive de me manter junto à grade da regie, sentadinha, a descansar e a dormitar um pouco. Mais uma vez, estive em dEUS e não vi! É um estigma com esta banda (e até curto bastante deles)

    Ah sim, entretanto deram ao Qui e ao Gamito umas ceninhas luminosas que piscavam às cores e eu apoderei-me de uma e diverti-me imenso com ela, porque dava para abanar para cima e para baixo e fazer quiquiquiquiqui, que é um barulho que gosto de fazer.

    Acordo mesmo a tempo dos Blur! Devo confessar que não foi banda que me tenha fascinado à primeira audição. Não sei, não gosto da voz do gajo neste tipo de música. Gosto mais dos Gorillaz, que como é mais surreal parece-me que funciona melhor. De qualquer forma, foi um concerto bem giro, pontuado por muitas músicas novas (o album novo foi o que gostei mais). Com uma grande energia, o vocalista convenceu um público adorável a cantar todas as músicas com ele, a fazer coros e a explodir em gritos e palminhas a cada movimento. Já para o final, chamou um elemento do público para o palco, e o escolhido delirou, estava mesmo contente o jovem! Para mais, muito veio o vocalista para perto do público, empinandose no gradeamento de forma a tocar em toda a gente, se bem que era por fases... Por vezes víamos ele a gritar para que os seguranças o pusessem cá em baixo, quando parecia ao início que ele queria estar connosco. Também não se compreende o dente de ouro, que é uma visão estranha. De resto, foi um concerto muito bom e mexi-me imenso com a minha ceninha que piscava. :)


    E assim termina a nossa aventura. Cheguei a casa destruída e adormeci em três tempos, mas acho que valeu a pena. :)


  • Blankets

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    Blankets
    Craig Tompson
    2003
    Banda Desenhada

    Foi-me emprestado pela Ana-san. :) Já tinha lido outro trabalho do mesmo autor, sobre o qual poderão ler aqui.

    Esta é uma obra autobiográfica, sobre a infância, a solidão, o primeiro amor, a libertação da religião. Craig Thompson começa por nos contar sobre a sua infância com o seu irmão, em longas paisagens nevadas que nunca terminam. Um manto de neve que cobre todos os painéis, cobertores que cobrem os nossos personagens. A neve é o aconchego, tal como em casa o cobertor é a segurança. 

    Craig conta como foi maltratado na escola, como se sentia inadaptado. A sua fuga para o desenho, que acabou por se revelar nesta obra extremamente detalhada, é impedida por uma família altamente cristã. Então, ele procura encontrar-se na religião. Através dela, conhece uma rapariga, apaixona-se, passa uns tempos com ela.

    E a neve sempre presente.

    É a expressão da solidão, mesmo quando estamos acompanhados.

    É uma obra intimista e esclarecedora, escrita e desenhada com melancolia e uma tristeza inultrapassável. Com este livro, compreendemos a solidão do autor, o que acaba por ser desconfortável. Apesar de tudo, ainda há bons momentos: cobertores. A arte é clara, detalhada, original, cheia de padrões e detalhes que apenas trazem mais intensidade aos sentimentos do autor.

    Sem dúvida uma obra maior do universo da banda desenhada e graphic novels.





  • Catblue Dynamite

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    Catblue Dynamite
    Higa Romanov
    Anime - Filme
    2006
    6 em 10

    Coisas obscuras são obscuras. Este filmezinho, produção independente, libertado como Original Net Animation, com dobragem em inglês e legendas em japonês, é uma dessas coisas.

    Fala de uma moça que é um gato e que, por que tem uma cauda, pode segurar em três armas ao mesmo tempo. Também tem o poder de ver fantasmas. Dirige-se a um bar para se encontrar com uns tipos que não a conhecem mas que vai ajudar, na companhia de John, o seu amigo fantasma. A partir daí são perseguidos por um bando de mascarados e há uma luta com outra gaja.

    É uma história simples, que aparenta ser uma espécie de episódio piloto para algo maior, que nunca chegou a acontecer. É uma pena, pois estes personagens realmente tinham potencial para se fazer algo com eles. Aliás, até as vozes americanas são muito apropriadas, apesar do diálogo ser muitas vezes um pouco foleiro e enfadonho. Mas está tudo bem, talvez fosse mesmo assim que se falava nos anos setenta.

    Trata-se também de uma experiência de animação, pois encontra-se nos primórdios da utilização de animação digital com CG em cell shading. É uma animação arcaica, mas gostei bastante das expressões faciais, sobretudo da boca. Infelizmente, acaba por não funcionar muito bem nas cenas de acção, que são bastantes e acabam por parecer um pouco desadequadas, já que não há fluidez nos movimentos suficiente para que as coreografias sejam realistas.

    A música é um pouco repetitiva, mas a peça usada mais vezes tem o seu charme e leva-nos de volta à época a ser retratada.

    Um filmezinho interessante, que merecia desenvolvimento.

  • Sepulturas dos Pais

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    Sepulturas dos Pais
    David Soares & André Coelho
    2014
    Banda Desenhada

    Como sabem, David Soares é um dos meus autores portugueses preferidos. Ao surgir a oportunidade de comprar este novo volume de BD no Anicomics, não a perdi e adquiri-o imediatamente. Revelou-se, como sempre e mais uma vez, uma obra surpreendente, cheia de magia e de horror.

    Borges é um homem que vive sozinho numa praia e que, durante a infância, descobriu os segredos da areia. A areia tem magia, a areia quer unir-se ao mar, a reunião dos pais com as mães, a reunião das sepulturas. Ele ensina este segredo a Janeiro, uma jovem desiquilibrada que só pensa em sexuar com dois homens desconhecidos.

    Assim, temos um livro muito gráfico no respeitante aos temas sexuais, que são todos brutais, horríficos, nojentos. Mas isso é largamente compensado pelos momentos da areia, os momentos maravilhosos, os momentos em que há amor e em que se criam novas figuras e imagens, altamente detalhadas, de criaturas míticas que só existem na imaginação de quem está só.

    O desenlace é triste, mas de certa forma impressionante: os poderes da areia mantêm-se e nada os poderá deter. A destruição aproxima-se. Uma nova sepultura será criada.

    Mais uma vez, um livro interessantíssimo, impressionante e arrepiante. Recomendo vivamente.

  • Mugen no Ryvius

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    Mugen no Ryvius
    Taniguchi Goro - Sunrise
    Anime - 26 Episódios + 6 Specials
    1999
    7 em 10

    Este é um anime de ficção científica que nos fala de uma situação extrema já frequentemente abordada em outros meios: o que fazer quando não há adultos por perto.

    Ryvius é uma nave espacial em que vários estudantes treinam as suas capacidades para se tornarem pilotos, engenheiros, entre outras coisas. Devido a um acidente, os "adultos" são eliminados e estes alunos têm de tomar decisões de forma a sobreviverem num ambiente hostil, onde por vezes há inimigos, onde há falta de recursos e onde têm de manter a paz para conseguirem chegar a casa. Assim, desenvolve-se uma série de acções, onde estes adolescentes acabam por se dividir, lutando uns contra os outros e criando um ambiente social caótico onde não se sabe quem vai ser o próximo a ceder à pressão e ser eliminado. É uma narrativa muito interessante, potenciada por um conjunto alargado de personagens que vivem esta história e se desenvolvem de forma estável. Estes personagens têm atitudes que, adequadas à sua idade, conferem consequências graves no progresso da narrativa, sendo essencial o seu desenvolvimento para que esta também aconteça.

    Por outro lado, existe um certo elemento "mágico" na história, com a existência de alguns personagens observadores que têm algum tipo de poder misterioso e um robot gigante que não se sabe bem o que está ali a fazer. Em minha opinião, este aspecto poderia ter sido totalmente eliminado, pois acaba por tornar a história um pouco confusa e, no fundo, é desnecessário na progressão dos personagens neste universo fechado.

    Para a época, temos uma arte bastante boa, com designs simples e limpos, detalhados na maquinaria, e cenas de acção que não sendo espectaculares entregam as emoções necessárias. Talvez a paleta de cores seja um pouco escura para o contexto, sendo que as paisagens espaciais poderiam ser melhoradas. No elemento "mágico" os designs são incapazes e não fazem sentido, mas creio que isso poderá ser ignorado na avaliação geral deste anime.

    A minha parte preferida foi, sem dúvida, a banda sonora. Tudo começa com uma OP cheia de energia e estilo, continuando com uma série de peças de beats intensos e instrumentais orquestrais. No geral, funciona muito bem e traz grande energia a cada uma das cenas. Talvez o erro principal desta banda sonora não esteja na qualidade das músicas mas na forma como são utilizadas: muitas vezes a peça prolonga-se além do necessário, para além da cena que representa e para dentro de outra que já não tem nada em comum com ela.

    Mas no geral considerei um anime bastante bom, original dentro do género, que certamente recomendarei.

  • Hanabi

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    Hanabi
    Takeshi Kitano
    Filme
    1997
    7 em 10

    Há muito que o Qui me tentava explicar quem era o Takeshi Kitano e o que era o programa "Takeshi's Castle". Bem, eu não vejo televisão e não fazia ideia. Então, fiquei sabendo que Takeshi Kitano (ou só Takeshi) é um actor de filmes hard-boiled, sobre a máfia, gangsters e bandidos, também fazendo ele sempre papel de bandido. Para o confirmar, mostrou-me este filme, escrito e realizado também por ele, que se relevou uma bonita obra.

    "Hanabi" significa "fogo de artifício", o que tem ligação com uma das cenas mais intensas de toda a narrativa. Esta fala de um polícia corrupto que deve uma série de dinheiro aos yakuza. Enquanto isso, a sua mulher aproxima-se do fim de vida com um linfoma no corpo. E a sua filha morreu. Numa mistura de memórias com o presente, este personagem procura afastar a máfia do seu caminho para poder viver uns últimos momentos de felicidade com aquela que ama. Numa outra perspectiva, um polícia seu amigo sofreu um acidente de trabalho e está preso a uma cadeira de rodas, dedicando-se à pintura e procurando uma nova maneira de viver. As duas histórias interligam-se de forma emocional, enquanto uma vida se aproxima do fim e outra procura recomeçar.

    Os estados de espírito são ilustrados pelos desenhos que nascem das mãos do tal amigo (na realidade pintados por um amigo do realizador). Desenhos estranhos, cheios de animalária surreal, que simbolizam muito mais do que aparentam e têm um efeito quase alucinogénico no espectador. Por outro lado, senti que as cenas de memórias são um pouco confusas, sendo difícil de distinguir o que se está a passar na realidade do que se passou anteriormente.

    A música é bela e coaduna-se com as cenas, que têm um efeito pictórico, como se observássemos fotografias em movimento em vez de uma série de fotogramas. A utilização da luz é fascinante e muitos destes "quadros" transmitem uma sensação de calma profunda e também de uma tristeza inabalável.

    Mas o que mais me impressionou foi sem dúvida a interpretação do actor, Takeshi Kitano. Segundo consta, ele tem "sempre a mesma cara". E é verdade. Tem sempre a mesma cara. Mas, na sua condição singular, é um actor extremamente expressivo, transmitindo os sentimentos com subtileza e exactidão, sem necessitar quase de dizer qualquer palavra. Achei um trabalho de actor impressionante.

    Por isso, está aprovado o Takeshi do Takeshi's Castle. Talvez hoje em dia seja mais uma personagem cómica do imaginário televisivo do Japão, mas neste filme fez um trabalho extraordinário.
  • No Calor dos Trópicos

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    No Calor dos Trópicos
    Flávio Capuleto
    2011
    Romance Histórico

    Recebi este livro por alguma comemoração do BookCrossing, que entretanto esqueci qual era. Estava bastante motivada para o ler, já que se trata de um romance histórico passado no Brasil, na época conturbada da libertação de escravos e abolição da escravatura. 
     
    Diz o autor, numa breve introdução, que escreveu o livro tendo em vista a sua adaptação para o cinema. Devo dizer que tal me parece impossível, já que o romance não corresponde ao nivel de qualidade que seria de esperar. A história gira em volta de um triângulo amoroso, de paixões e traições, que se desloca para o Brasil de forma a consumar-se definitivamente. Assim, é um romance que se poderia passar em qualquer época: o tema da abolição da escravatura passa para segundo plano, sendo que a sua utilização aparece mais como mecanismo narrativo em vez de ser um tema principal em discussão.
     
    Para mais, a escrita é desadequada ao tipo de romance, com erros históricos constantes e um uso de linguagem moderna que não se conjuga bem com as personagens. Não há detalhes correctos em termos de vestuário ou de alimentação (quem usa um "slip" neste século?) e a gíria utilizada não é de todo coerente, quer com a época quer com o estatuto social dos personagens (que visconde manda outro "por a boca no trombone"?)
     
    Os detalhes históricos são incorrectos e isso não é perdoável do ponto de vista deste tipo de romance, apesar de o autor insistir bastante no facto de isto ser uma obra fantasiada e vinda da sua cabeça. Não é admissível.
     
    Para mais, o livro está recheado de cenas sexuais constantes, inapropriadas e descritas de forma repetitiva (como gostam estas pessoas de "cavalgar"). Não trazem em si nenhum tipo de beleza erótica e parecem estar metidas a martelo, tais quais umas batatas a murro, pelo meio de uma narrativa simplificada e cuja existência parece estar em função da descrição dos actos sexuais.
     
    Um livro que me desapontou bastante, pois o autor deveria ter pesquisado mais (pesquisou bastante, como se vê na bibliografia, mas não foi o suficiente ou nos locais correctos). Ainda assim, espero que não deixe de escrever, pois imaginação tem bastante. :)

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