• Mind Game

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    Mind Game
    Yuasa Masaaki - Studio 4ºC
    Anime - Filme
    2004
    8 em 10

    Chegados a casa, não sabíamos que filme ver. Como tínhamos estado a falar deste filme enquanto esperávamos que o Capitão Falcão começasse (não sou só eu que vejo animus dentro do meu grupo de pessoal :v ) fui buscá-lo ao Nyaa para o vermos. Assim, também ensinei ao Qui sobre o Nyaa. Já tinha visto este filme umas três vezes no passado, mas de cada vez é sempre uma experiência diferente: o filme tem tantos momentos e tantos detalhes que é impossível lembrarmo-nos de todos.

    Tudo começa de uma forma calma: um rapaz encontra o amor da sua infância anos depois, indo jantar com ela. Quando são atacados por yakuza, ele é levado para um lugar onde nada existe: só ele e uma criatura sem forma a que chama de "deus". Depois de fazer um acordo com este "deus" (ou será o diabo?) Nichi, o rapaz, decide mudar a sua maneira de ver a vida. E a partir daqui desenvolve-se uma louca corrida de acção e uma aventura de contornos surreais em que os nossos personagens aprendem mais sobre si próprios, sobre o mundo que os rodeia e, afinal, sobre o que é realmente viver a vida e ser feliz.

    É um filme extremamente experimental, com um uso de variadas técnicas de animação, que explodem em cor e acção a todo o momento, dando azo a grandes situações psicadélicas, simplesmente loucas, um prazer visual intenso que nos leva a perceber realmente quem são estas pessoas, o que as levou até ali e o que elas desejam. À medida que a solidão os ataca, que o aborrecimento os mata, inventam sempre novas coisas para fazer, cada uma mais alucinante que a anterior, revelando no final aquilo que realmente desejavam para a sua vida e ganhando nova força para sair da situação em que estão e, realmente, lutar para que as coisas aconteçam.

    À primeira vista pode ser difícil de perceber quais os motivos destes personagens e o que os leva a ter estes desejos ocultos, pois a narrativa está quebrada em várias situações e os flashbacks são feitos de forma a mostrar apenas os elementos mais simples da vida diária, misturando memórias fortes do passado com momentos do quotidiano. Os eventos marcantes são repetidos ao longo do filme, o que por vezes pode ser um pouco aborrecido, mas o resultado final é tão imersivo que não deixamos de ficar a pensar no que foi realmente esta viagem.

    Um filme ácido.
  • Capitão Falcão

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    Capitão Falcão
    João Leitão
    2015
    Filme
    6 em 10

    Fomos ao cinema! Desde que vira o trailer deste filme que queria muito vê-lo. Afinal, este filme representa uma luta: começando como episódio piloto de uma série, foi recusado. Assim, decidiram fazer um filme. Mas o filme ficou interdito de passar no cinema durante uma eternidade. Até que finalmente a Nos-Lusomundo decidiu apostar nele. E agora está  ser uma bomba de popularidade! E ainda bem! Porque, afinal, é um filme português diferente, que goza consigo próprio e com toda uma sociedade, sem nunca deixar de demonstrar as influências e o carinho que tem pelas figuras tradicionais da banda desenhada e das séries antigas.

    Capitão Falcão é o herói que Portugal precisa. Sob as ordens patrióticas do Presidente António de Oliveira Salazar, uma criaturinha frágil que gosta de fazer bolos-rei, e com ajuda do seu parceiro, chinoca de Macau, Puto Perdiz, luta contra as forças do mal que ameaçam os grandes pilares da cultura portuguesa: Fé; Trabalho; Família. Os seus inimigos tomam muitas formas, cada um mais perigoso que o anterior. Comunistas. Feministas. Comunistas que são Ninjas... Comuninjas. E os temíveis... Capitães de Abril!

    Todo o filme é uma ironia, um retrato cómico de uma época que cada vez mais se esquece: os seus intervenientes vão desaparecendo progressivamente, já não se lembram ou, pior, perante o estado em que as coisas estão viram-se para a fé de que antigamente é que estava tudo bem. O nosso Capitão dá uma nova perspectiva: estava tudo bem... Mas era tudo muito estranho! O filme pega e exagera estereótipos, de forma a que o resultado é uma comédia em que me ri histericamente do início ao fim.

    Os actores fazem um papel maravilhoso, sobretudo Waddington que nunca, nem por um segundo, se afasta do exagero que é o seu personagem. Assim, Capitão Falcão surge como um herói dos anos 60, com todas as características da época, mas que conta uma história que - dentro do passado - critica a sociedade moderna e a nossa aceitação passiva dos acontecimentos.

    O filme tem muitas cenas de acção e artes marciais, que por vezes se prolongam demasiado. Ainda assim, é algo nunca antes visto num filme português e, por isso, acho que se pode dizer que o filme é uma espécie de revolução (haha)

    Enfim, uma experiência hilariante e que não posso deixar de recomendar. Vejam enquanto podem!
  • Habibi

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    Habibi
    Craig Thompson
    2011
    Banda Desenhada

    Livro que me foi emprestado pela Ana-san no Anicomics e que li de uma assentada enquanto esperava que aparecesse alguma urgência (não apareceu)

    Habibi é uma fantasia árabe, uma espécie de interpretação das mil e uma noites num ambiente melancólico e surreal. Conta a história de duas crianças que, confrontadas com um futuro de escravatura e horror, fogem para o deserto. Aí, desenvolvem uma relação de mãe-filho, que também podia ser de irmão-irmã ou mesmo de homem-mulher, conforme a evolução da história e das personagens.

    As personagens sofrem muito ao longo da narrativa, em repetidos abusos emocionais e sexuais, de forma a perderem toda a esperança. Isto apenas traz mais força ao final e ao triunfo do laço que os liga, mas por vezes senti um exagero na violência relatada, como se o factor de choque fosse mais importante do que o elemento narrativo.

    A arte é muito bela e extremamente detalhada, havendo sobretudo ênfase no momento em que se contam "histórias". Estas histórias são a parte mais interessante do livro, pois - com um especial uso da palavra e do alfabeto árabe (com todas as suas significâncias) - trazem uma moral religiosa e a conclusão evidente de que todos somos iguais, todos viemos do mesmo lugar. No fundo, a moral do livro é uma mensagem contra o racismo e contra a intolerância religiosa, embora outras pessoas a possam ter como apropriação cultural e falta de pesquisa. Nesse aspecto, o livro pode falhar, pois as pessoas "árabes" (note-se que este é um universo fantástico!) muitas vezes vitimizam os nossos personagens de formas muito agressivas, sendo que é muito difícil encontrar pessoas realmente boas. No entanto, elas aparecem! E isso demonstra todo o objectivo do livro.

    Existem muitos símbolos espalhados ao longo das vinhetas e páginas, nem todos imediatamente compreensíveis, sobretudo se não se tiver um conhecimento mais alargado sobre os mitos culturais muçulmanos. Neste aspecto, o autor revela uma capacidade de pesquisa infalível. O detalhe dado a estes elementos é a parte mais agradável da leitura.

    Assim, Habibi aparece como um marco no universo da Graphic Novel: uma história estranha, triste, mas com uma carga emocional que apenas revela os verdadeiros aspectos da humanidade. E, em conclusão, aquilo em que eu sempre acreditei: que a humanidade é inerentemente boa.
  • Dark City

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    Dark City
    Alex Proyas
    1998
    Filme
    7 em 10

    Passada segunda feira, disse-me o Qui: "Hoje vamos ver um filme de culto"

    Dark City é uma aproximação à ficção científica surpreendentemente perturbadora. Um homem acorda sem se lembrar de quem é e o que faz ali. À medida que procura a verdade, acaba por descobrir uma situação muito desconfortável que envolve toda a cidade em que vive.

    Há elementos estranhos. Surreais. Os relógios, os edifícios, tudo muda de lugar, nada é constante. Isto tem uma elevada carga simbólica, relacionada com a manipulação de memórias, em que é difícil de detectar o que é uma memória real do que está falsificado. E, no fundo, acredita-se que é através das memórias individuais que se pode encontrar a essência da alma humana. Mas a conclusão do filme vem a provar o contrário. Quando confrontado com poderes divinos, um "super-eu", o personagem principal trabalha para que todas as pessoas possam encontrar a sua individualidade e para que possam aproveitar as coisas boas da vida, amizade e amor. Afinal, parece-me, é nisso que se baseia realmente a alma humana.

    Os efeitos especiais podem parecer um pouco datados, por vezes, mas existem cenas puramente espectaculares, como os momentos de mudança da cidade e a reunião dos "Senhores". Infelizmente, o orçamento foi esbanjado numa luta final, um corpo a corpo mental, que poderia ter sido muito mais curta. Apesar de tudo, a caracterização da época (que mistura todas as épocas de uma memória humana colectiva), da cidade, edifícios e arquitectura, roupas... Tudo isso é um trabalho fenomenal.

    Foi um filme que gostei imenso, apesar do final amargo. Poderíamos pensar numa sequela, mas acho que neste contexto nem faria sentido. Talvez as pessoas de "Dark City" possam vir a ser felizes.
  • O Atalho dos Ninhos de Aranha

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    O Atalho dos Ninhos de Aranha
    Italo Calvino
    1947
    Romance

    Tinha ido à casa do campo descansar um pouco entre os meus turnos e apercebi-me que iria terminar toda a leitura que tinha levado antes de voltar para casa. Assim, roubei um livro ao meu pai (que irei devolver quando lá voltar, amanhã). Nunca tinha lido Italo Calvino (que se pronuncia "Ítalo" e não "Itálo", como eu pensava) e qual a melhor forma de começar do que pelo seu primeiro romance?

    Inserido num estilo neo-realista, também presente em outras formas de arte, como o cinema e o teatro, "O Atalho dos Ninhos de Aranha" conta uma perspectiva da guerra, rebeldes italianos contra as forças fascistas alemãs, pelos olhos de um miúdo inadaptado e mal-comportado, que não encontra uma identidade e um lugar em nenhum lado, quer nas outras crianças, quer nos "grandes". Após roubar uma pistola, acaba por se envolver com um grupo reaccionário, onde também não encontra o seu lugar.

    O livro funciona como uma espécie de relato da situação de guerra na época, num universo onde nada mais há para além destas milícias políticas e soldados de todos os géneros. Isto é especialmente interessante pois, na época, era mesmo esta a realidade. Pin, o miúdo, está muito bem caracterizado como dentro da sua faixa etária, comportando-se de maneira provocativa mas, mesmo assim, com reflexos de criança mimada que apenas procura a aceitação dos seus pares. No entanto, ele não é capaz de encontrar os seus pares, esforçando-se por se incluir dentro de outros grupos que não estão de todo preparados para tomar conta de uma criança.

    A escrita é bastante simples, com relatos descritivos (mas apenas no essencial) da realidade horrífica da época. É um discurso directo, intuitivo, sem grandes comentários sociais: apenas uma descrição do que realmente acontecia.

    Pelo que li, outros livros do autor são completamente diferentes e definem-no como único. Terei de os ler para confirmar.
  • Uma gata, um homem e duas mulheres

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    Uma gata, um homem e duas mulheres
    Junichirou Tanizaki
    1936, 1951
    Novelas

    Livro que me foi emprestado pela Ana-san durante o Anicomics.

    Fique uma nota pessoal: arranjei um novo trabalho! Por enquanto estou só à experiência, mas acredito que se fizer um bom trabalho poderei ficar lá. :) Ora, nesta nova actividade é-me exigido que passe as noites lá, pois trata-se de um hospital com atendimento permanente. Este fim de semana fiz as minhas primeiras noites e descobri que há poucos tipos de actividades que se podem fazer, para além de tomar conta dos internados. São elas brincar com os bichos residentes, que não percebem o hip-hop, ver televisão (que não aprecio por aí além), ler e estudar. Também posso ver anime, mas teria de o passar para o portátil e isso dá um trabalhão medonho. Portanto, ler e estudar! Preparem-se para muitos comentários sobre livros! =D

    Ora então, de que trata este livro? Não conhecia o autor e fiquei bastante curiosa acerca da sua escrita. Neste volume estão três histórias, uma novela e dois contos mais curtos, que falam sobre a vida diária de um Japão que já foi esquecido, um pós-guerra que a maioria dos nipófilos animados desconhece (pois os animes não falam muito sobre esta época). Assim, é uma experiência bastante interessante ler estes contos sobre a vida e os hábitos, polvilhados com uma certa dose de estranheza.

    Em "Uma gata, um homem e duas mulheres", uma novela com mais ou menos 100 páginas, o autor fala-nos de um triângulo amoroso que tem como ponto central uma gata. As mulheres odeiam a gata, precisamente porque o homem ama a gata. Assim, quando o animal se muda para a casa da ex-mulher - a pedido desta e a mando da mulher actual - o que poderá o homem fazer senão colocar-se numa estranha situação de dependência? Além disto, a história foca-se sobretudo no comportamento do gato, sendo uma espécie de homenagem a este ser como animal de estimação. Afinal, mesmo as pessoas que o odeiam acabam por se sentir cativadas após conviver um pouco com eles. Para mim foi muito interessante ver o tratamento dos gatos nos anos 30 do Japão, que é muito diferente do da actualidade. No entanto, a história acaba num ponto em que poderia continuar, dando a sensação de que está incompleta.

    A segunda história chama-se "O Pequeno Reino". Foi a que gostei mais. Fala sobre um professor e um aluno muito especial e na forma como este aluno estabelece um "reino" entre os outros estudantes, de tal forma influente - quer pela sua personalidade quer pelas necessidades das outras pessoas - que o próprio professor acaba por se envolver nele. Gostei bastante desta história precisamente porque o seu desenvolvimento é desesperantemente ilógico, de uma forma quase divertida mas ao mesmo triste dentro do contexto dos personagens.

    Finalmente,"O Professor Rado". Não compreendi muito bem este conto, pois possui alguns elementos de caracterização de personagem que não são utilizados para o desenvolvimento da história e que acabam por paracer "fora do sítio". Fala sobre um Professor muito estranho, que quer saber mais sobre uma actriz e pede a um jornalista que o descubra. Esta história pareceu-me uma espécie de rascunho, mas ainda assim é bastante interessante.

    Com estes três contos fiquei com água na boca para descobrir mais sobre este autor. A sua escrita é clara e simples, mas os temas abordados acabam por ter uma complexidade pessoal que caracteriza perfeitamente toda uma época. Se alguém tiver algum livro deste senhor que me possa emprestar, será muito bem vindo! =D
  • O Feitiço das Trevas - O Tratado dos Magos

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    O Feitiço das Trevas - O Tratado dos Magos
    A.P. Cabral
    2010
    Fantasia

    Tem uma história curiosa, este livro. Há algum tempo, o meu pai andava erroneamente viciadíssimo no chamado "Game of Thrones" (dun~dun~dun). Quando terminou a leitura dos livros existentes, continuava com o bichinho do romance fantástico, então decidiu comprar este, esperando algo semelhante. Mas, quando começou a ler, ficou tão desapontado que esse desapontamento se tornou em raiva: entregou-me o livro para eu me "livrar dele" através do BookCrossing (como se o BookCrossing fosse o sítio para onde vão os livros desapontantes, aiai...) Decidi, antes de o colocar a circular, lê-lo para saber o que causou a raiva do meu pai. E como o compreendo agora...

    Este é um livro que toma claras influências do tal "Game of Thrones" (dun~dun~dun). Tal como o citado, é o tipo de literatura em que acontecem imensas coisas, onde estão constantemente a acontecer coisas, mas em que - infelizmente - não se chega a lado nenhum. Existem personagens que nunca mais acabam, que vão desaparecendo, mortos ou simplesmente eclipsados para lado nenhum. E nenhum deles tem atitudes desenvolvidas ou realistas, aparecendo com uma consistência semelhante a cartão.

    Para começar, a autora propõe-nos um mundo de fantasia que, embora limitado, poderia ter a sua graça. Não fosse, desde logo, a definição do que cada país e seus habitantes é ou faz. Para começar, estão todos divididos por cores: negros e amarelos. Depois há caucasianos, para sermos menos racistas. Por alguma razão há indianos, apesar de não haver índia. E parece que ser "anão" é raça ou tom de pele. Fala-se uma série de línguas neste mundo, mas não assistimos a nenhuma conversa que não seja em português corrente, fora um feitiço ou outro. Assim, qual a necessidade? Para mais, este planeta, com um único continente, aparenta ser diminuto, mais ou menos do tamanho da ilha Terceira. Pois os personagens deambulam por todas as terras ao longo de um curtíssimo espaço de tempo. Este também não está bem definido, pois duas personagens cirandaram em ruínas subterrâneas por "dois meses" sem água e com um saco de tâmaras e três maçãs.

    Finalmente, uma nota negativa para a reacção dos personagens, que se apaixonam de maneira veloz a ponto de ignorarem todas as outras coisas importantes. Por exemplo, quando o personagem principal fala pela primeira vez em *anos* com a mãe (aliás, parece que é a primeira vez que a vê ou ouve) essencialmente o que lhe diz é "espera aí que eu já te atendo, agora tenho de encontrar a minha amada"

    Tiveram graça as gárgulas e as suas ambições de um dia virem a ser uma coluna num salão.

    De resto, será abandonado por aí à sua sorte.
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