Habibi
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Habibi
Craig Thompson
2011
Banda Desenhada
Livro que me foi emprestado pela Ana-san no Anicomics e que li de uma assentada enquanto esperava que aparecesse alguma urgência (não apareceu)
Habibi é uma fantasia árabe, uma espécie de interpretação das mil e uma noites num ambiente melancólico e surreal. Conta a história de duas crianças que, confrontadas com um futuro de escravatura e horror, fogem para o deserto. Aí, desenvolvem uma relação de mãe-filho, que também podia ser de irmão-irmã ou mesmo de homem-mulher, conforme a evolução da história e das personagens.
As personagens sofrem muito ao longo da narrativa, em repetidos abusos emocionais e sexuais, de forma a perderem toda a esperança. Isto apenas traz mais força ao final e ao triunfo do laço que os liga, mas por vezes senti um exagero na violência relatada, como se o factor de choque fosse mais importante do que o elemento narrativo.
A arte é muito bela e extremamente detalhada, havendo sobretudo ênfase no momento em que se contam "histórias". Estas histórias são a parte mais interessante do livro, pois - com um especial uso da palavra e do alfabeto árabe (com todas as suas significâncias) - trazem uma moral religiosa e a conclusão evidente de que todos somos iguais, todos viemos do mesmo lugar. No fundo, a moral do livro é uma mensagem contra o racismo e contra a intolerância religiosa, embora outras pessoas a possam ter como apropriação cultural e falta de pesquisa. Nesse aspecto, o livro pode falhar, pois as pessoas "árabes" (note-se que este é um universo fantástico!) muitas vezes vitimizam os nossos personagens de formas muito agressivas, sendo que é muito difícil encontrar pessoas realmente boas. No entanto, elas aparecem! E isso demonstra todo o objectivo do livro.
Existem muitos símbolos espalhados ao longo das vinhetas e páginas, nem todos imediatamente compreensíveis, sobretudo se não se tiver um conhecimento mais alargado sobre os mitos culturais muçulmanos. Neste aspecto, o autor revela uma capacidade de pesquisa infalível. O detalhe dado a estes elementos é a parte mais agradável da leitura.
Assim, Habibi aparece como um marco no universo da Graphic Novel: uma história estranha, triste, mas com uma carga emocional que apenas revela os verdadeiros aspectos da humanidade. E, em conclusão, aquilo em que eu sempre acreditei: que a humanidade é inerentemente boa.
By : ladyxzeus
Dark City
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Dark City
Alex Proyas
1998
Filme
7 em 10
Passada segunda feira, disse-me o Qui: "Hoje vamos ver um filme de culto"
Dark City é uma aproximação à ficção científica surpreendentemente perturbadora. Um homem acorda sem se lembrar de quem é e o que faz ali. À medida que procura a verdade, acaba por descobrir uma situação muito desconfortável que envolve toda a cidade em que vive.
Há elementos estranhos. Surreais. Os relógios, os edifícios, tudo muda de lugar, nada é constante. Isto tem uma elevada carga simbólica, relacionada com a manipulação de memórias, em que é difícil de detectar o que é uma memória real do que está falsificado. E, no fundo, acredita-se que é através das memórias individuais que se pode encontrar a essência da alma humana. Mas a conclusão do filme vem a provar o contrário. Quando confrontado com poderes divinos, um "super-eu", o personagem principal trabalha para que todas as pessoas possam encontrar a sua individualidade e para que possam aproveitar as coisas boas da vida, amizade e amor. Afinal, parece-me, é nisso que se baseia realmente a alma humana.
Os efeitos especiais podem parecer um pouco datados, por vezes, mas existem cenas puramente espectaculares, como os momentos de mudança da cidade e a reunião dos "Senhores". Infelizmente, o orçamento foi esbanjado numa luta final, um corpo a corpo mental, que poderia ter sido muito mais curta. Apesar de tudo, a caracterização da época (que mistura todas as épocas de uma memória humana colectiva), da cidade, edifícios e arquitectura, roupas... Tudo isso é um trabalho fenomenal.
Foi um filme que gostei imenso, apesar do final amargo. Poderíamos pensar numa sequela, mas acho que neste contexto nem faria sentido. Talvez as pessoas de "Dark City" possam vir a ser felizes.
By : ladyxzeus
O Atalho dos Ninhos de Aranha
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O Atalho dos Ninhos de Aranha
Italo Calvino
1947
Romance
Tinha ido à casa do campo descansar um pouco entre os meus turnos e apercebi-me que iria terminar toda a leitura que tinha levado antes de voltar para casa. Assim, roubei um livro ao meu pai (que irei devolver quando lá voltar, amanhã). Nunca tinha lido Italo Calvino (que se pronuncia "Ítalo" e não "Itálo", como eu pensava) e qual a melhor forma de começar do que pelo seu primeiro romance?
Inserido num estilo neo-realista, também presente em outras formas de arte, como o cinema e o teatro, "O Atalho dos Ninhos de Aranha" conta uma perspectiva da guerra, rebeldes italianos contra as forças fascistas alemãs, pelos olhos de um miúdo inadaptado e mal-comportado, que não encontra uma identidade e um lugar em nenhum lado, quer nas outras crianças, quer nos "grandes". Após roubar uma pistola, acaba por se envolver com um grupo reaccionário, onde também não encontra o seu lugar.
O livro funciona como uma espécie de relato da situação de guerra na época, num universo onde nada mais há para além destas milícias políticas e soldados de todos os géneros. Isto é especialmente interessante pois, na época, era mesmo esta a realidade. Pin, o miúdo, está muito bem caracterizado como dentro da sua faixa etária, comportando-se de maneira provocativa mas, mesmo assim, com reflexos de criança mimada que apenas procura a aceitação dos seus pares. No entanto, ele não é capaz de encontrar os seus pares, esforçando-se por se incluir dentro de outros grupos que não estão de todo preparados para tomar conta de uma criança.
A escrita é bastante simples, com relatos descritivos (mas apenas no essencial) da realidade horrífica da época. É um discurso directo, intuitivo, sem grandes comentários sociais: apenas uma descrição do que realmente acontecia.
Pelo que li, outros livros do autor são completamente diferentes e definem-no como único. Terei de os ler para confirmar.
By : ladyxzeus
Uma gata, um homem e duas mulheres
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Uma gata, um homem e duas mulheres
Junichirou Tanizaki
1936, 1951
Novelas
Livro que me foi emprestado pela Ana-san durante o Anicomics.
Fique uma nota pessoal: arranjei um novo trabalho! Por enquanto estou só à experiência, mas acredito que se fizer um bom trabalho poderei ficar lá. :) Ora, nesta nova actividade é-me exigido que passe as noites lá, pois trata-se de um hospital com atendimento permanente. Este fim de semana fiz as minhas primeiras noites e descobri que há poucos tipos de actividades que se podem fazer, para além de tomar conta dos internados. São elas brincar com os bichos residentes, que não percebem o hip-hop, ver televisão (que não aprecio por aí além), ler e estudar. Também posso ver anime, mas teria de o passar para o portátil e isso dá um trabalhão medonho. Portanto, ler e estudar! Preparem-se para muitos comentários sobre livros! =D
Ora então, de que trata este livro? Não conhecia o autor e fiquei bastante curiosa acerca da sua escrita. Neste volume estão três histórias, uma novela e dois contos mais curtos, que falam sobre a vida diária de um Japão que já foi esquecido, um pós-guerra que a maioria dos nipófilos animados desconhece (pois os animes não falam muito sobre esta época). Assim, é uma experiência bastante interessante ler estes contos sobre a vida e os hábitos, polvilhados com uma certa dose de estranheza.
Em "Uma gata, um homem e duas mulheres", uma novela com mais ou menos 100 páginas, o autor fala-nos de um triângulo amoroso que tem como ponto central uma gata. As mulheres odeiam a gata, precisamente porque o homem ama a gata. Assim, quando o animal se muda para a casa da ex-mulher - a pedido desta e a mando da mulher actual - o que poderá o homem fazer senão colocar-se numa estranha situação de dependência? Além disto, a história foca-se sobretudo no comportamento do gato, sendo uma espécie de homenagem a este ser como animal de estimação. Afinal, mesmo as pessoas que o odeiam acabam por se sentir cativadas após conviver um pouco com eles. Para mim foi muito interessante ver o tratamento dos gatos nos anos 30 do Japão, que é muito diferente do da actualidade. No entanto, a história acaba num ponto em que poderia continuar, dando a sensação de que está incompleta.
A segunda história chama-se "O Pequeno Reino". Foi a que gostei mais. Fala sobre um professor e um aluno muito especial e na forma como este aluno estabelece um "reino" entre os outros estudantes, de tal forma influente - quer pela sua personalidade quer pelas necessidades das outras pessoas - que o próprio professor acaba por se envolver nele. Gostei bastante desta história precisamente porque o seu desenvolvimento é desesperantemente ilógico, de uma forma quase divertida mas ao mesmo triste dentro do contexto dos personagens.
Finalmente,"O Professor Rado". Não compreendi muito bem este conto, pois possui alguns elementos de caracterização de personagem que não são utilizados para o desenvolvimento da história e que acabam por paracer "fora do sítio". Fala sobre um Professor muito estranho, que quer saber mais sobre uma actriz e pede a um jornalista que o descubra. Esta história pareceu-me uma espécie de rascunho, mas ainda assim é bastante interessante.
Com estes três contos fiquei com água na boca para descobrir mais sobre este autor. A sua escrita é clara e simples, mas os temas abordados acabam por ter uma complexidade pessoal que caracteriza perfeitamente toda uma época. Se alguém tiver algum livro deste senhor que me possa emprestar, será muito bem vindo! =D
By : ladyxzeus
O Feitiço das Trevas - O Tratado dos Magos
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O Feitiço das Trevas - O Tratado dos Magos
A.P. Cabral
2010
Fantasia
Tem uma história curiosa, este livro. Há algum tempo, o meu pai andava erroneamente viciadíssimo no chamado "Game of Thrones" (dun~dun~dun). Quando terminou a leitura dos livros existentes, continuava com o bichinho do romance fantástico, então decidiu comprar este, esperando algo semelhante. Mas, quando começou a ler, ficou tão desapontado que esse desapontamento se tornou em raiva: entregou-me o livro para eu me "livrar dele" através do BookCrossing (como se o BookCrossing fosse o sítio para onde vão os livros desapontantes, aiai...) Decidi, antes de o colocar a circular, lê-lo para saber o que causou a raiva do meu pai. E como o compreendo agora...
Este é um livro que toma claras influências do tal "Game of Thrones" (dun~dun~dun). Tal como o citado, é o tipo de literatura em que acontecem imensas coisas, onde estão constantemente a acontecer coisas, mas em que - infelizmente - não se chega a lado nenhum. Existem personagens que nunca mais acabam, que vão desaparecendo, mortos ou simplesmente eclipsados para lado nenhum. E nenhum deles tem atitudes desenvolvidas ou realistas, aparecendo com uma consistência semelhante a cartão.
Para começar, a autora propõe-nos um mundo de fantasia que, embora limitado, poderia ter a sua graça. Não fosse, desde logo, a definição do que cada país e seus habitantes é ou faz. Para começar, estão todos divididos por cores: negros e amarelos. Depois há caucasianos, para sermos menos racistas. Por alguma razão há indianos, apesar de não haver índia. E parece que ser "anão" é raça ou tom de pele. Fala-se uma série de línguas neste mundo, mas não assistimos a nenhuma conversa que não seja em português corrente, fora um feitiço ou outro. Assim, qual a necessidade? Para mais, este planeta, com um único continente, aparenta ser diminuto, mais ou menos do tamanho da ilha Terceira. Pois os personagens deambulam por todas as terras ao longo de um curtíssimo espaço de tempo. Este também não está bem definido, pois duas personagens cirandaram em ruínas subterrâneas por "dois meses" sem água e com um saco de tâmaras e três maçãs.
Finalmente, uma nota negativa para a reacção dos personagens, que se apaixonam de maneira veloz a ponto de ignorarem todas as outras coisas importantes. Por exemplo, quando o personagem principal fala pela primeira vez em *anos* com a mãe (aliás, parece que é a primeira vez que a vê ou ouve) essencialmente o que lhe diz é "espera aí que eu já te atendo, agora tenho de encontrar a minha amada"
Tiveram graça as gárgulas e as suas ambições de um dia virem a ser uma coluna num salão.
De resto, será abandonado por aí à sua sorte.
By : ladyxzeus
House of Sand and Fog
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House of Sand and Fog
Andre Dubus III
1999
Romance
E, este sim, foi o último livro da Convenção do BookCrossing 2013 que recolhi e li, para depois voltar a libertar. Ufa! Finalmente!
Este é um romance extremamente profissional, que rapidamente cai no vulgar. São-nos, inicialmente, apresentadas duas personagens: Behrani, um antigo coronel iraniano que teve de fugir para os EUA com a sua família, e Kathy, uma alcóolica em recuperação. Kathy perde a sua casa, que é comprada por Behrani num leilão. E ela quer recuperá-la. Para isso, faz muitas coisas. Todas elas inconsequentes. A narrativa só toma algum sentido nos momentos finais da segunda parte, em que realmente acontecem coisas relevantes, todas elas trágicas.
Muito ênfase é dado à caracterização das personagens, com recurso a flashbacks por memórias. Para mais, cada capítulo tem uma linguagem distinta, conforme é narrado por uma personagem ou outra ou é dada uma mudança de perspectiva, a partir da segunda parte. Neste aspecto, a leitura tem algum interesse. No entanto, os personagens têm por vezes atitudes confusas. Por exemplo, Behrani apanha Kathy à sua porta e leva-a para casa como "um passarinho". Mas no momento seguinte, já a chama de prostituta. Isto não faz muito sentido.
O Qui disse-me que existe um filme, sendo que provavelmente este tipo de história funciona melhor nesse meio.
By : ladyxzeus
Big Eyes
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Big Eyes
Tim Burton
2014
Filme
7 em 10
Ultimamente, tinha deixado de gostar muito do Tim Burton. Parecia que os filmes dele se limitavam a um grande guarda roupa e a uma constante estranheza perante as situações, todas elas passadas em universos fantásticos com características do gótico clássico. E isto era muito repetitivo. É neste contexto que aparece um novo filme, Big Eyes ("Olhos Grandes"). E desta feita, pareceu-me que Tim Burton voltou a ser ele próprio.
Este filme conta a história real de uma pintora que viu a sua obra ser vendida pelo seu marido como se tivesse sido este o autor. É uma história simples, com um toque de comédia, cujo elemento gótico que caracteriza a obra do autor se encontra no mote para a história: os quadros. Estes quadros teriam sido um sucesso na sua época e têm em si um certo toque de bizarro. Percebe-se desde logo a razão pela qual o autor gosta deles. A forma como as personagens dentro do filme lidam com os quadros, do comércio à própria crítica de arte, é em si mesma uma espécie de homenagem à autora real, que ainda se encontra viva e a pintar por aí.
Mas este filme distingue-se pelo cuidado dado à caracterização e desenvolvimento dos personagens e ao excelente trabalho de actor que lhes deu uma vida única e real. De um lado, temos uma mulher ingénua, com pouca experiência de vida que, ao acreditar no charme de um charlatão, se vê envolvida numa mentira que a consome, perturba e enlouquece. Isto força-a a crescer enquanto personagem, com ajuda da filha (que poderá mesmo ser considerada apenas um mecanismo narrativo, mas que tem muita importância), de forma a poder combater contra o seu nemesis. Este, o tal charmoso charlatão, possui uma dicotomia de sentimentos, em que acabamos por perceber que cai na sua mentira como forma de escape por nunca ter obtido respeito enquanto artista, se é que ele se pode considerar um artista. Nas suas cenas finais, isto toma contornos muito dinâmicos, em que o personagem é tido como louco e toma realmente atitudes que se enquadram nessa palavra. É uma relação muito interessante e o desfecho não podia ser melhor.
Todo o filme tem uma certa aura surreal por causa da variação da paleta de cores. Todo o filme parece demasiado luminoso para o contexto, e em oposição aos quadros. Isto oferece ao visionante um ambiente de quase sonho, em que se torna difícil de distinguir o que é mentira do que é verdade, contribuindo para a nossa compreensão dos dilemas dos personagens.
Em termos musicais, temos um tema recorrente muito interessante, mas podemos dizer que a pior parte do filme foi a intervenção de Lana delrei, ou como se escreve, que nos apresenta duas músicas desinspiradas e aborrecidas, que não se coadunam com o resto do ambiente do filme.
Mas no geral gostei muito: há muito tempo que não encontrava um personagem que odiasse tanto logo desde o início. :)
By : ladyxzeus
