• Dez Dias que Abalaram o Mundo

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    Dez Dias que Abalaram o Mundo
    John Reed
    1919
    Não-Ficção

    Recebi este livro como RABCK no BookCrossing.

    A Revolução Russa é um assunto do qual apenas soube nas aulas de história. Tinha uma vaga noção de que chegaram os bolcheviques e mataram a princesa Anastácia à queima-roupa. Com este livro, para o qual me inscrevi por puro acaso, vim a aprender uma série de coisas que não se conjugam em nada com aquilo que eu pensava.

    John Reed foi um dos pouquíssimos comunistas americanos. Estava na Rússia, em Petrogrado, quando aconteceu esta revolução vermelha e, assim, pôde narrar-nos com toda a exactidão o que realmente se passou. E o que realmente se passou parece digno de um livro de Kafka.

    Para começar, a minha primeira realização. Sempre aprendemos a primeira guerra mundial e a revolução bolchevique em capítulos diferentes. Por isso, apesar das datas (1917 e tal), nunca me ocorreu que as duas se passassem ao mesmo tempo. Isso explica muita coisa. Afinal, o mote para tantas revoluções são exércitos a passar fome.

    Mas a diferença destas pessoas para outras, de outro lugar qualquer do mundo, é que estas pessoas são comunistas. Comunistas na origem do comunismo. Eu gosto bastante da teoria, mas este livrinho vem a provar que é tudo demasiado difícil para funcionar. Demasiado burocrático. Vejamos um exemplo abstracto:

    "Muito bem, estamos a fazer a revolução. Vamos tentar organizar-nos de forma democrática. Por isso votamos. Votamos num comité que vai votar para formar outro comité que votará a divisão igualitária de bens por todas as pessoas, que se formam em comités e votam para decidir a divisão igualitária real, por todos aqueles que votam"

    É mais ou menos assim ao longo de 10 dias/250 páginas.

    Isto é hilariante, mas ao mesmo tempo um pouco triste. Afinal, as ideias são boas. As pessoas é que as complicam.
  • Persepolis

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    Persepolis
    Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
    Animação
    2007
    7 em 10

    Para a segunda volta, o Qui escolheu este filme, sobre o qual eu até alimentava uma certa curiosidade. Baseado na banda desenhada de mesmo nome, faz um bom trabalho na adaptação, pois parece realmente que estamos a ver um conjunto de vinhetas com movimentos.

    O filme, flagrantemente autobiográfico, conta a história de Marjane, uma miúda com ideiais fortes que viu o Irão como era e como se tornou. Muitas pessoas pensam que estes países começaram desde logo por ser habitados por malucos com toalhas na cabeça, mas a verdade é que eram bastante parecidos com as nossas terras antes da revolução os ter impelido para uma ditadura religiosa. Tudo começa com Marjane em pequena, a descobrir a música e a tentar adaptar-se a uma realidade que cada vez mais se afasta daquilo que ela considera como a normalidade.

    Depois, estala a guerra. Marjane é forçada a viajar para a Europa. Ali, processa-se uma nova transformação.

    É um filme muito musical, falando da cena alternativa de cada país e falando, sobretudo, da dificuldade de uma jovem que sobreviveu a uma guerra em adaptar-se a universos nos quais não se consegue integrar. De um lado, não tem liberdade para se expressar e é vítima de um machismo inerente q1ue não pode suportar. Mas por outro lado, na Europa é vítima de constante racismo e é forçada a fingir ser alguém que não é para poder sobreviver. Isto, é claro, leva à depressão, retratada com excelência e mestria que apenas pode ser atingida por quem já lá esteve.

    No respeitante a animação, temos uma abordagem bastante original: preto, branco e toda uma variedade de cinzentos. Toda a história do passado, certamente por alguma razão simbólica, está retratada nestas cores (ou não-cores), que se apresentam com muita variedade de matizes. Existem momentos altamente originais que retratam uma diversidade de sentimentos e, no fundo, acabamos por nos converter a esta vida a preto e branco.

    Um filme bastante bom, forte e educativo no que respeita à realidade da guerra do Irão. No entanto, acho que a banda desenhada poderá ser ainda mais impressionante.
  • Invention of Love

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    Invention of Love
    Andrey Shushkov
    Animação - Curta Metragem
    2010
    6 em 10

    Depois, para bater a hora certa, vimos algumas curtas metragens, mas só me lembro bem desta (não me estava a sentir muito bem)

    Uma interpretação do teatro de sombras tradicional, conta a história de uma paixão entre uma mulher normal e um homem mecânico, com subsequente tragédia. A história tem o seu interesse e mereceria uma continuação, pois há material no conceito para isso. 

    Em termos de animação, a escolha estilística é interessante, mas acaba por ser um pouco aborrecida passado uns minutos, pois tem muito pouca variedade, sendo o detalhe apenas limitado a alguns momentos. Há uma boa utilização de luz nas cenas nocturnas, mas na maior parte do tempo a cor dos cenários não enfatiza as figuras negras, que se movem. Para mais, a utilização de elementos digitais não funciona muito bem neste contexto, pois a tridimensionalidade acaba por não fazer grande sentido.

    Ainda assim, isto é coisa para durar dez minutos, portanto aí fica para vocês verem :3


  • Black Mirror - White Christmas

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    Black Mirror - White Christmas
    Carl Tibbets e Charlie Brooker
    Séria Special - 1 Episódio
    2014

    Black Mirror foi, possivelmente, a única série da actualidade que eu vi. E o meu sentimento em relação a ela é que devia ter muito mais episódios. Assim, foi com alegria que aceitei a sugestão do Qui para vermos este episódio especial, dedicado ao Natal.

    O episódio trata três histórias diferentes, todas com o tema recorrente do "Natal", que se interligam no final em termos narrativos e de conceito.

    Tudo começa com dois homens que se encontram há "cinco anos" na mesma casa. Um deles prepara o jantar de Natal enquanto fala da sua história e tenta saber mais sobre o seu companheiro. A sua história está relacionada com uns olhos especiais, que toda a gente tem. Através deles ele serve de conselheiro amoroso a jovens com problemas afectivos, mas quando tudo corre mal vê-se "bloqueado", o que significa que não pode ver o seu interlocutor, nem ouvi-lo, e o contrário.

    Depois, fala do seu trabalho real. É conselheiro também, mas conselheiro de consciências. Aqui, é introduzido um novo conceito, os "cookies": cópias da nossa própria consciência que podem ser usadas para diversas tarefas. No caso, tomar conta da casa. Aqui se coloca a questão moral: será que está correcto utilizarmos a nossa consciência, ainda que seja apenas feita de dados, e torturá-la? Será que é de todo justo fazer uma cópia dela? E, afinal, para que serve?

    É o que observamos na terceira história, mas não falemos disso. Aqui, o outro homem começa a contar a sua história. Mais uma vez voltamos ao conceito do "block", mas com uma narrativa de afectividade e obsessão, com um personagem muito bem caracterizado na sua loucura.

    Assim, este longo episódio - longo como um filme - apresenta-nos conceitos modernos, uma ficção científica altamente realista como aquela a que toda a série nos tinha habituado. Os efeitos são vagos, mas afectam-nos emocionalmente, pois há uma transposição para a nossa realidade e as consequências dissodão que pensar, quase filosofia.

    Assim, recomendo este episódio para todos os fãs da série. Quem nunca assistiu também pode ver este episódio, pois nenhuma relação - fora o tema - tem com os anteriores.
  • Stoner

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    Stoner
    John Williams
    1965
    Romance

    Recebi este livro pelo BookCrossing, onde falaram muito bem dele. Não sabia bem qual o assunto a tratar, mas definitivamente não é sobre pessoal que gosta de ervas aromáticas. Na verdade, trata-se de um livro simplesmente maravilhoso, que foi um prazer ler, que não consegui largar desde as primeiras palavras. Por isso, foi lido num instante, o que está em comum com as acções do resto da lista deste BookRing, que avançou tão rápido que me cheguei a surpreender.

    Stoner é um homem que, vindo de um meio rural, entra na faculdade para estudar agricultura. Existe no seu curso uma aula obrigatória de literatura inglesa. Quando ele tem essa aula, o professor impressiona-o de sobremaneira e ele descobre uma paixão, antes desconhecida, por livros, letras e literaturas. Assim, muda de curso e acaba ele próprio por se tornar um professor desta faculdade.

    Seguimos a vida de Stoner até ao melancólico momento da sua morte, aprendendo sobre as suas relações interpessoais e sobre o seu casamento falhado. A escrita é directa, bastante simples, e não conseguimos deixar de gostar deste personagem que, apesar de tudo, não passa de uma pessoa normal. O que o distingue de todos nós é a forma como se processa a sua imersão no universo literário, onde se perde e se apaixona, aprendendo mais coisas sobre a sua própria vida. 

    O facto de Stoner ser professor transmite aos outros personagens e ao leitor esta paixão inusitada pelo mundo dos livros e da literatura clássica. Num ambiente nostálgico e muito realista da faculdade, que nos faz sem dúvida ter vontade de lá voltar, temos aulas com este professor e aprendemos uma série de coisas, não só sobre letras mas também sobre que acções podem ser correctas ou incorrectas para viver socialmente de forma agradável.

    Os detalhes da sua vida pessoal apenas trazem mais realismo a esta pessoa que, sendo imaginada, pode ser localizada com exactidão num qualquer corredor ou gabinete, de uma qualquer faculdade que conheçamos. A incompatibilidade do casal, com consequências quase trágicas para o fruto dessa união, é apenas exacerbada pela paixão encontrada em outra pessoa, que partilha do gosto literário e que pode - com o nosso personagem - fazer actividades que ele realmente gosta. É, de certa forma, irónico como a oposição destas duas relações consegue estabelecer um personagem de força extrema, a quem queremos tanto que os momentos finais são para nós dolorosos, como se tivéssemos perdido alguém extremamente importante: como se um professor que respeitamos muito estivesse na mesma situação.

    Um livro que me apaixonou desde a primeira linha e que recomendo a todos que leiam. Recomendo-o de tal forma que o vou oferecer de presente de aniversário a um amigo. :) Curioso o facto deste livro ter estado perdido no espaço-tempo até ter sido recuperado por uma casual tradução francesa. Como semelhante obra se manteve na obscuridade é um mistério. Mas talvez tenha sido melhor assim.
     
  • Bamboo Blade

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    Bamboo Blade
    Saitou Hisashi - Square Enix
    Anime - 26 Episódios
    2007
    6 em 10

    E agora passamos para um anime perfeitamente normal. Acredito pouco nas escolhas que as distribuidoras americanas fazem para o anime que passa nas suas televisões e, mais uma vez, tal se prova.

    Este é um misto de anime de desporto, Kendo, com um fatia-de-vida breve e pouco complexo. Seguimos a vida e aventuras de um grupo de meninas, focado na personagem de Tama-chan, que estão unidas pelo desporto, participando num clube de kendo e em vários torneios desta mesma actividade.

    Em termos desportivos, o anime não capta muito o interesse. O jogo não está explicado de forma estruturada, pelo que acompanhar os combates não é simples, e não é o foco principal do anime. Na verdade, aparenta ser irrelevante qual o desporto que une todas estas meninas. O ponto em que a história se esforça mais é no desenvolvimento de Tama-chan e das suas relações com as outras pessoas, isto é, na forma como ela faz amigos e se abre mais a situações sociais diversas. Ainda assim, a personagem não fascina, pois é extremamente simples, e todas as outras pessoas que participam nesta história têm pouco foco e desenvolvimento, caracterizando-se simplesmente pelos seus traços principais. Não digo que sejam personagens extremamente fracas, pois estes traços acabam por ser bastante divertidos e trazem uma boa dinâmica à série.

    Não temos grandes momentos de animação que nos falem muito sobre a arte. O design dos personagens é variado e apropriado às suas características. Talvez haja um foco demasiado sobre as séries de Tokusatsus que Tama-chan vê e que não aparentam ser necessários, se não para uma homenagem um pouco desregrada a este género em si.

    Musicalmente, temos pouca coisa para além das músicas destas séries, que aparecem em tom jocoso. Apesar da OP não cativar, a ED acaba por ficar na memória. Em termos de vozes, são pouco distintivas.

    Um anime que não prima pela sua apresentação, mas que poderá ter um efeito relaxante conforme a altura em que seja visto.
  • Metropolis

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    Metropolis
    Rintaro - Madhouse Studios
    Anime - Filme
    2001
    8 em 10

    Para finalizar a noite, um excelente filme. Tenho uma história curiosa acerca dele: na verdade, eu tinha este DVD. Comprei-o há muitos anos, e até me lembro que foi na Worten de Santarém. No entanto, por alguma razão, o DVD desapareceu no tempo e no espaço e nunca cheguei a ver o filme! Por isso, estava muito curiosa em relação a ele. Não desaponta, de todo.

    Metropolis é uma cidade megalómana em que grande parte das actividades é feita por robots. Na verdade, estes vivem em paz com os seres humanos, tratando dos seus assuntos, até à chegada de um político maligno que tem intenção de os destruir a todos. No entanto, esse homem manda um cientista louco construir um robot que será o líder de toda a humanidade. Quando há um incêndio na oficina deste cientista, Kenichi salva este robot, de nome Timo e fogem de uma série de situações.

    A história é bastante curiosa e tem alguns pontos de debate extremamente interessantes. Na verdade, a questão que aqui se coloca é a da humanidade do robot, enquanto entidade. Será que poderemos criar uma máquina tão humana que ela própria não saiba a sua definição e se questione "quem sou eu"? E se criarmos esta máquina, será que pode ser considerada um super-humano? Para mais, se queremos eliminar todas as máquinas - que não podem ser influenciadas pelo super-humano - que sentido fará entregar a nossa vida a uma delas? São tudo elementos questionáveis que nos fazem pensar ao longo de todo o filme.

    Com um conjunto de personagens bem construídos e realistas, compreendemos ao longo do filme as várias facetas da humanidade, em que o humano é um ser vivo e pensante. A ironia das acções dos personagens, perpretadas contra outras pessoas e, sobretudo, contra robots, é um ponto de muito interesse ao longo de todo o filme. Sobretudo emocionante é a parte em que os rebeldes, que sugerem libertar os robots, assassinam Pero de forma a poderem entrar na cidade (onde são imediatamente trucidados)

    A animação faz muito uso de momentos digitais, mas que estão muito bem integrados nos cenários. Todos estes cenários, segundo o que me dizia o Qui, podem ser considerados uma homenagem estética ao original dos anos 20. É como se este filme quisesse trazer esse ambiente ao de cima, mas fazendo uso de muita cor e brilho, com variadas matizes, o que torna a cidade num local muito realista onde acontecem momentos de grande beleza.

    Também relacionada com os anos 20 está a música, que se apresenta num misto de jazz dançável que traz muita emoção às cenas de acção. A cena final, de destruição total, é acompanhada por uma música alegre que muda completamente o teor do filme: a cena de horror passa a ser apenas consequência natural das acções dos personagens até lá. E, na verdade, a tabela de mortandada acaba por não ser assim tão elevada.

    Com tantos personagens memoráveis, inseridas dentro de um contexto quase brilhante, não poderia deixar de acrescentar Timo aos meus planos de cosplay, que poderão ver no Cosplay Portfolio. :)

    Um filme que recomendo bastante e que me ficará na memória durante muito tempo. Na verdade, nessa noite, até sonhei com ele!
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