Livro Sem Ninguém
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Livro Sem Ninguém
Pedro Guilherme-Moreira
2014
Romance
Quando vou jantar com o meu pai (quase todas as semanas) ele tem o hábito de ir à Fnac. Costumamos ir ao Colombo, só por questões relacionadas com dentro ou fora de mão, e lá está ele na Fnac. Às vezes já ele comprou cinco livros quando eu chego, bem, a verdade é que quase sempre compra um, dois ou sete livros cada vez que lá vai. (Lê todos). Desta vez fui dar com ele na secção de Economia e ele revelou-me, com muita tristeza, que nesse dia não ia comprar livros. Então... Eu comprei um! Olhei para este livro e achei uma gracinha. Fui ler a sinopse, achei fofinha. Li algumas páginas, pareceu-me giro... E aqui está ele na minha montanha. Preciso mesmo de umas prateleiras novas!
Mas... Não há bela sem senão. É sem dúvida um livro muito atractivo, mas foi um pouco diferente daquilo que eu esperava. Vamos ver...
Este é um livro onde não há pessoas. Há poucos animais, muitas plantas e, sobretudo, os objectos das pessoas. É pelos movimentos dessas coisas que acabamos por perceber o que se vai desenrolando nesta rua onde cada casa tem uma cor. Ora, o grande defeito é que em cada casa vive um ser - que supomos que seja uma pessoa porque usa chapéus de chuva, óculos e sapatos, entre outros - que acaba por ser um estereótipo, daqueles feios. Temos os velhos, temos a adolescente grávida, temos ciganos, temos gays e uma pessoa que não se percebe muito bem o que é. A florista faz arte, no café vê-se quem morre (o café até parecia ser bom, com a sua variedade de chás, mas é um bocado tétrico). Ah e temos a origem de todos os males, que são os drogados. Foi esta a primeira coisa que não gostei: cada estereótipo está etiquetado com uma faixa de "bom" ou "mau". Para o autor, todos os ciganos são violinistas e todos os drogados são maus. E pelos vistos o autor também vive nos anos 90, porque os drogados andam a dar no cavalo ao lado das casas das pessoas.
Também pensei que o livro pudesse ser confuso, dado que não há exactamente personagens. Ou não deveriam haver. A verdade é que a cada personagem acaba por ser dado o nome de um objecto. A bengala, a gramática verde clara, o lenço aos quadrados, os sapatos vermelhos, os óculos azuis, as camisas negras. Cada um é o habitante de uma das casas. Para isso mais valia ter feito tudo com pessoas e ter-lhes dado os nomes de José, Manela e Isaura.
Gostei da descrição das mudanças na horta, embora me tenha parecido que para haver tanta vida vegetal a horta deve ser enorme. Mas foi essencialmente isso o que gostei. Porque de resto a história é vulgar, um crime passional, um acidente, um assalto. A sinopse dizia que através dos objectos se ia falar de intolerância e justiça e muitas coisas, mas isso é verdadeiramente impossível quando os personagens não têm a profundidade das pessoas reais.
Ainda assim, o problema pode ser meu. Vamos submeter o livro ao teste do BookRing!
By : ladyxzeus
O Baile
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O Baile
Nuno Duarte e Joana Afonso
2013
Banda Desenhada
Quando esta BD ganhou os prémios todos do AmadoraBD, pensei que seria bom lê-la para me informar melhor (como o tenho vindo a fazer) sobre este universo aos quadradinhos. Mas quando cheguei à banca da Kingpin... Já estava esgotado! Mas houve uma segunda edição! Então fui à festa de lançamento, onde o comprei e me deram este belíssimo autógrafo:
Confesso que o tema "zombies no Estado Novo" não era algo que me atraísse. Mesmo assim, queria ler o livro e tirar a prova por mim mesma. Não me podia ter surpreendido mais... E pela positiva!
Rui Brás tem a triste sorte de ser inspector da PIDE. É enviado para um vilarejo onde algo estranho se está a passar... E descobre o que realmente se está a passar. Um policial com um twist de terror fantástico, muito bem localizado no tempo e no espaço. Começo pelo personagem principal: ele poderia ser apenas um mocinho mascarado de vilão, mas tem mais profundidade que isso. De forma breve mas enxuta, é-nos dado a conhecer o grande descontentamento deste inspector e a sua falta de motivação. Não é que seja um homem bom, mas é um homem como todos os homens e tem a sua fraqueza no sofrimento dos outros. Daí que faça muito sentido a sua tentativa de proteger os habitantes da aldeia e a acusada de feitiçaria que se tornará sua protegida.
Os outros personagens são tipicamente portugueses, nos seus hábitos e - sobretudo - na sua linguagem. A linguagem vernacular invade todo o livro, colocando-nos como mais um estranho na aldeia, tal como Rui Brás. Em termos de personagens, o vilão (que não poderei revelar para não tirar a graça ao livro) está desenvolvida de maneira muito especial, notando-se o cuidado em lhe dar traços de personalidade que se coadunam mais tarde com as razões pelas quais ele está a fazer mal à vila. O mal, são os mortos que vêm do mar. Zombies marinhos, portanto. Aí está uma forma original de pegar no assunto dos zombies, tantas vezes repetido e espezinhado que acaba por chatear.
Nada isto seria possível sem uma arte detalhada e muito própria, com traços fortes nos personagens, quase caricaturais da figura humana. Integram-se perfeitamente nos padrões e cores dos fundos, criando um ambiente de horror quase infernal na pequena aldeia onde se passa a história.
Ah, e adorei a dica das musicas que passavam na rádio!
Realmente, uma bd excelente!
By : ladyxzeus
alguém desarruma estas rosas e outras estórias
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alguém desarruma estas rosas e outras estórias
José Carlos Fernandes
1997
Banda Desenhada
Livro que comprei no AmadoraBD porque era só 3€ e o título fascinou-me.
A
minha primeira impressão: deveras fascinante. Cada história levava-nos
para um universo onde a lógica é desconhecida, numa tonalidade onírica
apenas fundamentada pela sequência de imagens. Os desenhos, detalhados e
realistas, apesar da característica cartoonistica que identifica o
autor, o que dá uma energia a cada "conto" apenas superada pela
qualidade das histórias.
Estas,
como disse, entram no campo do surrealismo. É-nos apresentada uma
situação que, no final, se revela como parte de uma realidade paralela.
As minhas histórias preferidas foram logo a primeira, sobre a casa de
uma namorada cheia de coisas estranhas, e a que dá o título ao album,
uma pequena interpretação da morte.
E
lá estava eu a pensar "mas que genial, nunca pensei que houvesse disto,
que bom que comprei este livro!" quando vejo as notas finais. Quase
todas as histórias... Não são originais. São bedêzações de contos de
autores clássicos. Por isso não admira que fossem geniais... Mas o génio
está no autor? Ele desenhou a visão que tinha dos contos, mas
desapontou-me que não tivessem vindo da sua cabeça.
Ainda assim, acho que vale a pena ler e reler, porque é extremamente divertido e digno do (ainda em manutenção) Tripanário.
By : ladyxzeus
É de Noite que Faço as Perguntas
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É de Noite que Faço as Perguntas
David Soares, Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara
2011
Banda Desenhada
Este, recebi-o no BookCrossing. Para variar, alguém fez u7m ring, no tema dos autores portugueses, de Banda Desenhada. Inscrevi-me logo!
Apesar de já ter uma paixão pelo autor, não posso dizer que tenha apreciado muito este album. Segundo consta, na introdução, convidaram David Soares a falar sobre a primeira república, a ser desenhada por cinco autores diferentes.
Cada autor tem um estilo muito próprio que acho que se integra muito bem no tempo-espaço da narrativa. Não gostei muito do último, pois achei o estilo demasiado rascunho para se adequar ao ponto final da história. Depressivo é, certamente, mas coloca um ponto final muito difuso e, parece-me, pouco conclusivo.
Agora, para mim o grande problema reside na história. Tudo isto pareceu-me mais uma narrativa de factos históricos do que a experiência real de uma pessoa real. O facto de repetidamente aparecerem as páginas da carta ao filho foi uma insistência que me desconcentrou e irritou. A verdade é que a história da primeira república deve ser celebrada mas não é especialmente emotiva ou interessante, sobretudo com a sucessão de nomes, uns atrás dos outros, que mal reconhecemos, mal aprendemos isto na escola e o livro não é claro na explicação.
Desapontou-me, mas não será por isso que desistirei de tão excelente autor.
By : ladyxzeus
O Pequeno Deus Cego
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O Pequeno Deus Cego
David Soares e Pedro Serpa
2011
Banda Desenhada
Livro que comprei no AmadoraBD apenas para repetir o autor.
Um livro simples que é muito mais do que aquilo que aparenta. Fala sobre uma menina (ou um menino?) sem olhos que procura uma resposta para o seu problema. Encontra o caminho com a ajuda de um velho sábio, que parece mover-se através dos tempos. Dado que o seu acompanhante, o urso panda, não pode ser real (panda carnívoro), atrevo-me a imaginar que esta visualização não passa de uma imaginação infantil, resposta ao facto de não se poder ver e de se encontrarem coisas para além do que os olhos podem captar.
Há um encontro com um dragão, um monstro. Imaginação? Talvez também o seja. Mas o monstro é de uma graça interessantíssima, cheio de humor e de inseguranças que podem reflectir também os desejos ocultos da figura materna. Talvez o monstro seja, efectivamente, a mãe. É através da inocência, do que não vê e nada esconde, que essa figura é enfrentada e acaba por se autodestruir.
Interpretações à parte, é um album muito interessante, cheio de detalhes - tanto na narrativa como no desenho - que transmitem um certo ambiente de misticidade que não pode ser ignorado nem ultrapassado. A utilização das palavras é de mestre: a história assustadora transforma-se num exercício de humor e de espanto, página a página.
Fico feliz por ter adicionado este livrinho à minha pequena, mas crescente, colecção. :)
By : ladyxzeus
A Morte Feliz
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A Morte Feliz
Albert Camus
1936
Romance
Nunca tinha lido Camus. Assim, quando apareceu a oportunidade no BookCrossing de receber este livro, fui logo a primeira a por o dedo no ar! Diziam os comentários no site que este não seria o melhor livro dele e que toda a gente estava desapontada. Também que não era o melhor para começar. Mas achei precisamente o contrário. A verdade é que adorei o livro e tornou-se bastante especial para mim. Espero poder ficar com ele. Li-o de uma assentada no comboio para o Porto (como verão, mais livros virão e eu rimei)
Este livro fala da depressão. Um jovem que se sente inadaptado na sua cidade e na sua época, acaba por assassinar um conhecido que tem muito dinheiro, roubando-lhe a fortuna e viajando pela Europa. Na sua viagem, apenas encontra mais angústia, decidindo mudar-se para perto do mar, onde é assolado por uma misteriosa doença que acaba por lhe ceifar a vida.
Isto tudo poderia ser quase um Crime e Castigo, excepto que este livro não explora os conceitos de arrependimento e redenção. São significantes os locais e os objectos que o personagem encontra nas suas viagens, cada um deles representando algo que o atormenta e lhe perturba o sistema biológico, levando ao desenvolvimento da doença que acaba por o matar e encontrar a paz. Essa paz será motivada pelo encontro com jovens raparigas numa casa de onde se vê o sol, lugar que representa a calma e o regresso à inocência primitiva. Talvez o facto de não se ter falado da infância do personagem tenha ajudado nesta afirmação.
O livro é leve, bem escrito, sem forçar o conteúdo depressivo. Apenas acompanhamos a viagem do homem, com o seu declínio e finalmente a recuperação, com toda a naturalidade.
No geral, gostei mesmo muito e recomendo. Agora estou cheia de vontade de ler mais deste autor.
By : ladyxzeus
Memória das Minhas Putas Tristes
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Memória das Minhas Putas Tristes
Gabriel García Marquez
2004
Romance
Um livro que fizeram o favor de fazer circular no BookCrossing. Era uma oferta, mas eu fiquei com tanta pena de não ter ficado com ele que acabaram por fazer um bookring. Viva! Viva!
Como saberão (ou não, acho que não li nenhum livro deste autor desde que tenho este espaço) eu adoro positivamente o senhor Gabriel. Acho-o super fofinho e adoro ler os livros dele, porque são fascinantes e muito divertidos. Não nos temas, os temas são sempre tristes, mas a escrita é perfeitamente deliciosa.
Neste livro, Gabriel disserta um pouco sobre a velhice. É o seu último livro e parece-me uma boa ocasião para falar sobre o assunto, que o deveria atormentar na altura. Um velho de 90 anos decide, no seu dia de aniversário, regalar-se com uma prostituta virgem. Ao entrar no seu quarto, ela está a dormir. E continua sempre a dormir. Daí se desenvolve uma história de amor, estranha mas muito pura.
O que distingue esta história é que o personagem, idoso e sozinho, nunca tinha aprendido a amar no passado. Nunca teve mulher, apesar de terem passado centenas de mulheres na sua vida. Nunca se tinha apaixonado. É perante a inocência e o medo da adolescente que ele aprende o que é verdadeiramente amar outra pessoa, desesperar-se por ela, apesar de a rapariga não ter nenhuma acção directa na sua vida e nunca trocarem uma palavra.
A escrita é, como sempre, fluída e cheia de charme. A melancolia está muito presente e toca profundamente no coração do leitor.
Um livro que gostava que o meu pai lesse, por isso acho que o vou comprar para lho oferecer. :)
Um livro que gostava que o meu pai lesse, por isso acho que o vou comprar para lho oferecer. :)
By : ladyxzeus


