A Cidade
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A Cidade
Frans Masereel
1925
Banda Desenhada
Recebi este livro num BookRay do BookCrossing, internacional. O livro veio da Argentina! Mas pode ser internacional porque não tem palavras.
Não sei se pode ser considerado banda desenhada, graphic novel, porque o conteúdo é estranho, sem uma narrativa concreta. Essencialmente, através de xilografia a preto e branco, o autor mostra pequenos detalhes da vida íntima numa grande cidade. Cada painel, uma página inteira, mostra uma situação, um evento.
Começamos por conhecer a cidade, o ambiente hostil e poluído, cheio de gente, desconfortável. Depois, passamos para coisas mais específicas, coisas que acontecem todos os dias em todas as cidades. Há um claro contraste entre as pessoas ricas, distraídas com compras, bacanais e espectáculos; e entre as pessoas pobres, que fazem tudo isto mas numa escala muito menor. No entanto, sejam pobres ou ricos, há a denúncia de uma fragilidade, aquela comum a todos os seres humanos. Os painéis que gostei mais (e que não posso partilhar, à falta de scanner ligado ao meu computador aqui no trabalho) demonstram precisamente este ponto.
Um deles mostrava um homem, numa casa cheia de livros e ornamentos, enforcado. O banco negro ao seu lado passa desapercebido no meio de tantos detalhes, mas quando reparei nele a imagem ganhou uma nova força. O outro mostrava uma escadaria, numa casa também ornamentada, completamente vazia, na noite, apenas iluminada pela lua. Completamente vazia com excepção de um gato branco, que desce a escada, solitário e independente, com certeza dirigindo-se aos seus afazeres nocturnos.
Não dou nota porque, como todos conhecem, não sei avaliar banda desenhada ocidental. Mas recomendo que visitem este autor, porque foi uma experiência muito interessante.
By : ladyxzeus
A Vida Inútil de José Homem
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A Vida Inútil de José Homem
Marlene Ferraz
2013
Romance
Um livro do BookCrossing que me despertou curiosidade pelo título. Revelou-se um belo livrinho, de que gostei imenso.
José Homem é um velho que, zangado com a vida, se está a desfazer das memórias. Uma grande biblioteca que pertencia ao seu pai. Um dia, conhece Antonino, um menino de Angola com uma perna de madeira. O livro conta a história desta amizade.
O desenvolvimento das personagens é sólido e patente. José Homem, à força de tanto conviver com o miúdo, acaba por se libertar do passado, coração de pedra que acaba por amolecer na forma de uma dedicação à educação de Antonino. Este, por sua vez, acaba por esquecer os horrores da guerra e até o gosto pelos horrores da guerra. Ambos crescem, mas um com o outro.
A prosa é bonita e plácida, por vezes poética. Ao início fez-me uma certa confusão os diálogos em itálico, fez-me sempre parecer de que estavam a falar muito ao longe. Mas depois habituei-me a essas vozes. Não gostei muito que houvesse notas de rodapé a explicar situações e referências, pareceu-me inútil.
Também achei que soube a pouco, o livro queria continuar mas não o deixaram. Afinal quem foi o autor do crime? E o que vai acontecer a Antonino e aos órfãos? Foram estas as questões que eu gostaria de ter visto respondidas.
De qualquer forma, um livro muito agradável, que recomendo.
By : ladyxzeus
Gorky Park
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Gorky Park
Martin Cruz Smith
1981
Policial
Martin Cruz Smith
1981
Policial
Este livro veio num BookRing do BookCrossing. Escolhi participar porque achei que ia gostar, achei que era mesmo Russo. Mas talvez por ter lido algo mesmo Russo há pouco tempo (O Doutor Jivago), não gostei mesmo nada. Foi uma dificuldade ler o livro e estava sempre quase a desistir de o ler. E percebi logo que não ia gostar na primeira frase.
O problema essencial deste livro é que o autor não é russo e não conhece a Rússia. Portanto, todas as descrições e elações e conclusões do livro... Passam por erradas. Agressivas. Inexactas. Quase, diria mesmo, desrespeitosas. O personagem principal está pouco desenvolvido e baseia-se quase exclusivamente na sua revolta contra o sistema. Ora, pelo que o autor descreve, esta é uma terra onde todos são infelizes e corruptos, excepto o personagem principal. Não conheço a Rússia, muito menos a Comunista, mas duvido que todas as pessoas fossem infelizes e corruptas.
A história desenvolve-se muito lentamente, com a conclusão evidente. A narrativa dá voltas sobre si própria, voltando sempre ao problema original (os corruptos vão matar o personagem principal porque ele foi contra o sistema). Nunca mais acaba e todos os detalhes à la Crime Scene Investigation são demasiado demorados e aborrecem. Cortam com o ritmo da leitura, porque - efectivamente - ninguém quer saber o que é que se escreveu nos relatórios. Sobretudo se já foi descrito antes.
Uma pequena parte do livro passa-se quando Renko, o personagem principal, está detido pelo KGB. Mas percebe-se mal o que se passa, porque há demasiadas pessoas.
Talvez a parte mais simples tenha sido a terceira, em Nova York. Mas a história puxa e repuxa as mesmas situações até à nausea.
Não recomendo. Um livro chato, ofensivo e que não conta nada de novo. E nem sequer está muito bem escrito! Acho que vou voltar aos russos verdadeiros, pelo menos esses sabem do que estão a falar.
By : ladyxzeus
Sedutora Endiabrada
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Sedutora Endiabrada
Harold Ramis
Filme
2000
4 em 10
Depois de ver um filme excelente, chega a noite e depois chega a manhã e depois chega a tarde e algures no meio desse processo aparece este filme. Depois de ver um filme excelente, um verdadeiro filme de merda! =D
Passe a expressão.
Um falhado, o que quer que isso seja, faz um acordo com o Diabo - uma gaja bouah - que lhe dá sete desejos em troca da alma. Os desejos são sketches "divertidos" em que ele muda de vida e tenta conquistar Allison, uma paixão platónica. Claro que como são coisas feitas pelo Diabo, corre sempre tudo o mal. O filme é perfeitamente idiota porque é tão inocente, até demasiado inocente. O Diabo é uma personagem divertida, porque faz "maldades" infantis, como dar rebuçados a doentes do hospital em vez de comprimidos.
Não há nada de bom neste filme, porque apesar de ser engraçadinho, está tudo muito mal feito. A cereja no topo do bolo são os "efeitos especiais" do Inferno, tão riduculamente maus que só me consegui rir às gargalhadas.
Vá lá, a parte boa é que se estava bem. O filme não foi bom, valeu o momento.
By : ladyxzeus
12 Anos Escravo
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12 Anos Escravo
Steve Mcqueen
Filme
2013
7 em 10
Já há tanto tempo que não ia ao cinema... Mas lá fomos nós (à tarde estive no zoo, a ter aulas. Mas no zoo!)
Filme fortíssimo com um tema complicado, o da escravatura nos Estados Unidos. Solomon é um homem com educação superior, uma família e liberdade. É importante no contexto da história dizer que ele é negro. Isto porque ele é raptado e vendido como escravo para o sul, onde ainda a escravatura não foi abolida.
De um "dono" simpático, passa para um "dono" louco e sádico (excelente papel de, se não me engano, Michael Fassbender), sendo vítima de vários maus tratos repetidamente. Não vemos muitas vezes os que são infligidos a Solomon: mais ocasiões há em que os seus companheiros escravos são atacados e magoados. Isto é, a violência do filme é mais psicológica do que visual, já que não aparecem muitos detalhes nas imagens e apenas podemos tirar conclusões daquilo que está implícito nos comportamentos dos personagens.
A narrativa é linear e, pelos vistos, passam-se 12 anos. No entanto, isto não é muito claro até ao final, pois não há uma grande transformação do personagem principal, quer em termos físicos como emocionais.
Destaque para as belas paisagens sulistas, rios e florestas que nos remetem para a cronologia da história.
É um filme que perturba e incomoda, um bom filme. Mas eu não aprecio quando as pessoas fazem mal umas às outras. Objectivamente, muito bom. Subjectivamente, senti-me mal.
By : ladyxzeus
Onde Crescem Limas Não Nascem Laranjas
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Onde Crescem Limas Não Nascem Laranjas
Amanda Smyth
2009
Romance
Já há algum tempo que não recebia um Ring do BookCrossing. Este foi o primeiro do ano.
O livro tinha-me atraído por causa do título. Quando vi o título original ("Black Rock"), questionei-me porque teriam mudado o nome. E ainda mais me questionei quando não encontrei a frase no livro, por mais atenção que tivesse ao momento em que deveria aparecer, indicado pela sinopse. Talvez não fosse atenção suficiente... Mais não gostei quando li a resenha da autora que, pelos vistos, é daquelas "profissionais" que são pagas para irem escrever um livro. Por experiência, o resultado desses esforços nunca é bom. No caso deste livro, não foi nada de fascinante.
Conta a história de Celia, uma jovem de Tobago (Trinidad e Tobago) a quem uma bruxa da aldeia dá informações bastante negativas sobre o futuro. Efectivamente, o futuro dela é bastante negativo. Muito sexual. E é neste ponto que eu acho que a narrativa peca por exagero. É conhecido que eu não aprecio por aí além cenas de sexo. Mas no caso deste livro elas não são sensuais. Na verdade, são muito pouco atractivas, quer a violação quer as cenas de amor. Fizeram-me impressão e eu simplesmente queria que tudo acabasse, pois são gráficas de forma pouco romântica e têm todas uma grande carga negativa. "Lamber como um cão" não é, claramente, a melhor maneira de caracterizar o sexo oral.
A história parece focar-se demasiado no sexo, nas cenas de "acção", sendo que a história acaba resumida e inconsequente. Cheira-me a continuação depois deste livro, mas se vier a existir quero evitá-la de todos os modos.
No entanto, nem tudo é negativo. A caracterização do espaço e da paisagem é luxuriante e apetitosa, quase dando vontade de tirar umas férias e ir visitar um lugar tão delicioso. Podem sentir-se as cores e os cheiros, até os sabores. Valeu a pena a viagem da autora para conhecer o lugar da sua história, porque - efectivamente - está muito bem descrito.
Enfim, um livro que poderá ser mais apreciado por senhoras que não tenham tanta vergonha interna como eu.
By : ladyxzeus
O Doutor Jivago
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O Doutor Jivago
Boris Pasternak
1957
Romance
Duas coisas que não fazia há muito tempo. Uma, ler um livro desta dimensão. Seiscentas páginas de literatura pesada e complexa. Duas, ler um livro russo. Sim, seiscentas páginas pesadas, complexas e russas. Saberão certamente que, apesar de não ler frequentemente, tenho uma paixão assolapada pela literatura russa, sobretudo os clássicos. Considerando que este livro foi escrito ao longo de mais de trinta anos, começando nos anos 10, acho que o poderemos considerar um clássico. Isto poderia servir de justificação para o facto de eu ter gostado imenso desta história, mas não foi apenas por isso. É um excelente pedaço de literatura, sem tirar nem por.
A história é muito longa. Conhecemos o Doutor Jivago, Iuri Jivago, desde a sua infância até à sua morte. Numa Russia convulsionada pela revolução, primeiro a bolchevista depois a comunista, Jivago vive aventuras que nos parecem extraordinárias mas que, efectivamente, aconteceram. Não a um mas a muitos homens e mulheres que viveram por esta época. São histórias de sobrevivência, de desespero, de fuga. É a demonstração da luta pela felicidade e pela segurança em época suficientemente conturbada para não existirem perspectivas de futuro. O verdadeiro significado da expressão "viver um dia de cada vez". Para nós, que nunca estivemos perante tal situação, esta expressão parece um "sê feliz, não te preocupes com o futuro". Mas para eles, para Jivago, não havia futuro. Num dia estamos numa longa viagem de comboio com a nossa família, para escapar à miséria urbana. No dia seguinte somos raptados pelo exército e obrigados a lutar uma guerra que não é nossa.
Confesso que houve algumas partes que não pude compreender totalmente, devido ao meu desconhecimento sobre os acontecimentos da época. Pouco conheço da revolução Russa, apenas o que aprendi nas aulas de história. E mesmo assim foi muito pouca coisa. Conheço algo sobre o Gulag, devido ao livro com mesmo nome, mas isso foi pouco referido - apenas no epílogo. Fiquei curiosa para saber o que realmente aconteceu, pelo que procurarei uma não-ficção para complementar o meu parco conhecimento.
Mas nem tudo neste livro são desgraças revolucionárias. Jivago é atormentado por um amor duplo, dividido entre a sua esposa Tonia e uma mulher do passado, Larissa (Lara). A forma como esta relação dúplice está relatada, não nos faz odiar o personagem de forma alguma. Porque, neste livro, o amor é um sentimento puro, de tal forma sagrado que todas as relações fazem sentido, sem haver culpa nem necessidade de perdão.
A narrativa, muito simples e directa, é coroada por imagens extraordinárias das paisagens russas, passando por todas as estações, desde o perigoso Inverno ao ardente Verão. São imagens quase fotográficas de florestas, de céus, de animais, complementadas com sons, músicas, onomatopeias, poemas. Houve passagens que tive vontade de apontar para citar aqui, mas como este é um livro em papel (e não do Kobo), não tive maneira de o fazer. Perdi-as. Fiquei com pena.
Falando de poemas, o livro tem uma décima sétima parte que se compõe da poesia escrita por Jivago nos seus tempos de reflexão (que ainda são bastantes). Não gostei muito destes poemas, pois não transmitiam tanta beleza como a prosa do resto do livro. O que gostei mais foi o Madalena - II, apesar do seu teor religioso. Todos eles têm algo de religioso dentro deles, o que me pareceu um pouco anti-climático perante aquilo que conhecemos do personagem.
Em resumo, este livro é uma fantástica adição para a minha biblioteca. Transmite uma sensação de nostalgia e tristeza que poucas obras conseguem transcrever. É o relato pessoal de um regime injusto e demasiado real, um relato que valoriza o ser humano em detrimento de um sistema que o diminuía. Uma obra de arte. Mereceu o Nobel, mas Pasternak não o pôde aceitar. Era esse o nível de censura a que todos estavam expostos. E é graças a este tipo de literatura que se prova, uma e outra vez, que tudo isso está errado. Todas as coisas merecem ser relatadas e todas as pessoas merecem saber a verdade.
By : ladyxzeus

