• 83ª Feira do Livro de Lisboa

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    83ª Feira do Livro de Lisboa

    Sempre adorei a Feira do Livro. Foi lá que comprei livros muito importantes para a minha vida, nomeadamente aquele que me introduziu ao paganismo (e, vergonha, era da Silver Ravenwolf. Mas bem, foi introdutório xD) No entanto, deixei de ir. Circa o ano em que entrei na faculdade, o que já foi há alguns anos. Este ano, finalmente, voltei! E vim de lá carregadinha de livros!
    Fui com uma fellow bookcrossiana, para falarmos sobre a organização da nossa convenção do site citado. Obrigada Lia!

    A Feira está disposta ao longo do Parque Eduardo VII, mas para a meio do parque, o que significa que é mais pequena do que eu me lembrava. Tem muitas bancas de alfarrabistas (à direita) e os grupos editoriais estão representados com espaços só para eles, com lugares para sentar e assistir a coisas. Não assisti a nenhuma, excepto um concerto de jazz que estava decorrendo no jardim. Existem muitos sítios onde descansar e acredito que as pessoas são bem vindas para os utilizar como espaços de leitura. Também existem muitas bancas com comida, muito chocolate, cerveja e farturas. Só detectei um sítio onde vendiam café, no entanto. Uma verdadeira feira, mas esta literária e, portanto, mais erudita. Quem diria que os eruditos também comem farturas!

    Mas o que interessa realmente são os livros, que estão com desconto em relação ao preço de montra. Na sua maioria os descontos não são especialmente grandes, mas existem secções de livros entre três e cinco euros, que eu aproveitei (está claro). Entre as 22:00 e as 23:00 existe a "Hora H", em que os livros editados há mais de 18 meses estão com 50 a 70% de desconto! Ainda vou lá aproveitar esta hora, porque havia alguns livros que eu queria e não comprei por estarem demasiado caros para mim.

    De resto, fica aqui o espólio obtido durante o dia de hoje:

    • Rainha D. Amélia - Uma Biografia (José Alberto Ribeiro) (este é para a minha avó, ela encomendou-mo)
    • Quando D. Quixote Morreu (Andrés Trapiello)
    • O Livro Perdido de Camões (Maria Coriel)
    • O Rapaz do Pijama às Riscas (John Boyne)
    • Debaixo de Algum Céu (Nuno Camarneiro) (este era o único que eu tencionava comprar, porque queria mesmo...)
    • O Exorcista (William Peter Blatty)
    • Truancy - Rebelião (Isamu Fukui)
    Se quiserem saber mais sobre o programa, por exemplo que pessoas vão estar a autografar livros, podem consultar o site da Feira aqui

    Vale mesmo a pena ir, mas vale mais a pena se forem acompanhados, porque o entretenimento é variado! Aproveitem!
  • Desconhecidos

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    Desconhecidos
    Taichi Yamada
    1987
    Romance

    Taichi Yamada, Taichi Yamada, eu conhecia este nome de qualquer lado, será que já tinha lido este livro? Afinal não, o que tinha lido era o Em busca de uma voz distante. Este segue a mesma linha de mistério e fantasmas.

    No entanto, o personagem principal parece estar a falar dos assuntos com uma indiferença tão marcada que é impossível identificar-nos com ele. Assim, a história que poderia ser assustadora torna-se irrelevante. Sabemos que ele sobrevive no fim, porque é ele o narrador, certo? Enfim, a escrita não é tão envolvente como o desejado numa história de mistério e fantasmas. O que já era um problema no outro livro que tinha lido dele.

    A resolução é surpreendente. Eu quase me tinha spoilado (apodrecido) porque li um comentário no bookcrossing a dizer "não estava à espera que *personagem* fosse quem fosse". Eu pensava que essa personagem era o Hideo, mas estava enganada. Então surpreendi-me. Surpreendi-me também com o detalhe dado a tudo o que rodeava a personagem em causa, porque foi inserido de forma delicada. No entanto, foi dado como evidente pelo narrador, o que estupidifica um pouco o leitor.

    Acho que, apesar de ser Japonês e de eu ser japanóide, não voltarei a pedir para ler livros deste autor.

  • Necromancia

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    Destino do Universo - Necromancia
    Frederico Duarte
    2008
    Fantasia

    Eis que também recebi o segundo volume da saga Destino do Universo, que se tinha iniciado com Avatar. Terminei de o ler ao pé de uma fonte em Tibães, a apanhar sol, enquanto ouvia os ensaios da orquestra para o Fairy Queen. Foi muito agradável.

    E confesso que estava errada em relação ao autor. Afinal ele consegue escrever coisas divertidas. Este livro é bastante superior ao primeiro volume. E eu acho que é devido ao facto de grande parte da acção se passar no "mundo real", a Terra, e das interacções entre pessoas mágicas e não-mágicas. Também por estarem dragões a atacar o Colombo.

    As cenas de acção continuam a ser muito abundantes, mas desta vez pareceram-me um pouco mais claras e menos aborrecidas, excepto as lutas finais. O livro deixa vontade de um terceiro volume, porque termina de uma forma muito aberta, mas creio que não existe?

    E uma constatação fascinante. Sinto-me idiota por não ter percebido antes. Um dos personagens é um self-insert (auto-inserção)! Vejam comigo Frederico (Duarte) ---> Fred ---> Fredisson !!! E a mulher do Frederico, autor, chama-se Ana. E a mulher do Fredisson chama-se Annya. Apesar de o autor se ter dado um grande poder, acho que ambos os personagens e a sua relação são os que estão melhor desenvolvidos e os mais realistas, o que é claramente devido ao facto de se basearem em pessoas e factos reais. Ainda assim o autor não exagerou em os tornar Mary Sues e Gary Stus e acho isso bastante bom.

    Descobri uma página no Facebook. Vou Gostar dela a ver se recebo novidades sobre um terceiro volume, um dia destes. :3
  • The Fairy Queen em Tibães

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    The Fairy Queen em Tibães
    Henry Purcell
    Ópera/Happening

    Como poucos de vós saberão, estive no Porto este fim-de-semana, a propósito de uma pós-graduação. Voltarei todos os meses para ela, mas só neste é que pude ter esta experiência única, que foi o "happening" da Fairy Queen. Como é que eu vim aqui parar?

    Pois que uma amiga minha, a Ana, está a viver no Porto. Conhecemo-nos no curso que ela, e muito bem, deixou para trás em detrimento de uma Licenciatura em Música Antiga. Claro que assim que confirmei que podia fazer a minha formação a contactei para nos encontrarmos e beber uns copos. Ao que ela diz que posso ficar na casa dela! Mas um senão: ela tem um espectáculo em Braga e só regressa à meia-noite. A solução foi infiltrar-me no autocarro dos artistas e assistir ao espectáculo! E lá fui eu! Inesperadamente, um autocarro cheio de músicos e cantores não vai a cantar...

    Enquanto ensaiavam, tomei alguns momentos para explorar Tibães, que é um mosteiro recuperado e tornado em sala de exposições e espectáculos. Nas paredes e salas estavam expostos alguns quadros, modernos e muito antigos também, e algumas instalações um pouco precárias, realizadas por alunos do oitavo ano (não se podia esperar muito, né?) Ficam aqui algumas fotografias que tirei com o telemóvel. Esqueci-me da máquina fotográfica apesar das insistências em que eu a levasse, por isso comecei a apagar coisas que estavam a ocupar a memória para poder tirar estas fotografias. Não ficaram nada de especial, como já vem sendo hábito.








    Mas bem, passo a descrever o que foi exactamente este "happening". Obtive o meu bilhete a metade do preço original, porque a Ana me forneceu um convite. O preço original era - espantem-se - seis euros. Eu paguei três. Pela qualidade do espectáculo é surpreendentemente barato.

    Levaram-nos para um salão no rés-do-chão onde um cantor nos disse para colocar-mos umas saias brancas e pretas de plástico que estavam no chão (eu não consegui nenhuma, depois vim a ver que metade dos cantores as roubaram para eles...) e ensinou-nos a dançar a shacona. Shacone, aliás. Ou lá como se escreve. É uma dança barroca e é uma seca. Um músico veio dançar comigo para eu aprender, mas eu não queria dançar com ele, nem manter contacto visual com ele, nem dar-lhe a mão, mas foi simpático. Este workshop foi para que, no fim, dançássemos com eles. Também nos ensinaram uma música, mas ninguém conseguiu apanhar nem a letra nem a melodia.

    Depois deram-nos comida e vinho do Porto.

    Quentinhos, seguimos para a Sala do Capítulo (na primeira foto) onde músicas barrocas se processaram. Estava lá um bebé pequenino que ficou impressionadíssimo quando a orquestra começou a tocar, com os olhos muito abertos. Palrava sempre que mudavam de andamento, devia querer cantar. Entretanto, ouvimos um homem aos gritos no corredor. "Mas que é esta m...." pensei eu. Mas afinal era um actor! Ele e mais outros três iriam fazer a peça do Sonho de uma Noite de Verão. Eram três brasileiros, que estavam todos bastante bem, e uma Portuguesa, que não estava assim tão bem. Depois os cantores cantaram e eu não gostei muito da parte do bêbado. Disseram-me depois (que depois fui jantar com eles e beber umas superbockes) que ele estava nervoso, o que se compreende, mas o que eu não gostei realmente foi do timbre de voz dele.

    Passamos para o exterior, para a fonte que vos mostrei, onde nos pediram para por umas máscaras douradas. Aqui estou eu com a minha:


    Mas enfim, dirigimo-nos todos pelo meio da floresta, a ouvir os passarinhos a cantar e de repente... ESTAMOS AQUI!

    Ok, esta foto não transmite a beleza deste sítio. Era um lago enorme, ladeado por cantores vestidos de fada e flautistas que também eram fadas mas tinham asas de anjo. A figura dourada que vêm na foto era a Rainha Titânia, com uma actriz que estava ali a mexer-se. Desenvolve-se a peça (Oberão dizendo "zut zut zut" como marca) e passamos outra vez para o meio da floresta. Disseram-me que se isto tivesse sido à noite teria tido um efeito de luz espectacular, mas era de dia, o que também foi um passeio muito bonito.

    A cena passou para um espaço em cimento muito grande, com a orquestra numa varanda e a cena a passar-se entre o chão e uma janela. Hilariante, por sinal, se bem que pouco exacta em relação à peça original (que eu já ensaiei uma vez. Ou tentei, tentámos, não correu muito bem...) Depois os cantores começam a cantar e cantam muito. Aqui está um dos momentos:

    Depois escureceu e apareceram vários cantores que eram o Sol e as Estações do ano. Quando as estações mudavam tinhamos que mudar as luzes com várias cores (deram-nos uma lanterna ao início), azul e vermelha e amarela e verde. E então eu estava à espera que aparecesse uma pessoa Lua, porque faltava. Então o Oberão diz

    "Olhem para trás"

    E lá estava.

    A Lua. Cheia. Enorme. No céu, atrás das árvores.

    Foi um momento lindíssimo, que eu queria ter partilhado muito.

    Demos todos as mãos e fomos para outro jardim, com uma fonte, onde foram as músicas finais e a dança. Eu escondi-me para não ter de dançar com pessoas desconhecidas outra vez, por isso vi tudo de costas. Mas as roupas que eles usavam estavam muito engraçadas, pareciam todas recicladas.

    No final ainda havia jantar, mas eu fui ajudar a Ana e os colegas a arrumar os instrumentos pelo que, quando chegámos, já só havia côdeas e queijo.

    Mas foi uma experiência linda. Quero voltar a este sítio, desta feita acompanhada. E tenho pena que a minha pessoa não estivesse lá.

    Se bem que imaginar-nos a dançar danças barrocas seja um pouco ridículo. Haha.





  • Space Battleship Yamato

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    Space Battleship Yamato
    Leiji Matsumoto - Academy Productions
    Anime - 26 Episódios
    1974
    7 em 10

    Estávamos nós a revolucionar-nos e estava o Leiji a revolucionar todo um género de anime e uma indústria inteira. Não tem comparação, nós tínhamos cravos e ele tinha aventuras no espaço. Yamato é uma delas.

    Num futuro que não é assim tão distante (mais cem anos e estamos lá), o Planeta Terra foi atacado pelo Planeta Gamilon e pelos seus habitantes (Gamilianos). Tal foi o poder do ataque que a radioactividade destruiu a superfície do planeta e a humanidade está condenada a viver debaixo do chão. O problema grave é que a radioactividade é de tal forma potente que está a penetrar a terra e vai chegar às pessoas dentro de, exactamente, trezentos e sessenta e cinco dias. Então aparece a salvação! Uma mulher chega morta de Iscandar com o recado de que se eles lá forem os Iscandarianos têm a solução! Infelizmente, Iscandar fica a 148.000 anos luz de distância. Mas eis que aparece... YAMATO! Inspirada no navio Yamato da segunda guerra mundial, é uma nave super-potente que os vai levar a Iscandar em tempo record! Ou será que não?

    Pessoalmente, eu não sou uma profunda apreciadora de ficção científica, mas esta série fascinou-me. Vi só a primeira season, ainda há mais duas, e vou ficar por aqui mas só por agora. É para continuar e depois ver o remake. Ou se calhar nem ver o remake: isto já é assim de bom!

    Normalmente séries dos anos setenta têm um defeito enorme: a arte envelhecida. Para minha grande surpresa, não é o caso de Yamato. Existem elementos característicos da era: os designs e a paleta de cores. Os designs são Leijianos até à medula, coisa com a qual não me importo nada. Marcou verdadeiramente uma geração e acho que são excelentes e muito expressivos. Gosto sobretudo das mulheres, que têm todas um ar diáfano e uma aura feminina muito delicada, mesmo quando são mulheres de força. O contraste é charmoso. As cores são limitadas e as sombras são sólidas e evidentes, de uma maneira que já não se usa. Isto costuma ser pouco atractivo, mas a qualidade imposta na arte deste anime transforma tudo isto em algo muito interessante, quer em termos visuais quer em termos históricos.

    A história tem algumas falhas, tal como inconsistências hilariantes na concepção da tecnologia. Está certo que todas as coisas têm de estar adaptadas à sua época. Mas não deixa de ser engraçado que as fardas tenham boca de sino, que tirem fotografias com uma polaroid ou que falem ao telefone entre naves espaciais. Em termos da narrativa em si só houve uma coisa que não compreendi e que creio que deveria ter sido explicada: porque é que os Gamilianos querem destruir a terra? Talvez venha a ser explicado numa outra season. Eles afirmam que é para que o planeta deles fique a salvo, mas o planeta deles é tão longe, qual é a relação de uma coisa com a outra? E uma outra coisa que me transcende, mas esta é uma dúvida que não tem nada a ver com Yamato. Coloco-a à mesma: os Gamilianos são azuis; as pessoas de Interstella são azuis; logo as pessoas de Interstella são Gamilianos; logo Gamilon encontrou a paz em 30 anos? Esta questão está-me a matar a cabeça!

    Mas enfim, futuro à parte, falemos dos personagens: são eles que trazem mais intensidade à história e as grandes questões filosóficas e emocionais deste mundo (gostei especialmente de quando capturaram o Gamiliano e se questionaram "mas ele é um ser humano!") O trio de personagens principais é o arquétipo shounen antes de o arquétipo shounen existir. Eles definem o arquétipo: pessoas corajosas, amigas do seu amigo, passado trágico, dedicação, bondade, dúvidas em relação aos seus objectivos e às suas capacidades. São eles que colocam as dúvidas ao público e é com eles que nos questionamos sobre o que realmente se passa nesta guerra, sobre o certo e sobre o errado. Outro personagem com uma presença muito forte é o capitão do navio, que por vezes tem atitudes incompreensíveis para o resto da equipa mas que demonstra notável coragem. E finalmente, não podíamos deixar de ter algum alívio cómico, um par de um veterinário bêbado (que também é médico de pessoas) e de um robot. Na maioria das vezes irritavam-me, mas eles próprios também eram capazes de perguntar sobre emoções e de as fazer aparecer em quem vê. 

    Finalmente, a música. Não podia se melhor. É a parte que gosto mais nos anos setenta: estas músicas épicas, heróicas, preparadas para serem verdadeiros hinos de guerra. Aparentemente, a OP deste anime tornou-se no hino não oficial da Yamato original (o tal navio da segunda guerra). Em termos parenquimatosos, temos uma banda sonora variada e característica, com uma música para cada tipo de momento e vários efeitos sonoros que adicionam à expressão das situações.

    Foi um anime que gostei muito e que recomendo. Não lhe dou uma nota mais alta porque apesar de tudo a progressão é um pouco lenta e por vezes errónea (como demorarem um episódio a mostrar as salas da nave em vez de as mostrarem ao longo da série. O que também é típico da época, mas que mudou por alguma razão). Mas recomendo bastante, vão ver. Vale a pena e é muito divertido!
  • 7os Encontros de Fado de Almada

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    7os Encontros de Fado de Almada
    Concerto
    Começo por dizer: se não formos nós a gostar de música Portuguesa ninguém vai gostar. Foi por isso que adorei que a sala de espectáculos do Fórum Romeu Correia, em Almada (terra que não é minha mas onde passo a vida), estivesse a rebentar pelas costuras. Eu gosto muito de música portuguesa de todos os géneros, mas fado é coisa que me deixa mais ou menos indiferente, apesar de ouvir muito. A verdade é que só fui a isto porque um amigo meu foi participar no concurso e me arranjou um convite, para eu ir fazer claque.

    Estes Encontros de Fado consistem, portanto, num concurso para descobrir novos talentos do fado e num convidado que faz um pequeno concerto a seguir ao intervalo. Esta foi a primeira eliminatória, com 8 concorrentes, sendo que deles quatro foram escolhidos para ir à final. Vai haver outra eliminatória em breve, mas a essa acho que já não vou, porque não vou fazer claque a ninguém. O prémio final é cantarem num espectáculo das Noites do Fado algures em algum lado e o primeiro lugar vai gravar um single. O meu amigo não ficou apurado, logo não vai gravar um single.

    A primeira parte teve a sua graça mas também teve os seus momentos de suicídio mental. Achei surreal que todas as vozes femininas fossem miúdas entre os 16 e os 18 anos, excepto uma senhora que ficou classificada. Elas diziam todas "ah isto é a minha vida", mas a maioria parecia que não tinha descoberto ainda a sua identidade. Depois, cantavam todas com a mesma voz, excepto a tal senhora que cantava com voz de karalhoke (ela própria disse que tinha começado a cantar o fado nessa situação). Dos senhores, havia um que também ficou classificado e que já tinha ficado três anos consecutivos, sem nunca ganhar. Esse era um grande intérprete. O senhor mais velho também tinha graça, depois havia outro que coitadinho. Esse teve a lata de pedir para cantar outra vez porque as guitarra estavam "dois tons acima" (ou abaixo) da primeira vez. Wat. As guitarras nem aparentaram mudar, ele cantou exactamente da mesma forma! Depois o meu amigo, que foi quem teve mais piada deles todos porque interagiu com o público e andava por lá a cirandar enquanto cantava a Mariquinhas. No segundo fado enganou-se, mas é a vidinha.

    Mas a parte mais interessante (eu já estava cheia de dores de cabeça com tanto fado nos meus ouvidos, queria ir-me embora no intervalo mas não tinha para onde ir) foi o concerto seguinte. Era uma fadista que eu não conhecia (e o meu amigo, que esse sabe realmente de fados, também não) mas que fez um concerto muito giro: Carla Pires. A voz dela era bonita e o arranjo das guitarras estava diferente do habitual, além de que interpretou poemas diferentes. O meu preferido foi o do cacilheiro, identifiquei-me com ele. Não o encontro no tubo, por isso fica aqui outra música que também foi muito bonita:


    Foi um espectáculo que demorou muito tempo, mas valeu a pena ter ficado até ao fim a aturar o chato do apresentador (sempre a dizer piadas sem graça nenhuma) para ouvir esta senhora. :)
  • Gogo Monster

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    Gogo Monster
    Taiyo Matsumoto
    Manga - 5 Capítulos/1 Volume
    2000
    7 em 10

    No meu clubezinho, todas as semanas, também recomendam um manga. Eu nunca o leio, porque nunca leio no computador e tenho, portanto, de comprar todo o meu manga. Mas de repente, estava eu na Anicomics quando vejo este volume abandonado. Ninguém tinha sequer olhado para ele. Era caro, mas considerando que tinha capa dura e uma caixa em volta... E que estava recomendado para ler esta semana... Trouxe-o. Valeu a pena? Sim!

    O manga é muito denso e bastante difícil de "entrar", mas à medida que se desenvolve torna-se numa história surrealista que se resume muito simplesmente: é a auto-descoberta de uma criança e o seu crescimento, ilustrados por uma metáfora visual.

    Yuki é uma criança inadaptada que acredita em monstros escondidos pela escola. A sua estranheza é-nos colocada em perspectiva por Makoto, um rapaz "normal" que se tenta aproximar de Yuki e compreendê-lo. Como moderador temos Ganz, um senhor velhote que toma conta do jardim da escola. É Ganz quem informa o leitor de que Yuki não está, efectivamente, maluco: é um processo normal das crianças e ele já viu muitas a quem aconteceu o mesmo. Finalmente, o personagem mais misterioso do grupo: I.Q. É um menino que é muito inteligente, gosta de coelhos e vive com uma caixa na cabeça. Acredito que este personagem seja outra criança incompreendida, como Yuki, mas que a caixa não seja real: a caixa é uma projecção do isolamento de I.Q., e a caixa vai crescendo e ficando negra até que no fim, depois de passarem pela "porta" se percebe que a caixa não é necessária. Existe a teoria de que I.Q. não é real, mas dado que ele aparece a interagir com quase toda a gente daquela escola não creio que ele seja uma alucinação colectiva.

    Agora, o ponto mais interessante deste manga é a percepção de Yuki da realidade, que vai ficando cada vez mais abstracta, dando um toque de surrealismo profundo à narrativa. Aliás, já desde início a narrativa é estranha e um pouco perturbadora. Note-se que o "ruído de fundo" (isto é, o texto) é quase todo palavras de crianças e crianças a brincar. Se "ouvirmos" isto, como se estivéssemos a ver e não a ler, o efeito é estranho e torna a leitura um pouco desconfortável. O que faz parte do ambiente global da obra, a meu ver.

    A arte é diferente do manga que eu costumo ler (considerando que eu costumo ler manga), com traços muito fortes, muito preto e muito branco. À medida que as estações - capítulos - passam, as texturas vão ficando mais vívidas e detalhadas, o que também pode representar o crescimento de Yuki em relação ao mundo que o rodeia. Por outro lado, pode também representar a sua alienação crescente. Existem painéis com um gosto artístico retumbante. O que mais me impressionou foi aquele quando Yuki entra na sala de aula e todas as pessoas têm orquídeas em vez de cabeças. É estranho, mas é belo.

    Acredito que valha a pena ler este manga, apesar de eu não ter compreendido em profundidade o que se passava. A minha interpretação peca por ser muito básica, mas eu própria sou muito básica. Ainda assim, leiam e vejam por vocês próprios.
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