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O Segredo de Joe Gould
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O Segredo de Joe Gould
Joseph Mitchell
1964
Reportagem
Este livro compõe-se de duas reportagens escritas para jornal por Joseph Mitchell, repórter durante os anos 30 em Nova Yorque. São dois "retratos", ou "perfis", de um vagabundo boémio da cidade nessa época, Joe Gould. Este "Professor Gaivota" era uma figura recorrente nos bares e nos lugares de cultura, onde fazia novos amigos e conhecidos e lhes pedia dinheiro para uma série de necessidades básicas.
O autor fala-nos da sua experiência com Gould e a sua impressão pessoal da realidade em que vive esta pessoa. O retrato, assim, acaba por ter um cunho pessoal muito activo, que culmina na teria sobre o livro nemesis do vagabundo: "A História Oral do Mundo".
Esta é suposto ser a obra prima de Gould, que já vem em milhões de palavras divididas por uma série de cadernos escolares que estão perdidos por diversos cacifos e armários por toda a cidade.
Acaba por ser uma obra interessante, mas perde um pouco a sua relevância. Penso que a maioria das pessoas pensaria que Gould é um tipo cómico, um tipo engraçado que não existe senão na fantasia do autor. Mas considere-se que ele existiu na realidade e o relato é muito triste, um pouco desrespeitoso e muito deprimente, pois ninguém deveria viver desta forma degradante.
By : ladyxzeus
Viagem aos Segredos da Maçonaria
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Viagem aos Segredos da Maçonaria
Miriam Assor
2010
Reportagem
De regresso à minha inusitada pilha TBR, encontrei este livro. E vamos começar por estabelecer uma coisa: eu conheço a maçonaria, de fora. Tenho pessoas que me são muito queridas e próximas que estão associadas a esta organização. Tendo isso em conta, pensei que este livro me fosse revelar algum tipo de elemento que eu desconhecesse e que, por isso, fosse de algum interesse.
Mas não.
Este livro é apenas mais uma teoriazinha da conspiração perpretada por uma pessoa exterior à organização, que nada sabe sobre esta sem ser aquilo que coleccionou em outras reportagens e em entrevistas muito vagas com membros da maçonaria que fizeram o favor de tentar esclarecer a pessoa em causa. Mas a pessoa em causa não desejou ser esclarecida e, por isso, faz associações altamente improváveis e em tom conspiratório sobre os dramas internos do Grande Oriente Lusitano e o caso (já mais que esquecido) da Universidade Moderna.
Para além disso, relata "factos" hilariantes de tão improváveis. O que mais salta à vista é o de os comunistas não poderem ser maçons, lol. Noutra nota, o livro peca por uma falta de trabalho editorial fatal, com erros de tipografia muito irritantes.
Isto parece mais uma tese de mestrado do que um trabalho profissional. Espero que não tenha tido muito boa nota.
By : ladyxzeus
Como Se Eu Não Existisse
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Como Se Eu Não Existisse
Slavenka Drakulic
1999
Relato
Recebi este livro no BookCrossing. Todos me diziam que era extremamente impressionante e violento. Mas sou obrigada a discordar. Vejamos.
Esta é uma história na primeira pessoa sobre o conflito dos balcãs. S., uma rapariga normal que é professora numa aldeia, é levada para um campo de concentração, onde ser tornará uma das escravas sexuais dos soldados, acabando por engravidar. Conta a história da sua sobrevivência no campo e dos acontecimentos depois de ser transportada para um campo de refugiados e, depois, de ser recebida como refugiada na Suécia.
Ora, isto tem tudo para ser aterrorizante, especialmente se considerarmos que, mesmo que esta seja uma história inventada, poderia perfeitamente ter sido possível: estas coisas aconteceram e continuarão a acontecer enquanto houver uma guerra. Para mim, o problema essencial deste livro é o contexto. Desde o início que a autora se convence que o seu leitor está perfeitamente informado sobre todos os aspectos da guerra da Bósnia e que, por isso, consegue compreender tudo o que se está a passar em termos sociais e políticos. Ora, eu só vagamente me lembro que estava a haver uma guerra na Bósnia e que havia uns tipos chamados capacetes azuis (que eu nem sabia o que era, só sabia que eram os bons). Apanhando a história sem o contexto da guerra, a narrativa torna-se absolutamente fria e impessoal.
Assim, todos os acontecimentos horríveis que nos são relatados são vistos simplesmente na terceira pessoa. A personagem principal não possui uma caracterização suficientemente densa para que possamos sentir as suas emoções como se fôssemos nós próprios a assisti-las.
A guerra é horrível, sim. Mas quando está despersonalizada, é só mais um telejornal.
By : ladyxzeus
Baía dos Tigres
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Baía dos Tigres
Pedro Rosa Mendes
1999
Não-Ficção
Pedro Rosa Mendes é um jornalista que no final dos anos 90 decidiu encetar uma viagem tanto louca como heróica: atravessar, a pé, a África, de Angola a Moçambique, tal como o haviam feito certos artistas em séculos idos.
Infelizmente, a África do final dos anos 90 é um campo minado, o que só torna tudo mais difícil. Neste livro o autor conta-nos mais do que a sua viagem: fala-nos das pessoas que conheceu, das suas experiências neste continente, das consequências que a guerra teve nas suas vidas.
Confesso que não aprecio muito literatura de viagens, mas que este tipo de narrativa, contando pequenos pedaços de vidas já estilhaçadas, me atrai muito. Assim, acabei por gostar bastante deste livro, que nos mostra uma realidade que tem vindo a ser muito escondida dos nossos media É possível viver nestes países em conforto e felicidade? Talvez, de uma maneira muito alterada. Mas a verdade é que a realidade destas pessoas ultrapassa em muito a nossa capacidade de compreender, de tão diferente que é.
Cada história é uma pessoa e cada pessoas tem a sua história. Este livro mostra-nos isso.
By : ladyxzeus
Pelo Bem Comum
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Pelo Bem Comum
Arundhati Roy
2001
Ensaio
Este é um livro de não-ficção da famosíssima autora do "Deus das Pequenas Coisas". Livro que, por sinal, não gostei. De todos os modos, não me impedi de experimentar este livrinho, que se lê num par de horas.
Nesta obra a autora esforça-se por denunciar a injustiça decorrente à construção de uma série de barragens de grandes dimensões por todo o território indiano, mostrando-nos a corrupção que está por dentro dos relatórios do estado relativamente às condições em que estas são construídas e às consequências para os povos que vivem nas suas imediações.
Infelizmente, a autora não se mantém de todo neutra na sua exposição. O seu tom é de revoltya e o discurso é de ódio. Considerando que este livro é uma enumeração de factos e números, tal qual uma reportagem, este tom soa muito mal e parece mostrar apenas um lado da questão.
Para além disso, para quem afirma ter feito tanta pesquisa no terreno, o livro não nos dá as vozes das pessoas afectadas.
Não gostei, definitivamente.
By : ladyxzeus
O Japão é um Lugar Estranho
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O Japão é um Lugar Estranho
Peter Carey
2005
Literatura de Viagens
Recebi este livro numa troca do BookCrossing e, confesso, fiquei um pouco desapontada. Desde que vi este pequeno volume à venda que sempre procurei evitá-lo. Disse a toda a gente que me costuma dar livros Japoneses e sobre o Japão que não mo dessem. Porque, na verdade, não queria nada ler uma visão ocidental de uma cultura pop e urbana que conheço tão bem, sobretudo porque estes autores tendem a ofender os conceitos que tanto gosto e aos quais dedico grande parte do meu tempo e da minha vida. E ninguém gosta que falem mal das coisas que ama, não é verdade? Mas, ainda assim, recebi-o. Portanto, entrou na lista de leitura.
Confesso, agora, que foi uma agradável surpresa.
Peter Carey é autor famoso, vencedor de dois Booker Prizes, o que é um grande feito. O seu filho, aparentemente, gosta bastante de bonecada nipónica. Assim, viajaram os dois até ao Japão. Não para ver o "Verdaeiro Japão", mas aquele da cultura popular. Ora, o livro torna-se interessante e original porque Carey conhece muitas pessoas importantes e influentes que lhe permitem fazer entrevistas a algumas pessoas bastante interessantes. Desta forma, aprendemos um pouco sobre alguns animes e os seus significados, através da própria opinião daqueles que estiveram envolvidos na sua produção.
Assim, apesar da perspectiva altamente redutora das perguntas do autor (que, por alguma razão, tentavam relacionar tudo com samurais), ficamos com uma ideia dos objectivos por trás de cada processo criativo, acompanhando histórias de vida que falam, sobretudo, da influência da guerra na cultura urbana actual. Também há uma explicação bastante coerente do muito debatido termo "otaku" (que eu, pessoalmente, me recuso a usar, sendo que esta narrativa apoia o meu conceito). O que não há, no entanto, são exemplos mais específicos da dificuldade de comunicação e da verdadeira natureza do povo Japonês, o que deixou o livro aparentemente incompleto.
Achei também curioso que fossem conhecer o Tomino, criador original de Mobile Suit Gundam, quando nos anos 00 já não era ele o realizador e argumentista das novas séries de Gundam (o que se vem a revelar na sua falta de qualidade, como alguns leitores deste espaço já saberão).
Assim, foi uma experiência que acabou por ser interessante e, agora sim, posso agradecer plenamente o envio deste livro. :)
By : ladyxzeus
A Alma Encantadora das Ruas
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A Alma Encantadora das Ruas
João do Rio
1904-1908
Reportagens e Reelatos
Recebi este livrinho como presente no BookCrossing. Escolhi-o porque gostei bastante do título e porque literatura brasileira nunca é demais. Este livro, num formato muito engraçado (pequenino e gordinho), trata-se de um conjunto de reportagens, relatos e ensaios sobre as ruas do Rio de Janeiro, por um autor que passa ao lado de muita gente mas que teve a sua importância, o dandy João do Rio (pseudónimo e personagem).
Na introdução, há referência à vida do autor, relatando que foi um percursor da literatura homoerótica brasileira. Depois de ler estes relatos, que nada têm de homoerótico, fiquei muito curiosa em ler o resto da sua obra. Pois tudo está escrito com uma graça, na gramática e vocabulário que, apesar de o tema (as ruas) não ser especialmente interessante, adorei ler este livro.
Existem relatos sobre vários assuntos, mas a maioria aborda a decadência e a pobreza da população da cidade do Rio de Janeiro, sendo o livro um bom marcador dos hábitos e elementos da época em que foi escrito.
A minha parte preferida foi sem dúvida a utilização das palavras, que por vezes são estranhas e cujos significados nem sempre eu conhecia. Ainda assim, há tantas palavras bizarras que a leitura é extremamente divertida. Pegando em exemplos aleatórios ao longo das páginas, ficam aqui algumas:
- Pernóstico
- Reviravolteiam
- Molambeiro
- Alarma
- Piche
- Discrômico
- Reisado
- Charivari
By : ladyxzeus
Passaporte para o Céu
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Passaporte para o Céu
Paulo Moura
2005
Reportagem
Devo confessar que quando me inscrevi para esta actividade no BookCrossing, não estava à espera que o livro fosse assim. A sinopse enganou-me e pensei que fosse um romance. Devo confessar também que foi uma das raras vezes que li uma reportagem em forma de livro.
Impressionou-me muito. Eu abomino, faz-me confusão e faz-me triste, ver ou ler ou saber de pessoas, animais ou plantas - seres vivos em geral - que sofrem. E vemos isso todos os dias na televisão, pessoas a serem assassinadas em directo para o noticiário ter notícias para noticiar. E é perfeitamente normal e gozamos com isso e dizemos "bem feita", porque a pessoa era má, ou feia, ou isto, ou aquilo. Temos muita pena se a pessoa é famosa ou bonita, sem sequer a conhecermos, mas todas as outras deixá-las estar a sofrer. E eu sou culpada, porque eu também gozo com os pobrezinhos de África que estão a morrer de fome e se deviam começar a comer uns aos outros, ou comer Americanos que têm mais chicha (ou então, que era o que faríamos se fôssemos criaturas lógicas, pegávamos na fruta toda excedente da nossa produção e mandávamos para lá, mas dizer isto não tem tanta piada, pois não)
Por isso esta reportagem veio mesmo a calhar. É sobre as pessoas da África subsaariana que tentam fugir das terras deles e vir para a Europa, onde acreditam que vão conseguir trabalhar, estudar, fazer a vida e ter carros e boas casas. Parece que já lhes disseram que não, que não é assim, mesmo que não sejam deportados quando cá chegarem não há trabalho para ninguém e vão acabar mal. E a reportagem fala das histórias que acabam mal. Acabam todas mal, umas menos que outras. É assim a vida, mas não devia ser, não é justo que seja assim, pessoas são pessoas.
Relatam-nos como vivem como animais, como são transportadas como animais, como são tratadas como animais... Pior que os animais. Até eles têm mais direitos do que estas pessoas. E não são "pobrezinhos". Têm de pagar 3000, 4000, 15000, 40000 euros para chegar cá e isso, até para nós que já cá estamos, é muito dinheiro. Empenham casas, vidas, tudo para dar vidas melhores à família e afinal de contas não há vidas melhores. Porque é que ninguém lhes diz que se vierem para aqui vão acabar a pedir ou na prostituição? O repórter foi ao Intendente e falou com as prostitutas que lá andavam. Ninguém, ninguém no planeta inteiro, por maior que seja a pobreza, ambiciona acabar no Intendente. Mas lá estão. Não é justo. Não é justo que as pessoas tratem assim outras pessoas.
A reportagem fala das vidas e das diferenças de cultura, das ambições e dos sonhos, das religiões, da inadaptação. E no final a realidade é fria como um matadouro: todas as pessoas são iguais, mas há umas mais iguais que outras.
Mas o que é que nós podemos fazer? Mandar dinheiro para lá? Não posso mandar dinheiro a todas as causas que me impressionam, não tenho assim tanto. Talvez quem o tenha o devesse fazer. Acredito que a solução, se me é permitida a insolência de sugerir uma solução, é a educação das pessoas e a reformulação desses países para que toda a gente tenha oportunidades. Mas isto não é a época dos descobrimentos, não podemos chegar lá armados em States e dizer "vocês agora são uma democracia, façam as coisas como eu mando e já agora dêem-me coisas". A coisa tem de partir de dentro, mas como mudar uma cleptocracia a partir de dentro? As pessoas têm de mudar, têm de ser substituídas por outras que saibam ser... Bem, pessoas. Deixem-me sonhar a minha utopia em que todas as pessoas se comportam de forma a não se prejudicarem...
Quem puder ler este livro e tiver um bom estômago, recomendo. Pode ser que se todos soubermos o que se passam encontremos uma solução viável.
By : ladyxzeus

