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  • Pôr do Sol

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    Pôr do Sol
    Rui Melo, Manuel Pureza e Henrique Cardoso Dias
    2021
    Novela


    A novela que chegou para acabar com todas as outras novelas.

    Pôr do Sol é uma novela absurda, que coloca todos os cânones do género de pernas para o ar, com piadas divertidas, momentos completamente malucos e, na generalidade, a loucura total. Tudo acontece a estas personagens, desde as gémeas separadas que afinal são três, até acidentes de avião, passando por corridas de cavalos para trás e crises de cereja que sabem a marisco.

    No entanto, o formato é muito repetitivo porque, apesar de ser uma novela a gozar, continua a ser uma novela e isso é uma seca brutal. Podiam ter cortado metade das reviravoltas sem tirar qualquer tipo de conteúdo, que já por si não é muito. Também não percebo a existência do conjunto de personagens lisboeta, que não faz nada e só diz graças que pouca graça têm.

    Apesar de alguns momentos cómicos geniais, o Pordosolpordosolpordosol não tem muito sumo de cereja que se possa tirar, e acho que já toda a gente se esqueceu dele (apesar de o filme estar aí agora).

    De resto "Beavers in Love" é um clássico inesquecível.

  • Conversas à Quinta Feira

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    Conversas à Quinta Feira
    Luís Machado
    1997
    Entrevistas


    Um livro de entrevistas que estava literalmente cheio de bolor. As entrevistas em sim, também com um pouco de bolor.

    Houve alguns entrevistados que gostei muito de ler, nomeadamente o Saramago, o Eusébio e o Álvaro Cunhal. Pelo menos foram os que me pareceram mais sinceros e com um discurso mais lógico. Todos os políticos, quase todos envolvidos com o PSD e governo Cavaco, tinham opiniões que hoje em dia seriam muito disruptivas, sobre assuntos tão variados como o aborto e o transsexualismo.

    Achei bizarro que em todas as entrevistas se perguntasse sobre os Amoreiras e o CCB, como grandes monstruosidades arquitectónicas de que ninguém gosta. Soubessem eles que já há monstros maiores.

    Foi uma leitura interessante, desafiante por causa do bolor, mas é mais um objecto histórico do que outra coisa.

  • Nem todos os cactos têm picos

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    Nem todos os cactos têm picos
    Mosi
    2017
    Banda Desenhada

    Queria comprar este livro desde o AmadoraBD de 2017 e por isso, desta vez em 2021, aproveitei a tal promoção para o trazer.

    Confesso que fiquei um pouco desapontada. Este é um álbum curtíssimo que nos conta a história de duas amigas de infância, dos seus pequeninos conflitos e das suas pequeninas consolações, em que a amizade é sempre o maior valor. Fiquei com a sensação de que a história poderia ser autobiográfica, por causa das referências de roupas e estilos, que estão bem colocadas dentro do contexto.

    Ainda assim, penso que esperava um pouco mais de uma história sobre este tema. Apesar de os desenhos serem bastante bonitos, isso não me chegou para compensar uma premente falta de conteúdo. Talvez fizesse mais sentido numa zine.

  • Toutinegra

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    Toutinegra
    André Oliveira e Bernardo Majer
    2019
    Banda Desenhada

    Comprei este livro no AmadoraBD para aproveitar uma promoção de "leve 4 pague 3". Valeu bem a pena, porque foi um bom achado.

    Duas crianças são as únicas fontes de esperança para uma aldeia envelhecida e perdida no tempo e no espaço. A vida delas vai dar uma grande volta quando, num moinho abandonado, descobrem a "toutinegra", uma criatura estranha e negra que traz más notícias.

    A história é por vezes um pouco confusa, por causa das mudanças de perspectiva que não têm nenhum indicativo na arte que nos permita situar-nos em cada realidade. No entanto, o resultado final acaba por ser bastante comovente e desesperançoso, como uma "má notícia" da toutinegra. Aliado a uma arte delicada, redonda e suave, o efeito coloca-nos perante uma certa onda de desespero.

    Um álbum eficiente.

  • O Macaco Tozé

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    O Macaco Tozé
    Janus
    2000
    Banda Desenhada

    Na compra de um livro na Chilli com Carne (no AmadoraBD do ano passado) ofereceram-me este também.

    Trata-se de uma antologia de pequenas histórias, originalmente publicadas em formato zine, que falam da vida na cidade do Porto de um certo macaco, o Tozé. O Tozé tem uma vida desregrada, plena de senhoras trabalhadoras e vinhos variados, sendo que frequentemente acaba maltratado, sujo de cagalhões ou prisioneiro.

    É um retrato duro e violento da vida no final dos anos 90, numa cidade que podia ser qualquer outra. O álcool, as drogas, o desespero patente em cada uma das vinhetas que, passando por cómicas, revelam apenas uma tristeza profunda e um desapontamento seminal pela sociedadeem que este macaco ciranda sem parar.

    A arte é igualmente violenta, com traços e rabiscos escuros, um ambiente de negro e brutalidade, de sujidade e um mau cheiro permanente.

    Um álbum interessante, mas que talvez tenha ficado para trás no tempo.

  • Deserto/Nuvem

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    Deserto/Nuvem
    Francisco Sousa Lobo
    2017
    Banda Desenhada
    Este é um livro que queria ler desde o seu lançamento, sendo que o comprei no AmadoraBD do ano passado. Trata-se de um livro "duplo", digamos assim, composto por uma análise breve à vida dos monges do convento da Cartuxa, perto de Évora e, depois, uma evocação do sentido religioso do próprio autor.

    Francisco Sousa Lobo é um autor que escreve sobre a sua vida e pode escrevê-lo da maneira que preferir. Apesar de a sua arte ter algumas falhas técnicas que não seriam perdoáveis noutro contexto, estes dois livros contém uma imagética muito própria, bastante ligada à busca do céu, perfeição e do divino.

    No encontro com os monges da Cartuxa, o autor procura uma análise da sua própria relação com o divino, admitindo-se desde logo um católico recheado de dúvidas. Procura vê-las esclarecidas através das cartas aos monges de Nuvem, em que a sua voz parte para não regressar num eco de resposta. No entanto, consegue colocar o leitor a pensar sobre todas estas questões e a tentar responde-las por si só.

    Apesar de ser um volume de grande simplicidade técnica, vale a pena lê-lo pela sua profundidade filosófica e emocional.

    Vou pô-lo a circular no Bookcrosso. :)
  • Odisseia

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    Odisseia
    Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Tiago Guedes
    Série -8 Episódios
    2013

    Quando esta série saiu, ainda vi alguns episódios em casa de amigos. E sempre fiquei curiosa sobre como seria ela completa. Vim a descobrir a odisseia mais absurda que podia haver!

    Bruno e Gonçalo estão mal com a vida e por isso vão numa roulotte por ali a fora a tentar encontrar o sentido para todas as coisas. Estruturado como uma espécie de decalque da Odisseia Homeriana, temos os vários monstros e criaturas sob a forma de pessoas diversas que ajudam os nossos actores (ou personagens?) a descobrir um pouco mais sobre si próprios (ou não).

    Também temos um paralelismo com a vida e obra de António Variações, que aparece como uma espécie de profeta, ou mesmo semi-deus, sempre inspirador e salvador das coisas terríveis que vão acontecendo a este duo dinâmico.

    O resultado é violentamente cómico, sucessão de situações tanto mais engraçadas como exasperantes, em que o terror e o desespero se transmutam na zanga profissional de quem admite que isto, apesar de tudo, não passa de uma série.

    Gostei imenso de ver e ia morrendo de riso. Portanto, acho que vou dizer para verem também. :)

     
  • A Sociedade Medieval Portuguesa

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    A Sociedade Medieval Portuguesa - Aspectos de Vida Quotidiana
    A. H. de Oliveira Marques
    1959
    História

    Este foi um livro interessantíssimo que me veio parar às mãos no seguimento da minha TBR.

    Explorando os anos entre o século XII e o início do século XV, o autor mostra-nos um pouco de como viviam as pessoas, ricas e pobres, nesta época que ficou conhecida por "Época Medieval". Através deste relato e exposição, ficamos a saber que esse tempo que ficou conhecido por "idade das t4revas", tinha muito mais detalhes da vida normal do que possamos imaginar.

    Por exemplo, aprendi que não havia pratos nem garfos. E que os sapatos não tinham solas. Que as "pestes" eram todas as doenças epidemiológicas, que na época não eram distinguíveis. e temos mesmo uma receita de medicamento, difícil de concretizar nos dias de hoje porque precisa de um texugo vivo e de um sessenta e quatro avos de corno de "ulicórnio", xD xD

    Este é um livro de história muito bem fundamentado: através dos escritos da época o autor consegue estabelecer uma associação de ideias e extrapolar a realidade do que estava escrito para o que terá realmente acontecido. Ficamos a saber algumas receitas culinárias (um pouco incompreensíveis, mas aparentemente muito saborosas), ficamos a saber como as pessoas se vestiam (sabiam que para a dama antiga era essencial aparentar uma gravidez em qualquer momento?), ficamos a saber quais os passatempos e mesmo os rituais da morte, isto é, os funerais.

    Escrito com suficiente inocência para não se tornar extremamente aborrecido, este é um livro essencial para quem quiser conhecer um pouco melhor a história portuguesa.
  • D. Afonso Henriques

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    D. Afonso Henriques
    Diogo Freitas do Amaral
    2000
    Biografia

    Esta é uma biografia do fundador do nosso Portugal, escrito por uma das pessoas mais detestáveis do panorama político deste mesmo lugar.

    Ainda assim, foi um livro que me cativou pela paixão como foi escrito. Nota-se que Freitas do Amaral, apesar de ser um maluco psicopata, é um apaixonado pela história de Portugal e, em especial, pela história do Afonso Henriques.

    Neste livro ele explica-nos o contexto em que o nosso primeiro rei viveu e como é que este influenciou as suas decisões de conquistar cada vez mais terra. Aprendemos também algumas curiosidades menos conhecidas, como facto de ele ter tentado invadir Espanha e, em qconsequência disto, ter ficado com a mobilidade muito reduzida.

    No entanto, o livro peca por alguns defeitos na escrita, como a utilização de muitas expressões em Inglês perfeitamente desnecessárias e a repetição de conceitos enumerados anteriormente.

    Gostaria, no entanto, de dar um abracinho ao autor por ele ter tanto gosto em escrever sobre este assunto.
  • Heróis da História de Portugal como Nunca Foram Contados

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    Heróis da História de Portugal Como Nunca Foram Contados
    Pedro Marta Santos
    2011
    História

    Este outro livro da minha irmã desapontou-me sobejamente. A ideia até está bastante boa: contar de forma moderna e actualizada, disponível para as faixas menos letradas da nossa geração, as histórias dos grandes heróis portugueses do passado.

    Mas o livro peca por uma coisa principal: falta de pesquisa. O autor apresenta uma bibliografia diminuta, que quase poderia ser equivalente a um "eu vi na wiki". Existem erros históricos imperdoáveis, como pessoas estarem vivas fora da sua época, pessoas que numa história estão no sítio e na outra já estão noutro... PAra além de erros de edição (no início o Martim Moniz está coma  família, no final já está sozinho?)

    Para além disso, o tipo de narrativa é muito desapropriado para os temas em causa. Faz algum tipo de sentido referir a internet quando falamos do Viriato? E a história do elefante Salomão, onde é que isto é uma história importante para Portugal?

    As ilustrações são estranhas, porque a maior parte do tempo não correspondem ao que está narrado nas histórias.

    Um livro terrível. Não se confie nesse tal clube do livro do canal de televisão.

  • Homens Imprudentemente Poéticos

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    Homens Imprudentemente Poéticos
    Valter Hugo Mãe
    2016
    Romance
    Como sabem, VHM foi um dos meus autores portugueses preferidos da actualidade. Infelizmente, ele parece ter enlouquecido e este novo livro é apenas mais uma prova disso.

    Dedicado a Miyazaki, da Ghibli, esta é como se fosse uma história desse estúdio relatada por alguém que não tem o mínimo conhecimento sobre hábitos e cultura japoneses. Esta narrativa parece mais ser passada numa qualquer aldeia do Minho em que as pessoas têm nomes asiáticos. Parece não ter havido qualquer pesquisa, sendo que mesmo os epítetos associados às pessoas estão errados no contexto cultural (uma criada nunca chamaria a sua patroa de "musume", por favor)
     
    A história, em si, está cheia de pontos em que a lógica falha, sendo que o livro parece ter sido escrito numa tarde no jardim, em cima do joelho, num bloco de notas. Por exemplo, a que propósito é que uma cega perdida na floresta tem um vestido de casamento feito pela sua mãe?
     
    A ecrita é infantil, mas não de uma forma agradável ou amorosa. É simplesmente estupidificante.
     
    Este livro assinala, talvez, a minha separação deste autor.

  • Lisboa Triunfante

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    Lisboa Triunfante
    David Soares
    2008
    Romance

    Mais uma vez, David Soares conquista o meu coração. <3

    Com uma muito detalhada pesquisa histórica, este livro discorre sobre misteriosos acontecimentos na cidade de Lisboa, deste a pré-história até à actualidade, protagonizados por uma misteriosa raposa e por um misterioso lagarto.

    Tudo começa com um momento absolutamente fascinante de uma era primitiva (não existem, de todo, muitos romances sobre isto). É explicada a sua "religião" e crenças em geral e a forma como estas são inicialmente destruídas. Depois, passamos por diferentes épocas, em que existe sempre uma estranha raposa que influencia os acontecimentos. O livro fala de vários elementos históricos de todos nós conhecidos, mas com um twist ligeiramente aterrorizante tão característico da obra deste autor. Mas considere-se que as épocas estão tão bem definidas, quer a nível de descrições e personagens como mesmo a nível da linguagem, que parece que estamos a ler histórias completamente diferentes.

    Aliás, tudo faz sentido apenas no final, em que se desenvolve uma fantasiosa teoria sobre o universo que, mais ficção científica do que outra coisa, tudo termina com um banho de água fria cheio de humor negro.

    Fiquei cheia de vontade de ler um complemento a este livro que explica a inspiração e os dados his´toricos presentes ("Um Passeio por Lisboa Triunfante"). 

    Li este livro em duas tardes: absolutamente viciante. Vou já emprestá-lo ao meu pai e depois partilhá-lo com toda a gente. :>

  • Amor de Perdição

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    Amor de Perdição
    Camilo Castelo Branco
    1861
    Romance 

    O que dizer de um romance que, logo pelo título, se vê que vai ser uma tragédia de faca e alguidar? Curiosamente, ainda não tinha experimentado este clássico da literatura portuguesa, pelo que acabaou por ser uma boa experiência de qualquer forma. :)

    Esta é uma história de amor, de triângulos e quadrados amorosos, em que tudo corre pior do que o esperado pela própria imaturidade dos personagens envolvidos. A progressão da história procura sempre comover o leitor (ou a leitora, na visão do autor), sendo que o final tem um exagero tal que quase se torna um pouco cómico.

    Ainda assim, o livro tem um certo sentido de humor, uma ligeira ironia presente em todo o lado, o que torna a leitura ligeiramente mais leve. Está tudo escrito de forma antiquada, o que é adequado à época, sendo que há aqui um bom relato dos hábitos e costumes do Portugal do século XIX.

    Por vezes a leitura foi um pouco densa, mas à medida que os personagens se vão desenvolvendo e a história se aproxima de uma tragédia inevitável tudo se torna mais interessante.

    A título de curiosidade, diga-se que esta história foi baseada em factos reais, ocorridos com o tio do próprio autor. :)

  • A Dama do Pé de Cabra

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    A Dama do Pé de Cabra
    Alexandre Herculano
    1858
    Conto
    No Kobo tenho um conto ou outro que acabo por ler separados da obra em que se inserem. Neste caso, este conto está incluído num volume que não possuo, de nome "Lendas e Narrativas", publicado pela primeira vez no ano cito.

    Eu já conhecia esta história tradicional por meio de um livro de histórias e lendas de Portugal das famosas autoras da série "Uma Aventura". Assim, quando li esta versão recolhida de fonte mais antiga, fiquei um pouco desapontada porque não a recordava assim.
     
    É uma história sobre pactos com o diabo e coisas que tais, escrita num português algo antigo que poderá ser difícil de compreender para alguém pouco experiente em tais linguagens. Existem alguns termos que tive mesmo de ir procurar (que raio seria um "onagro"...?)
     
    Mas de resto é uma história muito ligada à religiosidade, o que é algo que não me agrada por aí além. Na altura, quando conheci o conto na sua versão infantil, gostei tanto dele que até escrevi uma espécie de "fanfiction" (fanfiction de contos tradicionais portugueses, lol), mas esta versão estragou um pouco de todo o romance que eu tinha feito em volta dela.

  • Os Vampiros

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    Os Vampiros
    Filipe Melo e Juan Cavia
    2016
    Banda Desenhada

    Comprei este volume no passado Anicomics. Escolhi-o sobretudo pela sinopse: porque não é vulgar vermos um trabalho gráfico sobre a guerra colonial. E ainda bem que o trouxe, porque foi das coisas mais arrepiantes que li ultimamente.

    Um grupo de soldados portugueses e o seu guia é enviado para o Senegal em busca de uma base, sobre a qual deverão dar certas coordenadas. Mas o caminho torna-se mais complicado do que parece à primeira vista. À medida que vamos conhecendo a equipa, situações bizarras começam a acontecer, misturadas com os seus sonhos e as suas memórias, cada vez mais conturbadas pela guerra em que são forçados a viver. As situações que ocorrem têm um misto de fantástico e real, em que nunca é estabelecido o que se passa realmente. Será que é tudo imaginação? Será que as coisas estão mesmo a acontecer?

    Existem mesmo vampiros nestas florestas? Ou somos nós os vampiros?

    Este álbum caracteriza no seu pleno um imaginário da guerra que, sempre cada vez mais romantizado pelo cinema americano, se caracteriza pelo horror constante, pelo medo e pelo desespero. Os pesadelos dos personagens ajudam muito no grafismo deste pânico constante, em que se torna difícil distinguir o que está certo e o que está errado, ou mesmo qual a atitude correcta a tomar quando confrontados com situações agressivas.

    A arte é luxuriante e apelativa, com designs estilizados mas ainda assim muito realistas. Isto acaba por tornar esta leitura numa experiência muito cansativa emocionalmente, em que o coração quase para em alguns momentos, para logo recomeçar a bater com toda a intensidade. Um livro que nos faz querer gritar e chorar e dizer "vão por todos os caminhos, mas não vão por aí". Um livro que não romantiza e que mostra que, de entre todos os horrores, as pessoas são os piores deles todos.

    Trata-se de uma edição de luxo, com páginas e capa de grande qualidade. Acho que vale a pena a compra, se não pelo volume, pela própria leitura. Fascinante e arrepiante, merece um lugar de destaque no universo da banda desenhada actual.

  • Som de Cristal

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    Som de Cristal
    Bruno Nogueira
    Série - 10 Episódios
    2015

    Como poderão constatar pelo conteúdo deste espaço, eu não sou muito de ver séries com pessoas. E como também puderam constatar anteriormente, era tudo menos fã do Bruno Nogueira. No entanto, apanhei por acidente uma repetição televisiva do primeiro episódio desta série. E é algo de surpreendente.

    Numa estética semelhante a outros programas de comédia com famosos, Bruno Nogueira convida diversos artistas para passeios de carro e jantares regados a vinho tinto e a cervejas. No entanto, que artistas são esses? Tratam-se, exactamente, de alguns dos nomes mais famosos da música popular Portuguesa, também conhecida como "pimba".

    Neste programa ficamos a conhecer um pouco da vida íntima destas pessoas, entrando nas suas casas, visitando as suas aldeias, assistindo aos seus concertos. Tudo tem um toque de cómico dado pelo anfitrião, mas também existem muitos momentos tocantes e trágicos. Porque Bruno Nogueira, apesar de comediante conhecido pro gozar com tudo e com todos, não troça dos artistas, não os provoca e, sobretudo, não os desrespeita. Assim, o programa faz um retrato muito humano destas pessoas a quem, normalmente, não damos qualquer atenção e que muitos de nós considera quase como criminosos e assassinos da boa música.

    Ficamos a conhecer os seus medos e os seus sonhos, a sua origem e o seu futuro. Ficamos a conhecê-los melhor enquanto artistas, enquanto força trabalhadora, enquanto pessoas que se dedicam a fundo aos seus projectos, por mais parolos que nos pareçam. E ficamos a conhecer os seus fãs e as multidões que movem. Pois é, apesar de tantos de nós dizermos "não gosto, faz-me doer os ouvidos, isso não é verdadeira música", há pessoas que adoram, há uma imensidão de gente que vive para assistir a estes concertos. E se não respeitarmos isso, não há mais nada que possamos fazer.

    Com efeitos de montagem interessantíssimos, o programa acaba por tornar estas conversas informais e partilhas de momentos em segmentos que podem chegar ao surrealismo abstracto, a um puro non-sense que dá azo a gargalhadas incontidas. É uma sucessão de momentos estranhos, desde o Roberto Leal bezano a assinar t-shirts, ao copo de bagaço do Marante e até mesmo ao histerismo das fãs açoreanas do Saúl.

    Também é boa oportunidade de ficar a saber quais as novas facetas artísticas destes cantores que conhecemos à tanto tempo. Podemos pensar que continuam ligados à sua estética do antigamente, como uns eternos anos 90, mas a verdade é que continuam sempre em evolução.

    Um programa extraordinário, que só peca por ser tão curto. Gostaria de ter visto outros artistas com a coragem de se mostrarem perante o público desta forma.

  • Fórum da Interculturalidade

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    Fórum da Interculturalidade
    Concertos
    A ideia inicial era ir ao Outjazz, nos jardins perto da Torre de Belém. Lá chegados, eu e R., sentámos e chegámos à conclusão de que era um ambiente que nos causava horror e pavor. A música lembrava aquela que se ouve quando passa um carro com o som muito alto e os visitantes do evento metiam medo. A única parte agradável era ver os cães a brincar. 

    Por isso, fomos em direcção à Praça de São Paulo, perto do Cais do Sodré, onde os amigos de uns amigos iam dar um concerto. Após uma fastidiosa viagem num eléctrico que cheirava a chouriços, instalámo-nos na praça à espera de que acontecesse alguma coisa. Enquanto estivémos sozinhos, a música africanizada foi dolorosa. Assistimos a algumas coisas engraçadas, como discussões entre cães e um senhor velhote a dançar, que estava a ser filmado por um outro cota mais gordo. Se calhar devíamos ter dito alguma coisa ao operador de câmera, que não estava a ser nada discreto. Mas tenho esperança de que a gravação não seja para ser colocada em fóruns anónimos com os ditos "vejam este cromo a dançar", mas para um projecto artístico ou qualquer coisa.

    Reparámos que uma varanda tinha um anjo assustador e mutilado.

    Então chegaram os amigos de amigos e fomos para a frente para ver o tal concerto. Sentámo-nos em cadeiras de plástico. Foi uma tarde já nocturna agradável em certa medida, pelo convívio providenciado por umas garrafas de Don Simon, mas falemos então dos concertos.

    Jazzopa



    Após montagem e preparação do palco, apresenta-se-nos uma banda que tem tudo de jazz. Um piano, uns metais, um baixo, uma guitarra, uma bateria. Tocam uns sonoros de gosto improvisado e, de repente, aparecem os cantantes. Ficamos, então, sabendo que esta banda é um misto de jazz com hip-hop. Isto tem tudo para correr bem. Mas, na verdade, acho que podia ter corrido melhor. Para começar, fazia falta que o instrumental fosse original e não inspirado (ou cópia) de clássicos do género. As rimas do rap estão bem conseguidas no geral, jogando bem com o resto dos instrumentos, mas parecia que dentro da banda não havia a empatia necessária para todos tocarem ou cantarem na sua vez. Para mais, os vocalistas tentaram durante todo o concerto uma muito necessária interacção do público, que não foi obtida: havia muito pouco público a esta hora e ainda não estavam bebidos o suficiente. Ainda assim, é um projecto curioso.

    Djaly Bintou Kanouté


    Passamos para músicas próximas do tradicional da Guiné-Bissau. Não sei o que dizer pois, confesso, não estava com muita atenção. Procurei esta era para buscar alimento, que fui encontrar numa das banquinhas da comida intercultural. Esta era a do projecto "Renovar a Mouraria" e comi uma tal de "Massa Moura", sem cogumelos. Quanto a esta senhora, achei que cantava muito bem, tinha uma voz muito bonita. E gostei imenso da roupa que ela trazia.

    Jorge Riba


    Para finalizar, temos um pouco de música brasileira. Evidentemente que o público, agora mais composto, se passou grandemente durante a totalidade deste concerto, devido aos ritmos sambísticos que o senhor nos cantou. Apesar de tudo, sou da opinião de que - sendo a música brasileira tão variada - limitar-nos a este samba de escola, tão simples (mas tão eficiente) é pouco criativo. Mas gostei imenso da interpretação original da música da Amália que o artista (bom artista) cantou. Foi a única parte em que eu dancei.

    Curioso o aspecto de que quando começa toda a gente a dançar, há algumas pessoas que ficam com aversão aos que - como eu - têm um peso no rabo e estão cansados e não se querem mexer da cadeira. Por isso, insistem, através de olhares, gestos e movimentos de lábios aterrorizantes, que nós nos levantemos e dancemos. Fica a nota de que cada vez que me fazem isto, menos vontade tenho de ir dançar. Considerando que o senhor operador de câmera anteriormente referido continuava, subtilmente, a filmar toda a gente... Menos vontade tinha eu de dançar. Portanto, fico parada.

    Suponho que a noite se tenha prolongado, mas eu fui para casa, pois hoje (o dia seguinte) é dia de trabalho e tenho de estar fresquinha e renovada. Ainda assim, foi giro porque conheci novas pessoas muito simpáticas. :)
  • O Tintureiro Francês

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    O Tintureiro Francês
    Paulo Larcher
    2014
    Romance Histórico

    Livro que recebi como Ring no BookCrossing.

    Num século XVII, em Portugal, um grupo de pessoas reune-se para ir a França resgatar um tintureiro, que trará sucesso à fábrica das lãs instituída pelo Marquês de Pombal. Pela sinopse, ninguém diria que grande parte do livro (cerca de metade) é uma épica história de aventuras marítimas, tendo como personagem principal uma mulher - Teresa - disfarçada de homem. A partir do meio, já o tintureiro francês está em Portugal, ficamos a saber mais sobre as técnicas de tintura de tecidos da época e o que aconteceu a Teresa na última parte das suas aventuras.

    O livro está escrito numa linguagem muito adequada à época, o que torna tudo bastante interessante e revela uma grande pesquisa pela parte do autor. Infelizmente, a narrativa perde-se frequentemente por momentos altamente descritivos que são muito maçudos, especialmente no respeitante à anatomia dos barcos utilizados. Como as palavras nauticas utilizadas são do meu completo desconhecimento, foi muito difícil acompanhar estas descrições. Na segunda parte, o detalhe dado às técnicas de tinturaria é bastante interessante, mas ainda assim um pouco difícil de seguir e, quiçá, desnecessário para o desenrolar narrativo.

    O livro tem interesse até aos momentos finais devido a este realismo impresso nas palavras. A cena final, então, acaba por ser demasiado fantasiosa para o teor que o livro tinha estabelecido até ali e calha bastante mal, tendo em conta tudo o que lemos.

    No entanto, foi um livro que me cativou bastante e que se lê com fluidez.
  • O Funeral da Nossa Mãe

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    O Funeral da Nossa Mãe
    Célia Correia Loureiro
    2012
    Romance

    Depois de Demência achei por bem aproveitar a oportunidade de ler outro livro desta autora. Infelizmente, apesar de ter havido coisas que melhoraram, foi uma leitura bastante fastidiosa e aborrecida.

    Três irmãs reunem-se numa aldeia no Alentejo para o funeral da mãe (por acaso chamada Carolina, como esta pessoa que vos fala [não, o meu nome não é Zeus]), onde descobrem coisas sobre a relação "disfuncional" desta com o pai, que já morreu ao tempo. Repare-se que esta palavra, "disfuncional", é repetida vezes sem conta ao longo da narrativa. E, na verdade, a relação não parece tão disfuncional assim, quem é estranha é a Carolina que, apesar da sua falta de caracterização, aparece como obsessiva e neurótica.

    Também as filhas, que são três, estão caracterizadas de forma muito amadora. Ao longo do livro são-nos dados traços gerais sobre a sua personalidade, uma forte, outra é emotiva, outra não se sabe bem. Mas em termos de profundidade, apenas os flashbacks dão algum sumo a tudo isto. E todos eles, excepto os que explicam a relação dos pais, são praticamente inconsequentes para o desenvolvimento das personagens.

    Mais uma vez  a Editora Alfarroba falha no ramo da edição, sendo que encontrei uma série de erros ortográficos e de sintaxe ao longo de todo o livro.

    Achei que a história podia ter-se contado em muito menos palavras, isto é, que foi desnecessário descrever as coisas várias vezes de formas diferentes para se chegar a uma imagem. Os parágrafos são enormes mas, apesar disso, têm muito pouco conteúdo prático.

    É um livro que precisa de ser fortemente limado.
  • A Gaiola Dourada

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    A Gaiola Dourada
    Ruben Alves
    2013
    Filme
    6 em 10

    O filme que mais Portugueses viram em 2013 foi o filme que vi na noite de Natal, enquanto esperávamos pelos presentes. Estava à espera de me rir muito mais, mas nem foi mau de todo. Mas as expectativas estavam demasiado altas...

    Pois bem, este filme fala de uma família de portugueses emigrados em França, uma porteira e um pedreiro e seus filhos. Claramente inspirado por factos da vida real, apresenta os problemas dos emigrantes em França com uma dose de humor e leveza. Retrata os Portugueses como pessoas trabalhadoras que sonham com o seu país mas que se dedicam ao local onde estão de corpo e alma. Também fala da inadaptação da geração seguinte, que se sente dividida entre duas culturas e não sabe muito bem para qual se deve virar.

    O melhor do filme são aqueles momentos que só os Portugueses conseguem compreender, como as músicas de fundo, a culinária ou o fascínio pelo futebol. Mas tudo tem uma aura novelística que acaba por ser um pouco superficial.

    Os actores mais velhos estão bastante bem, o que é mais um aprova de que a experiência conta. Os mais novos, pouco fazem e acabam por ter reacções muito exageradas que são pouco realistas no contexto do filme.

    Mas foi uma boa fita para ver na noite de ontem, porque contas feitas... É bem divertido!


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