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  • A Ciocciara

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    A Ciocciara
    Alberto Moravia
    1957
    Romance
    Quando falamos da segunda guerra mundial, normalmente focamos a nossa atenção naqueles que a viveram de uma forma activa, envolvendo-se na luta e, de um lado ou de outro da trincheira, fazendo a guerra funcionar. Mas o que dizer sobre as pessoas que viveram a guerra sem estar nela?

    A Ciocciara é um livro sobre esse tipo de pessoa. Quando se vê cercada numa Roma prestes a ser bombardeada, quase sem comida, uma comerciante pega em todo o seu dinheiro e vai com a sua filha para o campo. Lá, consegue a custo alugar uma casa num socalco, onde passará os próximos meses.
     
    Este livro é um retrato cirúrgico e emocional de uma Itália perdida na pobreza dos corpos e dos homens, caracterizando as pessoas que tentam a todo o custo sobreviver ou até mesmo ganhar alguma coisa com esta guerra. O autor faz um excelente trabalho ao nos mostrar as singularidades de viver numa cabana num socalco, com detalhes para as luzes, as texturas e as cores, assim como cheiros e sabores. É um ambiente tanto bucólico como a todo o instante aterrorizante à medida que soldados diferentes, e de diferentes facções, vão surgindo e desaparecendo na vida destas mulheres.
     
    Apesar de ser um livro antigo, é uma leitura cativante e veloz.


  • Chama-me Pelo Teu Nome

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    Chama-me Pelo Teu Nome
    Luca Guadagnino
    2017
    Filme
    6 em 10 

    Nomeado para quase todos os prémios, mas um dos perdedores da noite. 

    Pode uma história de amor florescer num único Verão e significar tanto para a vida dos seus intervenientes? Elio é um rapaz que vive numa cidade algures na Itália, onde toda a gente fala todas as línguas (Italiano, Francês e Inglês) ao mesmo tempo. Devido ao trabalho de investigação do seu pai, recebem todos os Verões estudantes. Este Verão é a vez de Oliver, um Americano muito antipático e esquisito. Mas o ódio poderá dar lugar a mais do que uma amizade....

    A história tem um fundo de interesse e de beleza, mas a forma como o argumento está concretizado deixa muitas coisas por falar e que teriam sido importantes para a história. Existem muitos caminhos que são ignorados (por exemplo, a religiosidade de Oliver; porque são judeus e não de outra religião qualquer?) e a própria relação entre eles poderia ter sido melhor explorada se o filme não dedicasse tanto tempo à luta pela descoberta dos sentimentos. Isto porque a maior parte do filme se dedica à parte em que eles ainda se odeiam, sendo que a conquista e depois a própria relação perde o significado por ser tão breve.

    De resto, é uma visão bastante sóbria e íntima da homossexualidade, se bem que não explora por aí em diante dúvidas e questões que seriam perfeitamente naturais dentro do contexto.

    O ambiente é belo, mas a contemplação da natureza bucólica traz um sentimento de desprezo por esta faixa burguesa, altamente elitista e invejável e, por isso, muito desfasada da realidade do espectador.

    Um filme com bastantes aspectos positivos, mas cuja falha argumentativa me deixa de pé atrás.

  • Lupin III (2015)

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    Lupin III (2015)
    Yano Yuuchirou - TMS Entertainment
    Anime - 24 Episódios
    2015
    7 em 10

    Após ter visto alguns animes desta instância, pensei que não poderia perder uma nova série dedicada a Lupin! Esta série teve lançamento também na Itália (até mesmo antes do lançamento Japonês), local onde o anime é passado.

    Foi uma excelente aventura ver este anime e, para mim, foi o melhor da sua season. Talvez mesmo o melhor do ano!

    Lupin e seus amigos mantém-se muito semelhantes àquilo que conhecemos. Nesse aspecto, achei que a série manteve uma pureza fantástica, obrigando-se à reinvenção para se manter íntegra com as experiências passadas. Os nossos personagens continuam plenos de inteligência e bom humor, sendo que o resultado não podia ser melhor: em cada episódio (ou par de episódios) nos é mostrada uma diferente história, uma diferente aventura que Lupin e a sua pandilha vivem, a forma como se metem em problemas e, sobretudo, a maneira cheia de esperteza com que se safam sempre.

    Existem alguns personagens novos, é verdade, mas não achei isso um problema. Na verdade, achei mesmo vantajoso pois foi uma forma simples e livre de ardores de dar algum tipo de modernidade à série, introduzindo novos conceitos que nos anos 70 eram pouco comuns, como diferentes armas, efeitos biológicos, diferente tipo de instrumentos. Tudo isto traz uma nova vivacidade a Lupin, enquanto série, e é fonte de diversão absoluta.

    Ajuda muito a arte que, detalhada e com uma paleta de cores vibrante - apesar de escura - nos mostra uma série de paisagens e objectos que quase que servem como spot turístico para os locais. Quase que nos dá vontade de visitar a Itália para podermos ver os lugares onde Lupin viveu as suas aventuras! A animação poderia, por vezes, ser um pouco melhor mas regra geral cumpre bem o seu papel, sendo que também nesta o estúdio colocou um pouco da sua descontracção.

    A banda sonora, cheia de temas tradicionais, swings e reminiscentes dos anos 60-70, remete-nos para um ambiente de polícias e ladrões, de problemas e de soluções. A ED, especialmente, foi-me impossível deixar de a ouvir em quase todos os episódios!

    Uma série divertida, descontraída e que leva Lupin, o personagem, a uma nova geração, tocando em temas actuais mas mantendo sempre a personalidade que todos amamos.

  • A Cidade das Flores

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    A Cidade das Flores
    Augusto Abelaira
    1959
    Romance

    Livro que ganhei na promoção de Verão da Editorial Presença.

    Sem dúvida um livro estranho. Não está organizado numa história, mais em pequenas cenas quase teatrais em que os personagens conversam sobre a vida e sobre o estado da nação. Depois há uma infiltração futurista um bocado escusada, mas no geral foi muito interessante.

    O livro é suposto criticar o regime Salazarista, mas - para escapar à censura - o autor optou por situar toda a narrativa em Itália. Nisto foi um trabalho de mestre. Os personagens são verdadeiramente italianos e a maneira de pensar deles é italiana. O livro quase que parece uma tradução.

    No entanto os personagens não são especialmente fortes e por vezes são tão irritantes que uma pessoa praticamente sente que deve recusar identificar-se com eles.

    Ainda assim, muito bem escrito. Vou fazer agora um BookRing com este livro no BookCrossing! =D

    Houve um capítulo que gostei muito (o Décimo Quinto Quadro) e que acho que usaria numa apresentação de cosplay. Vou transcrevê-lo para aqui, apesar de ser um pouco longo:

     - Enganou- se! Enganou-se! - disse ela apanhando uma flor azul. - E sabe como se chama? - Tinham vindo à procura das acácias em flor, mas onde estavam as flores que ninguém as via?
     - Não sei, Rosabianca. Sou de uma terrível ignorância acerca de flores. De flores, como de muitas coisas mais.
     - É uma anémona - E como Giovanni se mostrasse convencido:  - Não, não é. Talvez seja - Olhava-o bem nos olhos, a ele que não estava habituado a que o olhassem assim - Não sei o que é uma anémona, gosto do nome, gosto desta flor. Quem sabe se não será? - Tirou-lhe uma pétala - Que me diz, Giovanni Fazio?
     - Que hei-de dizer? Que é...
     Rosabianca arrancou outra pétala: - Se calhar, é... E outra pétla ainda, como, quando menina, fazia aos malmequeres - Se calhar, não... - Outra pétala - Se calhar é... Outra. - Não é... - Outra  É. Não é. É. Não é... É... É uma anémona, Giovanni Fazio, uma anémona!
     Giovanni pegou na flor sem folhas.
     - Agora não é nada - lamentou.
     - É uma anémona, é uma anémona - Palavras ditas numa voz lenta que deu tempo a que uma nuvem cobrisse, e logo descobrisse, toda essa imensidade que é o Sol. Depois, repetiu, olhando para Giovanni: - Enganou-me! Enganou-me! Onde é que foi inventar as acácias? As acácias, se calhar, não têm flor. Não têm flor, as acácias - insistiu, mudando a voz. - Enganou-me. Enganou-me! Aqui só há anémonas... - Estacou de súbito, tão de súbito que Giovanni só parou um segundo depois, mais à frente. Rosabianca estendeu-lhe a mão direita e ele estremeceu. - Dê-me a sua mão, Giovanni Fazio. Porque vai tão calado? - Porque ia tão calado? Era como se a alegria, o à-vontade dela, um desembaraço assim, o tornassem ainda mais tímido. Jamais poderia ter aquela juventude, aquela desenvoltura, aquela naturalidade. Disse:
     - Há ali uma anémona.
     - Não! - Rosabianca fez beicinho - Não são anémonas. O Giovanni Fazio não sabe descobrir anémonas. São glicínias... - Pausa. - Já viu alguma vez, sabe o que é uma glicínia? - Ele fez sinal que não. - Então é uma glicínia - concluiu Rosabianca, fechando os olhos. Porque ela também não conhecia as glicínias.
     - Mas é igual à anémona...
     - Eu digo que não. Quer ver? - Apanhou-a e começou a desfolhá-la. - É uma anémona... não é... é..., não é... - Faltava uma pétala.
     - Vê? - disse ele -, vê que também é uma anémona?
     - Não!
     - Como não? Pois não lhe falta uma pétala?
     Rosabianca observava-o nos olhos e Guiovanni sentiu que o mundo era como ela dizia e que tudo o mais era falso. "Dize-me que os teus olhos verdes são negros, que os teus cabelos negros são verdes, que aquelas árvores, ali, são os teus braços e que a morte é apenas uma palavra e que neste mundo é eterno e eu acreditarei." Mas Rosabianca nada disse acerca dos olhos ou dos cabelos, ou dos braços ou da morte.
     - Como? Falta uma pétala? - protestou indignada. - Não falta pétala nenhuma.
     Giovanni decidira-se a arrancar a pétala que faltava, Rosabianca escondeu-a atrás das costas.
     - Dá-ma - pediu
     - Não! - Na frente de fAzio, as duas mãos atrás das costas, as pernas afastadas, debruçada para a frent,e numa atitude de menina de doze anos, de menina malcriada, mimenta, de desafio, Rosabianca.
     - Dê-me essa flor...
     - Apanhe-a se é capaz! Ande...
     Tentou alcançar-lhe as costas, mas Rosabianca girava como um pião e Giovanni deu uma volta inteira em torno dela.
     - Não se atreve, Giovanni Fazio? - Então Giovanni aproximou-se mais.
     Os olhos nos olhos dele, a menina dos olhos verdes recuou. Outra vez Giovanni se desviou para a direita, tentando atacá-la de lado, mas Rosabianca não o perdia de vista e, lentamente, ia rodando. Olhos nos olhos (olhos verdes contra olhos azuis), deram um novo giro. Agora ocupavam outra vez a posição do princípio.
     - E se eu desse outra volta, Rosabianca?
     - Sim, daremos outra volta. Enquanto houver  voltas no mundo, daremos szempre uma volta. Esgotaremos as voltas que existem no mundo, Giovanni Fazio.
     Então, apeteceu a Fazio afagar os cabelos de Rosabianca, desalinhá-los, mas o vento já os tinha deselinhado.
     - Sim, outra volta. Giovanni Fazio, aí. Eu, no meio. Atrás de mim, a florzinha sem pétalas.
     - Com uma pétala.
     - Sem pétalas.
     - Sim, dou uma volta. Atenção. Um, dois, três... - Lentamente começam. ele dava uma volta mais longa, ela girava em torno dos calcanhares.
     - Sabe? - começou Rosabianca. - Estamos a dançar. É uma dança, uma dança, Giovanni Fazio! O senhor está a dançar comigo. - Pôs um dedo na boca, depois espetou-o na testa. - Não - disse - , não é comigo. É com a anémona, a florzinha azul sem pétalas. - Deu um salto brusco e sentou-se no chão, sem medo de sujar o vestido (onde três patinhos azuis meditavam no meio dos juncos). - Oh, que má que eu fui, não tenho perdão nenhum. Matei a florzinha sem pétalas, matei a pobre anémona tão bonita, tão gentil... - Olhou para Giovanni. Repetiu: - Oh, que má eu fui, que má eu sou! Matei a pobre florzinha! Sem piedade, sem piedade, uma a uma, lhe arranquei as pétalas. Oh, como deve ter sofrido a pobre florzinha, como deve ter sofrido! - Levantou-se, ajoelhou-se depois, debruçlou-se ligeiramente, alisou com muito cuidado o chão, limpou-o de pó, ajeitou a flor. - Ajude-me - disse, sem se voltar. - Vamos tratá-la, Giovanni Fazio. - Ergueu-se, olhou em redor, uma a uma, começou a recolher as pétalas dispersas. Giovanni imitava-a, mas sem êxiuto, e rosabianca regressou com as mãos cheias de pétalas ao pé da flor morta. (Deixa-me espalhar essas pétalas pelos teus cabelos, deixa-me beixar os teus cabelos - sonhou Giovanni.) - Vamos juntá-las. Colar-s.ão de novo?
     Rosabianca observou-lhe os olhos.
     - Para que me engana? O Giovanni Fazio é mau. Enganou-me dizendo que havia acácias, quando não há acácias nenhumas, quer-me enganar dizendo que a infeliz anémona vai renascer...
     Giovanni lembrou-se: anémona? Mas a Rosabianca disse que era uma glicínia, chagámos a discutir. é uma gficínia, menina dos olhos verdes, é uma glicínia... É uma glicínia e foi por isso que a desfolhou...
     - Deixá-lo! Agora é uma anémona: quero que seja uma anémona. - Por instantes ficou sem uma p+alvavra. - Não, não, agora não é nada, agora morreu. Morreu, nós vamos enterrá-la. Oh, um enterro bonito, um enterro de flores. As outras flores virão assistir, porque ela era a mais bela. - Deixou ciar as pétalas sobre a flor morta. Giovanni imitou-a. Então Rosabianca ergueu-se. Olhou em volta. - Oh! - exclamou. - Onde estará...?
     Mas Giovanni compreendera:
     - Sim - adivinhou -, ela tem um apaixonado. Onde estará?
     Rosabianca:
     - Tenho a certeza que será uma flor vermelha. O vermelho é uma cor bonita e eu tenho a certeza que será uma flor vermelha. E estará aí perto... - Avançam os dois à procura da flore vermelha. - Choraminga Rosabianca. - O ingrato! Enquanto ela morria, que fazia ele? Naturalmente a divertir-se com outras flores... - Encarou Giovanni, bem de frente. - A morte é uma coisa boa. - Preparava-se ele para melhor a observar, quando Rosabianca o interrompeu. - Mas eu gosto de viver! - E então começou a correr pela praia fora. - Onde estás, flor vermelha, onde estás, florzinha vermelha? A tua amada morreu, a tua amada não é mais deste mundo! - Cinquenta metros adiante de Giovanni, que a seguia, parou. - Acredita em tudo isto Giovanni Fazio? O Giovanni Fazio é uma criança. Ora eu lhe digo e pasme: não há acácias, não há anémonas, não há flores vermelhas. E o Giovanni FAzio acreditou em tudo, com uma cena no cemitério, uma flor vermelha apaixonada não se sabe onde... é uma criança, Giovanni fAzio, uma criança... Afinal, não está do lado das pessoas crescidas!
     Giovanni correu ao encontro dela e tomou-lhe a mão.
     Eu não, Rosabianca. Somos ambos. Consigo sou uma criança, consigo, apenas consigo... Não sei, mas sinto-me feliz, e penso que tudo isto é verdade.
     Estavam à beira do mar.
     - Giovanni Fazio - disse -, olhe esta coincha!
     - Linda...
     - Aquela - er apontou uma conhca vermelha.
     Giovanni:
     - Quem sabe se não será a apaixonada da anémona?
     - Talvez... Que coisa terrível deve ser amar! Eis aqui esta concha que gosta de uma flor. Estranho que esta concha possa gostar duma coisa tão diferente como é uma flor! Mas aí está... - De pé, debruçava-se sobre a concha que Giovanni lhe estendia (e enquanto assim se debruçava, Giovanni adivinhou-lhe a doçura do seio e sentiu vontade de beijá-lo). Rosabianca ignorava os desejos de Giovanni (quem poderá jurá-lo?) e dizia:
     - Aí está! Ele não sabe que a sua amada morreu. Que neste momento está morta, estendida para sempre... _Ah, Giovanni Fazio! Como foi isto possível? Esquecemo-nos de falar no enterro dela! Nada dissemos! Será possível que nada tivéssemos dito, ao menos um ámen? - Inclinou-se sobre a flor. - Perdoa! Nem eu nem o Giovanni Fazio te queríamos mal. Perdoa, também conchinha vermelha. Sim, nós não te queríamos mal. Éramos duas crianças que foram brincar à praia. Viemos à procura das acácias em flor, mas elas não existiam e em vez delas apareceste-nos tu. - Olhou para Giovanni. - Que diremos? Que diremos? Oh, Giovanni Fazio, hoje é um dia de loucura. Não há aqui ninguém, ninguém exige que digamos coisas ajuizadas. Para quê as coisas ajuizadas? - Subitamente tornou-se muito grave, corou, voltou à sua cor normal. - Ainda que pense mal de mim - disse -, vou fazer uma coisa muito séria. - Tirou o cinto quye lhe apertava a camisola de lã e despiu-a. Sem compreender, Giovanni observava-a. Tirou o resto e stava nua. - Eu sou uma sereia. - Corre em direcção ao mar, mergulha, reapoarece, grita: - Faça um gesto de admiração!
     Giovanni aproximou-se.
     - Será possível? - diz, recuando alguns passos, cheio de espanto. - Mas é uma sereia!
     - Oh, mas onde estou eu? - pergunta a sereia, abrindo muito os olhos. - E quem sois vós? Oh, como é estranho! É isto o mundo? - Observa-o longamente. - Quem sois? - Aproxima-se. Mexe-lhe nos cabelos, dá uma volta em torno dele, enquanto Giovannia a fita nos olhos, lhe evita o corpo. - É a isto que chamarão uma árvore? - pergunta.
     - Frio - responde ele.
     - Uma casa?
     - Frio.
     - Oh, tu és o Sol?
     - Não, não sou o Sol.
     - Minhas irmãs, às vezes, liam-me histórias. Falava-se aí de cavalos capazes de dar a volta ao muyndo numa noite. Sereis um? Sereis uma estrela? Que é uma estrela? Dize-me: serás tu o amor?
     - Sou um homem, sereiazinha.
     - Um Hoimem? Que nome engraçado - disse a Sereia midando-o  muito. - Que é um Homem?
     - Ah - diz o Homem -, se preferes euy sou a Lua, ou a linha do horizonte, o voo de uma ave.
     - Não - retorquiu a sereia. - Agrada-me que sejas um Homem. estranha coisa deve ser essa de ser um Homem! Que é que se sente quando se é Homem?
     - Que os teus lábios são vermelhos, que os teus olhos s~´ao verdes, que os teus ombros são macios.
     - Que engraçado é ser um Homem para sentir coisas assim! Como é que se pode saber a cor dos meus olhos e dos meus lábios? Ainda percebo que se saiba que os meus ombros são macios, mas como a cor dos meus olhos, Homem, se eles é que vêem?
     - Não há espelhos no fundo do mar?
     - que é um espelho?
     - Uma coisa onde nos vemos como somos.
     - Ah! Nós chamamos-lhe palma da mão. E adivinha-se. Mas a minha nunca me mostrou a cor dos olhos e já a dei a ler muitas vezes e nunca ninguém me disse nada. A tua diz-te? Oh, mostra, mostra! - Dirige-se a Giovanni, pega-lhe na mão esquerda. - Como é que se lê? Onde está aqui que os meus olhos são verdes, que os meus lábios são vermelhos?
     - Leva muito tempo a explicar. Deixa-me tocar com os meus dedos nos teus olhso e saberás. - Toca-lhe nas pálpebras.
     - Sim - diz ela -, verdes!
     - Nos teus lábios...
     - Sim - diz ela -, vermelhos...
     - ...Nos teus ombros...- Não, nos ombros não é prec iso, Homem. Eu sinto-os.  - com as mãos experimenta os ombros. - Sim, são macios. Mas não preciso agora das tuas mãos para nada! - Fica em silêncio. - Espera, Homem! Dize-me: que é uma Mulher?
     - Agora tu és uma Mulher, agora que deixaste o mar.
     - Mas eu volto!
     - Não podes! Morreste afogada. estiveste já muito tempo em terra e morreste. Quando uma sereia morre afogada em terra, transforma-se numa Mulher. - Apanha a riupa dela e atira-lha - Quando te vestires, serás uma Mulher. E mostrar-te-ei o mundo.
     - Vale a pena conhecer o mundo? - Mulher agora, ela sentia veronha da nudez e cobria o corpo.
     - Sim, o mundo é bom. A vida é uma coisa muito bela, uma coisa um pouco louca onde sucedem cosias estranhas, mas boa, terrivelmente boa. O mundo é um sítio onde ainda podemos encontrar sereias.
     - Sim, onde há estrelas. Não é o que tu és, não era isso, não era uma estrela?
     - Homem, Homem...
     - Ah sim. Um Homem.
  • Sob o Sol da Toscana

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    QUINTA DIMENSÃO: 9/16

    Sob o Sol da Toscana
    Audrey Wells
    Filme
    2003
    6 em 10

    Mais um filme dobrado, dado que nesta casa há crianças de 8 anos que ainda não sabem ler (dentro de todas as possibilidades, isto acontece)

    E um filme pontuado frequentemente por "estivemos aqui! Oh meu deus! Estivemos aqui! Estivemos ali!" Bastante irritante para quem nunca lá esteve nem tenciona nunca lá ir. Eu não gosto da Itália menz.

    A história e evolução das personagens é simples e previsível. Mulher divorciada compra casa na Toscânia (ou Toscana, wtv) e tenta refazer a sua vida. E consegue. Mas existe uma coisa inteligente, que é a dificuldade que ela encontra na procura da sua felicidade amorosa. Isto pontuado por alguns momentos de humor inocente fazem o filme agradável e fácil de seguir.

    O ponto forte é a colecção de imagens da Itália, com bela fotografia, apesar de alguns cenários parecerem mesmo ser fotografias e não filme.

    Teria sido um filme bem mais agradável se não estivesse acompanhada de Italianófilos, mas vê-se bem
  • Tesoro

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    Tesoro
    Natsume Ono
    Manga - 15 Capítulos/1 Volume
    1998 - 2008
    8 em 10

    A minha experiência com Natsume Ono resume-se a duas coisas distintas. O manga not simple, de que não gostei especialmente mas cuja qualidade consigo aceitar, e o anime Ristorante Paradiso, de que gostei bastante apesar da qualidade deixar um pouco a desejar em alguns detalhes. Para a review de Ristorante Paradiso pode consultar este post. Comprei Tesoro na festa da Kingpin Books porque era o único volume solitário que aparentava estar na loja, mas neste momento sinto-me orgulhosa por possuir este trabalho. É uma edição bonita, com ilustrações no final, bem organizada e bem editada. E o conteúdo, para minha grande surpresa, não podia ser melhor.

    Tesoro são histórias curtas feitas entre 1998 e 2008, alguns editados sob a forma de doujinshi anteriormente e outros nunca antes editados. Todas estas histórias, muito curtas e concisas, demonstram uma intensidade maravilhosa, atingida através de uma extrema simplicidade. São histórias sobre famílias, mas muito belas, em que a tragédia é ultrapassada pelos momentos bons da vida. São histórias para nos sentirmos bem e que nos fazem bem. Algumas são engraçadas ("come os bróculos"!), outras são um pouco mais tristes, mas no geral fizeram-me todas sentir o coração mais quente.

    A arte é estranha, muito característica desta autora. À primeira vista parecem só uns rabiscos, mas numa análise mais detalhada repara-se que os designs foram concebidos com cuidado e carinho. Não existem muitos fundos, mas os que existem são muito pouco detalhados. Apesar disso, o que achei fantástico, mostram exactamente o que a autora quer mostrar, não através da imagem directa mas através do sentimento que imprimem no leitor. Isto é, "isto parece uma cadeira" em vez de "isto é uma cadeira".

    Não sei o que terá acontecido à autora para gostar tanto de Italianos mas, mais uma vez, estão em todo o lado (até mesmo no título). Confesso que a minha passagem por Itália se resumiu a Roma e, apesar de me ter divertido muito (foi a primeira viagem que fiz sozinha com a minha mãe), não gostei especialmente: pareceu-me uma cidade confusa e suja e as pessoas mal-educadas e violentas. Mas Natsume Ono parece adorar e quase que me inspira a voltar a Itália para confirmar se a minha primeira impressão é real ou se é a dela a verdadeira.

    Muito recomendado. Por estranhas razões, mas não posso deixar de o recomendar.

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