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A Metamorfose
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A Metamorfose
Franz Kafka
1915
Novela
Confesso que sempre tinha tido um medo imenso de ler este livro. Diziam-me que o personagem se transformava numa barata e eu tenho pânico! Mas ganhei coragem e chego à conclusão que não, Samsa não se transforma num baratóide baratum, transforma-se num querido e inocente e fofinho bicho da conta. ^_^
Pois é, Gregor Samsa um dia acorda transformado num insecto (que é, definitivamente, um bicho da conta). E agora, o que fazer? A sua metamorfose acorda a sua família, que não sabe como lidar com a situação. O pobre Samsa esconde-se debaixo do sofá para deixar a sua irmã Greta tratar od seu quarto e deixar-lhe comida. Mas todos têm medo dele!
Este é um livro curioso e, talvez, o mais terra-a-terra (na medida do possível dentro do surrealismo) que li do autor. A metamorfose do personagem principal acaba por ser simbólica da metamorfose de toda a família. à medida que se vai adaptando cada vez mais ao seu corpo de múltiplas patinhas de bicho da conta, a família vai-se deteriorando, enfraquecendo e sofrendo cada vez mais. Aquando a seu triste desfecho, voltam a acordar, como saídos de um casulo.
De resto, achei muito engraçada a forma como o autor se imagina no corpo de um insecto, cada vez menos humano mas ainda ligado à realidade que o define enquanto pessoa e não como monstro realidade essa incompreendida por aqueles que se estão a tornar monstros ao invés de pessoas.
É comovente ver a alienação do insecto, mas também perfeitamente natural a sua perda de consciência. Um livro que se lê numa hora e que vale, sem qualquer dúvida, a pena ler.
By : ladyxzeus
A Grande Muralha da China
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A Grande Muralha da China
Franz Kafka
1917
Contos
Este é um livrinho que se lê muito rápido, compreendendo três contos de Franz Kafka. São contos que causam uma certa estranheza, mas a verdade é que penso que dentro da obra do autor este foi o volume mais fraco que li.
O primeiro conto, "A Grande Muralha da China", fala de como o autor interpreta a construção desta obra arquitectónica, tentando localizar-se na China antiga. Infelizmente, o autor parece ter feito tudo isto por contas de cabeça, porque existem muitos elementos que não só tiram a realidade quotidiana da história como demonstram uma ignorância profunda. Assim, a estranha historieta acaba por soar falsa e improvável. Afinal, o que fazem igrejas na China antiga?
Depois temos "A Toca". Este foi o conto que gostei mais. Acompanhamos os pensamentos de um bicho que não sabemos qual é (apenas que tem garras, dentes e uma testa para bater na terra) enquanto admira a sua toca. Mais uma vez temos aqui um tema arquitectónico. O que torna o conto interessante é o dilema do bicho quando vê que a sua toca poderá (ou não) ter sido invadida por outra criatura, o que lhe causa grande incómodo.
Finalmente, "Investigações de um Cão". Apesar de adorar cães este foi o conto que gostei menos. Isto porque o autor parece desconhecer na totalidade o que é um cão e, assim, o facto de se colocar nas suas patas é muito pouco convincente. A visão do cão das coisas caninas é absurda, de uma maneira pouco propositada. O dilema da fome tem o seu interesse, mas tudo o resto é demasiado estranho.
No entanto, a quem desejar conhecer no íntimo a obra do autor, penso que não deve perder a oportunidade de ler estes contos. :)
By : ladyxzeus
América
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América
Franz Kafka
1927
Romance
Este é um livro de Franz Kafka um pouco peculiar: parece que Kafka se esqueceu de ser Kafka, sem nunca - no entanto - conseguir deixar de o ser.
Karl Rossmann (um novo K., parece-me) é enviado pelos pais para a América por ter tido alguns problemas com uma criada. Lá começam as suas inusitadas aventuras, em que tudo corre sempre pior do que possa parecer. Apesar de ser um livro um pouco mais ligado à terra do que é habitual neste autor ainda assim a visão kafkiana da América é muito estranha e, sem dúvida, com um forte toque surrealista.
Este encontra-se no desespero patente do personagem, que parece apenas vogar a favor da corrente, quando este se encontra em situações ilógicas, com mutias portas, muitos corredores, muitos objectos inúteis, muitos guichês de informações, muitas pessoas em oposição.
Penso também que os outros personagens representados, que são mais ou menos recorrentes durante todo o livro, podem representar algo não só na vida do personagem como também do próprio autor.
Infelizmente, como quase toda a obra deste senhor, o livro encontra-se incompleto. Quem sabe o que mais viria daqui?
By : ladyxzeus
Carta ao Pai
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Carta ao Pai
Franz Kafka
1919
Carta
Esta é uma carta de algumas páginas que Kafka escreveu ao seu pai, sendo que nunca foi enviada. Nela, o autor de livros postumamente famosos como "O Castelo", "O Processo" e "A Metamorfose", revela ser uma pessoa infeliz precisamente por culpa integral de seu pai.
Segundo consta, Hermann Kafka, pai de Franz, era rígido e dedicado unicamente ao seu comércio, para que os filhos pudessem ter um excelente futuro sem sacrifícios. No entanto, o facto de os filhos não terem que passar por problemas irrita o pai, o que é ligeiramente irónico. A situação familiar entre este senhor e todos os seus filhos é terrível e Franz nutre-lhe um ódio especial por todas as suas atitudes na infância, na adolescência e mesmo na vida adulta.
No entanto, a forma como ele relata estas pequenas violências familiares é feita, ela própria, de forma muito semelhante. Por exemplo, o pai dizia "não podes fazer isto" e fazia precisamente isso. Da mesma forma que Kafka diz "não vou dizer isto" e imediatamente depois enumera todas as coisas que odeia no pai.
A carta perde o seu valor porque parece ter sido escrita por um adolescente mimado perdido na sua prória incompreensão. Não se trata de um exercício literário coerente e o seu interesse é sobretudo relativo à vida do autor. A publicação desta carta parece-me uma grande violação da identidade.
Gostaria de não a ter lido. Kafka é uma pessoa tão maldosa como sempre aparentou.
By : ladyxzeus
O Castelo
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O Castelo
Franz Kafka
1922
Romance
Este livro foi-me oferecido pelo Qui pelo meu aniversário em 2015. Depois de ter lido O Processo e as Cartas ao Pai, vinha alimentando a vontade de ler o resto da obra de Kafka. Agora surgiu esta oportunidade.
Este é um livro um pouco diferente d'O Processo na medida em que o pesadelo vivido por K., o personagem principal, consiste na busca pela autoridade, enquanto que no livro anterior ele fugia desta. O que se passa é que K. é contratado como agrimensor para ir trabalhar para um castelo mas, chegado à aldeia vizinha, percebe que não há maneira de lá chegar nem de contactar com ninguém que lá viva ou trabalhe. Assim, K. envolve-se numa série de meandros burocráticos, que não têm fim e que não fazem qualquer tipo de sentido. O livro está cheio de detalhes que tornam tudo como num sonho, um puro exercício de surrealismo, como ser de manhã e de repente ficar de noite ou os personagens estarem sempre a contradizer-se nos seus discursos.
Desta feita, K. conhece uma série de pessoas com as quais se relaciona, mas todas elas parecem ser apenas marionetas influenciadas pelo Castelo, a grande personagem principal, o grande ponto inatingível. Os seus discursos são longos e não trazem nenhuma informação últil. Aliás, confundem tanto o personagem principal como o próprio leitor, uma característica deste livro. Nunca sabemos o que um personagem nos vai dizer a seguir: num momento amam K., no outro momento desprezam-no. São estas relações que tornam esta busca pela autoridade num verdadeiro terror.
Este é mais um livro inacabado, para além de ter sido publicado após a morte do autor. Mas, segundo o posfácio, o final iria ser tão maléfico e inconclusivo como resto da história. Mas, no geral, é um livro intenso e maravilhoso, em que descobrimos sempre novas coisas por detrás de cada esquina e que nunca deixa de surpreender.
By : ladyxzeus
O Processo
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QUINTA DIMENSÃO: 5/16
O Processo
Franz Kafka
Romance
1920
Ainda sem browser, depois de longas conversações com o meu avô que envolveram bençãos, eu ser muito bonita e todos os seus filhos se darem bem (e eu me apresentar, por diversas vezes) terminei de ler o livro que iniciei no avião: O Processo, do Kafka.
Quando me falaram deste livro descreveram-no como negro, opressivo e paranóico. Eu não achei nada disso. É um livro extremamente bizarro, sem qualquer tipo de beleza. K. (que eu leio "kê") é acusado de alguma coisa e movimenta-se um processo em tribunal. As razões desconhecem-se, o crime desconhece-se e o processo desconhece-se, mas K. tem de lidar com ele de qualquer forma. Considero este livro, e sendo a segunda obra Kafkiana que leio acho que posso generalizar e dizer que Kafka é todo assim, um ensaio surrealista. O personagem movimenta-se como num sonho. Os espaços em que ele está, muitas vezes são duas coisas ao mesmo tempo. As pessoas que ele vê, têm alguns traços mas ainda assim aparecem como sombras. É sem dúvida um livro sombrio, mas é do tipo sonho. Não um pesadelo, apenas um sonho estranho. Além disso existem coisas que /não fazem sentido/. Não é um alho passar a chamar-se bugalho na página seguinte. É uma coisa muito subtil, tão subtil que não consigo arranjar nenhum exemplo. É um livro de subtilezas, detalhes e significados. Creio que todo o livro é uma parábola para outra coisa qualquer, mas essa coisa é profundamente obscura e talvez apenas o Kafka a compreenda. Ou talvez tenha sido um sonho extremamente longo.
A escrita é muito simples, inesperadamente simples. Há uma riqueza de detalhes, mas detalhes inúteis, detalhes que apenas ajudam a manter a estranheza de toda a narrativa. O que mais me surpreende é o facto de K., que segundo me descreveram passaria todo o livro absolutamente desesperado e atormentado com o seu processo, se manter mais ou menos indiferente ao que acontece até mesmo no momento da sua execução. Kafka diz "ele sofre", Kafka diz "ele preocupa-se", Kafka diz "ele sente-se mal", mas não é essa a sensação que transmite. K. aparentemente aceita a sua derrota logo desde início. Não sei se isto será bom ou mau.
Parece que gostei e não gostei ao mesmo tempo. Não gostaria de ter este sonho, mas acho que gostei de o ler. Creio que tenho de ler mais K.
Numa outra nota, eu estive - há alguns anos - na casa onde ele viveu em Praga. Era o número 7 no bairro antigo, uma casa azul microscópica. Aparentemente o pobre do Franz dormia de pé dentro da dispensa. Não admira que tenha ficado assim...
Quando me falaram deste livro descreveram-no como negro, opressivo e paranóico. Eu não achei nada disso. É um livro extremamente bizarro, sem qualquer tipo de beleza. K. (que eu leio "kê") é acusado de alguma coisa e movimenta-se um processo em tribunal. As razões desconhecem-se, o crime desconhece-se e o processo desconhece-se, mas K. tem de lidar com ele de qualquer forma. Considero este livro, e sendo a segunda obra Kafkiana que leio acho que posso generalizar e dizer que Kafka é todo assim, um ensaio surrealista. O personagem movimenta-se como num sonho. Os espaços em que ele está, muitas vezes são duas coisas ao mesmo tempo. As pessoas que ele vê, têm alguns traços mas ainda assim aparecem como sombras. É sem dúvida um livro sombrio, mas é do tipo sonho. Não um pesadelo, apenas um sonho estranho. Além disso existem coisas que /não fazem sentido/. Não é um alho passar a chamar-se bugalho na página seguinte. É uma coisa muito subtil, tão subtil que não consigo arranjar nenhum exemplo. É um livro de subtilezas, detalhes e significados. Creio que todo o livro é uma parábola para outra coisa qualquer, mas essa coisa é profundamente obscura e talvez apenas o Kafka a compreenda. Ou talvez tenha sido um sonho extremamente longo.
A escrita é muito simples, inesperadamente simples. Há uma riqueza de detalhes, mas detalhes inúteis, detalhes que apenas ajudam a manter a estranheza de toda a narrativa. O que mais me surpreende é o facto de K., que segundo me descreveram passaria todo o livro absolutamente desesperado e atormentado com o seu processo, se manter mais ou menos indiferente ao que acontece até mesmo no momento da sua execução. Kafka diz "ele sofre", Kafka diz "ele preocupa-se", Kafka diz "ele sente-se mal", mas não é essa a sensação que transmite. K. aparentemente aceita a sua derrota logo desde início. Não sei se isto será bom ou mau.
Parece que gostei e não gostei ao mesmo tempo. Não gostaria de ter este sonho, mas acho que gostei de o ler. Creio que tenho de ler mais K.
Numa outra nota, eu estive - há alguns anos - na casa onde ele viveu em Praga. Era o número 7 no bairro antigo, uma casa azul microscópica. Aparentemente o pobre do Franz dormia de pé dentro da dispensa. Não admira que tenha ficado assim...
By : ladyxzeus
